Arquivo de Brasil - Fair Play

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Marcial CortezJunho 20, 20208min0

Quem acompanha o podcast ¨Ginga Canarinha¨ sabe que futebol e política andam sempre lado a lado no Brasil. Pois bem, o presidente Jair Bolsonaro alterou na última quinta feira a Lei 9615/98, conhecida como ¨Lei Pelé¨, num ato que pode mudar radicalmente o futuro do futebol no país.

O assunto é complexo e tem múltiplos aspectos. Vamos tentar destrinçar todos estes pontos e entender os impactos políticos e esportivos desta medida.

Vamos começar pela explicação da legislação no Brasil. O presidente assinou uma Medida Provisória (MP). A MP, como o próprio nome diz, é provisória e tem validade a partir de sua assinatura até o prazo máximo de 60 dias, prorrogável por mais 60 dias. Para virar Lei, a MP precisa ser votada pelas Casas Legislativas (Câmara dos Deputados e Senado Federal). Caso isso não ocorra, ela perde a validade e deixa de existir. Pois bem, na própria quinta feira, alguns minutos depois da assinatura da MP, o Presidente da Câmara, Deputado Rodrigo Maia, já sinalizou que colocará o assunto em pauta. Ou seja, essa MP tem tudo para realmente se tornar Lei.

Agora vamos ao cenário. No Brasil, a Rede Globo é a maior e mais importante emissora do país e detém os direitos de transmissão de todos os jogos dos principais campeonatos. Existe uma ¨guerra não declarada¨ entre a Globo e o presidente Jair Bolsonaro. A equipa do Flamengo, atual campeã brasileira e detentora da maior torcida do país, também não morre de amores pela emissora.

Jair Bolsonaro e os presidentes do Flamengo e do Vasco. Foto: Reprodução Instagram

Na última quarta feira, um dia antes da assinatura da MP, Bolsonaro convidou o presidente do Flamengo para a posse do novo Ministro das Comunicações, o Deputado Fábio Faria. Ocorre que Fábio Faria é casado com Patrícia Abravanel, que por sua vez é filha de Sílvio Santos, empresário e dono de uma emissora de televisão – o SBT – um dos principais concorrentes da Rede Globo na briga pela audiência. Em outras palavras, o presidente nomeou como Ministro das Comunicações o genro do dono da principal concorrente da Globo.

Mas afinal, o que diz a MP 984 que pode mudar o futuro do futebol no país? São duas as principais mudanças. A primeira delas é pontual: altera o tempo mínimo de contrato dos jogadores com suas equipas. Com a pandemia e a paralisação dos campeonatos regionais, muitos jogadores tiveram seus contratos encerrados. A Lei antiga não permitia contratos com validades inferiores a 90 dias. A mudança reduz o tempo mínimo para 30 dias. Quando o futebol retornar, muitas equipas ainda terão duas ou três rodadas a cumprir, e um contrato de 90 dias seria muito prejudicial a esses times. A alteração beneficia então as pequenas equipas e praticamente não afeta as grandes.

É a segunda alteração que causa mais polêmica e tem um ¨efeito bomba¨ sobre o futebol brasileiro: ela trata dos direitos de arena (transmissão) dos jogos dos campeonatos regionais e nacionais. Antes da publicação da MP, a emissora só poderia transmitir uma partida se tivesse contratos assinados com as duas equipas da disputa. A MP determina que para um jogo ser transmitido, basta contratar a equipa mandante da partida. Com isso, cada equipa pode vender seus direitos de transmissão pra quem ela bem entender, não dependendo do contrato do adversário. Na prática, é o fim do monopólio da Globo no futebol brasileiro.

Porém, não se quebra um monopólio de mais de 20 anos da noite para o dia. A maioria das equipas tem contratos assinados com a Globo, e pela legislação brasileira estes contratos são considerados negócios jurídicos perfeitos, ou seja, tem validade até o seu final, independente da legislação ser alterada durante a vigência do contrato. Na prática, isso significa que os próximos campeonatos brasileiros terão pouca ou nenhuma alteração com relação às transmissões. Na média, os contratos das equipas da Série A do Brasileirão com a Globo vão até 2024. Isso não se aplica aos campeonatos regionais, que tem contratos específicos.

Bangu 0 x 3 Flamengo: retomada do Carioca não teve transmissão pela TV. Foto: Flickr Flamengo

Apesar disso, o imbróglio já se instala: na retomada do campeonato carioca na data de ontem, por exemplo, na partida entre Bangu e Flamengo, a Globo possuía os direitos de transmissão do Bangu, mas não assinara com o Flamengo. Assim, pela lei antes da MP, não poderia transmitir o jogo. Mas após a MP não teria problemas, tendo em vista que o Bangu foi o mandante. A Globo decidiu não transmitir, visando não abrir precedentes e obter uma proteção jurídica frente a futuros problemas.

Não demorará muito para as coisas se complicarem. Em breve, teremos as finais do campeonato carioca e tudo indica que o Flamengo vai disputá-las. Como não houve acordo entre a equipa e a Globo, o time de Jorge Jesus não terá seus jogos transmitidos. A Globo ofereceu cerca de três milhões de euros pelos direitos de transmissão. O Flamengo queria 17 milhões. Em seguida, o Flamengo baixou a pedida para 13,5 milhões. A Globo não aceitou. Todas as demais equipas do Rio de Janeiro assinaram seus direitos de arena com a Globo. Em outras palavras, uma meia final ou final entre Flamengo e Botafogo, por exemplo, não poderia ser transmitida pela lei antes da MP, mas pode ser transmitida pela lei atual. Porém, já existe um contrato assinado pelo Botafogo com a Globo, e assim a partida não poderá ser transmitida. É claro, líquido e certo que essas decisões extrapolarão o relvado e irão para os tribunais.

No Brasileirão a situação é um pouco mais calma. Como a maioria das equipas já assinaram com a Globo, não teremos problemas a curto prazo. Mas existem três equipas, Athletico, Coritiba e RB Bragantino, que não acertaram com a emissora. Sendo assim, nas partidas que envolverem as três, vale a regra nova. Nas demais, prevalece a regra antiga.

Flamengo x Globo: quem ganhará essa guerra?

Vale lembrar que toda essa alteração ocorreu sem consulta prévia a nenhuma equipa e muito menos à CBF, que é a entidade máxima do futebol brasileiro. O renomado Gustavo Binenbojm, Professor Titular da Faculdade de Direito da UERJ, comentou sobre o tema para o portal Globo Esporte:

“A Medida Provisória editada sem observância dos requisitos constitucionais de relevância e urgência, sem que tenha sido antecedida por qualquer debate público e com objetivo aparente de beneficiar específicas e determinadas entidades privadas, na verdade configura um caso de típico desvio de finalidade legislativa. E pode até caracterizar ato de improbidade contra a administração, levando à configuração de crime de responsabilidade passível de punição com a perda do mandato por impeachment”.

Com toda essa situação, a pergunta que fica é – quem ganha e quem perde com a mudança? A resposta pode parecer simples, mas não é. Equipas grandes com certeza irão se beneficiar, pois terão mais liberdade e poderão leiloar seus direitos, obtendo melhores contratos. Quanto às equipas menores, o resultado é uma incógnita. Elas poderão optar pela segurança de um contrato longevo com valor mais baixo, ou arriscarão na negociação jogo a jogo, obtendo valores superiores e se expondo ao risco. É como um investimento, vai depender do perfil dos seus dirigentes.

Por fim, a última mudança da MP – emissoras e programas de TV poderão patrocinar as camisolas das equipas. Assim, o que se viu na final da Copa João Havelange no início do século pode se repetir: a Globo transmitir um jogo entre duas equipas patrocinadas por emissoras ou programas de TV concorrentes.

O lado bom de tudo isso é que teremos mais motivos para os amigos do podcast ¨Ginga Canarinha¨ comentarem sobre a bagunça do futebol brasileiro. Como se diz por aqui, ¨o Brasil não é para amadores¨.

 

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Marcial CortezJunho 8, 20206min0

Com edições anuais desde 1973, o Estado do Amazonas realiza o “Peladão”: um campeonato de futebol surreal, no qual um concurso de beleza pode decidir o resultado. Conheça um pouco mais sobre este sensacional torneio.

O Dicionário da Língua Portuguesa define pelada como “partida de futebol praticada por amadores num campo improvisado”. Guardem essa informação. Agora imagine um campeonato gigantesco, que na última edição envolveu 700 equipas, mas já chegou a contar com mais de 1200 times. Este é o Campeonato de Peladas do Amazonas, nome oficial do popular Peladão, o maior torneio de futebol amador do país, que extrapolou todas as fronteiras do esporte-rei.

Organizar um certame com 700 ou mais equipas não é uma tarefa fácil. Então vamos explicar melhor como tudo isso funciona. O Peladão é dividido em categorias, a saber:

  • Principal, subdividido em masculino, indígena, feminino e homossexual;
  • Master, para atletas acima de 40 anos (masculino);
  • Peladinho, para garotos de 12 a 14 anos (masculino);
  • Rainhas, subdividido em mulheres e transgêneros. O Peladão costuma ditar as tendências, pois o seu torneio feminino já teve mais atletas inscritas do que a própria Copa do Brasil, torneio profissional oficial da CBF. O Concurso das Rainhas trans e a categoria Principal Homossexual também é uma inovação do Peladão a favor da diversidade.

Cada equipa do Principal Masculino, para participar do torneio, tem que apresentar uma candidata a rainha, que pelas regras precisa ser uma rapariga acima de 18 anos. E cada equipa do Principal Homossexual também deve registrar a sua rainha, que neste caso tem que ser um transgênero acima de 18 anos. Esse detalhe pode parecer estranho, mas por incrível que pareça, isso pode definir o campeonato.

Candidatas ao título de Rainha do Peladão, que leva sua equipa às eliminatórias finais Foto: Márcio Azevedo

As equipas são divididas em grupos e subgrupos com fases variáveis de classificação. Ao final, classificam-se 15 equipas para as disputas finais. Enquanto a bola rola no relvado, o Concurso de Beleza das Rainhas corre em paralelo, com fases eliminatórias semelhantes às dos concursos de Miss Universo. Selecionam-se as 16 raparigas mais bonitas, e inicia-se então um reality show, o Peladão a Bordo – programa no estilo Big Brother gravado num barco a navegar pelo Rio Negro, para definir a Campeã, que ganha o título de Rainha do Peladão.

A Rainha do Peladão leva sua equipa para a fase final da competição, independente do resultado no relvado. Ou seja, uma equipa pode ser previamente eliminada na bola, mas a Rainha pode salvá-la e levá-la para a fase final. Em várias edições do torneio, a equipa campeã chegou às finais pelo salvamento da Rainha.

Os concursos de beleza são válidos somente para as categorias Principal Masculino e Principal Homossexual, no qual concorrem os transgêneros. Em edições passadas, também ocorreram concursos na categoria Indígena, mas atualmente eles não são mais realizados.

Além disso, o Peladão conta com um Código Disciplinar próprio para definir questões jurídicas entre as equipas. Há um Livro Negro (em tempo – o colunista não concorda com este nome, mas é a forma como o Regulamento da Competição o define, infelizmente), que praticamente resolve todas as questões jurídicas envolvidas no Campeonato. E o Livro Negro não define apenas os problemas futebolísticos, mas também as regras relacionadas ao Concurso das Rainhas. Por exemplo, uma rapariga não pode encontrar o namorado ou mesmo seus familiares durante a competição. Se isso acontecer, o nome dela vai para o Livro Negro e a equipa é eliminada no futebol. A inclusão do nome no Livro Negro é uma penalidade temida por todos no Peladão, porque impede a participação do atleta  e/ou da candidata a Rainha nas edições futuras.

Definidas então as 16 equipas (15 jogando bola e uma levada pela Rainha), o Peladão entra na Fase Final, com chaveamento clássico de oitavas, quartas, meias finais e finais, até sair o Campeão, que leva como prêmio a Taça e um carro zero quilômetro. A Rainha ganha um prêmio no valor de 30 mil reais (cerca de 5.300 Euros).

Como se tudo isso não bastasse, o Peladão tem página no Facebook (https://www.facebook.com/peladaoacritica) e  cobertura completa da TV. A emissora A Crítica é quem organiza o futebol, o concurso da rainha, o reality show e tudo o que envolve o torneio. A TV A Crítica é a principal emissora de TV do Amazonas, e tornou-se nacionalmente conhecida por conta de um de seus âncoras jornalísticos, o folclórico Sikêra Junior, que graças ao grande sucesso assinou com a Rede TV! para ter seu jornal sensacionalista em abrangência nacional.

Os números impressionam e as regras são rígidas: são mais de 20 mil atletas inscritos, cerca de 3 mil partidas, 500 a 1000 equipas na disputa. O número de participantes só é conhecido no dia da abertura do Torneio. O Regulamento da Comissão Disciplinar elimina a equipa que não apresentar sua candidata à Rainha na festa de abertura da competição. Na última edição, 102 equipas foram eliminadas nesse quesito. Os jogos tem duração de 50 minutos, divididos em dois tempos de 25 minutos, e não existe impedimento!

O sucesso do certame inspirou Estados vizinhos a fazer o mesmo. Mato Grosso também tem o seu Peladão, porém não com a mesma força e fama que o pioneiro amazonense, apesar dos prêmios serem mais volumosos. O Peladão mato-grossense paga 180 mil reais para o campeão (cerca de 32 mil euros).

Manaus, capital do Amazonas, tem pouco mais de um milhão e meio de habitantes. O Peladão movimenta bastante a população e a economia do local. O Estado tem equipas profissionais de pouca expressão, como o Nacional, o Rio Negro e o Fast, que disputam (quando disputam) as séries inferiores do Campeonato Brasileiro. Assim, as equipas amadoras fazem  mais sucesso que as profissionais. A última final do Peladão contou com um público de cerca de 40 mil pessoas, maior que a soma de todos os públicos de todos os jogos das equipas profissionais na época. As finais de todas as categorias do Peladão ocorrem no mesmo dia.

Na finalíssima da época 17/18, por exemplo, a decisão foi para os pênaltis. O Cidade Nova venceu o Alvorada pelo placar de 17 a 16, numa sequência interminável de cobranças:

Agora repare bem na imagem acima e compare com o que diz o dicionário: “partida de futebol praticada por amadores num campo improvisado”. Isso é parcialmente verdade quando nos referimos ao Peladão: as finais são realizadas na Arena Amazônia, estádio padrão FIFA construído para a Copa do Mundo de 2014. O mesmo ocorre com seu homônimo no Mato Grosso, cujas finais ocorrem na Arena Pantanal, outro local que foi usado na Copa.

Como se vê, a definição do Dicionário precisa ser revista. É o Peladão a ditar as tendências novamente…

 

 

 

 

 

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Marcial CortezMaio 20, 20205min0

Antes da década de 90, as equipas brasileiras não davam a devida importância à Copa Libertadores no Brasil. Os campeonatos regionais eram os mais disputados até então. Telê Santana mudou a história. Conheça um pouco mais sobre esta verdadeira lenda do futebol brasileiro.

A Copa Libertadores surgiu pela primeira vez em 1960. Durante trinta anos, as equipas brasileiras participaram do torneio, mas não se importavam em fazer parte do mesmo. Nos anos 70 e 80, era comum uma equipa poupar seus jogadores nas partidas da Libertadores em vésperas de clássicos regionais importantes, algo inimaginável nos dias de hoje. Mas o que ocorreu para que essa mudança acontecesse? A resposta a essa pergunta tem nome e sobrenome: Telê Santana.

Telê Santana nasceu em Itabirito, Estado de Minas Gerais, em 1931. Atuou como jogador em várias equipas, tornando-se conhecido nacionalmente ao jogar com a camisa do Fluminense, seu clube de coração. Ele chegou a chorar quando marcou um golo contra o Flu no final de sua carreira, época em que jogava pelo Madureira, pequena equipa do Estado do Rio de Janeiro.

Sua carreira como treinador iniciou em 1969, no próprio Fluminense, e já em sua estreia chegou a ser campeão carioca na época. Depois disso, passou por várias equipas grandes do país, com destaque por sua passagem pelo Grêmio em 1977, quando quebrou uma hegemonia de oito anos frente ao rival Internacional no campeonato gaúcho. Em seguida, foi contratado pelo Palmeiras e até hoje é lembrado por seus adeptos pela sensacional vitória contra o Flamengo de 79, com Zico e companhia, em pleno Maracanã, por 4 a 1.

Telê Santana a comandar a seleção canarinha na Copa de 82. Foto: AFP

A sequência de sucessos o levou à Seleção Brasileira em 1980, porém suas passagens pelo escrete canarinho não obtiveram bons resultados. Embora tenha comandado aquela que talvez seja a melhor seleção do Brasil após a Era Pelé, a eliminação precoce frente à Itália de Paolo Rossi na Copa de 82 na Espanha marcou a sua carreira para sempre. Após a Copa, ele foi para o mundo árabe e por lá permaneceu até 1985, quando foi novamente convidado a assumir o comando do Brasil para disputar a Copa de 86 no México.

Com uma Seleção não tão brilhante quanto a de 82, pois alguns de seus jogadores já estavam em final de carreira, o Brasil caiu novamente frente à França, nos pênaltis. A perda de duas Copas seguidas foi demais para os adeptos brasileiros, e Telê ganhou injustamente a fama de azarado, que o acompanharia por alguns anos. Depois da Copa de 86, Telê treinou as equipas do Atlético Mineiro, Flamengo e Palmeiras, sem obter sucesso em nenhuma delas. O estigma de azarado crescia a cada insucesso do técnico.

E foi em outubro de 1990 que o São Paulo resolveu apostar no treinador, naquela que seria uma parceria mais que vitoriosa. Telê chegou desacreditado numa equipa ainda mais desacreditada, recém rebaixada no Campeonato Paulista (você pode ter mais detalhes desta história no podcast Ginga Canarinha #11), e transformou o São Paulo numa verdadeira máquina de jogar bola. Já no ano seguinte, o tricolor paulista faturou o Campeonato Paulista e o Campeonato Brasileiro, o que o levou à Libertadores de 1992.

A História da Libertadores no Brasil muda radicalmente a partir de 1992, quando o São Paulo de Telê Santana vence os argentinos do Newell´s Old Boys nos pênaltis e ganha o Campeonato, carimbando o passaporte para a disputa da Copa Intercontinental no Japão, onde venceu o Barcelona e garantiu o primeiro título mundial da equipe do Morumbi. Na sequência, ainda faturou o Campeonato Paulista vencendo o Palmeiras (que iniciara uma vitoriosa parceria com a italiana Parmalat) na final do certame. Assim, em dezembro de 1992, Telê ganhou o título de “Melhor Técnico da América do Sul”, pelo jornal uruguaio “El País”. A fama de azarado havia acabado, definitivamente.

Em 93, novo sucesso tricolor. O bicampeonato da Libertadores veio com uma vitória sobre a Universidad Católica do Chile na final, e novamente o São Paulo foi ao Japão, desta vez para enfrentar o Milan e vencer pelo placar de 3 a 2, sagrando-se bicampeão mundial. E como se isso não bastasse, o tricolor do Morumbi ainda ganharia a Recopa contra o Cruzeiro e a Supercopa Libertadores contra o Flamengo, totalizando quatro títulos internacionais oficiais no mesmo ano, marca até hoje não superada por nenhuma outra equipa brasileira. Telê Santana ganhou o apelido de Mestre, que o acompanhou até sua morte, ocorrida em 2006.

Telê e seus jogadores com a Copa Toyota Intercontinental. Foto: Divulgação São Paulo

O bicampeonato mundial do São Paulo de Telê Santana mudou o futebol brasileiro. A partir de 1994, todas as grandes equipas brasileiras passaram a olhar a Libertadores com outros olhos. A maior prova disso é o número de títulos: na fase pré-Telê: em 31 anos de competição, somente cinco Copas foram conquistadas por apenas quatro equipas brasileiras – Santos de Pelé (61 e 62), Cruzeiro (76), Flamengo (81) e Grêmio (83). Curiosamente, nenhuma equipa da capital do Estado de São Paulo.

Na era pós Telê, as equipas brasileiras conquistaram nada mais nada menos que 14 títulos (incluindo os dele), em 28 anos de competição. Chegamos até a ter, por dois anos seguidos (05 e 06), a finalíssima disputada entre duas equipas brasileiras! Conquistaram a Copa as equipas do Vasco (98), Palmeiras (99), Internacional (06 e 10), Corinthians (12) e Atlético Mineiro (13). Além destas, todas as equipas que já tinham títulos na era pré-Telê reconquistaram a Taça: Grêmio (95 e 17), Cruzeiro (97), São Paulo (05), Santos (11) e Flamengo (19).

É verdade que a Conmebol aumentou consideravelmente o número de vagas para equipas brasileiras nos últimos anos, o que matematicamente aumenta a chance dos nossos times, mas sem dúvida a sinergia do Mestre Telê com o Tricolor Paulista deixou um legado e teve papel fundamental nesta mudança de postura do futebol brasileiro na competição continental.

 


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