18 Jan, 2018

Arquivo de La Liga - Fair Play

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Bruno DiasAbril 21, 201716min0

Em certos períodos da época, a candidatura ao título parecia séria e fundamentada. Nos dias que correm, essa ambição já vai longe, e a luta pela 3ª posição com o Atlético Madrid assume-se como o grande objectivo para o que resta da temporada. Resultados que ilustram bem como tem sido a época do Sevilla: irregular.

Com 32 jornadas decorridas na La Liga, a apenas 6 do seu término, o Sevilla ocupa a 4ª posição, com 62 pontos. Luta arduamente pelo 3º lugar com o Atlético Madrid, rival que a dada altura pareceu estar completamente descartado das primeiras três posições da tabela classificativa. Uma recuperação que certamente terá muito de mérito por parte dos comandados de Diego Simeone, mas que terá ainda mais demérito da parte dos “rojiblancos”.

Já por aqui se tinha falado do Sevilla esta temporada, e da chegada altamente esperada e antecipada de Jorge Sampaoli à Europa, num excelente artigo do Diogo Alves. Esperava-se então que o Sevilla assumisse uma postura completamente diferente em campo daquela que possuía com Unai Emery, técnico que saiu para o PSG no mercado de Verão, e as mexidas operadas no mercado de transferências, através do já famoso director desportivo do clube, Monchi (que sairá do clube no final da temporada), assim o deram a entender. Foram vários os jogadores que chegaram ao clube, e quase todos eles com um perfil condizente àquele que Sampaoli aprecia: jogadores evoluídos do ponto de vista técnico e versáteis com a bola nos pés, sendo capazes de arranjar soluções alternativas àquelas que o técnico cria para eles, através da implementação do seu modelo de jogo.

No geral, o técnico argentino, de 57 anos, teve tudo aquilo que desejou no mercado de Verão. E em Janeiro, chegaram ainda Lenglet, Walter Montoya e Jovetic, para completar um plantel que estará, certamente, entre os 5 melhores da La Liga. No entanto, a época do Sevilla tem-se pautado por alguma irregularidade, quer em termos exibicionais, quer em termos de resultados. A época começou com a derrota em ambas as Supertaças: Europeia (contra o Real Madrid) e Espanhola (frente ao Barcelona), e com um Sevilla que, embora já muito interessante em termos ofensivos, possuía falhas claras na sua organização e na forma como defendia, em geral. Tal ideia ficou bem espelhada quando, na 1ª jornada, defrontaram o Espanyol no Ramón Sánchez Pizjuán e venceram por uns excêntricos 6-4. Ofensivamente, um espectáculo imperdível. Mas defensivamente, assistiu-se a uma equipa demasiado partida e mal preparada para defender os ataques rápidos adversários.

Sampaoli percebeu que teria que corrigir alguns posicionamentos sem bola, e começou a incluir mais jogadores de índole defensiva nas suas formações iniciais. O Sevilla passou a sofrer menos golos, mas passou também a encontrar mais dificuldades em marcá-los. Eventualmente, a equipa encontrou um equilíbrio positivo e, principalmente durante os meses de Dezembro e Janeiro, os resultados e as exibições foram bastante positivas, com destaque para a vitória em casa sobre o Real Madrid, por 2-1. No entanto, as últimas semanas deram a conhecer um Sevilla totalmente diferente do que se havia visto esta temporada, para pior. A equipa voltou a apresentar deficiências defensivas, e juntou a isso uma incapacidade ofensiva muito pouco usual nas equipas de Sampaoli. Um período horrendo, que custou ao Sevilha a eliminação da Champions League, às mãos do Leicester City, e que fez com que a equipa andaluza estivesse 5 jogos sem vencer para o campeonato, registo que não só acabou de vez com o “sonho” do título, como inclusive resultou na perda do 3º lugar para o Atlético Madrid.

Jorge Sampaoli tem tido uma primeira época irregular ao comando do clube andaluz. [Foto: fourfourtwo.com]

Como se joga em Sevilha?

Este Sevilla é uma equipa distinta daquilo que estamos habituados a ver nos trabalhos de Sampaoli. Não é, de todo, uma equipa tão ofensiva e vertiginosa como era o seu Chile, por exemplo. No início da temporada, até teriam algumas semelhanças nos momentos com bola, mas com o passar da temporada, Sampaoli procurou introduzir no seu Sevilla um maior equilíbrio do ponto de vista defensivo, abdicando para isso de algumas das suas ideias no plano ofensivo, e talvez seja essa uma das explicações para a irregularidade da equipa andaluza. Vão alternando entre dois/três sistemas, conforme utilizam defesa a 4 ou a 3. No primeiro caso, o 4x4x2, e nos restantes, o 3x4x3 ou o 3x5x2.

Quando em organização defensiva, o Sevilla utiliza uma linha defensiva de 4 ou 5 jogadores, dependendo do sistema em que está a jogar. Os laterais saem regularmente na pressão quando a bola se encontra nos seus corredores. O “6” fica mais fixo e posicional no corredor central, com o “8” a deambular mais na pressão ao portador da bola. Avançados e alas sempre pressionantes, procurando reduzir espaço e tempo sempre que a bola entra nos corredores laterais, mesmo em zonas mais afastadas da baliza. Já nos momentos seguintes à perda da bola, o Sevilla começou por ser uma equipa extremamente intensa (à imagem do que Sampaoli prometia), com posicionamentos muito subidos e com facilidade em instalar-se no meio-campo adversário, recuperando quase sempre a bola nesse espaço ou forçando uma bola longa, com poucas probabilidades de sucesso. No entanto, com o avançar da época, as linhas foram baixando, e a tentativa de recuperação da bola começou a ser feita em terrenos menos avançados. Mantém-se, no entanto, como um dos bons aspectos desta equipa.

O Sevilla actual é uma equipa partida nos momentos de construção, e essa será talvez a principal falha desta formação. Os médios (normalmente N’Zonzi e Nasri) baixam em demasia para iniciar a construção, aparentemente por falta de qualidade e confiança dos centrais para assumirem essa função. Quando com 3 centrais, esta limitação torna-se ainda mais evidente. Só Pareja parece capaz de arriscar mais na saída de bola. Isto faz com que as linhas de passe no corredor central sejam diminutas, pois o Sevilla coloca, nas fases iniciais de construção, demasiados jogadores atrás da linha da bola, e como consequência, as opções de passe em terrenos mais adiantados são menores e mais fáceis de controlar pelo adversário.

Laterais sempre com largura máxima e a projectarem-se em simultâneo. Algo que se altera na direita quando joga Mercado em vez de Mariano. Avançados a alternarem movimentos de aproximação com movimentos de procura da profundidade. Jovetic aparece bem entre linhas, e Ben Yedder apresenta muita qualidade a jogar na linha do último defesa, sempre à procura da possibilidade de ganhar a profundidade. É através dele que, por vezes, o Sevilla procura jogar de forma mais directa, quando percebe que a linha defensiva adversária se encontra demasiado subida/mal organizada. Entre os alas, Pablo Sarabia é mais imprevisível e dinâmico no posicionamento, e Vitolo fixa-se mais no corredor lateral, procurando desequilibrar através das suas incursões em acções de 1×1 e 1×2.

A equipa de Sampaoli demonstra uma intenção clara de criar superioridade nos corredores laterais, criando condições para conseguir chegar rapidamente ao último terço, empurrando consequentemente as linhas adversárias para a sua própria área. A partir daí, procura soluções para entrar na área adversária e finalizar, seja através de tabelas que permitam ganhar a linha de fundo e cruzar, normalmente de forma rasteira, para o coração da área e através do lateral do respectivo lado, seja através da circulação de bola por fora do bloco adversário (circulação em “U”), até que a oportunidade para arriscar no último passe apareça. Ocasionalmente, jogam mais directo à procura de explorar a profundidade, normalmente quando joga Ben Yedder.

Individualmente, o plantel do Sevilla possui bastante qualidade e profundidade na maioria dos sectores. Na baliza, Sergio Rico é o titular indiscutível. Guardião jovem e de grande qualidade, tem evoluído bastante esta época e inclusive “forçou” Salvatore Sirigu, guarda-redes italiano emprestado no início da temporada pelo PSG, a abandonar o clube apenas 6 meses depois de ter chegado, sendo actualmente o titular do Osasuna. O suplente actual é David Soria, guarda-redes que apenas fez 2 jogos, ambos para a Copa do Rei.

Na defesa, entre os centrais, Adil Rami é quem soma mais minutos. O francês, de 31 anos, tem sido peça fundamental no eixo, principalmente pela qualidade que oferece à equipa nas bolas paradas e no jogo aéreo. Há também Gabriel Mercado, argentino que chegou esta época proveniente do River Plate, jogador de quem Jorge Sampaoli raramente abdica e que tem dividido os seus minutos entre a zona central e a lateral direita. Melhor no papel de central que no de lateral, destaca-se pela sua agressividade sobre a bola e a sua capacidade de desarme. Também Nico Pareja tem sido muito utilizado. Tendo em conta o seu histórico de problemas físicos, a sua época tem sido positiva, e o argentino é talvez o melhor central da equipa andaluza, no cômputo geral. Para além destes, há também o português Daniel Carriço (muito atormentado com lesões) e o francês Clément Lenglet, chegado em Janeiro para ocupar a vaga do também francês Timothée Kolodziejczak, que saiu para o Borussia Mönchengladbach, equipa que milita na Bundesliga. Lenglet, ex-Nancy, demonstrou já excelentes pormenores no tempo em que jogou, e tendo apenas 21 anos, augura-se um futuro promissor para este jovem jogador.

Nas laterais, Mariano e Sergio Escudero, à direita e à esquerda, respectivamente, têm sido os titulares da equipa de Sampaoli. O brasileiro é um jogador de clara propensão ofensiva, com uma capacidade física e atlética invejáveis, que lhe permitem fazer sempre os 90 minutos em alta rotação, ao longo de todo o corredor. Assumiu-se, este ano, como um dos melhores laterais da La Liga. Já o segundo chegou na época passada ao clube, vindo do Getafe, e tem-se revelado como uma das boas surpresas na temporada que corre. Ágil e com boa qualidade técnica, envolve-se muito bem no ataque. Para a lateral esquerda há também Trémoulinas, mas o francês, ainda a contas com uma grave lesão, nem sequer jogou esta época.

No meio-campo, dois nomes principais emergem, ambos franceses. De Steven N’Zonzi irei falar mais à frente. Para além dele, Samir Nasri assume-se aqui como um dos jogadores essenciais da equipa. “Reinventado” como médio-centro, num papel mais de organizador e menos de desequilibrador, Nasri é o homem que pauta todo o jogo sevillista. Aos 29 anos, encontrou em Sevilha um contexto que lhe permitiu relançar a sua carreira. Para este sector, há ainda o argentino Matías Kranevitter, emprestado pelo Atlético Madrid, médio defensivo que poucas oportunidades tem tido devido ao rendimento de N’Zonzi, e que também não tem impressionado nos jogos que já realizou; o brasileiro Paulo Henrique “Ganso”, resgatado por Sampaoli ao São Paulo na tentativa de fazer dele o seu “camisa 10”, mas que também pouco tem jogado; e o espanhol Vicente Iborra, capitão de equipa e jogador que tem sido extremamente útil nesta campanha, sendo utilizado em várias posições do terreno e tendo já realizado exibições de grande categoria, como é exemplo os 45 minutos finais que fez em Balaídos, contra o Celta de Vigo, entrando ao intervalo e marcando os 3 golos da vitória dos “rojiblancos”.

Samir Nasri relançou a sua carreira em Sevilha. [Foto: dailymail.co.uk]
 

Nas alas, Vitolo e Pablo Sarabia assumem-se como os jogadores mais utilizados. O primeiro, internacional A espanhol, é um jogador relativamente completo. Já utilizado por Sampaoli em várias posições, da lateral esquerda à frente de ataque, caracteriza-se por ser tecnicamente muito forte, e possui uma capacidade de drible invejável. Já Sarabia tem feito por conquistar um papel de grande relevo na equipa. Com 10 golos e 13 assistências em 41 jogos, é um dos jogadores mais produtivos do Sevilla nesta temporada. Jogador de finta curta, muito ágil e com mudanças de direcção explosivas, tem também uma meia distância muito interessante, que inclusive já valeu pontos no campeonato. Para este sector, há também o argentino Walter Montoya, que chegou em Janeiro proveniente do Rosario Central, mas que praticamente ainda não teve oportunidades para jogar, e o dinamarquês Krohn-Dehli que, tal como Trémoulinas na lateral esquerda, se encontra lesionado desde o início da época, e que ainda não jogou. Até Janeiro, existia ainda o japonês Kiyotake, que chegou no início da temporada vindo do Hannover, mas que nunca foi uma aposta sólida de Sampaoli, e que saiu no mercado de Inverno, regressando ao seu país de origem.

Finalmente, no ataque, muita rotação. Franco Vázquez é o avançado mais utilizado por Sampaoli. No entanto, o argentino não encaixa bem nesse perfil, sendo antes uma espécie de “trequartista”, que normalmente joga atrás do avançado/avançados, no corredor central. Jogador alto (1,86m) e com uma morfologia que, aliada à sua enorme qualidade técnica, faz com que tirar-lhe a bola seja uma tarefa hercúlea. Perdeu algum espaço na equipa a partir da chegada de Stevan Jovetic, em Janeiro. O montenegrino encaixa na perfeição no perfil de avançado que Sampaoli procura. Forte na finalização, com qualidade técnica para dar e vender e com grande capacidade para explorar da melhor forma o espaço entre-linhas, Jovetic chegou e imediatamente começou a “marcar território”, tendo já apontado 4 golos e 3 assistências em 15 jogos realizados para o campeonato. No entanto, o melhor marcador do Sevilla é mesmo o francês Wissam Ben Yedder. Com 17 golos em 36 jogos, este avançado ex-Toulouse destaca-se por ser normalmente a referência mais adiantada da equipa. Joga constantemente na linha do último defesa, move-se muito bem na área e possui também capacidade para criar a sua própria situação de finalização. Para além dele, sobram ainda Luciano Vietto, argentino emprestado pelo Atlético Madrid, que tem tido uma utilização inconstante (muito mais utilizado na primeira metade da época, sendo que o seu último golo foi ainda em 2016), e Joaquín Correa. Contratado à Sampdoria por cerca de 15M€ no início da época, Correa também actua ocasionalmente pelas alas. Avançado de grande estatura (1,89m), destaca-se no entanto pela sua velocidade e capacidade finalizadora. É capaz de rematar com qualquer pé, seja na área ou explorando a meia distância. Tal como a maioria dos seus colegas, é também um jogador tecnicamente acima da média. Sampaoli pediu a sua contratação, e parece ter muita confiança neste jovem talento. E não é pelo ataque, certamente, que a equipa sevillista peca em termos de qualidade.

Ben Yedder é, actualmente, o melhor marcador do Sevilla [Foto: espnfc.com]

DESTAQUE: Steven N’Zonzi

Após 6 épocas no futebol inglês, primeiro ao serviço do Blackburn Rovers e depois no Stoke City, em 2015, o Sevilla investiu cerca de 8M€ na contratação de Steven N’Zonzi, médio defensivo francês de 28 anos. A sua primeira época pelo clube foi bem sucedida, tendo realizado 46 jogos em todas as competições, e sendo claramente um dos jogadores da confiança de Unai Emery.

Com a mudança de treinador, e a chegada de Jorge Sampaoli, poderia pensar-se que N’Zonzi se arriscaria a perder espaço na equipa. No entanto, Sampaoli apostou totalmente no jogador, e definiu desde o primeiro dia que ele seria o “seu” médio defensivo. N’Zonzi correspondeu, e de que maneira.

Apesar da sua estatura (1,96m), N’Zonzi destaca-se pela forma como joga sempre de cabeça levantada, à procura de opções de passe. É um médio defensivo acima da média em termos técnicos, que com Sampaoli evoluiu substancialmente na compreensão do jogo e na forma como coloca a sua qualidade com bola ao serviço da equipa da melhor forma. É bastante capaz no transporte de bola, e não é incomum vê-lo queimar linhas com bola através desse recurso. Dono de uma estampa física impressionante, confere também grande segurança e solidez ao corredor central quando a equipa não tem a bola. É um excelente recuperador de bolas, que fruto da sua forma de ver e pensar o jogo, procura sempre recuperar a bola jogável em vez de apenas destruir as jogadas adversárias. Para além disso, é também um jogador relevante nas bolas paradas defensivas e ofensivas.

Tem sido a “surpresa” da época, não só no Sevilla como na própria La Liga, e as suas prestações de enorme qualidade, tanto no campeonato como na Champions League, atraíram já a atenção dos principais “colossos” europeus. Mantê-lo em Sevilha será, sem dúvida, uma tarefa complicada para a próxima temporada, e N’Zonzi tem feito por justificar voos mais altos.

A La Liga aproxima-se rapidamente do seu final, e já se percebeu que a emoção e a imprevisibilidade estarão presentes até ao último minuto de competição. Com 6 jornadas por disputar e vários duelos que se apresentam como autênticas “finais”, acompanhar este campeonato é algo de carácter obrigatório para qualquer fã do desporto-rei.

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Bruno DiasMarço 3, 201710min0

Finalizadas que estão 25 jornadas da La Liga, o Celta de Vigo encontra-se na 10ª posição, com 35 pontos. Lutam por uma classificação que lhes permita chegar às competições europeias, objectivo que atingiram na temporada passada. No leme, Eduardo Berizzo, um dos excelentes treinadores deste campeonato.

O técnico argentino, de 47 anos, está na sua terceira temporada em Vigo, e o seu Celta tem vindo a apresentar um desenvolvimento claro e crescente. Na primeira época, terminaram no 8º lugar do campeonato, e não foram além dos oitavos-de-final da Taça do Rei. Na temporada seguinte, um 6º lugar (que valeu a qualificação para a Liga Europa, competição onde já estão nos oitavos-de-final, tendo eliminado recentemente o Shakhtar Donetsk de Paulo Fonseca) e as meias-finais da Taça. Feito que, de resto, alcançaram novamente esta temporada, tendo sido apenas eliminados por um surpreendente Alavés. No campeonato, a repetição da prestação da época passada continua a ser um objectivo perfeitamente realista, e um que consolidaria mais uma boa época do Celta.

Eduardo Berizzo é mais um dos muitos treinadores que seguem uma filosofia futebolística baseada na posse da bola como instrumento para comandar a partida, numa reacção agressiva à perda da bola e num futebol ofensivo que providencie muitas oportunidades de golo e um bom espectáculo para quem assiste ao jogo. Tal como nomes como Pep Guardiola ou Jorge Sampaoli, também ele possui claras influências de Marcelo Bielsa, o “pai” desta corrente futebolística no futebol moderno.

É, pois, com naturalidade que se constata que o seu Celta se enquadra perfeitamente nessa filosofia de jogo. Uma equipa que raramente se atemoriza pelo nome do seu adversário ou pelo estádio em que joga (embora seja necessário fazer-se uma adenda a este ponto, para referir a excelente prestação da equipa em sua casa, o estádio de Balaídos, com 8 vitórias em 12 jogos) e que procura impor o seu futebol sempre que entra em campo. Que sendo relativamente segura no plano defensivo, se sente bastante confortável quando o jogo se parte e o plano ofensivo se apodera da partida.

[Foto: skysports.com]

 O futebol do Celta

Sendo Berizzo um “discípulo” de Bielsa, a flexibilidade táctica é algo que faz obviamente parte da matriz futebolística do Celta. A equipa adapta-se com facilidade a diferentes estruturas tácticas (Berizzo muda frequentemente a estrutura-base da equipa, seja de início ou durante a partida) e é capaz de demonstrar um fio condutor de jogo nos mais diversos contextos e circunstâncias.

O Celta alinha normalmente num 4x2x3x1, que possui duas formas distintas: uma com um “10” (principalmente, Daniel Wass), e outra com um avançado móvel (normalmente Iago Aspas). Por vezes, também utilizam um 4x3x3 mais clássico, com Nemanja Radoja a “6” (ou Marcelo Díaz). Procuram jogar um futebol apoiado, sempre que possível pelo corredor central, mas utilizando também os corredores laterais para chegar ao último terço adversário. Entre os centrais, sai mais Sergi Gómez que Gustavo Cabral na condução e/ou no passe (sendo que, estando em boas condições físicas, é provável que Andreu Fontàs assuma a titularidade, dada a sua superior qualidade). Bom envolvimento ofensivo dos laterais, especialmente pela direita, com Hugo Mallo. Os alas variam entre a largura e a procura do espaço interior (Pione Sisto é muito forte na procura do espaço interior com bola, através do drible). Quando em 4x2x3x1 com Aspas, este joga sempre entre a linha defensiva e a linha média adversária. Já Wass baixa mais para participar na construção em fases iniciais/intermédias. Radoja, algo limitado com bola, recupera e entra simples. Díaz entra em jogo nas fases iniciais de construção e procura associar a equipa, criando superioridade numérica no corredor lateral, procurando linha de passe vertical (procura normalmente Aspas ou o ala que aparece por dentro) ou lançando longo, procurando a profundidade com Guidetti, que está sempre em movimento e trabalha imenso sem bola. O sueco é muito forte a atacar as costas da defesa.

Na baliza, a rotação entre os dois guardiões do plantel tem sido a nota dominante. Sergio Álvarez – mais experiente – tem jogado ligeiramente mais, mas Rúben Blanco – mais jovem – é também uma boa opção, e possui ainda uma margem de progressão bastante interessante.

Na defesa, destaque para o capitão de equipa Hugo Mallo. Com apenas 25 anos, mas já com mais de 250 jogos pelo Celta – o único clube da sua carreira –, é um dos símbolos do clube. Lateral de clara propensão ofensiva, oferece consistência e profundidade ao flanco direito. Do outro lado, joga normalmente Jonny Castro, jovem defesa da formação que também joga como central, e que ganhou o lugar a Carles Planas, jogador teoricamente mais experiente e talentoso, mas que tem tido algumas complicações com lesões na sua carreira. Já no eixo defensivo, os centrais mais utilizados são Gustavo Cabral (algo lento e duro de rins, mas forte pelo ar e razoável em termos técnicos) e Sergi Gómez (central consistente e com qualidade na saída de bola). Depois, Facundo Roncaglia funciona como um defesa mais polivalente, que joga em qualquer posição do quarteto defensivo. Finalmente, sobra Andreu Fontàs, excelente central, seguro defensivamente e com muita qualidade na saída de bola, mas que leva menos jogos que os colegas de posição, resultado de uma grave lesão contraída na época passada, e que só debelou totalmente já com esta época a decorrer.

No meio-campo, existem várias opções à disposição de Berizzo. Nemanja Radoja é o médio mais defensivo, vulgo “trinco”. Possui algumas limitações ofensivas, que são normalmente compensadas por Marcelo Díaz no duplo-pivot. O chileno, pleno conhecedor desta ideia de jogo (por já ter trabalhado durante vários anos com Jorge Sampaoli), funciona aqui como médio de maior ligação e construção. Jogador incrivelmente inteligente, fortíssimo na decisão, com boa visão de jogo e muita qualidade no passe. No duplo-pivot, são ainda opções Jozabed, médio clarividente e evoluído tecnicamente emprestado pelo Fulham em Janeiro; Pablo Hernández, médio chileno que acrescenta maior dimensão física ao jogo; e o próprio Daniel Wass, um antigo lateral direito que passou pelo Benfica, e que agora joga como médio mais criativo (ou, ocasionalmente, numa das alas). Este dinamarquês caracteriza-se por ser um jogador forte no drible, criativo q.b. e com uma meia distância acima da média.

Nas alas, há claramente um nome mais sonante que os outros. Pione Sisto chegou esta época ao clube, e já provou ter sido uma excelente contratação, pois tem sido um dos destaques da época do Celta. Este jovem extremo, sobejamente conhecido pelos fãs da saga Football Manager, tem demonstrado que o seu valor real não fica a dever nada ao seu valor virtual. Um desequilibrador puro, com uma velocidade de execução tremenda, um vasto leque de recursos e uma objectividade incomum em jogadores do seu perfil. O seu potencial é massivo. Para além dele, há também Theo Bongonda, extremo rápido e vertical, que gosta de apostar no 1×1 e que acelera constantemente o jogo, e o espanhol Josep Señé. Até Janeiro, Berizzo contava também com o chileno Fabián Orellana, jogador de grande valia e que era uma peça bastante importante da equipa. No entanto, Orellana saiu emprestado para o Valencia em Janeiro, devido a um desentendimento com o treinador.

Por fim, no ataque, três figuras de proa. De Iago Aspas falarei mais à frente, pelo que nos restam Giuseppe Rossi e John Guidetti. O primeiro é um jogador de enorme qualidade, emprestado pela Fiorentina, e que poderia ter chegado muito mais longe se não fosse o calvário das lesões, que tantas vezes foram um obstáculo na sua carreira. No Celta, procura voltar às grandes épocas. No entanto, a titularidade tem sido complicada de conquistar, pela sua condição física e principalmente por causa da importância de Aspas para a equipa. Já o sueco é o ponta-de-lança titular da equipa de Vigo. Apesar de ter apenas 7 golos nesta temporada (números aquém dos esperados), é um jogador que serve de referência para o resto da equipa e segura bem a bola na frente. Tem qualidade técnica, facilidade de remate e destaca-se também pela sua combatividade e personalidade carismática dentro do rectângulo de jogo, aspectos que certamente terão sido preponderantes para que Guidetti se tenha tornado, num curto espaço de tempo, um dos jogadores favoritos dos adeptos.

Pione Sisto, uma das boas contratações do Celta esta temporada [Foto: marca.com]

Destaque: Iago Aspas

O craque da equipa. 29 anos, 1,76m e um único jogo pela selecção espanhola (em Novembro de 2016), onde também marcou um golo. Teve uma passagem falhada pela Premier League, no Liverpool, e após uma breve passagem pelo Sevilha (por empréstimo do clube inglês) regressou ao “seu” Celta, clube onde fez a formação e onde se notabilizou no início da carreira. Leva cerca de 250 jogos e 89 golos pelo clube, e está a fazer provavelmente a melhor época da sua carreira, com 17 golos e 7 assistências em 31 jogos.

Avançado móvel, joga melhor como segundo avançado, entre linhas e atrás de um jogador mais fixo. Possui um pé esquerdo repleto de virtuosismo e magia. Muda com facilidade o ritmo do jogo, devido ao seu grande poder de aceleração, combinado com a sua agilidade acima da média. Evoluído tecnicamente, tem facilidade no remate e “faro de golo”. É fortíssimo em espaços curtos e no drible, possui uma excelente visão periférica e tem criatividade a rodos, que lhe permite criar oportunidades quase “do nada” e fazer golos que, por si só, valem o preço do bilhete. É um jogador com a cultura típica do futebolista espanhol, inteligente e que sabe explorar muito bem os espaços que encontra nas organizações defensivas adversárias. Pela combinação de características e qualidades que possui, é um jogador dificílimo de travar nos seus melhores dias.

Estamos às portas de Março, e a La Liga está ao rubro, com uma competitividade impressionante, com imprevisibilidade quase total na luta pelo título e pelas competições europeias e já com vários jogos de altíssimo nível, seja no plano táctico, seja no plano emocional. É em Espanha que moram os melhores do mundo, pelo que acompanhar a La Liga será sempre requisito obrigatório para qualquer fã de futebol.

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Bruno DiasFevereiro 2, 201711min0

Na pequena cidade de Villarreal, na província de Castellón, mora uma das melhores equipas da La Liga. O Villarreal CF alia um futebol de qualidade aos bons resultados, e passar no “El Madrigal”, o seu mítico estádio, é sempre uma tarefa hercúlea para qualquer equipa. As épocas vão passando, e a presença do “Submarino Amarillo” nos lugares cimeiros da classificação começa a ser uma constante.

Com 20 jornadas decorridas, o Villarreal encontra-se actualmente no 6º lugar, com 34 pontos. Está a apenas dois pontos do Atlético Madrid, que se encontra no 4º lugar, posição que dá acesso à pré-eliminatória da UEFA Champions League. Eliminatória onde, de resto, já estiveram presentes esta época, tendo sido eliminados pelo AS Monaco. Estão também ainda em prova na Liga Europa, onde irão defrontar a AS Roma, nos 16 avos-de-final.

No campeonato, o Villarreal ostenta neste momento a distinção de melhor defesa da liga, com apenas 14 golos sofridos em 20 jornadas. Estes números são fruto, principalmente, de uma excelente capacidade para reagir à perda da bola e pressionar o adversário ainda no seu meio-campo, evitando conceder muitas e boas oportunidades de golo, e ganham ainda mais relevo quando se percebe que a equipa tem vindo a ser assolada por uma terrível vaga de lesões, que no caso específico do sector defensivo, já retirou Mateo Musacchio – o “patrão” da defesa – dos relvados por vários jogos, quebrando assim o ritmo do que vinha a ser um excelente início de época por parte do defesa argentino.

Muito do trabalho visível nesta equipa é ainda mérito de Marcelino Toral, treinador que esteve no Villarreal durante três temporadas e meia e que dotou a equipa de uma organização e dinâmica com e sem bola muito interessantes (quase exemplares, em certos jogos). No entanto, há que reconhecer também o mérito de Fran Escribá, técnico de 51 anos que lhe sucedeu. Pressionado pelo momento da época em que pegou na equipa (com o campeonato praticamente a iniciar-se), e sem muito tempo para impor o seu cunho pessoal no futebol do Villarreal, ou até para construir um plantel que fosse mais do seu agrado, Escribá foi inteligente e procurou manter a estrutura já existente, alterando um ou outro pormenor, sempre de forma progressiva. Embora com um ou outro obstáculo mais complicado de superar pelo caminho, os resultados têm aparecido e a estabilidade tem sido mantida, e isso abre espaço a que, no futuro, Escribá possa talvez montar um Villarreal mais à sua imagem.

Fran Escribá assumiu o comando da equipa no início da época, substituindo Marcelino Toral [Foto: skysports.com]
 

Como joga o Villarreal?

O Villarreal organiza-se habitualmente num 4x4x2 dito “clássico”, mas que tem pouco desse estilo mais antiquado, do futebol dos idos anos de 80 e 90, assente num jogo essencialmente vertical e directo. A equipa de Fran Escribá caracteriza-se pela sua flexibilidade táctica e grande dinâmica, apresentando um futebol muito rotinado, com uma fluidez bastante interessante e com uma organização bem trabalhada e passível de ser identificada na maioria dos momentos do jogo.

Privilegiam uma saída de bola apoiada e a partir da defesa (muitas vezes é o próprio guarda-redes Asenjo que coloca a bola no chão e joga curto para um dos centrais), embora não descurem possíveis lançamentos mais directos, sobretudo quando joga Bakambu na frente, que se destaca pelos seus movimentos de procura da profundidade. Os laterais estão constantemente projectados, e servem como apoio para a circulação de bola no meio-campo adversário, de forma a haver uma presença efectiva de jogadores em todos os corredores.

Nas fases de construção, o principal ponto de referência é o capitão Bruno Soriano (de quem falaremos um pouco mais à frente neste artigo). Os alas procuram explorar os espaços entre linhas, não ficando presos ao corredor lateral, e os avançados procuram constantemente realizar movimentos opostos, de forma a criar várias opções de continuação do ataque e assim, confundir as marcações adversárias. Isto é, quando um dos avançados procura aproximar-se do portador da bola, o outro avançado realiza um movimento de procura da profundidade, tentando aproveitar uma possível desorganização momentânea da defesa adversária, criada por esta dinâmica. Dinâmica essa que, de resto, já resultou em alguns golos nesta temporada. A mobilidade dos avançados é um aspecto fulcral de todo o processo ofensivo do Villarreal.

Passando aos jogadores, na baliza, joga Sergio Asenjo, guardião já internacional A pela selecção espanhola, e que se destaca pela sua agilidade e eficácia no 1×1, para além de ser também bastante evoluído na distribuição com os pés. Ocasionalmente, comete também alguns erros insólitos, indicadores do arrojo que demonstra em campo. Mas no cômputo geral, é um guarda-redes sólido e que apresenta poucos pontos fracos.

Já no que toca ao quarteto defensivo, há uma figura que se destaca: Mario Gaspar. O lateral direito, também internacional A espanhol, é já uma referência da história do clube. Leva mais de 250 jogos pelo Villarreal, único clube que conheceu, de resto, em toda a sua carreira, e destaca-se pela incrível regularidade e consistência exibicional que apresenta. Não sendo um lateral de topo, não é nunca por ali que a equipa espanhola peca em termos qualitativos. Do outro lado, joga Jaume Costa, lateral de cariz bastante ofensivo e que dá grande profundidade ao flanco esquerdo. Já no eixo defensivo, a dupla habitual seria Victor Ruíz e Mateo Musacchio. Digo “seria” pois Musacchio tem tido problemas com lesões, e nos tempos mais recentes, o seu lugar vai sendo ocupado por Álvaro González, jogador contratado esta temporada ao Espanyol. É de notar que, sendo todos estes centrais sólidos do ponto de vista defensivo, nenhum deles possui especiais valências ofensivas.

No meio-campo, para além do capitão Bruno Soriano, outro jogador se assume como titular indiscutível e peça fundamental da equipa: Manu Trigueros. O espanhol, de 25 anos, é talvez um dos maiores “underrateds” da La Liga. Um médio bastante completo, que possui qualidade para causar impacto em todos os momentos do jogo, e que se destaca, acima de tudo, pela incrível inteligência e leitura de jogo que possui. Isto para além de toda a qualidade técnica que tem, e que lhe permite executar várias acções que outros jogadores só conseguem mesmo imaginar, por falta de capacidade para as realizar. É muito graças a este binómio Soriano-Trigueros que o Villarreal apresenta muita qualidade com bola no seu corredor central.

Nas alas, dois jogadores relativamente semelhantes. Na direita, Jonathan Dos Santos é o médio que cria através do drible. O mexicano encontrou em Villarreal a estabilidade que faltava ao seu futebol, e a sua imprevisibilidade confere maior variabilidade de opções ao ataque. Já na esquerda, joga normalmente Roberto Soriano, jogador que chegou esta época, proveniente da Sampdoria, por quase 15M€. Internacional italiano, formado nas escolas do FC Bayern (possui ascendência alemã), apresenta qualidade com ambos os pés, e cria principalmente através da sua grande qualidade de passe, aliada à excelente visão de jogo que possui. Aqui, quem também leva já bastantes minutos esta temporada é Samu Castillejo, um jogador de características diferentes dos habituais titulares. É um desequilibrador “puro”, que nutre especial prazer em levar o jogo para os duelos individuais (1×1, 1×2), e que possui uma eficácia assinalável nesse aspecto. Poderá crescer imenso de rendimento quando conseguir colocar da melhor forma toda a sua qualidade individual ao serviço do colectivo.

Finalmente, no ataque, muitos são os recursos deste Villarreal. Nos últimos dias chegou ao clube Adrián López, emprestado pelo FC Porto, mas para além dele, há também o jovem Santos Borré, emprestado pelo Atlético Madrid e que possui alguma qualidade técnica e na finalização, bem como uma capacidade de trabalho bastante apreciável e que se demonstra bastante útil nos momentos sem bola. E depois, há duas duplas: a da época passada, e a que tem jogado mais esta temporada. Roberto Soldado e Cédric Bakambu criaram o pânico em várias defesas adversárias na temporada transacta, pela forma harmoniosa como funcionavam em conjunto. O congolês desgasta qualquer defesa com as suas constantes movimentações à procura da profundidade, e o espanhol é exímio a perceber quais os espaços que deve explorar, e que lhe poderão providenciar oportunidades de finalização. Esta época, no entanto, por problemas físicos e, no caso de Bakambu, também pela recente convocatória para a CAN, o impacto de ambos no ataque do Villarreal tem sido bem menor.

Já a dupla desta época, não sendo talvez tão forte na finalização e na procura do espaço, é sem dúvida “outra loiça” no que à criação e à exploração do espaço entre linhas diz respeito. Nicola Sansone, italiano contratado ao Sassuolo, é um avançado em constante movimento e que possui recursos técnicos para jogar em espaços curtos, possuindo também a velocidade necessária para realizar bons movimentos de ataque à última linha defensiva adversária. Já Alexandre Pato (entretanto transferido para o campeonato chinês) tem conseguido, até ao momento, realizar uma temporada sem problemas físicos de maior (questão que sempre colocou em causa o seu rendimento), e a sua qualidade está acima de qualquer suspeita. Muito forte e criativo através da utilização do drible, com uma capacidade de finalização acima da média e com recursos técnicos sem fim definido, Pato é o jogador que, em determinados momentos, catapulta(va) o Villarreal para outros patamares qualitativos. A solução encontrada pela equipa espanhola para o substituir será, certamente, um dos maiores tópicos de curiosidade para o que resta desta temporada.

Alexandre Pato, agora na China, tem sido uma das principais referências do ataque do “Submarino Amarillo” [Foto: dreamteamfc.com]

 

Destaque: Bruno Soriano

No meio-campo do “submarino amarillo”, mora um dos melhores médios da La Liga. Bruno Soriano nunca conheceu outra casa que não o “seu” Villarreal. Estreou-se pelo plantel principal a 15 de Julho de 2006, num jogo frente aos eslovenos do Maribor, a contar para a extinta Taça Intertoto, e daí para cá conta com mais de 400 jogos pelo clube. Vai na sua 11ª temporada a representar o clube, e é com naturalidade que se apresenta como o capitão de equipa.

Para além de ser um líder no balneário, Soriano é também um líder dentro de campo. Lidera por exemplo, com o seu futebol. Um organizador de jogo puro, que faz funcionar todo o jogo do Villarreal, através da forma como faz a bola circular por todos os corredores, como descobre linhas de passe quase imperceptíveis ou como gere o ritmo do jogo a seu bel-prazer. Joga normalmente a partir da posição 6 (embora também possa actuar em terrenos mais adiantados), e juntamente com Manu Trigueros, forma uma das duplas de centro-campistas mais fortes do campeonato.

É internacional A pela selecção espanhola (10 jogos), e esta temporada leva 5 golos e 2 assistências em 27 jogos, distribuídos por todas as competições. Números relativamente modestos para um médio, e que não fazem total justiça à tremenda qualidade do futebol deste jogador.

Numa liga reconhecida pela sua enorme competitividade no que aos lugares europeus diz respeito, o Villarreal CF tem-se afirmado, época após época, como uma das principais equipas espanholas. Esta temporada não parece ser excepção, e tendo em consideração o facto de que as lesões não têm dado descanso, não é de todo descabido afirmar que, sem esse tipo de obstáculo para o que resta da época, este “submarino amarelo” pode mesmo chegar a bom porto.

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Bruno DiasDezembro 14, 20169min0

Com quase meio campeonato disputado, a Real Sociedad apresenta-se como uma das equipas mais entusiasmantes e imprevisíveis da La Liga. Entre o futebol positivo que apresentam, e a irregularidade que os caracteriza, é difícil prever qual a posição que ocuparão no final da temporada. Mas até lá, serão uma equipa que vale a pena acompanhar.

Ao fim de 15 jornadas, a Real Sociedad ocupa a 5ª posição da La Liga, com 26 pontos, pontuação que partilha com o Villarreal, que se encontra no 4º lugar, uma posição que dá acesso à pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Classificação bastante positiva nesta altura da temporada, que corresponde plenamente àquelas que seriam as ambições de todos os adeptos no início da temporada, e que passam pelo regresso da Real às competições europeias.

Após um início titubeante na La Liga, com uma derrota por 3-0 em casa frente ao Real Madrid e com apenas 7 pontos em 6 jornadas, a Real estabilizou e arrancou para as posições cimeiras da tabela. 5 vitórias nas 6 jornadas seguintes – incluindo uma vitória por 2-0, no Anoeta (a “casa” da Real, autêntica “fortaleza” que dificulta, e muito, a vida a qualquer adversário), frente ao Atlético Madrid – colocaram os “Txuri-urdin” (alcunha de origem basca, que se refere às cores utilizadas pelo clube: o branco e o azul) em lugares europeus. Dois períodos de jogos marcadamente distintos, que caracterizam o rendimento de uma equipa que consegue atingir o brilhantismo e a mediocridade quase com igual facilidade.

E as três últimas jornadas são o reflexo perfeito disso: em casa, frente ao Barcelona, a Real Sociedad fez a melhor exibição da temporada, e saiu do jogo com um 1-1 que soube, claramente, a pouco, face à superioridade demonstrada em campo (e que até poderia estar manifestada no resultado final, não fosse a equipa de arbitragem ter anulado, indevidamente, aquele que seria o 2-1, a Carlos Vela). Na jornada seguinte, no Riazor, estádio do Deportivo, a Real saiu vergada a uma pesada derrota por 5-1, num jogo inteiramente dominado pela equipa da Corunha. Cinco dias volvidos, e vitória por 3-2 frente ao Valencia, no Anoeta, num jogo dominado pela equipa da casa e que até poderia ter tido outra dimensão, se a eficácia na finalização tivesse sido outra. Uma imprevisibilidade de rendimento que, embora possa custar caro, a longo prazo, confere interesse a qualquer jogo desta equipa.

Eusebio Sacristán é o “timoneiro” da formação basca [Foto: elrincondelareal.com]
 

O futebol da Real

A qualidade de jogo apresentada pela Real Sociedad é um dos principais motivos – se não mesmo o principal – pelos quais vale a pena ocupar 90 minutos da vida a vê-los jogar. São treinados por Eusebio Sacristán, técnico de 52 anos que fez parte da lendária “Dream Team” do Barcelona, comandada pelo mítico Johan Cruyff, e que passou praticamente 15 anos no clube, como jogador e treinador. Não é, portanto, uma surpresa constatar que Eusebio tem no sangue a filosofia catalã, baseada na posse de bola e na utilização da mesma como instrumento para dominar o jogo e alcançar a supremacia sobre qualquer adversário.

É essa ideologia que ele procura reproduzir nesta Real. Normalmente em 4x3x3 (que, ocasionalmente, pode variar para um 4x2x3x1), é uma equipa que procura, sempre que possível, atacar pelo corredor central e jogar de forma apoiada, de pé para pé, em qualquer zona do terreno. Aqui, há que realçar a qualidade dada na saída de bola pelos centrais (sobretudo por Iñigo Martínez), que procuram fazê-la chegar com qualidade e pelo chão a terrenos mais adiantados, e inclusive pelo guarda-redes Rulli, que também faz da distribuição um dos seus pontos fortes. Também a utilização que a Real faz dos corredores laterais, embora seja significativa, tem apenas como objectivo o descongestionamento do corredor central e, no último terço, a utilização do cruzamento como meio de chegar ao golo, mas apenas quando existe uma presença efectiva de jogadores seus na área, que torne essa acção perigosa e realmente eficaz. Importante, aqui, a qualidade de decisão e o critério com bola exibido pelos seus laterais (Carlos Martínez ou Elustondo pela direita, Berchiche pela esquerda).

No meio-campo, a aposta recai habitualmente num trio de médios que se destacam pelo equilíbrio que conferem à equipa, através de uma boa capacidade de trabalho sem bola, e de uma qualidade de passe acima da média quando a têm. O papel de Illarramendi, Zurutuza e Xabi Prieto (o trio mais utilizado por Eusebio) é o de conferir fluidez à circulação de bola, procurando sempre o caminho mais simples para a fazer chegar ao último terço (mas tendo sempre em conta o valor da posse de bola, e o quão importante é circulá-la com segurança), sendo que possuem também grande importância na forma como a equipa reage, rapidamente, à perda da bola, e consegue pressionar de forma relativamente organizada no meio-campo adversário, complicando bastante a tarefa a equipas que pretendem sair a jogar de forma curta e apoiada. Esta estrutura apenas se altera durante o jogo, com a entrada de Canales para o jogo, um médio ofensivo bastante criativo e que possui claramente mais apetências ofensivas do que defensivas.

Já o ataque da Real Sociedad pauta-se por uma mentalidade jovem e arrojada. A partir da direita, Carlos Vela funciona como um avançado móvel e que percorre toda a frente de ataque. É o jogador mais preponderante da equipa, e é nele que os adeptos mais confiam nos momentos decisivos. O mexicano está no ponto mais alto da carreira até ao momento, e transformou-se num jogador que alia imensa qualidade a uma regularidade exibicional bastante apreciável.

Do outro lado, está a jóia da formação do clube, Mikel Oyarzabal. Com apenas 19 anos, tem um futuro muito promissor pela frente. É já internacional A espanhol, tendo feito o seu único jogo em Maio deste ano, num jogo amigável frente à Bósnia. Um extremo que representa a escola espanhola ao seu melhor nível. Apresenta qualidade com ambos os pés (embora o esquerdo seja o seu pé predominante), sente-se à vontade em espaços curtos, onde pode explanar toda a sua qualidade no drible, e possui também um entendimento do jogo digno de destaque, pela forma como encontra, com facilidade, linhas de passe que aproximam a equipa da baliza adversária. Não sendo um avançado, como Vela, é um jogador com características para poder jogar nos três corredores, e serve como um excelente complemento ao mexicano.

E depois, há o brasileiro Willian José na frente de ataque. O avançado brasileiro, de 25 anos, já tinha deixado boas indicações na temporada passada, ao apontar 9 golos em 30 jornadas pelo Las Palmas. Esta época, no entanto, finalmente “explodiu”, e tem demonstrado todo o talento que há muito lhe era reconhecido. Com 14 jogos realizados no campeonato, já igualou os mesmos 9 golos da época passada. Uma marca que lhe permite ser o actual goleador da Real, bem como um dos melhores marcadores da La Liga.

Forte fisicamente (possui uma velocidade e agilidade surpreendentes para um jogador com 1,89m), com elevada qualidade técnica e de remate fácil, Willian é a referência da Real na área e um avançado bastante completo, que oferece múltiplas soluções à equipa e cria perigo de diversas formas aos seus adversários. Apesar daquilo que a sua altura poderia indicar, é um avançado móvel. É frequente vê-lo sair da zona dos centrais, procurando participar nas fases de construção e criação da equipa. No fundo, Willian é o sucessor perfeito de Jonathas, goleador da Real na época passada, que foi transferido para a Rússia (para o Rubin Kazan), e jogador que partilha muitas das suas características.

Willian José tem sido uma das principais referências da Real nesta temporada [Foto: skysports.com]
 

Destaque: Iñigo Martínez

Apesar de existirem equipas com orçamentos significativamente superiores na La Liga, e com todas as condições para conseguir ter nas suas fileiras os melhores jogadores do campeonato, é na Real Sociedad que mora um dos melhores centrais a actuar em Espanha na actualidade.

Internacional A pela selecção espanhola (3 jogos realizados, tendo-se estreado num jogo amigável frente ao Equador, em Agosto de 2013), Iñigo Martínez é um jogador que se destaca, não só pelas qualidades associadas naturalmente a um central – como a capacidade de desarme ou a competência em aspectos como o jogo aéreo ou o sentido posicional –, mas sobretudo pela panóplia de opções que possui quando tem a bola em seu poder. Dono de uma qualidade de passe soberba, tanto curto como longo, com uma visão de jogo invulgar para um central e com uma qualidade técnica acima de qualquer suspeita, em todas as acções, Iñigo é o esteio da defesa da Real, e um dos pilares da equipa.

Com 25 anos (faz 26 em Maio), está na altura perfeita para “dar o salto” e demonstrar todo o seu valor num clube de outra dimensão, pois possui a qualidade necessária para o fazer. Mas tendo renovado recentemente com a Real Sociedad (em Abril do presente ano), e sendo um dos jogadores mais acarinhados (a Real é o único clube que conheceu na carreira, e aquele onde já conta praticamente com 200 jogos oficiais) e valorizados do plantel, é de esperar que os interessados sejam obrigados a “abrir os cordões à bolsa” para o retirar da formação basca. Mas ele valerá, certamente, esse esforço.

Seja pelos jogadores talentosos que alberga, pelo futebol positivo que pratica ou simplesmente por empatia com o clube, acompanhar os jogos da Real Sociedad é uma experiência que vale o tempo investido. Apesar da sua irregularidade, a equipa basca promete estar na luta pelos lugares europeus até final, numa La Liga que esta época se apresenta recheada de equipas talentosas e tacticamente interessantes.


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