Arquivo de Bundesliga - Página 2 de 5 - Fair Play

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Bruno Costa JesuínoMaio 20, 20206min0

Há uns dias comecei a ver a mini-série “The English Game”, que fala sobre a origem do futebol. E, mais que uma vez, dei por mim a pensar escrever sobre o que ia vendo. E assim foi. Foram seis episódios que funcionaram como a inspiração da génese deste artigo. Um pouco como relembrar a origem numa altura de mudança.

Mas afinal do que fala o filme?

Antes de mais calma, detesto spoilers, logo não o vou ser. Mas posso dizer retrata a série de acontecimentos que despontaram o futebol profissional. Por coincidência, estreou na Netflix no mesmo mês que o futebol parou, e talvez por aí, despontou mais interesse pelas saudades de ver a bola a rolar. Sob um misto de acontecimentos fictícios e factos reais, conta a história de uma rivalidade que vai mexer com os poderes instaurados no futebol, na altura um desporto amador gerido e jogado quase em exclusividade pela classe alta. Até que…

Quando a paixão que a tudo origem, voltará a ‘vestir’ as bancadas?

Nesta mini-série, os adeptos são também um tema fulcral. Como a história do futebol conta, foi a paixão dos adeptos que fez com que um desporto de elites se tornasse o desporto de todos. Sendo muitas vezes, a única forma da classe operária deixar a sua marca na sociedade. Daí, e apesar de ter tido génese na elite, é muitas vezes apelidado de “deporto do povo”.

Depois do estado de emergência o futebol começa a regressar aos poucos. Ou pelo menos parte dele. Uma vez que um jogo de futebol com as bancadas despidas de público perde muito da sua essência. Mas razões mais altas se levantam, e para o futebol regressar em condições de segurança, muitas medidas têm que ser asseguradas. Começando pela mais óbvia, a ausência de aglomerados de pessoas.

Regressar, anular ou finalizar? Eis questão

Eis a grande questão do momento. A França finalizou o campeonato dando o título ao Paris SG, e usando a classificação aquando da paragem como classificação final, tanto a nível de lugares europeus com de descidas.

Outra hipótese que ainda se pondera, é anular os campeonatos actuais e não atribuir títulos. Neste caso, para decidir quem iria às competições europeias teria-se como base a classificação da época transacta ou, em alternativa, os lugares actuais. Ou seja, uma espécie de meio termo, para não descurar na totalidade a performance da época em curso. Num exemplo prático, no caso português, não oficializando campeão, o primeiro lugar até à jornada já jogada, seria o que teria acesso directo à Liga dos Campeões.

Por fim, a opção mais justa. O regresso à competição. Mas mais que ser justa ou não, é importante assegurar que há condições de segurança para levar avante. A Bundesliga foi o primeiro dos principais campeonatos a voltar à ação. Na maior parte dos países, os jogadores já voltaram aos treinos nos seus clubes e aponta-se para que muitos dos campeonatos regressem em junho.

Optar pela opção que francesa de homologar a classificação actual, quer se queira quer não, fará sempre lembrar a atribuição a medalha de ouro a quem vai à frente numa maratona interrompida ao quilómetro 31.

Mas afinal qual é a verdadeira razão por trás da decisão?

Óbvio que agora muitas vozes se levantam contra e a favor. Muitos pelas razões de segurança, totalmente ligítimas. Agora outros, puramente (ou quase) por razões clubísticas. Se for bom para o clube que se torce o campeonato deve parar. Se avançar nestas condições só acontece porque o rival não está em primeiro e que ganhar à força. Mas disto já estávamos habituados, no máximo um pouco esquecidos depois desta paragem sabática.

No entanto esquecem-se da principal razão, e é por isso que a maior parte dos clubes quer regressar à ação: a enorme dependência das receitas televisivas. Talvez só quem está o primeiro o negue, mesmo precisando desse dinheiro ‘como de pão para a boca’. Além disso, as também importantes receitas de bilheteira já foram, e mesmo na próxima época, será provável que os estádios por norma mais repletos de público fiquem restritos a metade, um terço, ou até um quarto da lotação.

E agora? O que aí vem?

O que nos espera a todos  nos próximos tempos é a grande questão. A resposta essa, nem os melhores especialistas a têm. Muitas suposições mas poucas certezas. Mas uma coisa é certa, a pandemia vai deixar marcas em toda a sociedade, e situações que até então levávamos como normais, vão deixar de o ser. E claro, todas as actividades, principalmente as mais sociais, sofrerão alterações drásticas que serão diluídas. Embora de forma muito lenta.

Assistir a um jogo sem público é como degustar aquele prato que adoramos… mal temperado.

Um jogo de futebol envolve multidões, os intervenientes directos e indirectos, mas principalmente os adeptos. Mesmo a nível televisivo, quem não se lembra de ver um jogo à porta fechada sem ‘sentir’ toda aquela envolvente gerada pelo público!? Face a analogia, assistir a um jogo sem público é como degustar aquele prato que adoramos… mal temperado.

A nível financeiro, o futebol vai sofrer com essas mudanças. Vai seguramente haver uma (muito) maior contenção financeira. As transferências milionárias, por valores cada vez mais altos, vão abrandar. Se muito se falava que a UEFA queria criar tectos salariais e para transferências, a pandemia veio acelerar esse processo.

Muitos clubes vão perder (ou deixar de ganhar) os contratos milionários que tinham com patrocinadores. Mas, mais do que altura para se queixarem da conjuntura, é altura para mudar o rumo e evoluir. Tornar os clubes mais sustentáveis e não estar tão dependentes daquele patrocínio ou daquela classificação. Deixando assim de viver acima das reais possibilidades e começar a aproveitar nos recursos humanos e financeiros que realmente têm.

Regresso dos emprestados, aposta na ‘prata da casa’ e trocas e baldrocas

Actualmente, excluindo as camadas as camadas jovens, sub23, equipas “bês” e plantel principal, os clubes têm sob contrato dezenas de jogadores que depois são emprestados. Jogadores esses que ficam anos e anos a serem emprestados sem sequer uma oportunidade.

Será a altura ideal para dar uma oportunidade a esses jogadores ou começar a usá-los como moeda de troca com atletas de outros clubes. Depois a tal propalada aposta na ‘prata de casa’ que os adeptos (quase) todos gostam. Em Portugal, esse paradigma tem vindo a ser uma tendência maior, com avanço e recuos face a melhores ou piores resultados.

Tendo em conta a qualidade da ‘nossa’ formação, espera-se que os ‘nossos’ jovens talentos ganhem ainda mais espaço nas principais equipas. Pode ser que desta vez, os melhores comecem a ficar mais tempo em Portugal, não saindo para um tubarão europeu à primeira oportunidade.

Para concluir…

O ser humano, como prova a História, tem em si uma enorme capacidade de adaptação e, mais tarde ou mais cedo, tudo vai ficar bem. E a médio-longo prazo, melhor ainda.

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Pedro CouñagoMaio 13, 20199min0

Normalmente quando as equipas sobem de divisão na Alemanha, não é particularmente fácil a adaptação à Bundesliga e ter logo resultados positivos à partida, isto tirando alguns exemplos como o do RB Leipzig, por motivos sobejamente conhecidos. Neste caso, o Fortuna Düsseldorf é uma equipa que tem passado mais anos nas divisões secundárias que na Bundesliga neste século, tendo esta temporada regressado ao convívio dos grandes, e a verdade é que conseguiu fazer uma época bem tranquila, sem sobressaltos e conseguindo alguns resultados bastante animadores para o futuro.

Deixamos aqui os nossos destaques.

Dupla de extremos prolífica

Dois dos elementos mais avançados da equipa, Dodi Lukebakio e Benito Raman, levam 10 golos cada, com os reais pontas de lança da equipa a levarem mais 10 todos juntos. O congolês e o belga complementam-se bem, um mais corpulento e outro mais franzino, um mais fixo e outro mais multidimensional, com maior amplitude de movimentos.

Para uma equipa da dimensão do Düsseldorf, 20 golos dos 44 foram marcados por estes dois jogadores, um impacto de quase 50% para uma equipa que não é tremendamente concretizadora. Assim se vê a importância absoluta de ambos. A partirem da ala para o meio, desconcertando as defensivas adversárias, parece que encontraram uma mina de ouro que foi muito bem explorada.

Raman acaba por ser mais versátil porque, além de conseguir jogar nas alas e no eixo atacante, tem um sprint acima da média e é muito perigoso no contra-ataque, modo preferido de atuar do Fortuna. Já tendo sido o destaque do clube na temporada passada, estando ainda emprestado, Raman foi contratado a título definitivo e as comparações a Timo Werner, com as devidas diferenças, têm sido bastantes. Tem-se falado numa mudança para Inglaterra, com clubes como o Burnley, Southampton, Everton e até o Arsenal à espreita. Vejamos como decorre este verão.

Raman tem estado em destaque, estando envolvido em praticamente um terço dos golos do Fortuna no campeonato (Foto: firstorderhistorians.com)

Kaan Ayhan é o líder da defesa, fazendo uso da sua escola de Bundesliga

O turco era uma grande promessa na altura em que saiu da formação do Schalke 04, sendo visto como um possível substituto do eterno Naldo a longo prazo. Para lhe dar ritmo, o jogador foi até emprestado ao Eintracht Frankfurt, mas sem sucesso, e em 2016 saía a preço de saldo para o Fortuna Düsseldorf. Desde aí, tem sido dono e senhor do lugar no centro da defesa, sendo também um dos titulares no centro da defesa da sua seleção.

Pode fazer várias posições na zona defensiva da equipa, é bastante ágil e de boa capacidade física, ainda que por vezes impetuoso, como mostram as suas três expulsões em 17/18. Ainda assim, o seu registo melhorou esta época, sem nenhuma expulsão, mas com nove amarelos, não tendo o medo de recorrer a faltas táticas/inteligentes que, por vezes, são feitas com a intenção de melhorar as chances de uma equipa ganhar um jogo.

Além dos atributos físicos, tem boa capacidade de passe para sair a jogar e é um central goleador, tendo já quatro golos marcados na Bundesliga esta temporada, graças ao seu bom jogo de cabeça e a um forte remate. O turco é um jogador à medida deste Düsseldorf, e veremos se continua por este histórico alemão para o guiar a mais uma temporada segura.

A mescla de trabalho e qualidade no meio campo

No centro do campo, é essencialmente a capacidade de trabalho que é valorizada, conjuntamente com capacidade de leitura de jogo. É isso que trazem Adam Bodzek e Oliver Fink, com muitos anos de futebol nas pernas, este último capitão de equipa. Marcel Sobottka era talvez o principal destaque deste meio campo mas lesionou-se gravemente, dando lugar a um Bodzek que cumpriu com o que lhe era pedido.

Depois, as adições de Kevin Stöger e Alfredo Morales trouxeram uma qualidade com bola e de marcar o ritmo de jogo que a equipa precisava para disputar um campeonato como a Bundesliga, que não pode ser apenas à base de capacidade física, sendo também precisa qualidade de jogo.

É só através de uma equipa ligada em todos os setores do campo que é possível ter sucesso e a verdade é que o meio campo faz bem a ligação entre os dois extremos do campo, deixando depois a quem está mais à frente e livre nas desmarcações/diagonais para decidir.

Friedhelm Funkel coloca a equipa onde merece

Tem sido notória a subida de nível da Bundesliga, com equipas mais competitivas e equilibradas entre si, existindo mais dificuldades para garantirem os seus objetivos. Fica, assim, bem patente o enorme trabalho que Funkel está a fazer ao serviço do Düsseldorf.

Há já três anos no comando técnico, Friedhelm Funkel chegou ao clube numa altura em que o mesmo lutava para não descer à terceira divisão mais uma vez, conseguindo esse objetivo em 2015/2016 e fazendo um campeonato mais tranquilo em 16/17, estabilizando assim um barco que estava a passar por demasiadas tormentas. O que se seguiu foi uma caminhada imparável para a conquista da 2.Bundesliga, algo absolutamente improvável face a equipas como o Nuremberga, o Bochum, Ingolstadt ou Darmstadt, entre outras.

Façamos um ponto de comparação com o Eintracht Braunchweig, por exemplo, que terminou 16/17 na terceira posição da 2.Bundesliga, não subindo à principal divisão após derrota no playoff. Essa mesma equipa desceu à terceira divisão em 17/18, um trajeto quase oposto ao do Fortuna, revelando-se aqui a imprevisibilidade de uma segunda divisão onde se joga bom futebol.

Graças à experiência de Funkel, que está a conseguir possivelmente os seus melhores resultados da carreira de treinador aos 65 anos, o Fortuna vai de vento em popa, com os jogadores a adquirirem excelentes níveis de confiança. Variando entre um 4-4-2 com duplo pivot, que, na verdade, é mais um 4-2-4, e um 4-1-4-1 que resguarda mais a equipa em jogos de alto risco, os jogadores adaptam-se bem ao estilo que o treinador pede e dão resultados, notando-se também a vontade de dar o seu melhor a uma massa associativa apaixonada.

Friedhelm Funkel é uma figura bastante querida da massa adepta do Fortuna, veja-se como foi festejado o título do ano passado na 2.Bundesliga (Foto: Tagesspiegel)

Mérito para o treinador alemão que ficará responsável por conseguir continuar a levar este projeto avante e, quem sabe, depois sair rumo ao paraíso da reforma.

Primeira vez em 20 anos que o Fortuna fica dois anos consecutivos na Bundesliga

A vida não tem sido fácil para a equipa de uma das principais cidades alemãs, já tendo estado na quarta divisão e, agora, desfrutando dos frutos de uma época bem conseguida, conseguirá disputar uma temporada com maiores recursos e maior segurança, até maiores expectativas de, pelo menos, repetir a classificação tranquila desta edição do campeonato alemão.

Em 12/13, o Fortuna não resistiu à pressão de voltar à principal liga, ficando no penúltimo lugar. Esta época, consegue melhorar (e de que maneira) o seu registo, não tendo dificuldades nem sobressaltos para garantir a manutenção mesmo depois de um início mau de campeonato. Tal como o Fair Play analisou em tempo oportuno, Nuremberga e Hannover não iam ter grandes chances de sobreviver face às adversidades e estão já confirmados na 2.Bundesliga, falta ver o que irá fazer o Estugarda no playoff, outro histórico alemão.

Uma coisa é certa: 19/20 já é uma espécie de época bónus para o Fortuna. Vejamos se consegue manter as principais pérolas e se consegue consolidar-se na Bundesliga, algo que seria verdadeiramente fantástico face a um clube que há 15 anos tinha dificuldades financeiras para se inscrever na terceira divisão.

Equipa de altos e baixos que consegue sempre voltar às vitórias

A equipa tem uma capacidade de luta acima do normal. Afinal de contas, foram já nove os jogos que a equipa perdeu, sofrendo três ou mais golos, conseguindo, ainda assim, ter a confiança de voltar aos resultados pretendidos nos jogos seguintes. Destaque-se, por outro lado, o empate que a equipa conseguiu fora de casa frente ao todo poderoso Bayern (3-3), talvez um dos seus melhores resultados da história recente.

Esta foi uma equipa que, ao fim de 10 jornadas, tinha apenas 5 pontos conquistados, registando uma série de 6 derrotas consecutivas, perdendo 3 dos jogos por 3-0 e um deles por 7-1. Nas restantes 23 jornadas, conquistou 36 pontos, resultado de 11 vitórias, ganhando assim praticamente metade dos jogos desde a décima jornada. Registo absolutamente notável, tornando uma equipa que se pensava condenada ao retorno à 2.Bundesliga em uma bastante competitiva e capaz de dar alegrias aos adeptos.

Entre a décima quinta e a vigésima quarta jornada, foi o grande período do conjunto de Düsseldorf, com 7 vitórias em 10 jogos, incluindo uma série de 4 vitórias consecutivas, incluindo uma frente ao Borussia Dortmund. Outro grande resultado foi a goleada por 4-0 fora de casa frente a um Schalke 04 aterrador (a principal desilusão desta Bundesliga).

Um dos jogos mais marcantes da época e que apenas mostram o que o Fortuna conseguiu fazer esta temporada (Foto: Schalke 04)

A temporada que termina no próximo domingo para os comandados de Finkel foi uma que deixa os seus adeptos orgulhosos. Já havíamos destacado esta como uma das principais equipas em destaque na época de 18/19 na Bundesliga, mas é de salientar e explorar o êxito alcançado por uma equipa com o orçamento mais baixo do campeonato e a quem se apontaria como favoritos à descida de divisão.

Que lhes reserva 19/20? Com muitos jogadores com contratos a curto prazo, mas maior capacidade de investimento, teremos um Fortuna forte na próxima época?


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