Arquivo de Adeptos - Fair Play

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Marcial CortezMarço 20, 20205min0

Hoje vamos falar de uma inusitada experiência que tive recentemente, quando pude assistir ao vivo um dos clássicos mais enigmáticos e emocionantes do futebol sul-americano: Racing X Independiente.

Nestes tempos de reclusão, quarentena e suspensão do futebol, nada como relembrar grandes histórias envolvendo este esporte que movimenta as multidões.

Quando se fala em Argentina, imediatamente o jogo entre Boca e River vem às nossas cabeças. Sim, é verdade, estamos a falar de um clássico gigantesco, que até já decidiu a Libertadores em terras europeias. No entanto, Boca x River não é o único clássico argentino. Há muito mais jogos interessantes nas terras portenhas do que sonha a vossa vã filosofia.

Racing x Independiente é um deles. A rivalidade começa na localização geográfica. Avellaneda, uma pequena cidade da região metropolitana de Buenos Aires, tem pouco mais de 30 mil habitantes, que se dividem em adeptos do Independiente (El Rojo) e do Racing Club (La Academia). Os dois estádios ficam a poucos metros de distância e a cidade respira futebol. No entorno das arenas, vários bares e restaurantes ficam lotados nos dias de jogos, que assim como nas principais cidades brasileiras, também contam com claque única (por questões de segurança, quando o jogo é no estádio do Racing, somente os adeptos do Racing o assistem, e vice-versa).

O estádio do Racing, conhecido como ¨El Cilindro¨, tem capacidade para 51 mil adeptos que lotam a arena em todas as partidas. É uma claque extremamente apaixonada pelo clube e conta com uma banda musical chamada ¨La Guardia Imperial¨, que comanda todos os cantos durante os jogos. No link https://www.letras.mus.br/la-guardia-imperial é possivel conhecer e ouvir os gritos de guerra e as letras dos coros dos adeptos do Racing.

E aqui começamos a fazer um paralelo entre as claques no Brasil e na Argentina. Há uma diferença fundamental entre as duas: enquanto os adeptos brasileiros costumam ¨jogar junto com o time¨, ou seja, se o time vai bem, a claque cresce, e se o time vai mal, a claque diminui o volume e costuma ficar tensa (isso ocorre com todas as claques de todos os clubes brasileiros), na Argentina o comportamento da claque parece ser independente do jogo ou do resultado do mesmo. Há um famoso vídeo no Youtube que mostra um jogo entre Racing e River Plate, no qual o River aplica uma goleada de 6 a 1 na Academia, e mesmo assim os adeptos continuam a fazer uma festa gigante, algo inimaginável nos estádios brasileiros.

Outro ponto que chamou-me muito a atenção foi que a maioria dos cantos das claques brasileiras são copiados dos coros argentinos. Muitas vezes, são apenas traduzidos para o português do Brasil e em algumas situações tem as letras adaptadas para adequação à métrica musical. Veja estes exemplos com cantos das torcidas de Palmeiras e São Paulo:

Fonte: www.letras.com.br

 

Em contrapartida, se nas arquibancadas os argentinos são melhores que os brasileiros, o mesmo não se pode dizer quanto à qualidade do futebol apresentado. As duas equipas estavam em posições intermediárias na tabela do Campeonato Argentino, com o Racing ligeiramente melhor e ainda a lutar por uma vaga na Copa Libertadores 2021 (ao final do campeonato, o Independiente ficou em 14o lugar e o Racing conseguiu a vaga para a primeira fase classificatória do principal torneio sul-americano).

E onde faltou qualidade, sobrou raça. O jogo foi Histórico. Assim mesmo, com H maiúsculo. Os donos da casa jogaram razoavelmente bem no primeiro tempo, até que aos 39 minutos o guarda redes Arias foi expulso. E na sequência, no início da segunda etapa, nos primeiros segundos de bola rolando, o jogador Sigali também levou o cartão vermelho, o que fez com que o Racing jogasse com apenas nove atletas durante todo o segundo tempo. E o que se viu a partir daí foi um verdadeiro massacre vermelho. O time do Independiente jogou o tempo todo no campo de ataque, acuando os donos da casa em sua grande área. Parecia um treino de ataque contra defesa. Mesmo nessa situação difícil, os adeptos do Racing não deixaram a energia diminuir, e a cada ataque do alvirrubro mais subia o volume e a temperatura nas arquibancadas.

Até que num desses momentos arrebatadores que só o futebol pode nos proporcionar, num contra ataque aos 41 minutos do segundo tempo, o avançado Chelo Diaz conseguiu fazer o único golo da partida, cravando a histórica vitória por 1 a 0. Desnecessário dizer aqui o que aconteceu nas arquibancadas. Foi uma festa de conquista de campeonato. O torcedor do Racing, que comemora até quando está a perder do River por 6 golos, explodiu numa alegria jamais vista, ao derrotar o arquirrival de camisola rubra em situação tão dramática. Ao Independiente, só restou lamentar a perda da oportunidade de fazer um belo resultado na casa do inimigo.

 

Foto: Marcial Cortez

Então siga a minha sugestão. Aproveite este tempo de quarentena e suspensão do futebol para assistir aos grandes clássicos deste esporte que tanto nos encanta. Garanto que não irás te arrepender. E mesmo sendo brasileiro, sou obrigado a concordar com os argentinos: no que se refere à festa nas arquibancadas, Maradona é melhor que Pelé.

 

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João NegreiraAgosto 21, 20174min0

Em Portugal, cerca de 90% dos adeptos são apoiantes do Benfica, do Sporting ou do Porto. No entanto, tem havido um enorme crescendo de adeptos a apoiarem o clube da sua terra, motivando um movimento em querer deixar de apoiar os clubes que só ganham, apoiando também os clubes mais pobres, quer desportiva, quer financeiramente.

Tendência ou Amor?

Num país como Portugal, somos educados a gostar de futebol e por conseguinte, a gostar de um dos três grandes. É quase inevitável isso não acontecer. Mas isso tem vindo a mudar; cada vez mais vemos um D. Afonso Henriques repleto de adeptos do Vitória S.C., mesmo sem estar a jogar contra um dos grandes, e quem não gosta de ver isso?

No entanto, o tópico do artigo refere-se àquilo que esses adeptos, por vezes, pensam ou dizem. Ouvimos falar que os adeptos do Benfica, Sporting e Porto só o são, não por amor, mas, devido às vitórias que o clube alberga; que são adeptos desse clube porque ele tem reconhecimento internacional; que apoiam o clube por causa dos grandes jogadores que são transferidos para lá; mas isso nem sempre é verdade, aliás nem metade dos adeptos são assim.

Mas e os adeptos dos clubes mais pequenos? É moda criticar os outros adeptos? Serão apenas eles os verdadeiros “fiéis” aos seus clubes? Questiono se só porque nasci em certo sitio tenho que ser adepto do clube dessa terra; questiono se só porque um clube tem menos dificuldades do que o outro, já não posso ser apoiante desse clube e tenho na verdade que apoiar o clube com mais dificuldades. Não descuro que possam querer apoiar esse clube, mas porque não pode o outro apoiar outro clube? Gostos são gostos e gostos não se discutem.

O desprezo dos media e a (falta de) competitividade

Não sendo aqueles que mais vendem jornais, os clubes mais pequenos e claro os seus adeptos, queixam-se também do desprezo que lhes é dado pela imprensa.  Muito raramente é-lhes dada importância e quando é dada, por vezes, é errada e pouco útil ou interessante. Ou seja, os noticiários só dão peso aos clubes grandes, e os outros ficam a um canto sem ser-lhes dada a relevância que, na verdade, por vezes, merecem. É, ainda, normal que a opinião e gosto das pessoas seja influenciada pelos media, e o leque de diferenças entre o clube de cada adepto é cada vez maior. E com isso é obrigatório falar da falta de competitividade que se vive na Liga; citando Manuel Machado numa conferência de imprensa: “Isto conta é o campeonato dos 3, o resto é carne para canhão.”. Referindo-se à hegemonia dos clubes grandes em termos de títulos. E o mesmo se pode aplicar aos adeptos, a maioria é dos três grandes, o resto são minorias.

Os clubes mais pequenos têm menos apoio das bancadas. (Foto: MF)

Apoio às minorias

Façamos uma analogia para com a politica. Por vezes, os partidos mais pequenos solicitam o voto múltiplo para com aqueles que não votam. Tendo em conta que esses partidos têm pouca relevância, o voto múltiplo, ajuda-os a ganharem importância, neste caso, em assembleias. Cruzando com a parte futebolística, os adeptos, têm vindo a dar cada vez mais importância aos clubes mais pequenos, na maior parte dos casos, os da sua terra. É normal um cidadão português já ter clube, mas apoiar um clube com pouca massa associativa, pouco orçamento e poucos ou nenhuns títulos, é pouco usual e de dar valor.

Fanatismo?

Mas com tudo contra eles, creio que os adeptos das minorias, criticam mais os outros do que apoiam o seu próprio clube. Acredito que esses adeptos não permitem que se goste de outros; acredito que esses adeptos só vejam o seu clube à frente; acredito que esses adeptos sejam fanáticos!

A questão principal é que esses adeptos, por vezes, gostam mais do seu clube do que futebol, e é isso que está errado. Todos temos o direito de gostar de um clube, mas não temos o direito de inferiorizar o outro, ainda mais sem fundamentos viáveis. Os clubes mais pequenos são inferiorizados, e não conseguem competir com os outros, começando por uma simples comparação de orçamentos. É também verdade que existem este tipo de adeptos nos clubes grandes, mas parece-me que os adeptos dos clubes mais pequenos estão irritados pelo valor que não lhes é dado e acabam por ser radicais e fanáticos.

A discussão que se mantém nas várias redes sociais é, por vezes, inútil, pois todos temos o direito de gostar de um clube, e se o outro gosta de um clube, eu como adepto de outro clube, apenas tenho que respeitar.


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É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


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