La Liga 2021/22: o rescaldo de uma época “merengue”

Bruno DiasMaio 30, 20228min0

La Liga 2021/22: o rescaldo de uma época “merengue”

Bruno DiasMaio 30, 20228min0
O título voltou a ficar em Madrid, mas nem só disso se fez a temporada espanhola. Este é o resumo da "La Liga" 2021/2022.

Como é já habitual, o final do mês de Maio é normalmente sinónimo de rescaldo e avaliação da época desportiva no futebol europeu. Campeões são coroados, enquanto as equipas atingem ou falham os objectivos delineados para a temporada, muitas vezes com um impacto significativo no seu futuro, para o bem e para o mal.

Em Espanha, a análise 2021/22 tem inevitavelmente de passar pelo campeão espanhol e europeu Real Madrid, que mais uma vez ascendeu ao patamar mais alto do futebol e conquistou com inteiro mérito a “La Liga“. Também se estende, naturalmente, aos rivais FC Barcelona e Atlético Madrid, equipas que cedo deixaram de acompanhar pontualmente o conjunto de Carlo Ancelotti num campeonato marcado por uma toada de equilíbrio e imprevisibilidade… do 2º lugar para baixo.

A qualificação para os “milhões” da Champions League ficou fechada com o Sevilla, depois de uma recta final que partiu corações na cidade, mas do lado verde e branco. O Real Bétis passou grande parte da temporada no “top 4”, mas não conseguiu segurar aquela que seria uma prestação fabulosa na maior competição espanhola. Porém, a tristeza da queda na liga foi compensada pela incontrolável alegria da conquista da Taça do Rei, troféu que escapava há 17 anos.

Menos sorte tiveram equipas históricas como o Athletic ou o Valencia, que falharam a qualificação para as competições europeias. Este desempenho agudiza ainda mais a crise vivida no clube “che“, que não conseguiu superar Real Sociedad e Villarreal, emblemas que voltarão a marcar presença na Europa em 2022/23.

Por fim, Maio viu concretizada a descida de Granada, Levante e Alavés, equipas que serão substituídas na “La Liga” por Valladolid, Almería e pelo vencedor do “play-off” de subida, que engloba Girona, Eibar, Tenerife e Las Palmas.

Tal como em anos anteriores, assistimos portanto a um campeonato altamente disputado e com vários focos de entusiamo e interesse, até ao último momento.

 

O domínio “merengue

No que ao título diz respeito, não se pode fugir à ideia de que esta foi uma época sem grande história. O Real Madrid vence o campeonato com 86 pontos, 13 pontos a mais do que o rival FC Barcelona. É a maior vantagem para título dos “merengues” em muitos anos, reflectida no domínio que apresentaram, sobretudo, na primeira metade da temporada, em contraste com a constante instabilidade exibicional e de resultados dos seus principais adversários (não só o Barcelona, como também o Atlético Madrid).

Para tal, muito contribuiu uma nova sociedade de destaque nos relvados espanhóis. Karim Benzema fez uma época extraordinária e é, pelos dias que correm, um dos melhores jogadores da actualidade. O francês apontou 27 golos e 12 assistências em 32 partidas da liga, carregando a equipa às costas para sucessivos triunfos internos e externos (não há como não destacar a sua performance estratosférica na Champions League, com 15 golos, um dos melhores registos da história da competição, coroado com a conquista da “orelhuda” na final frente ao Liverpool) e assumindo o protagonismo do futebol espanhol após a saída para França de Lionel Messi.

(Foto: marca.com)

Preferencialmente do seu lado esquerdo, surgiu a revelação da liga. Sempre se lhe augurou um potencial gigantesco, mas esta foi realmente a época de “explosão” de Vinícius Júnior. O brasileiro soltou o seu futebol repleto de magia e desequilíbrio, remeteu Eden Hazard para uma quase total insignificância no plantel madridista e terminou 2021/22 com mais de 20 golos e outras tantas assistências, sendo que a “cereja no topo do bolo” chegou com o golo decisivo na final da Champions League. Uma clara demonstração de que “Vini” veio para ficar no topo do futebol mundial.

Esta combinação letal, bem suportada por Thibault Courtois na baliza e pelo habitual trio de Casemiro, Toni Kroos e Luka Modric no meio-campo, transformou esta temporada em mais um ano de glória para Carlo Ancelotti, que bateu recordes atrás de recordes. O italiano tornou-se não só o primeiro treinador na história do futebol a vencer as 5 principais ligas europeias como também o primeiro a conquistar 4 edições da Champions League, consolidando ainda mais o seu lugar enquanto figura incontornável dos “blancos“.

Com a afirmação de Vinícius e o aparecimento em momentos decisivos de jovens como Eduardo Camavinga ou Rodrygo (o herói da meia-final da Champions League, vencida de forma épica frente ao Manchester City), os adeptos do Santiago Bernabéu só terão motivos para sorrir ao perspectivar o futuro.

 

Duas faces da desilusão: Barça e Atlético

Sabia-se que 2021/22 seria uma época complicada para o FC Barcelona, e o verão de Camp Nou foi quente, mas nem por isso sinónimo de boas energias.

Após o término do seu contrato, a 30 de Junho, Lionel Messi não mais voltou. O Barça tentou de tudo para renovar e inscrever o astro argentino na liga, mas esbarrou na intransigência da instituição no que ao cumprimento das regras do “fair-play” financeiro diz respeito. Era assim o adeus à maior figura da história do clube – que rumou a Paris – e isso, naturalmente, deixou marcas profundas no grupo.

Foi então um Barça destroçado, aquele que começou a temporada e chegou a Novembro, altura em que Ronald Koeman foi despedido. Para o seu lugar chegou Xavi Hernández, lenda “culé” e alguém visto por muitos como o “salvador da pátria” e o herdeiro de Pep Guardiola no banco catalão.

E a verdade é que, mesmo Xavi não sendo Deus, a sua chegada teve certamente o condão de virar o rumo dos acontecimentos para os “blaugrana. O reforço do plantel no mercado de Janeiro (Ferran Torres, Aubameyang, Dani Alves, Adama Traoré) ajudou à subida clara de rendimento, e a reabilitação de Ousmane Dembélé (que, agora, arrisca deixar o clube a custo zero) transformou o Barça num conjunto que, embora débil e instável do ponto de vista defensivo, a espaços demonstrou uma capacidade ofensiva a fazer lembrar tempos bem mais gloriosos.

(Foto: globaltimes.cn)

A epítome dessa realidade chegou em pleno Santiago Bernabéu, partida em que os comandados de Xavi golearam o Real Madrid por 4-0, no que foi uma autêntica humilhação dos “blancos” no seu próprio reduto. Pequenos “flashes” de brilho que terão de surgir de forma consistente em 2022/23, se o Barça tem reais ambições de recuperar a sua dimensão futebolística habitual.

Já na capital, bem perto do campeão, o Atlético Madrid viveu uma temporada de total contraste em relação ao seu maior rival. Cedo se percebeu que a equipa de Diego Simeone apresentava dificuldades para manter um rendimento constante, e rapidamente isso transpareceu para os resultados obtidos. Nem um plantel rico em soluções para o sector intermédio e mais adiantado foi capaz de se configurar como a resposta para a falta de qualidade ofensiva que a equipa demonstrou na maioria dos jogos, e juntando a isso um Jan Oblak irreconhecível na baliza (de longe, a sua pior época dos últimos anos), sucederam-se perdas de pontos em partidas de vitória teoricamente obrigatória.

Destaque individual para o português João Félix (o melhor jogador dos “colchoneros“), mas também para a recuperação da boa forma do francês Thomas Lemar e para a integração natural e positiva do argentino Rodrigo de Paul, contratado no mercado de Verão à Udinese. O médio de 28 anos adaptou-se perfeitamente ao modelo de jogo e promete ser uma peça fundamental no crescimento futuro deste conjunto, que terá forçosamente de voltar a subir o seu nível se pretende regressar aos dias de glória que Simeone já por várias vezes ofereceu aos adeptos.

(Foto: observador.pt)

Numa temporada que se previa de mudanças profundas, o futebol espanhol manteve-se como um dos grandes focos do panorama mundial. Nomes de topo solidificaram o seu estatuto lendário no “desporto-rei”, jovens promessas despontaram rumo ao estrelato e novos pontos de interesse surgiram de onde menos se esperava. Espera-se, assim, que a versão 2022/23 da “La Liga” dê continuidade a este caminho positivo.


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