Arquivo de Serie A - Página 3 de 8 - Fair Play

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Pedro CouñagoJunho 30, 20197min0

Este verão será um bastante movimentado para os lados de Milão, com mudanças previstas tanto para AC Milan como para o Inter de Milão. Nenhuma das equipas está no auge daquilo que pode e deve fazer, com maior destaque para o AC Milan, que não fez melhor que o quinto lugar na passada temporada, que previsivelmente daria lugar à disputa da Liga Europa, participação essa que o clube pediu para não se realizar por forma a conseguir investir sem a sombra do Fair Play Financeiro a pairar. Já o Inter vai à Liga dos Campeões após conseguir o quarto lugar na última jornada do campeonato, mas assumidamente o clube pode fazer mais.

Falando em Inter, já temos conhecimento de quem será o novo técnico, de nome Antonio Conte, que já venceu 3 Scudettos com a Juventus, isto numa altura em que a Juventus se reconstruía depois do Calciocaos, sendo ainda vencedor da Premier League com o Chelsea, fora as taças conquistadas em ambos os clubes. Portanto, melhor opção, com um conhecimento da liga como poucos, era difícil.

O que será o Inter de Conte?

O Inter, desde logo, fez uma mudança profunda na ideologia que pretende ver para o seu futebol: saiu Luciano Spalletti e entrou Antonio Conte, técnico que não aceitará menos do que estar na luta por troféus e, para tal, será preciso um considerável reforço da equipa.

O Inter de Conte vai ser um que dá destaque ao jogo pelas alas, à profundidade e que apostará na segurança defensiva no centro, razão pela qual deverá chegar Diego Godín, central uruguaio que vem dar imediata qualidade e experiência ao centro da defesa do Inter e formar um trio imponente com Stefan de Vrij e Milan Škriniar. Neste ponto, o Inter, com Samir Handanovič na baliza, revelar-se-á difícil de bater.

O capitão do Uruguai sai do Atlético de Madrid passados nove anos e estará a um passo de se juntar a este novo Inter (Foto: Elcomercio)

Falta ainda conseguir um lateral de qualidade que possa fazer esquecer nomes como Danilo D’Ambrosio ou Dalbert, nomes que claramente não chegam para um Inter que se pretende afirmar. De preferência, seria preciso um lateral que faça os dois corredores, como faz D’Ambrosio, só que com mais qualidade, e Danilo estará perto de assinar pela equipa nerazurri. Esta seria mais uma contratação acertada e mais uma que viria dar um boost instantâneo à equipa.

No meio campo, há excesso de opções para poucas posições, não existindo, no entanto, um verdadeiro criativo que venha dar perfume ao jogo do Inter, devendo essa ser uma das lacunas identificadas pelo novo técnico. Para o meio campo defensivo, há Marcelo Brozović, há Matias Vecino e há Roberto Gagliardini, jogadores de boa estampa física, com boa capacidade de destruir jogo e de passe. Para maior aproximação à área, há Radja Nainggolan, jogador belga que pode ser explosivo e um autêntico trator dentro de campo, mas que não tem estado a um nível excelente. Tem sido algo intermitente e será interessante perceber se pode chegar àquilo que já lhe conhecemos de Roma.

Há ainda jogadores para um vértice mais ofensivo, como Borja Valero e João Mário, que parecem ser excedentes. Borja Valero dá experiência e toque de bola, mas é um elemento que já não está na total posse das suas faculdades físicas, já não é também alguém capaz de desequilibrar defesas contrárias com os seus passes. Já João Mário precisa claramente de mudar de ares, pois não vai ter tempo de jogo, está a perder o comboio da seleção e não tem tido a intensidade que se pretende para um campeonato cada vez mais competitivo e para uma equipa que se pretende de topo. Portanto, deverá chegar um médio que tenha as características descritas, que venha dar o tal perfume refinado ao futebol dos nerazurri. 

No ataque, será depois interessante perceber se existirá a aposta em dois avançados ou apenas um, sendo que se for apenas um, com uma formação em 3-4-3, será preciso ir contratar um extremo de renome, que proporcione mais um boost de qualidade, de números em golos e assistências e que possa oferecer alguma explosão/capacidade no um contra um. Há qualidade em elementos como Matteo Politano e Ivan Perišić, sendo o primeiro uma das boas surpresas da última temporada e o segundo um consagrado que teve uma temporada de menor fulgor em 18/19 e que poderá estar na porta de saída do Giuseppe Meazza, mas é insuficiente face a uma longa temporada. Antonio Candreva não pode ser mais do que uma alternativa nesta fase da sua carreira e Keita Baldé não resultou.

Se a formação utilizada for o 3-5-2, é preciso ter em conta que será preciso, o mais rápido possível, resolver a situação de Mauro Icardi. Não tem sido fácil a relação entre jogador, clube e, mais importante, a agente (também a mulher) do jogador. Este problema afeta não só o rendimento desportivo do atleta, como ainda a capacidade do Inter poder ir ao mercado em busca de outras opções (Icardi é o ativo mais valioso do clube) e o ambiente do balneário, visto que o argentino é uma das referências do clube nos últimos seis anos. É preciso resolver, de vez, este problema, sendo que, com Conte, até pode existir forma de reativar a paixão do avançado em jogar pelo clube.

Mauro Icardi tem estado em destaque mais por maus motivos, estando o futuro do avançado num “vai/não vai” que não é benéfico para nenhuma das partes (Foto: Sky Sports)

Se Icardi estiver mesmo de saída, Lautaro Martínez estará à espreita, ele que foi uma espécie de arma secreta esta temporada, mas será preciso a contratação de um avançado, com Romelu Lukaku a ser referenciado como o principal alvo e a ser uma excelente opção caso se concretize, na medida em que tem provas mais do que dadas num dos melhores campeonatos do mundo, é um monstro em termos físicos e complementa muito bem com outro elemento mais tecnicista. É um avançado, sem dúvida, à medida do futebol de Conte.

As lacunas existem e estão bem identificadas. Este será um verão de aposta real em chegar mais perto de Nápoles e Juventus, por forma a mostrar o real valor do Inter em Itália, uma equipa que deve sempre lutar por títulos. Depois, o Inter é uma equipa histórica que deve fazer melhor figura nas competições europeias. Nas últimas participações, entre Liga Europa e Liga dos Campeões, têm sido mais as vezes que a equipa fica pelo caminho do que as que avança para as fases mais adiantadas. Este será outro campo no qual Conte poderá dar aquele conhecimento que é tão preciso nestas principais competições, sendo que Conte tem mais alegrias ao mais alto nível do que Spalletti alguma vez teve. 

19/20 é uma temporada decisiva para a possível reafirmação do Inter como uma das principais potências italianas. Agora vejamos o que o Inter consegue fazer com alguém que os adeptos não podem afirmar como incapaz para estar na frente do leme de um clube exigente como o Internazionale Milano.

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Pedro CouñagoFevereiro 15, 20198min0

A Udinese tem sido dos clubes italianos que têm permanecido algo “debaixo dos radares”, mantendo-se na Série A há 24 anos consecutivos, mas a verdade é que o perigo de tal acabar num futuro a curto-médio prazo é real, e não é pelos sinais de alerta já não terem sido dados.

Desde 2013 que a equipa não faz melhor que o décimo terceiro lugar, e isto depois de duas épocas (2011/2012 e 2012/2013) em que a equipa fez um terceiro e um quinto lugar na Série A italiana. O clube de Udine, na primeira década do século, foi um dos mais regulares no campeonato, talvez sinónimo dos melhores anos de Antonio Di Natale, eterno capitão do clube, melhor marcador e jogador com mais jogos. No entanto, nos últimos 6 anos, a situação tem vindo a piorar de época para época.

A quantidade alucinante de trocas de treinadores nos últimos anos

Dentro do campo, os resultados não são consistentes, e talvez a principal razão seja, cada vez mais, a impaciência da direção face aos treinadores. Só nos últimos 3 anos e meio, Davide Nicola, o atual técnico da Udinese, é o 9º (!!) treinador da Udinese, sendo este um registo impensável para uma equipa que pretende recuperar o estatuto que já teve e que pretende consolidar-se como um valor seguro da Série A.

É completamente impossível a qualquer técnico conseguir conseguir potenciar totalmente os seus jogadores e os seus processos quando a média de tempo no banco de suplentes tem sido de 4/5 meses. Não há equipa que resista a trocas assim, e este é um problema bem real que se tem agravado pois os jogadores sentem falta de confiança nas suas capacidades de “segurar” qualquer que seja o treinador que esteja a comandá-los. A pressão que os técnicos têm ao comandar a equipa é muito maior e os resultados acabam por não aparecer.

Davide Nicola é mais um treinador em dificuldades numa longa lista que se vai avolumando nos últimos anos, vejamos se está seguro até ao fim de época (Fonte: La Repubblica)

Quase que se pode dizer que a Udinese acabou por virar um autêntico cemitério de treinadores, e quem sabe estes despedimentos consecutivos não levarão a um definitivo afundar do clube, visto que não existe uma identidade forte imposta por um líder na equipa.

Proprietário despreocupado, dizem os adeptos

O clube é propriedade de Giampaolo Pozzo, conhecido homem de negócios italiano, que é também o proprietário do Watford, clube da Premier League. Como tal, até têm sido bastantes os intercâmbios de jogadores entre os dois clubes, mas tal não é suficiente face ao plantel desequilibrado que a equipa vem apresentando nas últimas temporadas

Têm sido bastante recorrentes os relatos de um dono despreocupado com a situação do clube, relatos esses dados por adeptos do clube de Udine. Do lado destes adeptos, tem-se a perceção de que Pozzo está com mais atenção ao Watford e não à Udinese, muito por culpa da maior rentabilidade do clube inglês e pela maior sustentabilidade do projeto.

Já alguns diretores vieram desmentir esta visão dos adeptos, ao dizer que Pozzo tem toda uma equipa ao seu dispor para guiar os destinos da Udinese a bom porto, mas a divisão dentro das diferentes fações do clube, tanto a nível externo como interno, é bem real, e se o clube aspira a ter um futuro promissor, tem de conseguir mitigar estes problemas que acabam por afetar o clube depois nas competições em que se insere.

Plantel até tem algumas soluções, mas que têm estado aquém do exigível, tirando De Paul

O plantel não serve para mais do que lutar por um lugar a meio da tabela na Série A, algo que seria sempre o mínimo imposto à Udinese face ao seu histórico e face ao que representa em Itália, mas a verdade é que começam a faltar palavras para os fracos desempenhos da equipa e para a sua incapacidade de dar a volta ao texto, acontecendo isto talvez devido à falta de confiança, visto que a equipa perde muitos jogos pela margem mínima.

Essencialmente, nos dias de hoje, a equipa baseia-se em Rodrigo de Paul + 10, sendo este o elemento que poderá dar uma importante almofada financeira no futuro ao clube, falando-se do interesse do Inter e do Nápoles no criativo argentino. Em Udine, num local de menos exigência, encontrou o conforto de poder pegar na “batuta” da equipa, servindo Ignacio Pussetto e Kevin Lasagna, sendo que estes três jogadores representam 12 golos dos 18 (apenas 18!) marcados pela equipa em toda a Série A em 23 jogos, sendo o segundo pior ataque da prova. Só Rodrigo de Paul tem mão sua em metade dos golos da equipa, com 6 marcados e 3 assistidos. Mesmo assim, o argentino já esteve também em melhor forma, começando a ter algumas dificuldades face ao terrível momento da equipa, desde o fim de novembro que assim é, e isto a fazer quase sempre os 90 minutos.

Rodrigo de Paul é a principal figura da Udinese, mas tem estado em baixo de forma nos últimos meses, talvez seja hora de mirar outros voos (Fonte: Mundo Albiceleste)

A nível defensivo, a equipa até nem sofre uma quantidade anormal de golos (31), sendo apenas a nona pior defesa da Série A, algo que se pode justificar devido à imponência física no seu meio campo, com Mandragora e Fofana a serem jogadores que são fortes na proteção à sua defesa e que lhe conferem alguma confiança. Ainda assim, estes dois jogadores do centro do meio campo têm estado num nível aquém do exigível nos restantes momentos de jogo, sendo também por aí que a Udinese muito se ressente.

Este plantel é também uma autêntica sociedade das nações, com apenas 5 italianos em 26 jogadores, existindo uma falta de liderança evidente que jogadores como Antonio Di Natale e Giampiero Pinzi, por exemplo, traziam até há alguns anos. Pode-se afirmar que este tipo de jogadores seguravam os “arames” do plantel e, após a sua saída definitiva e a sua menor influência dentro de campo devido à idade, a Udinese ressentiu-se.

Os resultados e o percurso até maio indicam que deve haver alertas ligados em Udine

Esta foi uma equipa que até começou bem esta temporada, com 8 pontos ganhos nos primeiros 5 jogos, algo que fazia indiciar que poderíamos ter uma “temporada 0” no clube, uma espécie de reboot face àquilo que vem acontecido de forma sucessiva nos últimos anos.

Desde aí, apenas 11 pontos em 18 jogos, um registo absolutamente medonho para um clube como a Udinese. Em quase meia volta de campeonato, fazer apenas 11 pontos é simplesmente insuficiente para uma equipa com quaisquer objetivos reais.

É certo que muitas derrotas foram pela margem mínima (8 das 13 derrotas), mas mesmo assim não chega afirmar que “estivemos quase a conseguir, com outro treinador é que vai resultar”. O quase não chega e, num campeonato competitivo como o da Série A, a falta de ação e de luta por inverter os acontecimentos paga-se caro.

A equipa ainda não venceu este ano, vindo mal da paragem de inverno, este período que poderia trazer melhorias ao clube mas que parece que não foi bem aproveitado pelos jogadores e toda a restante estrutura para recarregar baterias e focar naquilo que é uma tarefa que se pensaria impensável há alguns anos.

O único ponto positivo dos últimos tempos

A única real melhoria nestes últimos anos terá sido o estádio, que é agora muito mais moderno face às necessidades do clube e que tem agora uma capacidade a rondar os 25 mil lugares. O Friuli é um estádio histórico que dura já desde 1976, tendo sido reestruturado para o Mundial de 1990 e, agora, melhorado, durante 2013 e 2015.

Este era um estádio que já estava a ser afetado pela passagem do tempo e, agora, é uma arena mais moderna, servindo agora os diferentes propósitos. Em média, a Udinese leva mais de 16 mil adeptos ao estádio, que não estarão, certamente, agradados com os desempenhos que a equipa lhes tem proporcionado, com apenas 12 pontos ganhos em 12 jogos nesta temporada em pleno Friuli.

Um Friuli cheio para receber a Squadra Azzurra. O estádio está agora no mapa dos estádios a usar pela seleção, esperemos que não sejam os únicos jogos internacionais a acontecer nos próximos anos (Fonte: GettyImages)

Vejamos se em maio não teremos uma confirmação do momento complicado que o clube atravessa. Esperemos que tal não aconteça, pois a Udinese é um clube de tradição que merece mais.


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