Um texto genérico de um adepto apaixonado

João Pedro SundfeldOutubro 9, 20213min0

Um texto genérico de um adepto apaixonado

João Pedro SundfeldOutubro 9, 20213min0
Com a volta dos adeptos aos estádios brasileiros, nada mais justo que tentar traduzir a emoção de cada um em palavras

Há quanto tempo eu não vou num estádio? Nossa, faz mais de ano. A pandemia chegou, situação ficou difícil, fecharam os portões pra nunca mais abrir. Nunca é muito tempo, mas parecia que ia ser por aí… ainda bem que acabou.

Que saudade de pular, abraçar um desconhecido no golo, derramar a cerveja, ou água, ou refrigerante, o que for. Experimentar a euforia inigualável de ver o time vencer, convencer, ser campeão ou se salvar de uma situação difícil.

Que saudade de gritar, xingar, berrar sem fim. O árbitro não me escuta, mas escuta 10, 20, 40 mil cantando em coro. Vai para aquele lugar. Ladrão! Era pênalti, falta, pra vermelho ou não foi nada.

Que saudade de mandar o técnico mexer. Falar que não sabe nada, sabendo que ele sabe mais que eu – às vezes até duvidar disso. De mandar o jogador correr, bater palma porque saiu de campo. Bater palma porque uma promessa tá entrando, porque o ídolo apareceu, porque aquele cara subestimado subiu e marcou, ou o central comemorou um carrinho saindo pela lateral.

Que saudade de me juntar com os meus amigos, beber ou só aproveitar. Antes do jogo pensando no que virá, depois do jogo comemorando, ou reclamando, do que veio. Falando daquele camisa 10 que parecia um morto em campo, ou que foi um verdadeiro maestro, distribuindo o jogo, dando assistência e, quem sabe, até um golzinho na conta dele.

Depois de tanto tempo, chegou a hora de matar essa saudade. Vacina no braço, uma ou duas doses, máscara na cara – PFF2, claro! – e a certeza de que nem tudo pode voltar. Afinal, não posso me juntar com todos, abraçar estranhos. Ainda não é hora disso. Vamos com calma para podermos ir juntos, ir longe.

O ingresso é difícil conseguir. Não só pelo sistema um pouco confuso e pouco útil, mas pelo preço. Ainda estamos sofrendo. Se o clube teve prejuízo, teve de reduzir gastos e tudo mais, imagina eu, trabalhador como tantos outros. Precisando pagar contas, garantir comida, filhos ou não, é difícil ter esse luxo do ingresso.

Ainda tem todos os problemas pelo protocolo, dificuldades para entrar no estádio. O desempenho do time também complica. Às vezes é bom, às vezes é ruim. Pode estar brigando lá em cima, ou lá embaixo. Não precisa nem estar na primeira divisão. Anima e desanima. Um paradoxo constante no coração de todos.

Mesmo assim, o amor é inexplicável. A vontade de apoiar, criticar, reviver tudo o que já vivemos juntos me carrega por dias a fio. Um motivo para acordar de manhã, ou uma vontade para não sair da cama. Não importa. O único significado é este. São as cores que levo no peito, no sangue, na pele.

É a paixão que supera todas as dificuldades. Verdadeiramente, na alegria e na tristeza – normalmente atrelados ao time. É a paixão que vai além das quatro linhas, além da razão, além dos quilómetros e meses que me distanciam e distanciaram do estádio, do dia a dia da loucura.

A saudade que está próxima do fim, apesar das adversidades. Ou que até já diminuiu com 90 minutos de um futebol possivelmente questionável.

Sentir o cheiro da grama, o coração apertado e ansioso. Sangue correndo nas veias. Clima de tensão e os melhores gritos que saem da garganta. Elogios ao time na escalação, xingamentos no jogo. Assobios, cantos, batuques.

Tudo está chegando. Aos poucos voltando ao normal. A vida perdida e que buscamos recuperar. O mundo “normal” que não existe mais.

Agora, tchau. Tô indo pro estádio.


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