Marcial Cortez, Author at Fair Play

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Marcial CortezMaio 20, 20205min0

Antes da década de 90, as equipas brasileiras não davam a devida importância à Copa Libertadores no Brasil. Os campeonatos regionais eram os mais disputados até então. Telê Santana mudou a história. Conheça um pouco mais sobre esta verdadeira lenda do futebol brasileiro.

A Copa Libertadores surgiu pela primeira vez em 1960. Durante trinta anos, as equipas brasileiras participaram do torneio, mas não se importavam em fazer parte do mesmo. Nos anos 70 e 80, era comum uma equipa poupar seus jogadores nas partidas da Libertadores em vésperas de clássicos regionais importantes, algo inimaginável nos dias de hoje. Mas o que ocorreu para que essa mudança acontecesse? A resposta a essa pergunta tem nome e sobrenome: Telê Santana.

Telê Santana nasceu em Itabirito, Estado de Minas Gerais, em 1931. Atuou como jogador em várias equipas, tornando-se conhecido nacionalmente ao jogar com a camisa do Fluminense, seu clube de coração. Ele chegou a chorar quando marcou um golo contra o Flu no final de sua carreira, época em que jogava pelo Madureira, pequena equipa do Estado do Rio de Janeiro.

Sua carreira como treinador iniciou em 1969, no próprio Fluminense, e já em sua estreia chegou a ser campeão carioca na época. Depois disso, passou por várias equipas grandes do país, com destaque por sua passagem pelo Grêmio em 1977, quando quebrou uma hegemonia de oito anos frente ao rival Internacional no campeonato gaúcho. Em seguida, foi contratado pelo Palmeiras e até hoje é lembrado por seus adeptos pela sensacional vitória contra o Flamengo de 79, com Zico e companhia, em pleno Maracanã, por 4 a 1.

Telê Santana a comandar a seleção canarinha na Copa de 82. Foto: AFP

A sequência de sucessos o levou à Seleção Brasileira em 1980, porém suas passagens pelo escrete canarinho não obtiveram bons resultados. Embora tenha comandado aquela que talvez seja a melhor seleção do Brasil após a Era Pelé, a eliminação precoce frente à Itália de Paolo Rossi na Copa de 82 na Espanha marcou a sua carreira para sempre. Após a Copa, ele foi para o mundo árabe e por lá permaneceu até 1985, quando foi novamente convidado a assumir o comando do Brasil para disputar a Copa de 86 no México.

Com uma Seleção não tão brilhante quanto a de 82, pois alguns de seus jogadores já estavam em final de carreira, o Brasil caiu novamente frente à França, nos pênaltis. A perda de duas Copas seguidas foi demais para os adeptos brasileiros, e Telê ganhou injustamente a fama de azarado, que o acompanharia por alguns anos. Depois da Copa de 86, Telê treinou as equipas do Atlético Mineiro, Flamengo e Palmeiras, sem obter sucesso em nenhuma delas. O estigma de azarado crescia a cada insucesso do técnico.

E foi em outubro de 1990 que o São Paulo resolveu apostar no treinador, naquela que seria uma parceria mais que vitoriosa. Telê chegou desacreditado numa equipa ainda mais desacreditada, recém rebaixada no Campeonato Paulista (você pode ter mais detalhes desta história no podcast Ginga Canarinha #11), e transformou o São Paulo numa verdadeira máquina de jogar bola. Já no ano seguinte, o tricolor paulista faturou o Campeonato Paulista e o Campeonato Brasileiro, o que o levou à Libertadores de 1992.

A História da Libertadores no Brasil muda radicalmente a partir de 1992, quando o São Paulo de Telê Santana vence os argentinos do Newell´s Old Boys nos pênaltis e ganha o Campeonato, carimbando o passaporte para a disputa da Copa Intercontinental no Japão, onde venceu o Barcelona e garantiu o primeiro título mundial da equipe do Morumbi. Na sequência, ainda faturou o Campeonato Paulista vencendo o Palmeiras (que iniciara uma vitoriosa parceria com a italiana Parmalat) na final do certame. Assim, em dezembro de 1992, Telê ganhou o título de “Melhor Técnico da América do Sul”, pelo jornal uruguaio “El País”. A fama de azarado havia acabado, definitivamente.

Em 93, novo sucesso tricolor. O bicampeonato da Libertadores veio com uma vitória sobre a Universidad Católica do Chile na final, e novamente o São Paulo foi ao Japão, desta vez para enfrentar o Milan e vencer pelo placar de 3 a 2, sagrando-se bicampeão mundial. E como se isso não bastasse, o tricolor do Morumbi ainda ganharia a Recopa contra o Cruzeiro e a Supercopa Libertadores contra o Flamengo, totalizando quatro títulos internacionais oficiais no mesmo ano, marca até hoje não superada por nenhuma outra equipa brasileira. Telê Santana ganhou o apelido de Mestre, que o acompanhou até sua morte, ocorrida em 2006.

Telê e seus jogadores com a Copa Toyota Intercontinental. Foto: Divulgação São Paulo

O bicampeonato mundial do São Paulo de Telê Santana mudou o futebol brasileiro. A partir de 1994, todas as grandes equipas brasileiras passaram a olhar a Libertadores com outros olhos. A maior prova disso é o número de títulos: na fase pré-Telê: em 31 anos de competição, somente cinco Copas foram conquistadas por apenas quatro equipas brasileiras – Santos de Pelé (61 e 62), Cruzeiro (76), Flamengo (81) e Grêmio (83). Curiosamente, nenhuma equipa da capital do Estado de São Paulo.

Na era pós Telê, as equipas brasileiras conquistaram nada mais nada menos que 14 títulos (incluindo os dele), em 28 anos de competição. Chegamos até a ter, por dois anos seguidos (05 e 06), a finalíssima disputada entre duas equipas brasileiras! Conquistaram a Copa as equipas do Vasco (98), Palmeiras (99), Internacional (06 e 10), Corinthians (12) e Atlético Mineiro (13). Além destas, todas as equipas que já tinham títulos na era pré-Telê reconquistaram a Taça: Grêmio (95 e 17), Cruzeiro (97), São Paulo (05), Santos (11) e Flamengo (19).

É verdade que a Conmebol aumentou consideravelmente o número de vagas para equipas brasileiras nos últimos anos, o que matematicamente aumenta a chance dos nossos times, mas sem dúvida a sinergia do Mestre Telê com o Tricolor Paulista deixou um legado e teve papel fundamental nesta mudança de postura do futebol brasileiro na competição continental.

 

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Marcial CortezMaio 8, 20205min0

No final do mês de abril de 2003, a pequena e desconhecida equipa do Paysandu, de Belém do Pará, venceu o poderoso Boca Juniors em sua casa, a temida arena conhecida como “La Bombonera”.

Pra se ter uma ideia do tamanho desse feito, seria como se o Paços, ou o Moreirense, com todo o respeito devido a estas equipas, encarasse o Bayern no Allianz, em Munique, e voltasse pra casa com a vitória.

Mas essa história começa um ano antes, em 2002, quando a equipa do Paysandu Sport Club, de Belém do Pará, que em 2020 irá disputar a Série C do Brasileirão assim que a bola voltar a rolar no relvado após a pandemia, ganhou o extinto certame chamado “Copa dos Campeões”.

Paysandu Campeão da Copa dos Campeões. Foto: José Leomar / Placar

A Copa dos Campeões existiu somente por três temporadas – 2000, 2001 e 2002. E foi justamente na época de 2002, quando o certame teve o maior número de participantes, que o Paysandu surgiu para o cenário nacional. O torneio era composto por campeões das Copas Regionais.

As Copas Regionais foram uma tentativa de substituição dos campeonatos estaduais. O país foi dividido em regiões, da seguinte forma: Torneio Rio-SP, Copa Sul-Minas, Copa Nordeste, Copa Norte (também conhecida como Copa Verde por causa da Amazônia) e Copa Centro-Oeste. Alguns destes torneios obtiveram sucesso absoluto, como a Copa Nordeste e a Copa Verde, que são disputadas até os dias atuais, e outros foram definitivamente eliminados do calendário do futebol brasileiro.

A Copa dos Campeões fazia parte do calendário oficial da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), e o título dava ao campeão uma vaga na Copa Libertadores do ano seguinte. E foi aí que o pequeno Paysandu fez bonito. Na primeira fase, a equipa brigou com Corinthians, Fluminense e Náutico, obtendo o primeiro lugar em seu grupo. Logo em seguida, eliminou o Bahia nas quartas de final, o Palmeiras na semifinal e conquistou o título na finalíssima contra o Cruzeiro, embrião da super equipa de Vanderlei Luxemburgo que ganharia todos os títulos no ano seguinte em 2003.

Na Libertadores da América, o Paysandu continuou firme no caminho das vitórias. Num grupo que contava com Cerro Porteño (PAR), Sporting Cristal (PER) e a poderosa Universidad Católica (CHI), o “azarão” paraense ficou em primeiro lugar, com uma campanha fantástica: abriu seis pontos de vantagem sobre o segundo colocado Cerro Porteño, com quatro vitórias e dois empates, incluindo uma goleada por 6 a 2 na casa do time paraguaio. O Paysandu classificou-se para as oitavas de final de modo invicto.

Velber comemora golo na vitória por 6 a 2 contra o Cerro Porteño. Foto: Jorge Saenz/AP

E foi aí que as coisas se complicaram. Ou não, como diria Caetano Veloso. Pelo sorteio das oitavas de final, o Paysandu teria que enfrentar o Boca Juniors. Primeiro jogo no temido estádio “La Bombonera”, em Buenos Aires, e jogo da segunda mão em sua casa, Belém do Pará.

Dia 24 de abril de 2003. Estádio La Bombonera. Boca Juniors (ARG) x Paysandu (BRA). O jogo corre tenso, como todo jogo decisivo de uma copa continental. Aos 21 minutos do primeiro tempo, uma disputa de bola causa uma dupla expulsão e elimina um jogador de cada lado: Robgol pelo Paysandu e Clemente Rodriguez pelo Boca Juniors. O primeiro tempo termina zero a zero.

Na segunda etapa, outro baque contra o “Papão da Curuzu”, como é conhecido o Paysandu em Belém do Pará: aos 10 minutos, o jogador Vanderson é expulso após uma cotovelada criminosa no jogador Schelotto do Boca. Paysandu com nove jogadores em campo, contra o Boca com 10 e jogando na Bombonera. Um cenário típico para uma goleada argentina…

Mas é nesse momento que o futebol mostra porque é considerado o esporte rei: contra todas as estatísticas e análises lógicas possíveis, aos 23 minutos, o Papão faz o seu gol com o craque do time, Iarley: Paysandu 1 x 0 Boca Juniors.

O técnico do Boca, Carlos Bianchi, ainda tentou colocar um jovem jogador que estava no banco de reservas, um tal de Carlitos Tevez, mas mesmo assim não adiantou. Quando o árbitro apitou o final da partida, a equipa do Paysandu entrava para a História, igualando um feito que somente o Santos de Pelé e o Cruzeiro de Ronaldo Fenômeno conseguira até então – ganhar do Boca na Bombonera.

Alguns dias depois, no jogo de volta, a lógica prevaleceu e o Paysandu caiu em casa, bravamente, pelo placar de 4 a 2. O time, mesmo derrotado, foi aplaudido de pé por 60 mil pessoas. A equipa do Boca Juniors seguiu até o final da competição, sagrando-se campeã, enquanto que ao Paysandu restou guardar o seu nome na história do futebol brasileiro. Destaque para o autor do gol da equipa paraense, Iarley, que foi contratado pelo Boca Juniors e sagrou-se campeão mundial no mesmo ano, desta vez vestindo a camisa dos argentinos.

 

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Marcial CortezAbril 20, 20206min0

A interrupção do futebol no Brasil, ocorrida no mês de março passado, impediu e/ou adiou a realização da partida entre Palmeiras e Corinthians, o maior clássico do país.

E nesse ponto, você deve estar a perguntar a si mesmo: como assim, o maior clássico do Brasil? Alguns dias atrás esta mesma coluna dizia que o Grenal era o maior clássico tupiniquim, um jogo tão importante que até patrocinadores conhecidos no mundo todo haviam trocado as cores de seus produtos para agradar às equipas e seus adeptos, e agora o colunista muda de opinião e diz que o maior clássico brasileiro é Palmeiras x Corinthians?

Pois é, vamos explicar detalhadamente esta questão para não deixar dúvidas. Começaremos com a definição de alguns pontos. O primeiro deles é a rivalidade. Para um clássico ser grande, é fundamental que exista rivalidade entre os adversários. E o Brasil, por suas dimensões continentais, apresenta muita rivalidade regional. E aqui já abordamos outro ponto: um grande clássico precisa de regionalidade. Porque é no âmbito regional que surge a rivalidade. É no âmbito regional que as equipas se enfrentam todos os anos, é no âmbito regional que o desejo de vingança cresce após uma derrota. Assim, não vamos falar das rivalidades inter-regionais, que existem, mas são efêmeras e transitórias. Já tivemos as épocas de ouro de Grêmio X Palmeiras, São Paulo X Cruzeiro, Flamengo X Atlético, Santos X Botafogo, Corinthians X Vasco e assim por diante.

Vamos focar na rivalidade entre vizinhos, e os exemplos são inúmeros: Remo e Paysandu, em Belém do Pará; Moto Clube e Sampaio Correa, no Maranhão; Ceará e Fortaleza, no Ceará; Bahia e Vitória, na Bahia; Coritiba e Athletico, no Paraná; e os mais conhecidos Cruzeiro e Atlético, em Minas Gerais, e Grêmio e Internacional, no Rio Grande do Sul. Em todos estes locais, a rivalidade é concentrada em duas equipas.

Maiores Clássicos do Brasil. Arte: GloboEsporte.com

Existem três Estados, no entanto, em que há mais de duas equipas com importância histórica: São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco. Nestes locais, temos várias rivalidades regionais diluídas entre os grandes clubes. Isso faz com que a briga citada nos primeiros Estados, por estar concentrada em somente duas equipas, a torne mais forte do que nos três últimos em que temos mais de duas equipas importantes na disputa. Em outras palavras, a rivalidade nos Estados em que há apenas duas equipas na briga é maior do que nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco.

Ora, então como Palmeiras x Corinthians pode ser o maior clássico do Brasil se não é a maior rivalidade do Brasil? Essa pode parecer a “pergunta do milhão”, mas é mais fácil de responder do que se imagina. Para ser o maior clássico do país, não basta ter uma grande rivalidade. Guarani e Ponte Preta, por exemplo, são clubes que não se suportam, são rivais extremos. No entanto, nenhuma das equipas tem repercussão nacional, e aqui entra o terceiro ponto importante para determinarmos o maior clássico do país: a repercussão. As equipas de Pernambuco não repercutem nacionalmente como as do Rio e São Paulo. Sendo assim, para determinar definitivamente qual o maior clássico do país, vamos focar nos dois principais Estados: Rio de Janeiro e São Paulo.

No Rio, o clássico entre Flamengo e Fluminense já ocupou o cargo de maior clássico do Brasil por muitos anos. Havia (e ainda há) rivalidade, regionalidade e repercussão nacional. Em muitas situações, utilizamos a expressão “Fla-Flu” para designar um embate entre duas forças antagônicas. Porém, aqui entra o quarto ponto importante para cravarmos nossa afirmação: a regularidade, ou seja, um clássico para ser grande tem que ser importante em qualquer época, em qualquer
momento da História dos clubes. E foi justamente nesse quesito que o Fla-Flu perdeu a força e o título de maior clássico do país. No final do século XX e início do XXI, o clássico Flamengo e Vasco superou o Fla-Flu, e hoje em dia é o principal clássico carioca. Peço aos adeptos que me perdoem, mas Flamengo e Vasco hoje é maior do que o Fla-Flu.

Vimos então que, para ser o maior clássico do país, o jogo precisa ter o que eu chamo de “os quatro erres” – Rivalidade, Regionalidade, Repercussão e Regularidade. O clássico que preenche completa e totalmente TODOS esses requisitos, sem dúvida, é Palmeiras x Corinthians, o maior clássico do Brasil.

O clássico é tão importante que possui algumas marcas históricas:
Já serviu para salvar o São Paulo da falência iminente, no que ficou conhecido como “Jogo das Barricas” em 1938;
Já serviu para apoiar o Partido Comunista Brasileiro em 1945, fato que virou livro (¨Palmeiras x Corinthians 1945 – o Jogo Vermelho¨, escrito por Aldo Rebelo);
Já foi citado no filme “Boleiros”, em 1998;
Já virou filme, “O Casamento de Romeu e Julieta”, em 2005, com Luana Piovani no papel principal. O filme foi distribuído não só no Brasil, mas em vários países do mundo.
Já definiu vários campeonatos paulistas, torneios Rio-São Paulo, dois campeonatos brasileiros e até mesmo um dos finalistas da Copa Libertadores da América em 1999.

O Casamento de Romeu e Julieta em versão alemã. Foto: Trigon-Film

Em 2020 as equipas vivem situações completamente opostas: enquanto o Palmeiras está em paz com seu técnico e com seus adeptos, precisando apenas de um ponto para se classificar às fases finais do Campeonato Paulista, seu rival Corinthians vê a vaga para os jogos decisivos cada vez mais distante, e está a correr inclusive o risco de ser rebaixado à segunda divisão do certame.

A interrupção do campeonato por conta da pandemia de Covid-19 ocorreu às vésperas da partida, portanto quando tudo isso acabar este será o primeiro jogo a ser disputado por eles. Será mais uma marca histórica do clássico mais importante das terras canarinhas.

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Marcial CortezAbril 8, 20203min0

Apesar do futebol estar parado em quase todo o planeta, a IFAB (International Football Association Board) continua seu trabalho a todo vapor. Na última terça feira, foram publicadas as novas regras da entidade, definidas no evento 134th Annual General Meeting realizado em Belfast, na Irlanda do Norte, na última semana de fevereiro, e que passarão a valer a partir do dia 01 de junho em todo o mundo. Vamos comentar as principais mudanças:

1. Nas cobranças de penalidades, os cartões amarelos e vermelhos aplicados durante o tempo normal e a prorrogação não serão considerados.

Aqui começa a primeira polêmica: então um jogador que eventualmente tenha sido expulso durante a partida poderá ser relacionado para bater uma cobrança na hora da definição por penalidades? Você considera isto justo? Imagine um jogador que tenha cometido uma agressão grave no decorrer do jogo e tenha sido punido por esta ação. Este jogador poderia se tornar um heroi nesta mesma partida, ao definir um eventual último pênalti decisivo.

2. Num pênalti, caso o guarda redes tenha se adiantado antes da cobrança e a bola bata na trave ou saia pra fora, a cobrança será validada. Somente se repetirá a cobrança se a bola tocar no guarda redes.

Outra polêmica. Sabendo dessa regra, os guarda redes poderão se adiantar à vontade para atrapalhar o batedor. Se eles não tocarem na bola e ela não entrar, isso vai favorecer a defesa. Ora, se o objetivo do futebol é o golo, essa regra tem tudo para não dar certo.

3. Infração por mão: o limite superior do braço coincide com o ponto mais baixo da axila. Ou seja, a região da manga curta da camisola é considerada válida. A IFAB cita como limite ¨o fim da manga da camisola¨.

IFAB considera manga da camisola como limite para validar mão na bola. Foto: Marcio Alves / Agencia O Globo

Essa regra, certamente, é a que mais vai causar problemas. Fabricantes diferentes confeccionam camisolas distintas. O comprimento de uma manga é diferente do comprimento da outra. Ora, como farão a definição do que é mão e o que não é mão? O VAR vai decidir? E se a camisola do fabricante X tiver a manga mais comprida que o fabricante Y? Aquela bola de lançamento longo que normalmente é matada no peito, poderá ter um ¨pequeno auxílio¨ do antebraço para o jogador fazer o domínio? Desde que a parte do antebraço esteja coberta pela camisola, a regra nova diz que isso será válido. Essa alteração poderá mudar radicalmente a forma com que o futebol é jogado atualmente.

 

Além destas regras, outras mudanças estão a ser estudadas pelo IFAB, entre elas a alteração da forma de medição do tempo de jogo, com paralisação do cronômetro em algumas situações, entre outras. Como se vê, o futebol está em constante evolução, mas nem sempre as regras mudam para melhor.

Vamos aguardar a bola rolar na relva para ver como estas mudanças ocorrerão na prática.

 

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Marcial CortezMarço 20, 20205min0

Hoje vamos falar de uma inusitada experiência que tive recentemente, quando pude assistir ao vivo um dos clássicos mais enigmáticos e emocionantes do futebol sul-americano: Racing X Independiente.

Nestes tempos de reclusão, quarentena e suspensão do futebol, nada como relembrar grandes histórias envolvendo este esporte que movimenta as multidões.

Quando se fala em Argentina, imediatamente o jogo entre Boca e River vem às nossas cabeças. Sim, é verdade, estamos a falar de um clássico gigantesco, que até já decidiu a Libertadores em terras europeias. No entanto, Boca x River não é o único clássico argentino. Há muito mais jogos interessantes nas terras portenhas do que sonha a vossa vã filosofia.

Racing x Independiente é um deles. A rivalidade começa na localização geográfica. Avellaneda, uma pequena cidade da região metropolitana de Buenos Aires, tem pouco mais de 30 mil habitantes, que se dividem em adeptos do Independiente (El Rojo) e do Racing Club (La Academia). Os dois estádios ficam a poucos metros de distância e a cidade respira futebol. No entorno das arenas, vários bares e restaurantes ficam lotados nos dias de jogos, que assim como nas principais cidades brasileiras, também contam com claque única (por questões de segurança, quando o jogo é no estádio do Racing, somente os adeptos do Racing o assistem, e vice-versa).

O estádio do Racing, conhecido como ¨El Cilindro¨, tem capacidade para 51 mil adeptos que lotam a arena em todas as partidas. É uma claque extremamente apaixonada pelo clube e conta com uma banda musical chamada ¨La Guardia Imperial¨, que comanda todos os cantos durante os jogos. No link https://www.letras.mus.br/la-guardia-imperial é possivel conhecer e ouvir os gritos de guerra e as letras dos coros dos adeptos do Racing.

E aqui começamos a fazer um paralelo entre as claques no Brasil e na Argentina. Há uma diferença fundamental entre as duas: enquanto os adeptos brasileiros costumam ¨jogar junto com o time¨, ou seja, se o time vai bem, a claque cresce, e se o time vai mal, a claque diminui o volume e costuma ficar tensa (isso ocorre com todas as claques de todos os clubes brasileiros), na Argentina o comportamento da claque parece ser independente do jogo ou do resultado do mesmo. Há um famoso vídeo no Youtube que mostra um jogo entre Racing e River Plate, no qual o River aplica uma goleada de 6 a 1 na Academia, e mesmo assim os adeptos continuam a fazer uma festa gigante, algo inimaginável nos estádios brasileiros.

Outro ponto que chamou-me muito a atenção foi que a maioria dos cantos das claques brasileiras são copiados dos coros argentinos. Muitas vezes, são apenas traduzidos para o português do Brasil e em algumas situações tem as letras adaptadas para adequação à métrica musical. Veja estes exemplos com cantos das torcidas de Palmeiras e São Paulo:

Fonte: www.letras.com.br

 

Em contrapartida, se nas arquibancadas os argentinos são melhores que os brasileiros, o mesmo não se pode dizer quanto à qualidade do futebol apresentado. As duas equipas estavam em posições intermediárias na tabela do Campeonato Argentino, com o Racing ligeiramente melhor e ainda a lutar por uma vaga na Copa Libertadores 2021 (ao final do campeonato, o Independiente ficou em 14o lugar e o Racing conseguiu a vaga para a primeira fase classificatória do principal torneio sul-americano).

E onde faltou qualidade, sobrou raça. O jogo foi Histórico. Assim mesmo, com H maiúsculo. Os donos da casa jogaram razoavelmente bem no primeiro tempo, até que aos 39 minutos o guarda redes Arias foi expulso. E na sequência, no início da segunda etapa, nos primeiros segundos de bola rolando, o jogador Sigali também levou o cartão vermelho, o que fez com que o Racing jogasse com apenas nove atletas durante todo o segundo tempo. E o que se viu a partir daí foi um verdadeiro massacre vermelho. O time do Independiente jogou o tempo todo no campo de ataque, acuando os donos da casa em sua grande área. Parecia um treino de ataque contra defesa. Mesmo nessa situação difícil, os adeptos do Racing não deixaram a energia diminuir, e a cada ataque do alvirrubro mais subia o volume e a temperatura nas arquibancadas.

Até que num desses momentos arrebatadores que só o futebol pode nos proporcionar, num contra ataque aos 41 minutos do segundo tempo, o avançado Chelo Diaz conseguiu fazer o único golo da partida, cravando a histórica vitória por 1 a 0. Desnecessário dizer aqui o que aconteceu nas arquibancadas. Foi uma festa de conquista de campeonato. O torcedor do Racing, que comemora até quando está a perder do River por 6 golos, explodiu numa alegria jamais vista, ao derrotar o arquirrival de camisola rubra em situação tão dramática. Ao Independiente, só restou lamentar a perda da oportunidade de fazer um belo resultado na casa do inimigo.

 

Foto: Marcial Cortez

Então siga a minha sugestão. Aproveite este tempo de quarentena e suspensão do futebol para assistir aos grandes clássicos deste esporte que tanto nos encanta. Garanto que não irás te arrepender. E mesmo sendo brasileiro, sou obrigado a concordar com os argentinos: no que se refere à festa nas arquibancadas, Maradona é melhor que Pelé.

 


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