Gonçalo Melo, Author at Fair Play

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Gonçalo MeloAbril 25, 20216min0

O Clube Desportivo Santa Clara, fundado em 1927, é de forma unânime reconhecido como a grande força desportiva do arquipélago dos Açores. Com 5 participações na mais alta divisão do futebol nacional, o clube atravessa provavelmente o melhor momento da sua história, estando na terceira temporada consecutiva no convívio dos grandes, e vindo da melhor classificação de sempre da historia do clube na primeira divisão, com o 9º lugar da época passada.

João Henriques foi o escolhido para dar cara ao projeto da equipa aquando do regresso à primeira divisão, e o técnico correspondeu. Em 2018/2019 um sólido 10º lugar, e um ainda melhor 9º em 2019/2020.

Esta época, depois da saída do anterior técnico, temeu-se um estagnar ou até recuar do projeto ambicioso do atrativo Santa Clara, sobretudo devido ao perfil algo defensivo e muito focado no pragmatismo do novo timoneiro, Daniel Ramos.

Medos justificáveis, mas que podemos agora afirmar, totalmente infundados. A equipa açoriana pode não apresentar um futebol tão atrativo como nos dois anos anteriores, mas o nível exibicional não baixou como muitos esperariam, tendo em conta não só a equipa técnica mudou, como o clube foi perdendo peças fundamentais nos últimos dois anos, como Bruno Lamas, Thiago Santana, Kaio Pantaleão, Chico Ramos, Osama Rashid, Guilherme Schettine e Zaidu.

Apesar das perdas, o clube tem conseguido colmatar as várias saídas com a contratação de jogadores de muita qualidade, que se juntam a nomes experientes do plantel como o guarda redes Marco, Ukra, Anderson Carvalho ou João Afonso.

Posicionado num confortável sétimo posto, a morder os calcanhares ao Vitória SC, o Santa Clara apresenta, apesar das perdas, um plantel muito competitivo e com talento para almejar outros patamares.

Na baliza mora um dos mais completos guarda redes do campeonato. Marco Pereira pode não ter o perfil físico do guarda redes moderno, mas é dotado de reflexos ao nível dos melhores, e junta a isso um extraordinário jogo de pés, provavelmente o melhor em Portugal.

Rafael Ramos tem sido o senhor da lateral direita, relegando o experiente Pierre Sagna para o banco. O pequeno lateral de 26 anos formado no Benfica tem sido um dos melhores do campeonato na sua posição, vindo mais maduro e experiente da sua experiencia transatlântica em Orlando. Fortíssimo fisicamente, tem pilhas que duram 90 minutos, destacando-se pela sua velocidade e pelos seus cruzamentos tensos.

À esquerda, Mansur foi incumbido de colmatar a saída de Zaidu. O internacional jovem canarinho tem correspondido, sem grandes exuberâncias somando 21 jogos no campeonato, contra os 8 de João Lucas.

No eixo defensivo o internacional venezuelano Mikel Villanueva chegou e pegou de estaca ao lado de Fábio Cardoso, um dos elementos mais cotados da equipa. A eficácia desta dupla remeteu para plano secundário João Afonso, que era um titular regular com João Henriques. Fábio Cardoso e Villanueva são os principais responsáveis pela boa defesa do clube açoriano, que soma 30 golos sofridos, apenas mais 2 que o SC Braga e 6 que o FC Porto.

Fábio Cardoso é um dos esteios da equipa

 

No meio campo, Anderson Carvalho tem sido presença firme na “posição 6”, contribuindo com a sua experiencia, energia e cultura tática. Próximo do brasileiro, uma das grandes “trends” no nosso campeonato.

Hidemasa Morita, internacional japonês contratado ao Kawasaki Frontale em Janeiro, chegou para o lugar de Rashid, capitão e figura fundamental no xadrez açoriano. Uma enorme responsabilidade, mas que o japonês aceitou, chegando e brilhando com a sua qualidade de passe, visão de jogo e maneira como pauta o ritmo de jogo e o futebol ofensivo da equipa. A juntar à sua qualidade ofensiva, Morita contribui ainda defensivamente com a sua intensidade e excelente ocupação de espaços.

Morita chegou em Janeiro e já conquistou a massa adepta açoriana

 

Esta dupla mais trabalhadora permite a Lincoln, o mais criativo e habilidoso do trio de meio campo, focar-se quase exclusivamente na manobra ofensiva. Quase um “10” clássico, o brasileiro ex-Grêmio gosta de cair nas alas para procurar desequilíbrios, desguarnecendo por vezes o miolo.

Para além do trio habitualmente titular, Daniel Ramos conta ainda com opções como o jovem Nené, o ex-Vitória FC Costinha, que pode atuar como 8 ou como 10, ou ainda o reforço de Inverno Rúben Oliveira.

Por fim, falta mencionar o ataque. Daniel Ramos confiou no que de bom foi feito e manteve um os três homens da frente, com Carlos Júnior a afirmar-se como o único indiscutível no trio mais ofensivo. O extremo brasileiro que já passou pelo Rio Ave, está a ter a melhor época desde que chegou a Portugal, somando 10 golos e 6 assistências em 24 jogos, ele que vai alternando entre a esquerda e a direita.

Carlos Júnior é o grande nome do Santa Clara esta época

 

O extremo oposto tem variado mais, com o reforço de inverno Allano a dividir o protagonismo com os experientes Ukra e Diogo Salomão, e ainda com o velocíssimo Jean Patric.

No eixo do ataque, pensou-se que Daniel Ramos não conseguisse impedir os pesadelos com a saída de Thiago Santana, uma vez que mesmo tendo saído em Janeiro, o brasileiro continua a ser o segundo melhor marcador da equipa. No entanto, o brasileiro Crysan soube aproveitar a oportunidade para se fixar em definitivo como ponta de lança, ele que jogava muitas vezes como extremo. O brasileiro tem 3 golos na liga até ao momento.

Mas para descansar ainda mais o técnico e os adeptos dos bravos açorianos, chegou em Janeiro o jovem Rui Costa, avançado com passagens pelo FC Porto B e pelo Portimonense. Vindo a custo zero do Deportivo, o jovem de 24 anos soma 4 golos em 10 aparições no campeonato, mais que o seu concorrente direto, numa luta acesa pela herança de Thiago Santana.

Um clube histórico, humilde, que representa uma região que necessita desta representatividade do Santa Clara. Os açores merecem e devem estar na primeira liga. E com esta estrutura e forma de trabalhar, vender bem e contratar talento deverão conseguir manter-se por muitos e bons anos. Um clube especial, de uma região especial, que tem mostrado a muitos clubes que é possível jogar na primeira liga com qualidade, e que o talento pode ser encontrado em todos os campeonatos.

Conseguirá o Santa Clara manter a toada até ao fim e ameaçar o sexto lugar do Vitória SC?

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Gonçalo MeloMarço 24, 20217min0

Arranca já este fim de semana, no Bahrain, a temporada de 2021 da rainha dos desportos motorizados, a Fórmula 1. No ano que sucede ao ano mais atípico da história da modalidade, e que antecede o ano das grandes mudanças em termos de regulamentos e orçamentos, parece pairar no ar a ideia de uma temporada mais competitiva do que as anteriores.

Apesar de já estarmos acostumados ao constante “bluff” de Toto Wolf e da Mercedes, alguns especialistas afirmam mesmo que a Red Bull poderá este ano ter uma palavra mais forte a dizer na luta pelos primeiros lugares da grelha, devido à redução de downforce e ao aumento do peso permitido das unidades de potência de cada monolugar.

Na luta do meio do pelotão, várias equipas parecem estar em condições de batalhar por pontos. A McLaren e a nova Aston Martin partem aparentemente em vantagem na luta pelo terceiro lugar nos construtores, com a Alpine, a Ferrari, e quiçá a Alpha Tauri a estarem também dentro desta luta.

Por outro lado, a Alfa Romeo (este ano aparentemente mais rápida), juntamente com a Haas e a Williams, terão de trabalhar muito para pontuar com alguma regularidade.

Com base nisto, e no talento e capacidade dos pilotos, apontamos alguns pilotos que vão estar à altura, e outros que achamos mais provável virem a desiludir.

As confirmações

Daniel Ricciardo

Depois de dois anos na Renault, onde foi claramente o melhor piloto, batendo tanto Hulkenberg como Ocon, o Honeybadger transferiu-se para a “nova” McLaren, histórica equipa britânica que tem nos últimos anos deixado indícios de que o regresso à luta pelos primeiros lugares está para breve.

E dificilmente a McLaren poderia ter escolhido melhor piloto para dar continuidade a esta melhoria.

Ricciardo já provou ter o talento e a velocidade para se bater com os melhores por poles e por vitórias, e a sua capacidade nas ultrapassagens poderá ser decisiva caso o novo motor mercedes se mostre fiável (quem se lembra daquela corrida na China em 2018). Um sério candidato a lutar por pódios em 2021 na Fórmula 1.

Lando Norris

À semelhança do seu parceiro australiano, Lando Norris já mostrou ter os skills e o ritmo de corrida para ser uma presença assídua no pódio, caso o seu McLaren lhe dê essa possibilidade.

Um dos jovens mais empolgantes da grelha, terá em 2021 o objetivo de vencer o seu companheiro de equipa, algo que não conseguiu em 2019 e 2020 com Sainz, e, muito provavelmente, dificilmente vai conseguir com Ricciardo.

Sebastian Vettel

Novo ano, nova equipa, novo Seb. A pressão que sofria na Ferrari parecia ser impossível de ultrapassar, sendo que no último ano a situação escalou. Em 2021, u<dá-se uma mudança de ambiente com a chegada à Aston Martin, a antiga Racing Point, equipa que quer a médio prazo lutar pelo título, como já afirmou o seu dono, Lawrence Stroll.

Numa equipa que no ano passado tinha provavelmente o terceiro carro mais rápido da grelha, é de esperar que o tetracampeão do mundo volte aos dias bons, e que consiga voltar aos resultados e exibições que fazem dele um dos melhores de sempre da Fórmula 1.

Pierre Gasly

Depois da primeira vitória em 2020 em Monza, é esperado um ano de grandes resultados para o francês da Alpha Tauri. O jovem de 25 anos só tem mais um ano de contrato com a equipa secundária da Red Bull, e os relatos sobre o interesse da Alpine vão se intensificando.

Com um motor Honda cada vez mais afinado, Gasly promete estar de forma recorrente na luta pela Q3 e pelos pontos.

George Russell

Nenhum fã de fórmula 1 olha para George Russell sem sentir pena e revolta. O jovem britânico é um dos mais talentosos pilotos da grelha, e no ano passado, quando foi chamado a substituir Lewis Hamilton, fez pole e, não fosse um erro pouco comum e por isso muito suspeito da Mercedes nas boxes, teria também ganho a sua primeira corrida na primeira vez que pilotou o carro da marca alemã.

Para 2021, mais um ano ao volante de um Williams, que se espera mais competitivo, de modo a permitir a Russell amealhar alguns pontinhos ao longo da temporada.

 

As possíveis desilusões

Valtteri Bottas

Mais um ano com o privilégio de conduzir o melhor e mais rápido carro da grelha. E provavelmente mais um ano em que vai ser apenas escudeiro de Hamilton. Bottas sabe que o seu lugar apenas está garantido, uma vez que o finlandês não oferece qualquer tipo de concorrência ao campeão do mundo, algo que a Mercedes preza, sobretudo depois de experienciar aquele polémico ano de 2016.

Ainda assim, Bottas já fez questão de afirmar novamente que o seu objetivo é ser campeão do mundo, mas as melhorias aparentes dos Red Bull de 2021 vão provavelmente fazer com que acabe apenas em terceiro ou quarto na classificação.

Sergio Pérez

Uma das últimas confirmações para a época de 2021 foi a chegada de Checo Pérez à Red Bull. Será uma jogada de mestre da equipa austríaca? Ou será Checo apenas mais um piloto a ver a sua carreira estagnada devido à qualidade de Verstappen?

Todos sabemos que o jovem holandês é a cara da equipa, e que o objetivo de Christian Horner e da restante comitiva é dar a Verstappen condições de lutar pelo título. E bem! O holandês é um enorme piloto, e o ritmo de corrida que apresenta fez Pierre Gasly e Alex Albon parecerem pilotos medíocres. Qual a probabilidade das coisas serem diferentes com Pérez?

Carlos Sainz

O espanhol vem de dois excelentes anos na McLaren, mas o ambiente positivo a saudável a que está habituado, não irá encontrar em Maranello.

É visível que a Ferrari é uma casa a arder, sem um carro competitivo e com uma equipa liderada por pessoas sem carisma (Binotto) que não se importam de espezinhar pilotos com títulos conquistados e provas dadas na equipa, como aconteceu com Vettel e Raikkonen.

Acrescente-se que Carlos Sainz não tem o temperamento para aceitar ser número dois de ninguém (não foi para a Red Bull em 2019 muito por causa disso), e na Ferrari vai encontrar uma equipa que olha para Leclerc como o Messias que vai ser o novo Michael Schumacher, chegando, quem sabe ao número de títulos do alemão. Conseguirá Carlitos ultrapassar tudo isto e fazer uma boa época em 2021?

Fernando Alonso

Um veterano de regresso à Fórmula 1 e ao grupo Renault, para substituir aquele que foi o melhor piloto que a equipa francesa viu, provavelmente, desde o tempo do próprio Alonso ao volante de um Renault. Mas, aos 39 anos, a idade pode pesar. A Alpine não deverá ter um carro tão rápido como a McLaren e a Aston Martin, pelo que é exigido aos pilotos conduções soberbas para a equipa se manter na luta pelos 8 primeiros lugares.

Além disso, o seu temperamento complicado é uma imagem de marca, sendo que a McLaren começou a voltar ao topo precisamente depois da saída do espanhol.

Com outras equipas mais fortes pela frente, é de esperar um Alonso transtornado por não conseguir os pontos que deseja.

Sem mais a acrescentar, que venha a época 2021. Porque estamos em pulgas para ouvir “And it´s lights out, and away we go!”.


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