10 Jul, 2018

Arquivo de Seleção Nacional - Fair Play

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Silvia BrunheiraJulho 28, 201710min0

Foi no Koning Willem II Stadion às 19h45 (hora em Portugal) que se iniciou a terceira jornada para o Grupo D, decisiva na continuidade no Euro 2017 ou no fim do sonho português.

À mesma hora, Escócia e Espanha iriam bater-se no Estádio De Adelaarshort e Portugal estaria também dependente deste resultado. Sucintamente, Portugal teria que ter sempre um melhor resultado em relação à Espanha que, por ter vencido a equipa lusa, estaria sempre em vantagem por confronto directo. Se a Espanha perdesse, a Portugal bastava empatar com as britânicas; se a Espanha empatasse, Portugal teria que ganhar. A vitória da Espanha seria o passaporte de regresso para a equipa das quinas.

Todos sabíamos das enormes difiuldades que Portugal iria ter com a 5melhor equipa do Ranking Mundial (FIFA). Para além das diferenças óbvias entre as duas equipas no que respeita à experiência e qualidade das jogadoras, a Inglaterra parte para este encontro com a vantagem de já estar qualificada para os quartos de final, auferindo às inglesas apenas a responsabilidade de garantir a vitória sobre um adversário teoricamente mais frágil.

Referimos na crónica do dia 19 de Julho as questões físicas como uma das maiores adversidades para Portugal, por não ter a experiência e a preparação neste tipo de competições, para além de que algumas das portuguesas jogaram já os 180 minutos (total dos 2 jogos realizados com a Espanha e Escócia).Contudo, manter a espinha dorsal da equipa, mexendo apenas em alguns elementos, também traz alguma coesão e estabilidade no grupo. A forma de jogar de Portugal tem-se revelado mais espontânea, mais objectiva até, e mais agressiva. O conjunto traduz-se numa confiança em crescendo que faltou logo no primeiro jogo diante da Espanha.

Assim, o Treinador Francisco Neto pouco mudou na estrutura da equipa, trocando apenas a Vanessa Marques, que jogou contra a Escócia, por Melissa Antunes. Na baliza Patrícia Morais invicta e à sua frente as habituais Sílvia Rebelo e Carole Costa (centrais), Dolores Silva a defesa esquerdo e Ana Borges a defesa direito. No centro, Tatiana Pinto e para completar o triângulo no miolo do terreno, Suzane Pires e Melissa Antunes. Atrás das avançadas, na posição 10, a capitã Cláudia Neto e à sua frente a dupla Carolina Mendes e Diana Silva.

Não surpreendeu que o Treinador Inglês Mark Sampson tenha feito descansar algumas jogadoras dadas as circunstâncias, mas, na minha opinião, algo arrogante pela troca de 10(!) jogadoras, mantendo apenas a central Millie Bright. Parece-nos que, de alguma forma, menosprezou a equipa lusa com alguma altivez e desrespeito. Ou, em alternativa, tem igual confiança nas jogadoras suplentes, e por mais qualidade que possam ter, a tal coesão e estabilidade que referimos poderia ficar comprometida.

Tenho a convicção de que uma grande maioria dos espectadores deste jogo estariam à espera de uma avalanche de ataques das inglesas, instalando-se no meio campo português, terminando numa goleada, tais são as diferenças de realidades a todos os níveis entre Portugal e Inglaterra.

Contudo, Portugal iniciou o jogo de forma tranquila (entenda-se focada), organizada e com a tal confiança necessária para abordar a tarefa difícil que iriam enfrentar. Assistimos a uma Inglaterra a errar muitos passes e a perder ressaltos, fruto da pressão exercida pelas portuguesas. Vimos Portugal crescer no jogo e a aumentar a sua capacidade de posse e troca de bola e a fazer correr as adversárias.

É cada vez mais evidente que é nos pormenores que o futebol se decide, principalmente nestas competições. E eis que aos 7 minutos de jogo, num passe atrasado para Patrícia Morais, a guardiã faz um alivio rasteiro para os pés da avançada inglesa Toni Dugganque que aproveita para fazer um “chapéu” e colocar imerecidamente a Inglaterra a vencer. De realçar que, após esta infelicidade da guarda redes portuguesa, a Patrícia foi de imediato apoiada pelas suas colegas de equipa, o que, neste tipo de situações tem influência preponderante no rendimento das jogadoras no decorrer do encontro.

Fotografia: mirror.co.uk

Este espirito de apoio e entreajuda reviu-se nas acções das jogadoras portuguesas. Foi com prazer que vimos Portugal jogar coeso, a abordar os lances como se fossem o último, a reagir e a recuperar a bola de imediato, a transitar para o ataque com critério e de forma muito inteligente.

Nestas acções distingo algumas jogadoras responsáveis pelo sucesso da boa apresentação de Portugal sobre um suposto tubarão do Futebol Feminino, nomeadamente a Melissa Antunes que correu muito, recuperou bolas e fez Portugal deslizar no meio campo inglês de forma fluida e muito inteligente. Neste patamar víamos também a Cláudia Neto, a Diana Silva e a Carolina Mendes sendo bastante apoiadas pelas laterais Dolores Silva e Ana Borges, a primeira talvez um pouco mais ousada nas subidas pelo flanco esquerdo, acção que não é muito habitual na Dolores. A Tatiana Pinto e a Suzane Pires também muito bem no apoio às suas colegas, em alguns momentos com trocas de bola sempre ao primeiro toque.

Premiadas pelo entrosamento e pela coragem que demonstraram, as portuguesas foram subindo no terreno, até que numa bela jogada envolvendo várias jogadoras – Ana Borges, Melissa Antunes, Diana Silva e Carolina Mendes – a equipa lusa empata o jogo aos 17 minutos após passe a dois tempos, mas muito oportunos de Diana Silva para Carolina Mendes que só teve que encostar a bola para o fundo da baliza. Portugal acabava de concretizar o impensável, pelo menos, na cabeça do Treinador Inglês que, nesta altura estaria com certeza já algo arrependido das alterações que fez, muito provavelmente pensando que seriam favas contadas.

Até ao momento, Portugal a realizar um bom jogo e sem advertências e a Inglaterra já com 2 cartões amarelos, um aos 5 minutos para Fara Williams e outro aos 27 minutos para Isobel Christiansen, que espelha a dificuldade para travar as portuguesas por parte das jogadoras britânicas. Pouco depois, Portugal tem grande oportunidade para se adiantar no marcador, após jogada entre as endiabradas Carolina Mendes e Diana Silva. Após segurar a bola em situação de inferioridade numérica, opta por passar a bola à Diana Silva que entra pelo lado direito e após cruzamento, encontra novamente Carolina Mendes em posição letal para rematar para o fundo da baliza, mas a bola passa a centímetros da sua cabeça.

O jogo continuou mais equilibrado de parte a parte e aos 42 minutos nova surpresa no Grupo: a Escócia adiantava-se no marcador e aumentava as esperanças de Portugal para passar à fase seguinte.

Ao intervalo o balanço para as contas de Portugal era favorável: a Espanha perdia incrivelmente com a Escócia e Portugal a surpreender com um empate. Mas logo após o início da 2a parte, a Inglaterra volta a ficar em vantagem no marcador logo aos 48 minutos por Nikita Parris em jogada de insistência e com vários ressaltos que, ao chegar aos pés da ponta de lança, remata fazendo um túnel a Patrícia Morais.

Portugal terá perdido, nesta fase, alguma da organização que havia demonstrado na primeira parte. Sentimos uma Inglaterra ferida no orgulho e a querer tomar conta do jogo, aumentando a percentagem de posse de bola e recuperações para a equipa de Mark Sampson. Portugal não perdeu, contudo, a coragem e o desejo de continuar a fazer história e ia travando com a Inglaterra uma luta pela posse de bola e domínio do jogo o que fez com que aos 50 minutos Dolores Silva seja travada com falta dura e o jogo interrompido para assistência médica.

Aos 60 minutos, a única titular resistente do jogo com a Espanha, Millie Bright é substituída pela médio Jordan Nobbs. Francisco Neto, pelo lado de Portugal, responde ao técnico britânico fazendo entrar Ana Leite para o lugar de Carolina Mendes numa fase em que Portugal teria que procurar o 2-2.

Portugal procurava o empate, e a luta outrora desigual fazia mais estragos nas jogadoras portuguesas: Melissa Antunes é rasteirada e assistida pela equipa médica aos 76 minutos. Com o tempo a escassear, Francisco Neto lança mais uma substituição e aos 80 minutos entra para o lugar de Suzane Pires, Amanda Da Costa talvez para refrescar o meio campo. A ansiedade e o desejo de empatar o jogo fez a história dos últimos 10 minutos de jogo de Portugal: as jogadoras trabalharam incansáveis na procura do espaço e do momento para serem felizes. Ainda a acreditar que seria possível, entra Laura Luís para o lugar de  Diana Silva aos 87 minutos.

Nesta fase do tudo ou nada, penso que se devia manter a Diana Silva em campo pela capacidade de luta e persistência que aplica nas suas acções, mesmo fazendo entrar Laura Luís: Portugal já não tinha muito mais a fazer senão povoar a área britânica para aumentar a probabilidade de se fazer mais um golo e fazer história! Não entendi também porque é que Francisco Neto não permitiu a subida da guardiã Patrícia Morais num canto, provavelmente a derradeira possibilidade de se chegar ao golo. Para além das circunstâncias propícias a arriscar, a jogadora acredita naquele momento e a fezada pode realmente traduzir-se em golo: seriam mais jogadoras portuguesas a tentar rematar para o sonho!

Infelizmente o sonho foi adiado: Portugal perdeu 2-1 com a poderosa Inglaterra, mas caiu de pé, com dignidade e tudo fez neste jogo – penso que a primeira parte terá sido o melhor de Portugal tendo em conta o adversário que encontrou – para passar à eliminatória seguinte. Os pormenores ditaram o jogo o que só nos pode encher de orgulho: reduzir uma quase proclamada vitória da Inglaterra a pormenores, aproximou estas duas equipas no que toca à qualidade, e não me coibo de afirmar que em vários momentos Portugal foi até mais forte do que a Inglaterra.

Conforme verificamos no quadro abaixo, as diferenças estatísticas não revelam as diferenças no ranking.

E o que podemos retirar destes resultados e da exibição é que, indubitavelmente Portugal está a evoluir no Futebol Feminino e alcançar patamares nunca antes explorados.

Esta é apenas uma página da História que se vira para se escrever novos capítulos. O sonho de gerações ficou muito bem representado neste Europeu de Futebol Feminino 2017 e Portugal está de parabéns!

Força Portugal!


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