Futebol: Existirão limites para a paixão? Concordamos que discordem à vontade

Bruno Costa JesuínoSetembro 3, 20199min0

Futebol: Existirão limites para a paixão? Concordamos que discordem à vontade

Bruno Costa JesuínoSetembro 3, 20199min0
O futebol é, foi e sempre será, uma daquelas temáticas que sobre a mesma jogada, sobre o mesmo jogo, sobre o mesmo jogador existirão sempre várias opiniões, muitas vezes até opostas.

O principal motivo é a paixão pelo clube, que por vezes é tão grande que não permite ‘enxergar’ o que para a (outra) maioria é um facto. A paixão não incomoda, e é positiva, agora o ódio que deturpa a opinião, já faz imensa confusão. Principalmente quando os desejos negativos para qualquer coisa que seja relacionada a um clube rival, suplanta o desejo de coisas boas para o próprio clube.

Ao longo de todo o verão, os adeptos criam muitas expectativas a respeito dos clubes pelos quais sofrem ao longo da época. No seu íntimo todos acreditam e querem acreditar que a época será melhor que a anterior, tenha esta corrido bem ou menos bem. Mas não só. Além do melhor por quem torcem querem o pior para quem rivalizam. O pior é quando a segunda premissa ultrapassa primeira.

A (des)cultura desportiva na qual ‘somos’ experts

Seja em casa, no café, no trabalho, na televisão… todos nos cruzamos com exemplos de ‘ódio’ por um clube rival e, se pensarmos bem, provavelmente lembramos-nos mais de situações destas do que situações de ‘amor’ pelo próprio clube. Num estádio de futebol, são cada vezes menos raras as vezes em que não ouvimos cânticos ofensivos para um clube adversário, mesmo quando essa equipa nem está em campo. Esse ambiente de ‘guerra’ constante, transversal a toda a sociedade e indiferente à formação pessoal e profissional de cada um, é alimentado diariamente tanto nas redes sociais como nos comentários dos utilizadores nas plataformas digitais dos meios de comunicação social. Sem ser preciso nenhum estudo profundo, mais de metade dos comentários são a destilar ódio.

No futebol todos têm ou sentem a necessidade de ter uma opinião, percebam muito, pouco ou nada. Em tantos outros assuntos não arriscam sequer opinar e guardam para si, mas no futebol nem que seja uma ‘boca’ ao amigo adepto de outro clube. Pior é quando em programas desportivos dão tempo de antena a pessoas que “podem-ser-muito-bons-em-alguma-coisa-mas-definitivamente-pouco-percebem-de-futebol”.

Ver elementos desses painéis, que estão analisar um jogo, quando nem sabem sequer quem é o lateral direito da sua equipa, e que está lá mais para (tentar) achincalhar os adversários através de chavões comuns, não contribuí em nada para uma melhor cultura desportiva. Até porque parte significativa de quem assiste este tipo de conteúdo tem um conhecimento parco sobre o desporto rei, além de que, em todas as vertentes da vida, é mais fácil ofender do que analisar com o mínimo de critério. Este tipo de conteúdos televisivos não surge por acaso, pois na guerra das audiências é preciso ir ao encontro das características dos telespectadores, no entanto, deveria haver uma algum cuidado na escolha de comentadores.

Não querendo generalizar, deixamos um exemplo: a poucas pessoas do mundo de futebol é dada oportunidade de falar sobre um tema que não seja… futebol, por outro lado, a pessoas de outras áreas é dado destaque sucessivo para falar de… futebol.

Ter dirigentes que incitam ao ódio é outro dos problemas, pois é estratégia comum atacar e falar dos problemas do adversário para ‘camuflar’ as próprias dificuldades. Proibir os funcionários de usar na sua indumentária uma determinada cor por ser a cor do rival, continuar a usar e abusar dos já ultrapassados regionalismos bacocos como se todo o mundo tivesse contra eles, ou desejar a morte de um dirigente rival no próprio canal televisivo são atitudes que tornam o clima à volta do futebol cada vez mais perigoso. Em vez de o foco ser o próprio ‘futebol jogado’, aquilo que a indústria do futebol devia ‘vender’ para exterior, o enfoque acaba por ir para outros temas que só servem para denegrir a imagem do desporto.

Em 2018, a Universidade de Coimbra (UC) publicou um estudo sobre a relação dos adeptos com os seus clubes e rivais. No entanto, é referido que o nosso cérebro terá mecanismos para a ‘paixão’ vencer a rivalidade do ‘ódio’. Mas será que é mesmo assim?

A paixão pelo futebol “desperta emoções, por vezes irracionais, que atravessam a fronteira entre o amor tribal e o fanatismo“. Contudo, “a paixão tende a prevalecer sobre os conteúdos mais negativos, como, por exemplo, de derrota com o rival, que tendem a ser suprimidos da memória emocional. Os aspectos positivos desta forma de amor tribal e de que o cérebro dispõe de mecanismos para suprimir conteúdos negativos. Por essa razão o cérebro parece ter mecanismos de protecção contra memórias susceptíveis de levar ao ódio tribal“. – analisam os investigadores.

Miguel Castelo-Branco, membro da equipa, concluí ainda que “quanto maior o ‘score’ de paixão clubística medida psicologicamente, maior é a actividade em certas regiões do cérebro associadas a emoções e recompensa, algumas semelhantes às envolvidas no amor romântico“. (saber mais sobre o estudo aqui)

Se vai lá para fora e é do clube rival é flop. Porquê? “Porque é do clube rival”

Este é um dos argumentos que muito se ouve por aí nas discussões no offline ou online: “Se vai lá para fora e é do clube rival é flop“, apenas e só porque vem do clube rival. Um ‘aviso à navegação’ que pode surpreender alguns: não, não é isso que faz de um jogador um flop.

Um dos casos mais mediáticos foi o jovem Renato Sanches. Com 18 anos ganhou o prémio Golden Boy, foi importante na conquista do primeiro europeu para Portugal e é transferido para um dos colossos do futebol mundial. O que é que aconteceu? As páginas do Bayern de Munique nas redes sociais foram invadidas por comentários de portugueses a denegrir o jovem português. Quase que apostávamos que foi primeira vez que o clube alemão e os seus adeptos se deparam com uma situação dessas.

Com a idade actual de Renato, começou a explodir em Portugal outro grande valor do futebol Nacional: João Mário. Após duas épocas de grande nível, principalmente a segunda (culminada com o título europeu por Portugal), vai para Itália. Tal como Renato, não terá escolhido o clube certo nem o campeonato certo para as suas características. Se no caso do primeiro, mais relacionado com o estilo de jogo da equipa e a qualidade superlativa dos companheiros de equipa, no caso de João Mário, a instabilidade do Inter de Milão não ajudou, e nem a sua maior experiência o ajudou a ultrapassar as dificuldades. No entanto o talento está lá isso é inegável. Mas adivinhem o que os adeptos de clubes rivais lhe chamam? Fácil. Tal como Renato, é um flop.

Damos ainda André Silva como exemplo. Um dos avançados portugueses com melhor média de golos na selecção, que saiu do Porto para o AC Milão, que tal como o rival (Inter) tem passado por anos difíceis, o que terá prejudicado a afirmação do jogador. Na época transacta, emprestado ao Sevilha, teve um arranque de época fantástico até começar a ter problemas físicos. Óbvio que para os rivais é mais… um flop.

É normal que enquanto adversários se queira que a performance destes não sejam boas, mas deixa de fazer sentido quando estes vão jogar para fora. É importante para a selecção, para a própria imagem do jogador português, que estes jovens se imponham nas ligas onde jogam e, já que não se quer apoiar, que ao menos não se façam críticas gratuitas.

Esperamos todos (ou pelo menos devíamos) que estes três jogadores demonstrem todo o seu potencial nos novos clubes – Lille, Lokomotiv de Moscovo e Eintracht Frankfurt – e que façam muitos ‘headlines’ pelas melhores razões.

Influência do meio envolvente para uma melhor cultura desportiva

Quanto mais o meio envolvente nos transmitir bons estímulos, melhores estímulos iremos transmitir aos outros. Esta frase não pertence a nenhum pensador daqueles famosos, é apenas um dedução tão óbvia quanto esquecida. Não será por acaso que a desgraça ‘vende’ mais que a graça (leia-se ‘notícias positivas’), e os meios divulgadores sabem disso mesmo, daí a aposta regular neste tipo de conteúdos mais polémicos e sensacionalistas.

No que ao tema diz respeito, seria importante haver mais pessoas a perceber que um guarda-redes já não serve só para defender a sua baliza, que um defesa central já não precisa de ser duro e ‘bater’ bem, que um médio defensivo deve saber construir, que o extremo ou médio-ala já é não aquele corre junto à linha para cruzar, e os avançados podem fazer grandes jogos mesmo que não marquem golos. Mas não, temos comentadores ‘daqueles-que-pouco-percebem-mas-têm-grande-destaque’ que avaliam os avançados apenas pela única métrica que conhecem: golos. E caso não a cumpram só podem ser flops. Não deixando de ser uma métrica bem importante, são este tipos de comentários que não favorecem em nada uma melhor cultura desportiva.

Seria importante dar realce a opiniões que explicassem que a única razão de uma equipa ganhar à outra, não é só porque correu mais e que a que perde não tem que ser por falta de atitude. Que um treinador que grita para o relvado não quer dizer que é melhor líder do que aquele que não o faz, e ser treinador é bem que ser que um grande motivador. Que mais do que um sistema táctico de 442, 353 ou 433, é o modelo de jogo que mais importa. Não é por se jogar em 442 que, obrigatoriamente, se tem mais jogadores na área que num 433, pois são as dinâmicas criadas entre os jogadores que vão determinar a quantidade de jogadores em determinadas zonas do campo (ofensivas e defensivas). E podíamos ficar um dia todo nisto.


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