Arquivo de Pizzi - Página 2 de 2 - Fair Play

benfica_expresso-1.jpg?fit=1200%2C800&ssl=1
Pedro AfonsoDezembro 27, 20178min0

O velho ditado “Não se mexe em Equipa que ganha” será com certeza verdade a curto/médio-prazo. Contudo, poucos serão os casos de equipas que mantiveram a sua hegemonia durante anos a fio sem alterações mais ou menos constantes nos seus elementos. A manutenção de um núcleo duro de jogadores Encarnados (Luisão, Jonas, Paulo Lopes, Eliseu) serve o propósito de garantir estabilidade com a ascensão de jogadores jovens. Mas até que ponto é que estes jogadores poderão determinar o rendimento de uma equipa, mesmo que não joguem? E, acima de tudo, serão capazes de suplantar o treinador e impôr a sua vontade e ideais? Terão a atitude necessária para atingir o Penta?


Ancelotti, Mourinho e Ranieri. O que têm em comum estas duas figuras diametralmente opostas em termos de gestão de balneário? Apesar dos seus sucessos enquanto timoneiros de Bayern, Chelsea e Leicester, todos sofreram a “machadada” final após conquistarem o título de Campeões das respetivas ligas.

Um milagreiro caído em desgraça [Fonte: Metro]

Não só têm em comum a conquista de títulos, mas também a queda abrupta de rendimento de alguns dos seus jogadores nucleares: Muller, Boateng, Robben, Diego Costa, Hazard, Fabregas, Vardy, Mahrez, Morgan. Parece pouco provável que todos estes enormes jogadores tenham “desaprendido” o jogo e que o tenham “reaprendido” assim que os seus treinadores foram despedidos. Existiu, de forma mais ou menos concertada, de forma mais ou menos planeada, uma tentativa por parte dos jogadores de mudar o “homem do leme”.

Este introito permite-nos estabelecer, de forma mais ou menos evidente, uma clara relação entre estes casos e o atual SL Benfica de Rui Vitória. A questão tática de disposição de jogadores [ver aqui], seja num 4x4x2, num 4x3x3 ou num 4x2x3x1, assume um plano secundário desde que exista um modelo geral de jogo, noções básicas de como se deve comportar cada jogador em determinadas situações. Se nos parece mais ou menos óbvio que Rui Vitória não é um treinador primoroso na concepção de um modelo de jogo e no seu trabalho, parece evidente que a maior valência do timoneiro ribatejano será a gestão de balneário. Mas será que a gestão de Rui Vitória está a resultar esta época?

Lançamento aparentemente aleatório de jogadores

Se em épocas passadas os jogadores chamados à titularidade por Rui Vitória correspondiam com boas exibições, parece evidente que a maioria dos jogadores que constitui o banco de suplentes do SL Benfica não tem aproveitado as oportunidades que lhes são concedidas.

Rafa, Samaris, Seferovic e Douglas são exemplos de jogadores que simplesmente não têm estado, ou não têm essa capacidade, ao nível exigido para jogar no Tetracampeão nacional. Poderá ser argumentado que estes jogadores não tiveram um conjunto de jogos suficientemente grande e em sequência para poderem mostrar todo o seu valor. Por outro lado, poderá também ser argumentado que o seu nível de desempenho é, em muitas vezes, tão baixo que só poderá ser explicado por um total descomprometimento tático com as ideias da equipa, bem como níveis de concentração reduzidos.

No extremo oposto, encontraremos apostas sem nenhum tipo de justificação e, muitas vezes, continuadas em jogadores que mostraram muito pouco ou até nada ao serviço da equipa [ver aqui]. Diogo Gonçalves tem o condão de ter ultrapassado Cervi, Zivkovic, Rafa e Gabigol sem nunca ter feito exibições que o justificassem. Não impediu a sua titularidade contra o Manchester United e em vários outros jogos até o técnico encarnado ter percebido que o seu contributo para a equipa seria pouco mais que zero. Por outro lado, Felipe Augusto é uma velha “paixão” de Rui Vitória, que gozou de um estado de graça desde a sua chegada, tendo feito inúmeras partidas abaixo de um nível mínimo exigido e apenas sido relegado para a bancada após “desentendimentos” com o público encarnado.

A má forma não explica o descontrolo [Fonte: Record]

“Descontrolo emocional”

As palavras proferidas por Rui Vitória na Conferência de Imprensa demonstram bem uma tendência encarnada para claudicar nos momentos decisivos. Desde a horrorosa campanha europeia, passando pela eliminação da Taça de Portugal e da Taça da Liga, a equipa da Luz parece ser incapaz de segurar vantagens e de garantir níveis de controlo e concentração ao longo dos 90 minutos. Se por um lado poderá existir uma certa displicência na forma como se abordam os momentos de vantagem no marcador, existirá também um fator decisivo que provém de uma filosofia de jogo pouco definida e trabalhada: o cansaço.

À medida que o jogo avança, o cansaço físico e psicológico interferem com as capacidades de um jogador decidir bem em dado momento, toldam a sua inteligência e limitam o seu desempenho. Se, por detrás deste processo natural, existirem poucos mecanismos de compensação através de movimentos sistematizados, todos os erros serão amplificados e, até, coletivos. Assim se explicam as derrotas contra Basileia, CSKA de Moscovo, o empate com o Portimonense, entre muitos outros resultados negativos desta época.

A falta de comprometimento – o exemplo de Pizzi

Que o modelo de jogo do SL Benfica é parco, já o discutimos aqui anteriormente. Que o plantel do SL Benfica está recheado de qualidade, também parece inegável. Então, o que se passa no Reino da Luz?

Fazendo a ponte com o início deste texto, parece cada vez mais claro que o núcleo duro de jogadores encarnados está em fim de ciclo, não tendo sido o seu declínio devidamente acautelado, e que os jogadores simplesmente “desaprenderam” o jogo.

Pizzi não foi o melhor jogador da Liga NOS da época passada por engano: a sua criatividade, passe e poder de chegada à área fazem do médio transmontano um dos valores maiores do nosso pobre campeonato. Contudo, este ano temos visto um Pizzi pouco comprometido defensivamente, recuperando a passo após perder a posse de bola, sem capacidade de ocupação de espaços defensivos, sem critério na própria construção. Para adensar o mistério, as suas substituições e reações intempestivas (veja-se o caso no Dragão), demonstram um mau-estar evidente de Pizzi relativamente à equipa técnica.

Um jogador não pode nunca reagir desta forma contra o seu treinador [Fonte: Record]

Esta falta de comprometimento, principalmente no momento de transição defensiva, fazem com que o Benfica seja, muitas vezes, uma equipa partida, com 5 jogadores a atacar e 5 jogadores a defender, com os primeiros a recuperar a passo. Por muito em baixo de forma que certos jogadores possam estar, será mesmo necessário relembrar que Pizzi foi o melhor jogador da Liga NOS do ano passado, que Samaris foi o “6” titular com JJ à frente de Fejsa na sua última época, que Jardel fez com Luisão uma das melhores duplas de centrais dos últimos anos em Portugal e que Seferovic iniciou a época de forma fulminante?

Ao exemplo de Pizzi pode juntar-se a saída abrupta de Luisão aquando da sua lesão em Vila do Conde (um capitão não aguentaria até aos 90 minutos, pelo menos?), a postura da equipa contra o Basileia na Luz (onde deveriam pelo menos ter obtido 1 ponto para salvar a honra), entre outros episódios lamentáveis da já desastrosa época.

Terá Rui Vitória perdido completamente o balneário? Será que a vontade dos jogadores será de “chutar” o timoneiro para fora da equipa e dar assim um novo rumo, novas ideias e novas esperanças? Algo precisa de mudar no Reino da Luz e Janeiro é o mês ideal.

ruivitoria.jpg?fit=1024%2C613&ssl=1
Rui MesquitaJulho 15, 20175min0

Depois da conquista do tetracampeonato, Rui Vitória prometeu mudanças. Mudanças táticas e na forma de jogar. O mister encarnado anunciou surpresas para atacar o Penta, mas o que podemos esperar do Benfica? Uma revolução total ou apenas alguns ajustes no que vimos na época transata?

Manobra defensiva

Na última época o clue da Luz foi a defesa menos batida da Liga NOS mas, apesar disso, na Champions o registo defensivo foi assustador. 14 golos sofridos em 8 jogos demonstraram algumas das fragilidades dos encarnados na hora de defender.

Com a saída de Lindelof, Rui Vitória será forçado a mexer na forma como a equipa defende. Perdendo o central mais móvel do plantel, o confronto com avançados rápidos será ainda mais complicado. Com uma dupla Luisão-Jardel espera-se uma linha mais recuada, não permitindo muitas bolas nas costas destes trintões. A saída de Ederson, capaz de defender impecavelmente a profundidade, aponta, também ela, para essa adaptação.

Lindelof foi um dos esteios da defesa encarnada (Foto: The Sun)

A pressão ofensiva do tetracampeão foi uma das armas da época passada. Nesta época, com Jimenez a ganhar mais minutos, esta pressão à saída da construção adversária será ainda mais acutilante. Essa abordagem não será, apesar dos seus bons resultados, usada contra adversários mais fortes. Aí, principalmente na Liga dos Campeões, Rui Vitória não deverá arriscar nesse sufoco ao oponente, mas sim num posicionamento de expetativa, evitando surpresas.

No que ao meio-campo diz respeito, a história complica-se. O sistema do Benfica sempre evidenciou deficiências contra equipas fortes neste setor. Apenas com dois médios, os encarnados perdem demasiados duelos na zona crítica do jogo. Para solucionar este problema, Vitória pode acrescentar um médio ou tornar um dos extremos num apoio defensivo no “miolo” do terreno. Não acreditamos, porém, que as mudanças cheguem tão longe. E, com isso, as limitações manter-se-ão.

A construção

A construção será outro dos momentos em que se sentirá a falta de Lindelof. O sueco era o central com melhor qualidade de passe, essencial para a saída a 3 de Rui Vitória.

O mister encarnado explorou, na época passada, sair com Pizzi no meio dos centrais mas acabou com mais problemas do que soluções. Baixar Pizzi deixa muito espaço entre essa linha e a linha da decisão. Por seu turno, abdicar de Fejsa para ganhar um médio mais criativo não será opção. E, por fim, encostar Pizzi na ala para ele construir com outro “número 8” também não (já que dos 8 reforços anunciados nenhum serve esse intuito).

Pizzi foi e será o motor dos encarnados (Foto: Jornal I)

A solução mais provável para Rui Vitória passa por Jonas. O brasileiro pode baixar para ser o terceiro médio que o treinador e Pizzi precisam. As “tabelas” entre Jonas e o transmontano podem, também elas, baixar para construir com critério e perigo. Quando faltar Jonas (na gestão de esforço que o próprio Rui Vitória já falou), Krovinovic parece encaixar perfeitamente neste modelo. O croata é um “número 10” talentoso, ideal para a construção encarnada, trabalhando com Pizzi.

O ataque

As diferenças no ataque serão, forçosamente, decorrentes das mudanças na construção. Porém, se Rui Vitória falou em alterações, também falou na diversidade do ataque encarnado. 72 golos na Liga NOS espelham a facilidade do clube da Luz em fazer golos.

As alterações que Rui Vitória pode introduzir são naturais com a maior presença dos habituais titulares. Mais Jonas a aparecer em todo o lado, mais Fesja para libertar Pizzi e os laterais, etc.

Nas laterais surgem, ainda assim, as maiores mudanças. A saída de Nelson Semedo, anunciada esta semana, mudará a forma de atacar do Benfica. O novo lateral do Barcelona foi uma arma importante no ataque à baliza adversária. Com cruzamentos, entendimentos com Pizzi ou Salvio e incursões pela área rival, Nelson Semedo jogou e fez jogar. A alternativa será André Almeida, menos aventureiro e menos capaz ofensivamente.

Porém, na outra lateral prevê-se o regresso de Grimaldo a todo o gás. O espanhol será mais uma solução, compensando a saída de Nelson Semedo. Grimaldo cruza bem e é um perigo no carrossel encarnado comandado por Pizzi.

Grimaldo será uma arma importante do ataque da Luz (Foto: Mundo Desportivo)

Por mais adições ao “livro” do ataque da Luz, a maior de todas elas não depende de Rui Vitória. Depende sim do departamento médico do Benfica: manter Jonas sem problemas físicos. Ter o brasileiro a tempo inteiro é a grande mudança ofensiva que o tetracampeão precisa.

O sistema

No que ao sistema base com que o Benfica irá atacar o Penta diz respeito, Rui Vitória não deve mexer muito. O mister não abdicará de ter Jonas perto do ponta-de-lança mesmo que com diferentes funções. Não faltarão dois extremos a abrir nos corredores nem a dupla de médios caraterísticas do sistema encarnado.

O 4-4-2 de Rui Vitória será a regra e um 4-3-3 mais conservador a exceção em jogos que o exijam.

Na mente de Rui Vitória não está uma revolução no futebol ganhador do Benfica. Mas com as saídas que já se verificam, deixar tudo na mesma é impossível. Por isso, ao Benfica e a Rui Vitória, aplica-se uma nova máxima do desporto-rei: em equipa que ganha… mexe-se!

api.slbenfica.pt_.jpg?fit=1000%2C750&ssl=1
Rui MesquitaJunho 12, 20175min0

A época chegou ao fim e o Benfica sagrou-se tetracampeão pela primeira vez na sua História. E fê-lo, estatisticamente, de forma categórica: 6 pontos de vantagem sobre o 2º classificado, melhor ataque da Liga NOS (72 golos marcados), melhor defesa (18 golos sofridos) e tudo isto com uma avalanche de lesões durante toda a época.

Há que tirar o chapéu a Rui Vitória pela plasticidade tática e por manter o plantel unido durante estes dois anos. E tirar o mesmo chapéu a Luís Filipe Vieira por, com dois treinadores diferentes e saídas importantes, tornar o Benfica num clube vencedor. Nestes 4 anos o clube da Luz conquistou, a um FC Porto em decadência, a hegemonia do futebol português muito graças a estes dois homens.

E o que fazer agora?

A solução ideal é simples: não vender os melhores jogadores que a equipa tem, reforçar posições carentes de soluções e atacar o penta. Infelizmente, do ponto de vista financeiro, esta opção não se mostra possível: Ederson no Manchester City, Lindelof praticamente em Manchester mas nos Red Devils e no horizonte vê-se Rui Vitória a remendar um plantel e um modelo de jogo para lutar pelo já referido penta.

A despedida [Foto: Lusa]

Mas apesar da hegemonia é unânime que, apesar de ganhador, o futebol do Benfica foi pobre e mostrou-se, inúmeras vezes, sem soluções. Para além das 2 derrotas e 7 empates, o Benfica venceu 8 jogos pela margem mínima num campeonato com uma gritante discrepância entre os “grandes” e os “pequenos”.

Porém, mais do que os números, sobressaem as limitações na construção, andando Pizzi sozinho a tentar carregar os pianos da equipa. Há ainda a questão da falta de soluções ofensivas (nenhum dos 4 extremos usados se mostrou uma solução sólida ou eficaz) e ainda o peso da ausência de Jonas no 11. Sobressai a discrepância entre um futebol com Pizzi e sem ele (como ficou patente na eliminação da Taça da Liga caindo por terra o mito de o Benfica ter duas equipas altamente competitivas). Sobressai a passividade do futebol encarnado e falta de brilho que os adeptos desejam e exigem.

Partindo do princípio que Luís Filipe Vieira irá vender (para além do guarda-redes brasileiro), a solução não pode passar por voltar a remendar o plantel, o que significa limitá-lo. A solução tem que passar pela reinvenção do futebol de Rui Vitória, pela criação de uma identidade, de uma ideia e adaptar o plantel e cada jogador a essa ideia e não o contrário. Como o próprio Rui Vitória disse na sua mais recente entrevista: “Há espaço para a evolução (…) Estamos a pensar em algumas mudanças táticas e forma de jogar.”, é precisamente isso que é preciso: evolução e mudança.

O motor da mudança [Foto: Record]

A verdadeira solução

É altura de mudar de mentalidade, de passar de jogar como o plantel deixa para jogar como o treinador quer exigindo mais de cada atleta para que se encaixe na ideologia do mister. É o momento de deixar de se jogar com dois avançados porque Jonas o exige e exigir do brasileiro o que se precisa para um modelo “ideal” na cabeça de Rui Vitória, entre outros exemplos.

Rui Vitória tem que definir o que quer na construção já que deixar Pizzi sozinho não pode ser solução por esconder e desperdiçar o talento e a magia do transmontano. O timoneiro dos encarnados tem que definir o que quer de Jonas: se um terceiro médio ajudando Pizzi na construção (sempre a construção!) se um segundo avançado para marcar golos. Rui Vitória tem que definir o que quer de cada extremo: se dois desequilibradores se um médio interior (como um Pizzi de outros tempos). E Rui Vitória tem forçosamente que diversificar as soluções ofensivas dos encarnados e mostrar que é treinador para competir com os melhores (como fará na Champions).

Um génio escondido [Foto: SICNotícias]

Foi precisamente ao nível da construção que o futebol desta época mais pecou. Pizzi é um jogador fenomenal (o melhor do nosso campeonato a par de Jonas) mas ficar encarregue de queimar linhas sozinho é injusto para o médio e insuficiente para o futebol encarnado. E é, por isso, na construção que Rui Vitória terá que se reinventar mais para dar estabilidade e capacidade a essa fase do jogo.

A resposta ao que fazer quando se ganha tudo é essa! Melhora-se o futebol, cria-se uma identidade e faz-se tudo (direção, jogadores, adeptos) girar à volta dela, dando à Águia novos e maiores voos!

A nova pergunta que fica no ar é: será Rui Vitória capaz de o fazer? Só a próxima época e o treinador campeão poderão responder a isto, mas que está na altura de tanto Rui Vitória como o Benfica subirem ao próximo nível? Isso está!

Tetra_tvi.jpg?fit=1024%2C576&ssl=1
Pedro AfonsoJunho 1, 20178min0

Tetracampeões. Uma novidade para as hostes benfiquistas. E que novidade! Os encarnados cimentam a sua posição como clube português mais titulado e colocam o último prego no caixão da hegemonia portuense, que vigorou durante os últimos 30 anos. Mas que época foi esta? Poderemos reduzir todo um ano a um título, mesmo que signifique ser Tetracampeão?

Ainda a época não tinha começado e já as vozes da desconfiança se erguiam: por um lado, um Sporting com contratações sonantes e uma espécie de all-in para a conquista do tão almejado título de campeão nacional; por outro lado, a contratação de NES que viria, em teoria, reacender a mística portista; e ao centro, a falta de soluções credíveis para a saída de Renato e Gaitán. Mas se ainda havia dúvidas acerca do técnico Rui Vitória ser capaz de ser reinventar, a vitória na Supertaça por 3-0 frente ao Braga serviu para dissipar as dúvidas. Foi o arranque perfeito para uma época com 62 jogos, 42 vitórias, 12 empates, 8 derrotas, 136 (!) golos marcados e apenas 48 sofridos.

O “golo” [Fonte: MaisFutebol]

Pontos altos

  • A vitória por 2-1 frente ao Sporting CP. Para além do óbvio simbolismo que se prende com a vitória num derby, este jogo serviu para quebrar o enguiço, foi um afastar de uma vez por todas as superioridade de JJ nos mind-games e demonstrar que o Benfica se tornou, com Rui Vitória, uma equipa madura, cínica, fria e competente.
  • 5-0 ao Vitória SC. Há maneiras e maneiras de se ser campeão. No fundo, é “apenas” confirmar que, matematicamente, será impossível para os adversários ultrapassar a nossa pontuação. E o Benfica, em casa, foi capaz da melhor exibição da época, com “nota artística”, num autêntico banho de futebol que culminaria com a vespa de Eliseu.
  • A conquista da Supertaça. Uma vitória por uns expressivos 3-0 que foi capaz de dissipar dúvidas acerca da capacidade do técnico ribatejano e acerca da valia do plantel encarnado.
Traição e falta de carácter. [Fonte: Goal.com]

Pontos baixos

  • Derrota frente ao Moreirense para a Taça da Liga. Não desvirtuando o mérito do clube minhoto, a displicência e sobranceria com que os jogadores abordaram a 2ª parte custaram a possibilidade de disputar mais uma final e fazer o pleno a nível interno. Um balneário brincalhão virou displicente e, nos jogos seguintes, o nervosismo transpareceu no banco encarnado.
  • A caminhada Europeia. Ao contrário de anos passados, os encarnados não se podem queixar de um grupo difícil. Uma fase de grupos em que se contam 2 vitórias contra o D. Kiev, 2 empates infantis frente aos turcos do Besiktas (o primeiro na última jogada do jogo e o segundo após uma vantagem de 3-0 ao intervalo) e 2 derrotas categóricas frente ao Nápoles, apurou um Benfica com pouco andamento para a Champions. Seguiu-se um Dortmund ao qual é “roubada” a 1ª mão, face à superioridade gritante dos alemães, e que na 2ª mão fez questão de trucidar as hostes encarnadas. É o Dortmund, mas não é o Dortmund de outros tempos.
  • A razia de lesões. É incompreensível como um clube da dimensão do SL Benfica apenas tenha tido o plantel todo à disposição por volta da trigésima jornada. O azar não explica tudo e o caso mais gritante será a gestão de Jonas, com a sua entrada na Madeira, agravando uma lesão e demonstrando um certo amadorismo, imperdoável.
O Maestro. [Fonte: Sapo Desporto]

MVP

  • Pizzi. Pelo que jogou, pelo que fez jogar, pela adaptação a uma posição que não é a sua e por ver caminhos e espaços onde mais ninguém via, quando o coração já só mandava correr desalmadamente, em desespero, e todos precisavam de alguém que os guiasse. Jogador com mais minutos e imprescindível para o jogo encarnado. Um craque.
Incansável [Fonte: The Sun]

Revelação

  • Nélson Semedo. A época passada tinha deixado um leve perfume daquilo que seria a “locomotiva” na faixa direita benfiquista. Não tendo acabado a época passada na melhor das posições (sentado), rapidamente ganhou o lugar a André Almeida e assumiu-se como um porto-seguro do ataque dos encarnados. Defensivamente ainda muito permeável, mas a experiência trará, com certeza, essa capacidade e “esperteza” a Nélson.

Desilusão

  • Rafa. Os 16 milhões pesaram no craque português. Jogo após jogo, a qualidade era visível, o transporte de bola, o drible, o virtuosismo a lembrar Hazard. Mas faltou sempre critério no último passe, na hora de rematar, de matar a jogada, algo que não faltou a jogadores claramente mais talentosos que o português, mas mais decisivos para o Benfica. Na próxima época, Rafa terá de ser capaz de superar o seu bloqueio e demonstrar porque razão vale 16M. E aí poderá, até, almejar voos mais altos.
Um dos “Flops” do ano. (Foto: Record)

Casos bizarros

  • O desaparecimento de Horta. De contratação inesperada, a titular, a lesionado, a não-convocado. O percurso de Horta no Benfica desafia toda a lógica e aproxima-se de um romance kafkiano. Apenas poderá ser explicado por jogadas de bastidores que não ficam bem a ninguém. Com isto, perde o André e perde o Benfica.
  • O lugar cativo de Salvio. A dada altura da época, o 11 do Benfica era fácil de adivinhar: era Salvio e mais 10. Não sou fã do argentino, mas reconheço a importância de “Toto” (não consigo pensar numa alcunha melhor) na equipa. Contudo, creio ser inexplicável o estado de graça de Salvio que, exibição pobre atrás de exibição pobre, manteve o lugar, enquanto todos os outros extremos sorteavam quem seria titular.
  • Celis, Danilo e Felipe Augusto. O colombiano surge de pára-quedas no SL Benfica, nunca tendo demonstrado capacidade para estar no plantel do tetracampeão (tri, à altura). Contudo, RV lança o médio várias vezes, por vezes até à frente de Samaris, esperando encontrar algo que justificasse o investimento (?). A gota de água veio com o Besiktas, em casa, e Celis acabou a época no Vitória SC, a suplente. Por outro lado, a gestão de Danilo nunca pareceu clara. O brasileiro, que já há alguns promete muito e demonstra pouco, nunca foi verdadeira aposta, apesar de reunir as condições para suprir a ausência de Renato. Termina a época emprestado ao Standard. Por fim, Felipe Augusto foi contratado para fazer de Danilo, quando o SL Benfica já havia despachado Danilo. Para além disso, Felipe Augusto, altamente propenso a lesões, veio aumentar a conta do hospital de campanha da Luz. Nunca demonstrou valias suficientes para justificar a sua presença no plantel, muito menos a ultrapassagem de Horta e Samaris na corrida ao meio-campo.
O “sacrificado”. (Foto: SAPO Desporto)

Notas soltas

  • A explosão de Gonçalo Guedes. Com mais coração que cabeça, o jovem foi um dos obreiros da excelente primeira volta de campeonato e peça preponderante durante a crise de lesões.
  • O capitão Luisão. Aos 36 anos, Luisão carimbou uma das suas melhores épocas ao serviço do clube da Luz, sendo o central mais constante durante a época e um líder dentro e fora do campo.
  • Tolerância 0 para Carrillo. O peruano tem um estilo de jogo “molengão”, mas já o tinha no SCP e talento e inteligência nunca lhe faltaram. O ano de paragem adormeceu algumas qualidades, principalmente físicas, mas não se compreende a aversão do público benfiquista que se mostrou sempre profissional e que nunca deixou abater pela falta de oportunidades e má gestão da sua utilização.

E, após todas estas pequenas análises, creio que a época encarnada foi francamente positiva e calou inúmeros críticos, grupo no qual me incluo, havendo, no entanto, MUITO espaço para crescer e melhorar.

pizzinoticiasaominuto.jpg?fit=1024%2C439&ssl=1
Pedro AfonsoMarço 29, 20175min0

Pizzi será, nesta altura e fruto de uma época recheada de lesões para Jonas, o melhor jogador do Benfica e, ainda que discutível, o melhor jogador do Campeonato Português. Um jogador que pensa o jogo mais depressa que todos aqueles que o rodeiam, mas que, em virtude de uma péssima construção do plantel benfiquista, se vê obrigado a jogar num meio-campo a dois. Exigem do transmontano que seja um 8, quando a sua natureza lhe pede que seja um 80.

Jogar em 4x4x2 não é pêra-doce. A formação da moda em Portugal deve o seu estatuto ao técnico da Amadora, Jorge Jesus, que aperfeiçoou uma tática que havia sido esquecida nos últimos largos anos, em detrimento de um 4x3x3, mais coeso, mais equilibrado, mais fácil de implementar. Não deixa de ser curioso que os anos mais proveitosos do SL Benfica sob a tutela do atual técnico leonino aliassem ao médio-defensivo recuperador de bolas um verdadeiro médio área-a-área, um jogador capaz de disputar todas as bolas como se fossem a última, de dar tudo o que têm, e às vezes o que não tem, para condicionar o jogo do adversário, e ainda ser capaz de transportar a equipa às costas, queimando linhas e abrindo espaços. Ramires era exímio nesta tarefa, Enzo Pérez conferia à equipa um pouco mais de criatividade, fruto do seu início de carreira a médio-ala e Witsel pautava o jogo como ninguém, fazendo crer todos aqueles que o viram jogar que passou ao lado de uma carreira brilhante.

Quando Rui Vitória herda a equipa encarnada no passado ano desportivo, percebe que um trabalho de seis anos não deve ser descurado. Bebendo das bases deixadas pelo seu antecessor, foi capaz de incutir novas rotinas, mais em linha com as suas ideias, mudar comportamentos defensivos e ofensivos, afinar a máquina à sua maneira. Mas a essência da equipa continua lá, uma equipa que joga em 4x4x2 clássico, que o re-inventa e recebe elogios daquele que será talvez o melhor treinador da atualidade, Pep Guardiola. A história da época passada toda a gente a sabe, mas há um pequeno pormenor que coincide com a rápida subida de rendimento do SL Benfica e a caminhada triunfal até ao Marquês: a entrada de Renato Sanches no 11.

O 8 e o 80 [Foto: A Bola]

A entrada do médio bávaro foi decisiva por duas razões: pela sua força física e irreverência e pela migração de Pizzi para a ala. A primeira razão valeu a Renato uma transferência estratosférica para o Campeão Alemão, a segunda razão valeu a Pizzi a melhor forma da sua vida (o carrossel Benfiquista agradece!). Contudo, a saída do jovem prodígio português deixou um vazio no meio-campo benfiquista cuja importância foi largamente descurada pela Estrutura Benfiquista. Num Verão longo, o SL Benfica contrata Danilo e André Horta, acabando por dispensar o primeiro na Janela de Transferências de Inverno, e “encostando” o segundo, após um início fulgurante, mas que rapidamente deixou claras as limitações táticas e fisícas do jovem benfiquista. O bombeiro de serviço é Pizzi que, jogue onde jogar, não sabe jogar mal. Assume-se como o Maestro do meio-campo encarnado, pautando o jogo, distribuindo, fazendo jogar bem e bonito. Tem tanto controlo sobre o futebol encarnado que, quando está mal, a equipa joga mal, e quando está bem, a equipa joga bem.

O Carrossel Benfiquista [Foto: Sapo]

Mas Pizzi não é um 8. Não o obriguem a jogar simples, a correr desenfreadamente com a bola, arrastando adversários, “abalroando” opositores, recuperando defensivamente quando o seu parceiro de meio-campo não está lá. Se Pizzi soubesse defender tão bem como sabe atacar, não estaria em Portugal. Com as devidas diferenças, imaginem que o Barcelona jogava com Iniesta e Busquets no meio-campo, em 4x4x2. Iniesta nunca seria o Deus do Futebol que é hoje. Da mesma forma que Pizzi, com as suas tarefas defensivas acrescidas, nunca poderá atingir o seu total potencial e esplendor, porque nasceu para jogar de frente para a baliza e apenas a pensar no próximo passe de rotura.

Mas há opção melhor?

Infelizmente, não. Nem Danilo nem Horta se mostraram suficientes para colmatar a saída de Renato. E a contratação de Filipe Augusto é quase anedótica, tendo em conta o seu perfil quase idêntico a Danilo e o seu historial de lesões. Pizzi é um excelente jogador e um 8 competente, que, contra equipas com um bloco baixo (como 90% dos jogos da Liga NOS), assume um papel importantíssimo, construindo desde trás. Mas contra grandes equipas, a equipa de Rui Vitória sofre, e sofre muito por culpa desta incompetência defensiva de Pizzi. Se somarmos a estas limitações a intermitência física de Fejsa e a regressão absurda de Samaris como trinco (“morde” quando não deve “morder” e “fica” quando não deve “ficar”), a equipa de Rui Vitória ressente-se (e muito) deste mau desenho do plantel.

Até ao final da época, o Benfica estará condenado a “sofrer” defensivamente e a ganhar ofensivamente, num desequilíbrio que não convém a nenhum grande. E mesmo que se ganhem os jogos, perde o futebol. O génio do médio Benfiquista não se pode simplificar. Não se pode passar do 80 para o 8.

O esforço de um Génio [Foto: RR]

Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS