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Bruno Costa JesuínoNovembro 18, 20198min0

Se no futebol a expressão “passar do 8 ou a 80” encaixa que nem uma luva, a análise a um treinador de futebol, aos olhos dos adeptos, pode facilmente ir do “-8 ao 800”. Muitas vezes no espaço de seis meses, 30 dias, ou mesmo um jogo. Qualquer treinador tem que ter essa noção, que o digam Bruno Lage, Fernando Santos e Sérgio Conceição, que constantemente passam de bestiais a bestas, e vice-versa.

A mudança do paradigma

Era uma vez um menino que sonhava ser jogador de futebol… Era uma vez um menino que sonhava… Era uma vez um que sonhava ser treinador de futebol.

O futebol sempre ocupou o imaginário de muito jovens, que se imaginam a jogar lado a lado, em pleno relado, com os craques que os fazem vibrar. No entanto, esse paradigma, sofreu alterações, e ao longo das últimas duas décadas, esse sonho não se cinge apenas dentro das quatro linhas. Ao ‘sonho de menino’ de ser jogador profissional de futebol, juntou-se a aspiração de ser treinador. A isto muito se deve ao crescimento mediático e ao aumento da influência (e importância dada) ao treinador.

“Mas agora qualquer miúdo quer ser treinador de futebol. Qualquer ex-jogador de futebol quer ser treinador de futebol. Muitos estudantes de motricidade humana querem ser jogadores de futebol. É normal sonharem chegar ao topo, a concorrência é muita e subir a pulso na carreira é cada vez mais difícil.” – Vítor Oliveira

Casos de sucesso como o de José Mourinho, ajudaram muito a que ser treinador se tornasse tão ‘sexy’ como ser jogador. Não é por acaso, que surgiram cada vez mais jovens a apostar na carreira de treinadores ainda muito jovens, e por consequência direções dos clubes a dar oportunidades a técnicos mais jovens do que era habitual. No entanto é percurso bem difícil, principalmente nos primeiros anos.

“É preciso ter alguém ao nosso lado que compreenda esse nosso sonho. Anos a investir numa carreira que pode nunca chegar a compensar” – Paulo Fonseca

Para um treinador, os conhecimentos tácticos são a valência mais importante, mas que precisam de outras características tão transversais quanto fundamentais. Entre elas a capacidade de liderança:

“Eu peguei numa equipa que ganhou tudo. Nunca tinha treinado na primeira liga, e gerir aqueles jogadores que queriam sair e pensaram que isso não aconteceu por causa de ti, não é fácil. Com muitos foi ali bater quase de frente” – Vítor Pereira (quando se assumiu como técnico principal do Porto)

No entanto essa capacidade de liderança tem que ser adaptada ao contexto da equipa que se vai treinar. Paulo Fonseca percebeu isso após chegar muito cedo a uma equipa grande como o Porto. É importante que ao longo da carreira os erros definam uma aprendizagem, tornando o treinador mais capaz para se adaptar ao clube no qual se trabalha. Depois do Porto, Paulo Fonseca voltou ao Paços, e partir daí tem estado sempre em crescente: Braga, Shaktar e agora Roma.

 “Eu acreditava numa liderança que podia resolver tudo de uma forma aberta, mas principalmente num grupo da dimensão do FC Porto, não tens que abrir discussão a nada. Tem de ficar bem explícito quem manda.”

Em equipas grandes o ganhar é o mínimo que os adeptos exigem. Se a pressão já é muita quando se ganha, quando se perde aumenta muito mais. Por isso é que muitas vezes se entra num espiral negativo de resultados que é difícil inverter. Por isso, num equipa ganhadora, é importante evoluir e exigir quando se ganha para evitar potenciais relaxamentos.

“Quando ganhas ficas menos atento ao processo. É nas vitórias que tens que aumentar exigir mais da equipa.” (Carlos Carvalhal)

Numa altura em que o acesso a informação é cada vez mais maior, pede-se também que o treinador seja cada vez mais pró-activo. Que seja um criador de novas soluções, e preparar a equipa para ultrapassar as adversidades em qualquer um dos momentos do jogo. Tentar replicar um trabalho de sucesso de um treinador num determinado clube está longe de ser meio caminho andando para o sucesso.

 “Se eu falar com um treinador jovem, ele vai-me ouvir e pensar nos pontos que lhe falei. Mas ele deve refletir e não copiar. Só faz sentido ele implementar as suas próprias ideias.” (Vítor Pereira)

 

Bruno, Sérgio e Fernando ‘heróis’ ou ‘vilões’?

Seja um treinador mais ou menos experiente, ex-jogador de valor ou mais desconhecido, mais duro ou mais ‘gentleman’, com um estilo de futebol mais rendilhado ou mais directo, todos são alvos da impaciência dos adeptos.

Sérgio Conceição, foi um jogador de nível internacional e conhecido em por todos. Um extremo intenso, rápidos e com uma raça inconfundível. Depois de uma carreira de treinador em crescendo, chegou ao seu clube do coração: o FC Porto. Numa altura em que o clube precisava de um novo rumo, intervencionado pela UEFA e a precisar de reaproveitar jogadores emprestados, a direção do Porto apostou naquilo em que denominam de “treinador à Porto”. Mesmo após uma primeira época de sucesso, não foi preciso muito para os adeptos começaram  a criticar cada vez mais. Pedem mais qualidade de jogo, e que é um futebol demasiado directo, sempre à procura da profundidade e demasiado dependente das características físicas dos jogadores. Mas este estilo de jogo sempre a imagem das equipas de Sérgio Conceição, inclusive na época de estreia quando foi campeão e idolatrado pelos adeptos.

Muitas dessas críticas começaram a surgir, quando há um ano, o criticado Rui Vitória é despedido e surge Bruno Lage como timoneiro do Benfica. Um treinador com historial nas camadas jovens do Benfica e com experiência internacional como adjunto de Carlos Carvalhal. Entrou num momento difícil, mas após a primeira vitória embalou no campeonato e até ao fim apenas perdeu 2 pontos, foi inclusive ganhar ao estádio do Dragão, e tornou-se campeão nacional. Com um futebol ofensivo, rendilhado e com muitos golos, Bruno Lage foi promovido a herói pelos adeptos do clube como se de um treinador imbatível se tratasse.

Ambos tiveram excelentes épocas de estreias, mas a memória dos adeptos é curta, e como em certo momento (em alturas diferentes), Sérgio Conceição e Bruno Lage pareceram quase imbatíveis, basta as equipas não estarem nesse máximo já visto, para serem criticadas… mesmo com “dragões” e “águias” a terem mais pontos que na época passada por esta altura (Porto +1, Benfica +7).

“Para muitos estamos acima das expectativas, para outros estamos abaixo, mas para estes estamos abaixo porque fomos nós que elevamos a bitola” –  Miguel Valença, protagonista na reportagem original do Canal 11 “O Treinador”.

Com carreiras europeias abaixo das expectativas, no campeonato, Benfica e Porto estão nos lugares cimeiros. Bruno Lage apenas perdeu 3 pontos, numa derrota com Sérgio, que perdeu na primeira jornada com o Gil Vicente e empatou na deslocação ao terreno do Marítimo.

Só um dos dois poderá ser campeão, e o que não o for, os adeptos facilmente vão esquecer tudo o que de bom já fizeram. Nem um nem outro são tão bons como os adeptos por momentos acreditaram, mas são muito melhores do que aquilo que se vai ouvindo por aí.

“As pessoas não percebem que entre o ganhar e o perder está uma linha finíssima. Entre o sucesso e o insucesso essa linha também é muito fina e que vamos chegar ao final da época com uns a rir, outros a chorar, outros assim-assim. Mas passar de um mês começa um novo campeonato e os sonhos renascem. É esta a magia do futebol.” – Vitor Oliveira

Fernando Santos e a sua carreira na seleção foi um que já abordei no Fair Play – ler artigo aqui – devido às inúmeras críticas que vai recebendo por parte do adeptos. Alguns dirão… “Como é possível o único treinador que trouxe títulos para Portugal ser tão criticados?” Outros, por outro lado, criticam… “Foi campeão europeu com sorte!” ou “Um campeão europeu tem de jogar muito mais”. Eu prefiro lembrar-me do que Fernando Santos disse no primeiro dia: “Com os jogadores que temos se formos mais pragmáticos ganharemos títulos importantes”. E não é que… Não será dos melhores estratega entre todos os treinadores, mas parece ser um excelente líder e condutor de homens (algo ainda fundamental numa seleção). Aliás, Ricardo Quaresma não tem dúvidas disso, como se pode ver no vídeo abaixo:

O futebol é uma daquelas coisas da vida que tem a capacidade de puxar o lado mais irracional das pessoas, seja para o bem, seja para o mal. Assim deixo duas citações, a primeira para os treinadores, a segunda para todos nós.

 “Os que agora te insultam amanhã estão-te a aplaudir” (Paulo Fonseca)

“O futebol é a coisa mais importante, entre as coisas menos importante da vida.” (Vítor Oliveira)

Trailler da reportagem original Canal 11 “O Treinador”


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