Bruno Costa Jesuíno, Author at Fair Play

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Bruno Costa JesuínoAgosto 1, 20199min0

“As finais não são para jogar, são para ganhar”, é uma daquelas frases chavão da linguagem futebolística. Premissa muitas vezes dita por inúmeras figuras de proa do futebol, como é o caso de José Mourinho e do vice-presidente da FPF, Humberto Coelho, que o fez na antevisão da final do europeu sub19, onde Portugal perdeu com a Espanha por 2-0. No entanto, pelos mais variados motivos, nem sempre é possível ganhar e, quando tal não acontece, há que ressalvar o que de bom e de menos bom aconteceu. Vamos centrar-nos nos 7 motivos para um vice campeão sorrir.

1. Personalidade da equipa de Portugal

Ao longo de toda a qualificação e no europeu, a seleção de Portugal mostrou sempre uma enorme personalidade dentro de campo. Com uma forma muito própria de jogar, jogadores identificados uns com os outros e a saber o que fazer tanto com e sem bola. Uma equipa virada para o ataque, que nunca adormece sob a vantagem de um golo e que dificilmente se deixa abater em momentos em que fica por baixo no jogo.

2. Lote alargado de jogadores

Esta é uma geração recheadas de excelentes jogadores. Podemos percebê-lo pelo número de jogadores que não puderam estar na convocatória por estarem a fazer a pré-época com a equipa principal dos respectivos clubes. E se, aparentemente deixa a equipa menos forte, por outro lado abriu espaço a que outros talentos, por norma segundas opções, mostrassem o seu valor. Entre os não convocados esteve Pedro Neto, da Lázio, o grande destaque na qualificação para o europeu, e que em 2017 já se tinha estreado no futebol sénior (na altura no Sporting Braga), tendo inclusive marcado um golo. Este ano foi promovido aos sub20, onde integrou o lote de convocados do Mundial sub20. Pedro Álvaro, defesa-central Tiago Dantas (médio-ofensivo) e Nuno Tavares (defesa esquerdo) foram chamados para fazer a pré-época com o Benfica, sendo que este último tem sido dos jogadores mais utilizados por Bruno Lage. O extremo ex-Liverpool, Rafael Camacho é um das grandes esperanças do Sporting para o ataque desta época e capitão Romário Baró (médio-ofensivo) também estão a ganhar a ganhar espaço nas escolhas de Marcel Keizer e Sérgio Conceição, respectivamente. Umaro Embaló, extremo do Benfica, ficou ausente por lesão.

3. Cinco jogos, três goleadas

Nos cinco jogos disputados Portugal goleou ‘todos’ os adversários… com excepção da Espanha. Na estreia e logo diante da Itália, uma das quatro seleções favoritas à conquista do europeu, além de Espanha, França e Portugal. Os jovens lusos, não deram qualquer hipótese à “squadra azzurra”, e o resultado apenas foi surpreendente para quem não viu o jogo. A supremacia de Portugal foi tanta que um resultado bem mais volumoso (e histórico) não teria surpreendido. (ver artigo publicado no Fair Play a seguir ao jogo). A fechar o grupo e na meia final, a seleção aplicou chapa 4, à Arménia e à República da Irlanda, que na fase grupo apenas perdeu com a França com um golo perto do fim.

Nota: Nos jogos com a Espanha, o primeiro foi muito equilibrado, com um empate justo a um golo, sendo que na final os ‘nuestros hermanos’ se superiorizaram à qualidade lusa.

4. Valorização ainda maior do jogador nacional

Ao jogador português sempre foi reconhecida qualidade, mas talvez nunca tenha surgido tanto talento geração após geração. Basta lembrar que além dos jogadores referidos no ponto 2, esta é a geração do prodígio João Félix que recentemente entrou no top 5 das transferências mais caras de sempre do futebol mundial. No entanto, Félix muito cedo saltou etapas, com apenas 2 jogos nos sub19 (2 jogos e 2 golos nos sub18), estreou-se aos 17 anos nos sub21, onde fez 4 golos nos 10 jogos realizados. Actualmente é já internacional A.

De recordar, que mesmo sem Félix, Portugal foi campeão europeu de sub17, e esteve muito perto de ser campeão europeu sub19 duas vezes consecutivas.

5. Novos talentos confirmados

Neste lote de 21 jogadores, muitos deles já eram (quase) indiscutíveis no onze de Filipe Ramos, como são os casos de Celton Biai, Tomás Tavares, Gonçalo Loureiro, Diogo Capitão e Gonçalo Ramos.

Com Tomás Tavares a ser indiscutível à direita ou à esquerda, Tiago Lopes, no primeiro jogo, e Costinha, nos restantes, assumiram a titularidade. Ambos cumpriram bem, mas Costinha mostrou-se mais acutilante ofensivamente. Com Tomás Tavares, que joga sempre bem, fez a dupla laterais mais forte.

Com a ausência de Pedro Álvaro, Gonçalo Cardoso, assumiu-se com um pilar no eixo defensivo. O jogador deste grupo com mais jogos na primeira liga passou este teste com distinção. Personalidade forte, inteligente na antecipação e faz a diferença no jogo aéreo. Marcou no jogo de estreia do europeu.

Vítor Ferreira e Fábio Vieira, habituais suplentes, tinham a dificílima missão de substituir duas das maiores promessas do futebol nacional: Romário Baró e Tiago Dantas. No entanto, os dois jogadores que venceram este ano Youth League (liga dos campeões sub19) ao serviço do FC Porto, não acusaram a pressão e assumiram desde o primeiro minuto a responsabilidade. Vítor, um 8 completo, ao estilo de ‘João Moutinho’, fisicamente não é muito forte mas tem um rotatividade e uma inteligência fora do comum.  A sua velocidade de execução e de raciocínio deste médio interior pedem auguram um futuro risonho, a curto ou médio prazo, assim que Sérgio Conceição o entenda. Ao seu lado, e com mais liberdade ofensiva, Fábio, um criativo com características de maestro, procura muitas vezes o último passe e sua capacidade de drible permite serpentear entre os adversários. A camisola 10 assenta-lhe bem.

Na frente, com as ausências de Pedro Neto, Rafael Camacho e Umaro Umbaló, abriram espaço para os extremos João Mário e Félix Correia. O primeiro um extremo rápido e objectivo, com boa capacidade de decisão, e já com 20 jogos (4 golos) na equipa B. No outro lado, o jogador formado no Sporting, comprovou o porquê de ter sido recentemente contratado pelo Manchester City. Extremo veloz e com grande capacidade de drible. O estilo ‘selvagem’ faz lembrar Bruma com a mesma idade. Foi o português em maior destaque na final com Espanha e marcou e assistiu no jogo de estreia. Destaque ainda para a ‘arma secreta’ Tiago Gouveia, um extremo rápido, com muita potência e com uma apetência para ‘inventar’ golos do nada. Destacou-se, na fase de grupos, diante da Espanha, com as suas transições rápidas, e contra Arménia, onde deixou a sua marca com dois golos.

Deste lote de jogadores que não eram normalmente titulares, quem mais impressionou foram Vítor Ferreira, Fábio Vieira e Félix Correia.

6. Destaques entre os que já eram destaque

Entre convocados de Portugal, entre os que não foram por estarem a fazer pré-época com os clubes, e os que que foram aposta de primeira desde a qualificação, destacaram-se alguns nomes, que merecem ser individualizados.

Tomás Tavares. Chamar-lhe lateral parece pouco face à inteligência que demonstra e pela forma como ocupa tanto as duas laterais como posições mais centrais sempre que jogo assim o pede. Longe de ser o típico lateral de corredor, troca a velocidade e condição física, pela qualidade técnica e elegância de quem decide sempre bem e com critério. Quem ainda não o viu jogar, e quiser ter uma ideia, em termos de movimentações, pode ver algumas parecenças com os últimos laterais direitos alemães: Philipp Lahm, já retirado, e Joshua Kimmich, actual dono do lugar.

Na ausência de Pedro Álvaro, Gonçalo Loureiro assumiu-me como o patrão da defesa, sempre super-concentrado, agressivo e com um posicionamento que lhe permite controlar a profundidade. Pode e deve crescer no momento ofensivo, mas a forma como defende faz lembrar Rúben Dias.

Na baliza, Celton Biai destaca-se por ser um guarda-redes com características do que estamos habituados nos guarda portugueses. Muito forte no controlo da profundidade e a jogar com os pés, seja em passe curto ou longo. Um guarda-redes moderno que apresentou também bons reflexos e, continuar a crescer, pode chegar ao plantel principal do Benfica.

Na frente, Gonçalo Ramos, conquistou o título de melhor marcador do europeu, mesmo tendo realizado apenas três jogos – na fase de grupos não esteve no empate com a Espanha e na goleada à Arménia – marcou à Itália, na estreia, e fez um hattrick na meia final diante da República da Irlanda. Gonçalo tem sido uma feliz adaptação de um médio ofensivo a falso 9, que começou a apresentar resultados no clube. Vai demonstrando, cada vez mais, bons movimentos e pormenores de avançado, aparecendo muitas vezes no sítio certo. Com a escassez de avançados na formação, e continuando a evoluir, pode vir a tornar-se numa aposta a médio prazo no clube. Esta época deverá ter no Benfica B, onde já participou em 6 jogos, o espaço ideal para cimentar esse crescimento.

7. A importância de saltar etapas

Melhor que formar bem é formar bem a ganhar. No entanto, ao nível da formação, apesar de importante, ganhar não deve ser a prioridade. Os jogadores, aqueles que demonstram ter o um talento especial, quando se destacam entre os da sua idade, devem ser expostos a novos estímulos sob o perigo de estagnarem. Por exemplo, não fazia sentido descer João Félix que aos 17 anos já jogava nos sub21 e aos 19 chegou à seleção A. Neste momento, sem desprimor para o marco que é ser campeão ou vice-campeão europeu, é mais importante fazerem a pré-época nos seus clubes, para desenvolver as suas qualidades com e diante de jogadores mais experientes. Romário Baró, Nuno Tavares e Rafael Camacho (entretanto lesionou-se), são três exemplos de jogadores que nesta fase de testes, já garantiram um lugar no plantel principal a tempo inteiro. Pedro Àlvaro e Tiago Dantas, irão começar repartir-se entre equipa A e, principalmente, equipa B.

Crédito da foto: Record

Pode conhecer as caras (e os sorrisos) dos convocados no vídeo do Canal 11 “Europeu sub-19: os eleitos de Filipe Ramos apresentam-se”.

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Bruno Costa JesuínoJunho 17, 20196min0

“Amanhã é feriado c******!”. Foram estas as famosas palavras de Éder quando Portugal conquistou o europeu de 2016! Passados três anos, a seleção volta a vencer e, no dia a seguir, foi mesmo feriado. Certamente que não foram efeitos do pedido de Éder, até porque é um feriado já antigo, mas o facto deste título ter acontecido na véspera do Dia de Portugal deu um misticismo especial a mais uma epopeia histórica dos nossos “conquistadores”.  Parte mais bélica de lado, Portugal foi um justo vencedor e, se na meia final prevaleceu a qualidade individual de Cristiano Ronaldo, no jogo decisivo da Liga das Nações, toda a equipa esteve em grande plano.

Foi preciso Ronaldo para desacertar relógio suíço

No primeiro encontro, percebeu-se a ideia de Fernando Santos ao querer juntar dois dos jogadores em melhor forma entre os convocados – Bruno Fernandes e João Félix – aos indiscutíveis Ronaldo e Bernardo Silva.

A estratégia adotada foi uma mistura entre um 442 losangulo e um 433, com muita mobilidade na frente. Ronaldo tanto jogava em cunha com Félix como abria na esquerda. Bernardo tanto aparecia nas costas dos dois avançados como encostava ao flanco direito, ficando muitas vezes Félix como jogador mais adiantado. E Bruno Fernandes, com mais liberdade que William, ia aparecendo entre o centro e a direita, mas com as trocas entre Bernardo e Félix, muitas das vezes aparecia encostado à direita.

Bons jogadores podem sempre jogar juntos, mas a pouca rotina neste sistema e a entrada dos ‘novos’ Bruno Fernandes e Félix, prejudicou principalmente estes dois, que foram os mais apagados e nunca encontraram o espaço certo. Se o avançado do Benfica sentiu falta da referência ofensiva à frente dele, o médio do Sporting andou demasiadas vezes fora do centro do jogo. O melhor momento da primeira parte foi mesmo o ‘tomahawk’ de Ronaldo num livre indefensável. É verdade que nos últimos anos não tem concretizado muitos, mas quando acerta bem e vão direcionados à baliza: são indefensáveis.

Na etapa complementar, num lance confuso e duvidoso, com potencial penalty nas duas áreas, o árbitro acabou por assinalar a primeira infração, possibilitando à Suíça empatar com um penalty de Ricardo Rodríguez. A seleção não tremeu, e com a entrada de Gonçalo Guedes para o lugar de Félix, a equipa estabilizou mais em 433. E melhorou. Ronaldo mais central, trocava algumas vezes com Guedes, que tem rotinas tanto a jogar na linha como no centro. A partir daí Portugal melhorou e perto do fim fez-se magia. Rúben Neves, como já é sua imagem de marca, fez um passe milimétrico a sobrevoar todo o meio campo e defesa helvética, no flanco esquerdo e já junto à área, Bernardo faz uma receção orientada só ao alcance dos predestinados, e encontra o capitão na área. Vemos que a bola vem a saltitar e que é um remate de execução difícil… pelo menos para os comuns mortais. Mas Portugal tem Ronaldo, chega mais rápido que os defesas, e aplica um remate de primeira sem qualquer hipótese para o guarda-redes. Este momento ‘assentava que nem uma luva’ como um final perfeito, mas ainda havia direito aos créditos finais, tal como nos filmes de super-heróis. No tudo por tudo da Suíça, a seleção lusa recupera rapidamente a bola e Ronaldo é lançado na profundidade. O ‘melhor marcador de sempre de uma seleção europeia’, faz uma diagonal da esquerda para dentro, tira com mestria um suíço da frente e com espaço para o remate (e já sabemos como esta história costuma acabar), dispara em arco para o fundo das redes. Mais um hattrick que serve para lembrar os mais esquecidos o porquê de ele ser considerado um dos melhores da história, até porque aos 34 anos(!) continua com a mesma vontade de escrever novos capítulos.

Portugal esmaga ‘laranja’ pouco ‘mecânica’

Na grande final, Portugal mexeu três pedras no onze: na defesa, onde José Fonte já tinha entrado no jogo anterior para o lugar do lesionado Pepe. As outras duas foram por opção técnica, Danilo por Rúben Neves, dando mais músculo ao meio campo e soltando mais William e Bruno Fernandes, desta vez em posição mais central. O 433 surgiu mais acentuado, com Guedes no lugar de João Félix, ficando mais na esquerda e Ronaldo mais no centro, com Bernardo a deambular da faixa direita para dentro. O jogo interior funcionou muito melhor, muito pelas diagonais de Bernardo e Guedes, pedindo-se aos laterais Nélson Semedo e Raphael Guerreiro para darem largura. Além disso, a equipa esteve muito mais forte na transição defensiva, ganhando inúmeras vezes a bola no meio campo ofensivo. Ao intervalo Portugal tinha 12 remates contra apenas 1 da Holanda.

Na segunda parte, a Holanda entrou melhor, mas rapidamente Portugal voltou à mesma toada. Até que Bernardo arranca até à área holandesa e faz um passe atrasado para o espaço vazio, onde aparece Guedes que, com um remate fortíssimo, abriu o marcador. O extremo/avançado, que já tinha entrado muito bem no jogo anterior, foi decisivo e comprovou o bom final de época no Valência, em que nos 10 últimos jogos marcou 8 golos. De acrescentar a fantástica disponibilidade que dá o jogo, seja com ou sem bola. Incansável e mereceu o golo. Perto do fim, foi substituído pelo também rapidíssimo Rafa, que ainda foi a tempo de ajudar a esticar o jogo, com várias arrancadas que deixaram a defesa holandesa em sentido.

Vitória justa de Portugal, num dos jogos mais consistentes da seleção no reinado de Fernando Santos.

Destaque ainda para as prestações de Rúben Dias, eleito o melhor jogador da final, que se assumiu como um verdadeiro líder, principalmente depois da lesão do experiente Pepe. A forma como faz a leitura dos lances, permiti-lhe ganhar muitos duelos, seja pela antecipação ou pelo controlo da profundidade. Nélson Semedo, mais tímido no primeiro jogo, fez finalmente uma grande exibição pela seleção. William, criticado por muitos, mas joga como poucos. Bernardo, a assumir cada vez mais o jogo e a responsabilidade tal como se lhe pedia. E Ronaldo a ser Ronaldo.

E agora Portugal? O que aí vem?

Os jogadores vão de férias com a sensação de missão cumprida. E bem cumprida. Mas no início da próxima época, surge uma jornada dupla importante para a qualificação para o próximo europeu. A 7 de Setembro, tem hipótese de fazer a ‘desforra’ do empate de Março diante da Sérvia, e depois cimentar o segundo lugar na receção ao Luxemburgo, que tem estado muito bem nesta fase de qualificação.

Parece consensual Fernando Santos apostar no sistema que apresentou na final, pois há pouco tempo de treino, e os jogadores respiram melhor neste modelo. Ao mesmo tempo que os ‘novos jogadores’ vão criando rotinas com o grupo e se vai trabalhando paralelamente outras opções táticas. Além disso, com as opções que temos, ‘o Ronaldo atual’, é muito mais importante perto da área do que em fases de construção. A seleção tem quem construa melhor, mas ninguém que finalize como ele. Aliás, isso ninguém tem.


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