Arquivo de Sporting - Fair Play

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Bruno Costa JesuínoJaneiro 20, 20207min0

Rivalidade. Rivalidade não é guerra. Embora pareça que no futebol há uma linha, demasiado ténue, que as separa. Felizmente, os protagonistas, ou pelo menos aqueles que o deviam ser, ainda nos dão muitos bons exemplos. Um desses casos é o badalado “Bruno Fernandes”, que nos últimos tempos tem dado bons exemplos de fair play fora de campo. Além disso, vamos falar no futebol. Mas daquela parte que interessa.

Bom exemplo, um que está sempre a reclamar durante os 90 minutos?

É um facto. O seu perfil em campo faz com que passe muito tempo a reclamar com árbitros e adversários durante os 90 minutos. Mas não é essa parte que o artigo quer destacar. É a capacidade de Bruno Fernandes não ter receio em falar sem tabus de assuntos que muitos não têm coragem de o fazer. Os elogios públicos aos “inimigos”. Ah, espera, isso é a forma como muitos pensam. Vou reformular. O capitão dos ‘leões’ elogiou publicamente a qualidade de vários rivais. No final da época passada, em declarações à RTP, no final da época passada, elogiou a capacidade um jogador portista.

Não vou dizer que sou eu. Não é uma questão de humildade a mais, mas não me consigo ver dessa maneira. Há um jogador que este ano até pode não ter sido tão preponderante, mas que gosto muito: o Brahimi. Para mim, quando quer, é o melhor jogador do campeonato.

As palavras estenderam-se ainda a outros destaques do rival da segunda circular, pelas excelentes época que fizeram.

Dos portugueses… Temos a surpresa João Félix, que fez um grande campeonato, mas pela influência que tem diria o Pizzi. Talvez até o possa colocar no mesmo patamar que o Brahimi.

Mas não se ficou por aqui, ainda esta época, o capitão do Sporting, fez um comentário nas redes sociais a elogiar a excelente prestação do benfiquista diante do Zenit.

Adivinhem o que aconteceu?

Se calhar não é preciso muito para se adivinhar o que aconteceu. Pois bem, no futebol, o elogio a rivais tem sempre o reverso da medal. Para grande parte dos adeptos ser simpático para um adversário é algo proibido, e quem o faz é considerado pelos mais radicais, como ‘traidor’. Inclusive por aqueles adeptos ‘famosos’ que vão à televisão. Lembro-me quando o Benfica ganhou ao Porto, um desses em adeptos, no Prolongamento, ter criticado por no fim do jogo Ricardo Quaresma ter dado um abraço a Jorge Jesus. Para ele, é inconcebível depois de uma derrota ser ‘simpático’ com um adversário. Óbvio que anos depois, também apoiou o ‘não cumprimentar’ que Sérgio Conceição fez a João Félix no mesmo estádio, e também após um desaire.

It’s  footbal, not war

O futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes das nossas vidas.

Esta famosa frase é da autoria do ex-jogador e treinador italiano Arrigo Sacchi, e devia ser lembrada todos os dias. Lembrada e levada à letra. E após o apito final não eternizar guerras sem sentido e com base num clubismo exacerbado, que mais se aproxima de ódio. E tudo começar quando se odeia mais um rival do que se gosta do seu clube.

It’s football, not war. E sigam o exemplo, dos jogadores. Que por vezes não demonstram mais devido às más reacções de parte significativa dos adeptos. Por isso, parabéns Bruno. E que o teu ‘grande’ futebol continue a acompanhar a tua ‘grande’ postura. Seja onde for.

Nélson Semedo e Bruno Fernandes:

João Félix responde a Bruno Fernandes:

O nosso futebol: ponto de situação

Acabou a primeira volta do campeonato e em pouco mais de quatro meses muitas coisas há destacar. Vamos pegar em dois pontos positivos e um negativo.

A ‘dança’ dos treinadores ja dava (quase) para fazer um ‘onze’

Começar por um menos positivo. Desde o início houve dez mudanças de treinador. Quer dizer onze, com  saída de Folha do Portimonense durante o fim de semana. O Sporting, contando com o interino Leonel Pontes, e o Belenenses, já vão na terceira escolha. Não será por acaso as épocas conturbadas e abaixo das expectativas que ambas as equipas têm tido. Aliás, curiosamente, Silas, actual treinador do Sporting, começou a época no Belenenses (ou será que deverei B Sad ou Code City!).

Mas mais que a mudança de treinadores é a mudança de estratégia em poucos meses. O Marítimo começou a época com Nuno Manta Santos (agora no Aves), um treinador de transição, e ao fim de alguns meses mudou para José Gomes, um treinador que aposta num jogo de posse. O mesmo com Vitória Futebol Clube, que depois de Sandro, que montava a equipa centrada na segurança defensiva, apostou no espanhol Júlio Velasquez.

Em sentido oposto, o Belenenses que depois de Silas e Pedro Ribeiro, apostou em Petit. Treinador que se tem especializado em assumir salvar da descida equipas que assume a meio da época, mas que ao contrário dos antecessores, apresenta uma forma de jogar antagónica.

O grande Fama, o Gil de Oliveira e os recordes de Lage

A grande sensação da época tem sido o Famalicão, ainda por cima neste regresso à primeira liga depois de algumas décadas de ausência. Um projecto que está a ser criado há alguns anos e que está a dar frutos. Uma aposta em jogadores jovens, que têm tudo ainda para mostrar. Reforçou-se tanto no verão como agora no mercado do inverno. Até ver ainda não deixou sair nenhum dos principais jogadores, e está no sensacional terceiro lugar. Será que vai continuar a surpreender?

Quase tão surpreendente, o também regressado Gil Vicente. Com um plantel por montar a partir do zero, escolheu o experiente Vitor Oliveira, o mestre das subidas de divisão. Uma missão difícil nas mãos certas. Destaca-se a vitória sobre o Porto e Sporting, e mesmo depois de alguma séries negativas, encontra-se no 8º lugar, seis pontos acima da linha de água.

Mesmo com algumas fases negativas, principalmente após a derrota com o Porto, o Benfica de Bruno Lage teve a força de ir ganhando quando jogou mal. Com o regresso Gabriel e depois de Chiquinho, e a explosão de Vinícius a equipa estabilizou, mesmo quando perdeu o jogador que em melhor forma: Rafa. Em 51 pontos, conquistou 48, apresentando o melhor ataque e a melhor defesa (+7 golos e -5 que o Porto, respectivamente).

Uma palavra para a qualidade de jogo do Vitória Sport Clube, apesar de alguns resultados menos positivos do que as exibições adivinhavam.

Do trio benfiquista ao incontornável Bruno Fernandes

A prova quase imaculado do Benfica tem tido em Pizzi, desde o início, e melhoria exibicional com a entrada de Chiquinho e Vinícius. O primeiro porque é aquele que mais aproximou o Benfica das dinâmicas da época passada (quando tinha João Félix) e o brasileiro pelas novas soluções que deu à equipa, além da excelente média de golos.

No Porto o maior destaque tem sido Corona. O mexicano, jogue em que posição jogar é actualmente o mais imprescindível. Os reforços Marchesin, entrou muito bem na equipa, e Luis Diaz, embora a espaços, tem oferecido à equipa aquilo que Brahimi tinha de melhor.

No Braga, Ricardo Horta tem sido o mais influente na frente, enquanto Palhinha tem crescido muito. A capacidade de equilíbrio de dá a equipa faz lembrar a influência que Fejsa já teve no Benfica.

Na cidade de Guimarães, com um plantel bem recheado, Ivo Vieira tem rodado muito a equipa de jogo para o jogo. No entanto, o jogador mais utilizado, tem sido Tapsoba, um dos melhores centrais do nosso campeonato. No Sporting, Bruno Fernandes. Sempre, Bruno Fernandes.

Outros destaques: Kraev (Gil Vicente), Davidson (Vitória SC), Nehuén Perez, Pedro Gonçalves, Fábio Martins (Famalicão), Taremi (Rio Ave), Pepelu (Tondela), Filipe Soares (Moreirense) e Mehrdad Mohammadi (Aves).

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Bruno Costa JesuínoOutubro 25, 20198min0

Jogar bem não garante vitórias mas… deixa-nos sempre mais perto de ganhar. Ainda nestes últimos dias, entre Taça de Portugal e competições europeias tivemos alguns exemplos disso. Se por um lado as vitórias na taça de Alverca, Sintra FC, Beira Mar sobre clubes de primeira liga, são exemplos da primeira premissa, a prestação do Vitória SC, diante do Arsenal, testemunha a segunda.

As surpresas (ou nem tanto assim) na Taça de Portugal

Cinco equipas da primeira liga eliminadas na Taça de Portugal na primeira na primeira ronda (em que estas entram) já era considerado um recorde. Até que no dia seguinte, caíram mais duas. Foram dados três exemplos acima – Alverca, Sintra e Beira Mar –  que foram jogos que consegui ver com mais cuidado. O que impressionou mais, além da qualidade colectiva, foi a atitude dessas equipas, que nunca se atemorizaram pelo poderio adversário e jogaram o jogo pelo jogo, sem ‘autocarros’, e na procura constante do golo, mesmo na forma como os jogadores se posicionavam no momento defensivo. Por isso, para quem viu os jogos, as surpresas na Taça de Portugal não o foram tanto assim.

Campeonato de Portugal mais forte ou Primeira Liga mais fraca? Eis a questão.

Esta é um questão que muito tem sido debatida. Já todos lemos, vimos e ouvimos defensores das duas opiniões. Talvez com mais interlocutores a acentuar que são as principais equipas que estão mais fracas. No entanto, antes de mais, o que importa destacar, é a forma como todas as equipas profissionais, semi-profissionais e até amadoras, trabalham cada vez melhor. Ao que se deve? Acima de tudo à qualidade do treinador português e ao nascimento de bons projectos apoiados em boas estruturas que não se limitam a pensar nos resultados a curto-prazo. Em termos gerais, a qualidade do treinador português é muito superior ao que era há 10 anos. E ainda mais do que há 20 anos. Se antigamente ser treinador era quase um (con)sequência da carreira de um ex-jogador, hoje em dia é o sonho de muitos jovens. Mais até do que ser jogador. E estudam e trabalham para ser reais mais valias, Óbvio que a isso não é alheio ao sucesso dos treinadores portugueses no estrangeiro, que são hoje em dia dos melhores entre os melhores do mundo. Campeonato de Portugal está mais forte? Sim. A Primeira Liga está mais fraca? Não. A diferença entre elas, isso sim, em alguns confrontos directos terá alguma tendência a ser diluída, pois existem menos diferenças na qualidade do trabalho.

Europa: nem todos os que jogaram bem ganharam e houve vitórias de quem não jogou bem

No que respeita às prestações portuguesas na jornada europeia, acabou por ser globalmente positiva: 3 vitórias, 1 empate e uma derrota. Mas mais que os resultados vamos fazer a relação entre qualidade exibicional e resultados.

Os que jogaram bem…

Quem jogou melhor? Sem qualquer dúvida, Sporting de Braga e Vitória Sport Clube. Um ganhou na sempre complicada deslocação à Turquia, o outro perdeu diante do tubarão e super-favorito Arsenal. Os vimaranenses entraram no Emirates Stadium, mantiveram a sua identidade e jogaram o jogo pelo jogo sem duvidar do potencial que têm demonstrado sob o comando de Ivo Vieira. Estiveram duas vezes em vantagem, não tremeram quando sofreram golos, e só a qualidade individual superlativa dos ‘gunners’, neste caso com dois golos. Yohann Pele, que custou 80 milhões, entrou e marcou dois grandes golos de livre directo. Nos três jogos o Vitória jogou e bem e merecia ter (pelo menos) pontuado em qualquer jogo desta fase de grupo. No entanto, a qualidade de jogo não resultou qualquer ponto. No caso do Braga, a equipa tem tido um registo quase imaculado na Europa, encontra-se no primeiro lugar no grupo, com sete pontos. Uma equipa personalizada que curiosamente fez seis pontos nos jogos fora (nas duas saídas mais complicadas) e empatou o jogo em casa (diante da equipa teoricamente menos favorita). Mas em qualquer dos três jogos da fase de grupos. a equipa de Sá Pinto demonstrou ser a melhor equipa equipa. Uma palavra de destaque para mais um golo de Ricardo Horta, desta vez ao Beksitas.

Ambas as equipas minhotas jogaram bem, e em qualidade de jogo têm sido, sem dúvida, os melhores representantes portugueses nas competições europeias, embora com resultados práticos diferentes.

Os que não jogaram bem…

Nem Benfica, nem Porto, nem Sporting jogaram bem. Em vários momentos do jogo até mostraram superioridade sobre o adversário, mas globalmente não fizeram assim tanto que justificasse mais que o empate. No caso dos ‘dragões’ acabaram mesmo por empatar, num jogo em casa onde eram super-favoritos diante de um Rangers que tenta recuperar o vigor de outros anos. Além de que, as equipas escocesas, mesmo nos seus melhores anos, sempre demonstram muitas dificuldades nos jogos fora de casa. Steven Gerrard, lenda do Liverpool, construiu uma equipa à sua imagem: competitiva, lutadora, pragmática, vertical… mas sem aquele ‘kick and rush’ característico durante anos em equipas britânicas. Aliás, o Rangers, pela sua forma de jogar, tentar replicar a forma de jogar do Liverpool de Klopp com aquele “gegenpressing*, embora com interpretes de qualidade bastante inferior. O avançado Alfredo Morelos, internacional colombiano, será provavelmente a unidade de maior valor.

*combinação da palavra alemã gegen (contra) com a inglesa pressing (pressionar) – que está alojada a alma das equipas de Jürgen Klopp. Simplificando o conceito, gegenpressing é a capacidade para exercer uma pressão alta sobre o adversário, imediatamente a seguir ao momento da perda de bola, para não o deixar sair a jogar.

O Porto, depois da derrota na Holanda, acreditava-se que iria com tudo para cima do Rangers, mas só nos últimos minutos conseguiu encostar os escoceses lá atrás. Se bem que, mesmo assim, iam conseguindo espreitar algumas situações de contra ataque. A melhor unidade em cada um dos conjuntos foi colombiana, e não só pelos golos, com Luis Diaz, a ser o maior destaque entre os ‘dragões’, mesmo tendo sido substituído aos 63 minutos(!)

Em crise de resultados e exibições, o Rosenborg seria o adversário ideal para o Sporting inverter o ciclo, e voltar a ganhar a confiança com uma vitória e um boa exibição. Cumpriu metade. Faltou jogar bem. Não deixando de ser a equipa que mais procurou o golo, abusou muito em cruzamentos para a área dos noruegueses. Além de estes já serem mais fortes no jogo aéreo, muitos desses cruzamentos eram feitos sem grande critério e com o Sporting em manifesta inferioridade numérica. Ironia (ou não), o golo da vitória acabou por sair através de… um cruzamento.

Por todos os motivos e mais alguns, era fundamental os leões ganharam em casa, na recepção à equipa mais frágil do grupo. Mesmo sem jogar bem, agora com 6 pontos em 2 jogos, o Sporting está bem dentro da luta pela qualificação.

Por fim, o Benfica. Depois de meia época de sonho, Bruno Lage tem tido dificuldade em estabilizar a equipa, seja pela saída de Félix, pelas consecutivas lesões, ou pela incapacidade de reinventar novas solução. A juntar a isso, a aura negativa que se tem abatido sobre os encarnados na maior competição de clubes. Depois de duas derrotas… em dois jogos, no segundo jogo em casa era imperial vencer, porque mesmo o empate iria sempre saber a pouco e comprometer ainda mais o futuro da equipa na Europa. A equipa entrou muito bem, com Rafa ao centro, a dar um grande dinamismo nas transições, inaugurando inclusive o marcador. Pouco depois saiu lesionado e o Benfica ressentiu-se, sendo mesmo assim globalmente superior ao Lyon na primeira parte. No entanto, tudo mudou na etapa complementar, mesmo sem os franceses criarem muitas situações de golo, os encarnados foram recuando e deixando de criar ocasiões de perigo (durante mais de 30 minutos). Após o golo do Lyon, o Benfica lá conseguiu reagir. Pizzi (entrou para o lugar de Rafa), que estava a ter uma exibição apagada, em 3 minutos atirou um poste e aproveitou um erro do guarda redes do Lyon, para marcar um golo do meio do meio campo. No jogo em que o resultado mais justo seria o empate, valeu mais o resultado que a exibição.

Com os resultados desta semana europeia Portugal conseguiu ultrapassar a Rússia no ranking, objectivo fundamental para voltar a poder ter três equipas portuguesas na Liga dos Campeões. Por isso venha de lá essa qualidade exibicional… pois estaremos sempre mais perto da vitória.

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Bruno Costa JesuínoOutubro 12, 20199min0

Existem muitas histórias, fictícias ou reais, que servem de analogia para a vida, quer em termos pessoais como profissionais. Uma dessas histórias envolve uma lagosta. E perguntam vocês: o que essa história da lagosta em a ver com o sucesso da formação?

 

A importância de sair da zona de conforto

Vamos começar por enquadrar a história. A lagosta, desde pequena, produz uma casca que a protege. Mas ela cresce. Quando cresce um pouco, começa a sentir dor. O que significa? A casca se tornou pequena e ela precisa procurar uma gruta para produzir um novo invólucro. A dor é o sinal de uma mudança. Esse processo se dá mais de uma vez até o final do crescimento: o corpo se desenvolve e a dor retorna, anunciando que uma nova casca se faz necessária. Casca, crescimento, dor e nova casca.

O ‘caminho da lagosta‘ deve ser o percurso a seguir na formação de jogadores. Determinado jogador quando se começa a sentir demasiado confortável no respetivo escalão, deve receber um novo estímulo, de forma a continuar o seu processo evolutivo. Vamos a exemplos práticos. Principalmente no passado, temos várias situações de diversos avançados que, ao longo do percurso de formação no Benfica, Porto e Sporting, marcaram várias dezenas de golos. Destacaram-se sempre a jogar entre miúdos da mesma idade. Embora com números fantásticos, não saltaram etapas e estiveram sempre em zona de conforto, e quando tiveram que saltar “A ETAPA” de passar para o futebol sénior a esmagadora maioria não se encontrava preparada.

Esta situação ainda se tornava mais acentuada nos jovens dos ‘três grandes’ que goleavam em muitos jogos e só quase perdiam pontos nos jogos entre si. Mas felizmente houve melhorias significativas em todo este processo. Os clubes, ou pelo menos boa parte deles, começaram a lidar com a formação de forma mais profissional apostando em recursos humanos verdadeiramente entendidos no assunto. Ao mesmo tempo deixaram de apostar ou prescindir de treinadores baseando-se unicamente nos resultados das suas camadas jovens.

 

Exemplos práticos: De Zé Gomes a Fábio Silva

Mais um exemplo e agora com nomes. Fábio Silva, 17 anos. Será mais importante, tanto para o FC Porto como para o jogador, este estar envolvido na equipa A, ou estar apenas nos sub17 ou sub19 a marcar 2, 3 ou 4 golos por jogo? Parece-nos óbvia a resposta. O potencial enorme do jogador aconselha a que este queime etapas, para sob novos estímulos, perceber a sua capacidade de reação e evolução.

Aqueles que se destacam de forma inegável nos escalões jovens devem começar a ir ganhando minutos no futebol sénior. Seja minutos na equipa A e, quando não possível, na equipa B. É essa capacidade de se afirmar ou não, que vai distinguir o trigo do joio.

José Gomes, avançado, 20 anos, mais conhecido no mundo do futebol, “Zé Gomes”. Foi-lhe sempre apontado grande potencial e apresentando sempre resultados acima da média. A época 2015/16 foi o melhor exemplo disso. Com ainda 16 anos marcou quase um golo por jogo nos 28 jogos realizados pelos sub19 do Benfica, e em Maio, já com 17 anos, foi campeão europeu pela seleção de sub17. Além de melhor marcador foi considerado o melhor jogador da competição.

A projeção foi tão grande que o Benfica chegou a receber uma proposta concreta do Barcelona. Os ‘encarnados’ seguraram no jogador e deram-lhe uma oportunidade no futebol sénior, exatamente o que a performance do jogador pedia na altura. Foram cinco aparições na equipa A e 7 golos em 23 jogos pela equipa B. Nada mau para um avançado de apenas 17 anos perante um primeira experiência no futebol sénior. No entanto, nas duas épocas seguintes, a evolução que se preconizava não aconteceu, e em 52 jogos pela equipa B, marcou 6 golos, dando a ideia de alguma estagnação. No europeu sub19, que Portugal veio também a conquistar, ainda foi titular e um dos capitães, no entanto com rendimento do jogador deixou muito a desejar, em relação a quem saltava do banco para o substituir. E no mundial de sub20 nem constou entre os selecionados.

Isto tudo para concluir que, tanto o Benfica há 3 anos, como o Porto este ano, estiveram bem em promoverem os jovens avançados de 17 anos. E depois é perceber quem é “trigo” ou quem é “joio” mediante as performances nesta nova etapa.

 

Depois do individual, o colectivo: fará sentido ganhar ‘só porque sim’?

Pois bem. Vamos por partes. A formação é um dos temas mais em voga no dia a dia futebolístico, seja em conversas de café, em jornais, na TV. Um pouco por todo o lado. Até há não muitos anos, o que mais importava às direções dos clubes resumia-se numa palavra: GANHAR. Desde os infantis aos juniores. A avaliação do sucesso na formação tinha como métrica, quase exclusiva, os títulos que se iam sendo conquistados nas camadas jovens. E assim foi durante muitos anos… ‘ganhar só porque sim’.

Segundo Renato Paiva, uma das principais caras do projeto de formação do Benfica, as maiores vitórias dos treinadores da formação é verem os jogadores que passam por si triunfarem na equipa A: “É um prazer brutal ver o Rúben Dias, o Ferro, o Renato, o Guedes e muitos outros a impor-se na primeira equipa. Não chegam lá se nós pensarmos só em ganhar. Enquanto olharmos para os dígitos e estivermos agarrados aos dígitos na formação, o processo está completamente invertido”.

Embora formar jogadores a ganhar seja sempre melhor, o resultado não deve sobrepor-se à evolução individual do jogador dentro de um coletivo.

“Nós queremos todos ganhar, ninguém sai de casa para querer perder, temos é que perceber que isto é um jogo e há processos a serem trabalhados e que por vezes, com o processo bem feito, podes não ganhar. E muitas das vezes, quando o processo não é tão forte, podes perder. Enquanto as pessoas não fizerem avaliações estruturadas sobre aquilo que é o processo e viverem do ‘resultadismo’ na formação, está completamente errado! Grandes exemplos na Europa dizem perfeitamente o contrário” – conclui o agora treinador da equipa B dos ‘encarnados’.

 

Sinergias entre Sub19, Sub23 e equipa B.

O facto de estarem a ser formadas várias gerações de grande valor não está desassociada à criação das equipas B. O facto de haver uma ponte entre os os juniores sub19 e a equipa A, deixando os jogadores por perto e com a possibilidade de os chamar a qualquer momento, melhorou muito o número de oportunidades dadas aos jovens emergentes. Na maior parte das vezes, esses jovens, sem espaço na equipa A, eram emprestado a um clube e nem sempre se conseguiria adaptar da melhor forma. Ter a oportunidade de dar esse salto perto da casa-mãe, junto de quem o conhece melhor que ninguém, potencia uma melhor resposta do jogador a um novo estímulo. Ainda por cima com a possibilidade ter essa equipa secundária, na sempre competitiva segunda liga.

Mais recentemente foi criada a Liga Revelação para jogadores até 23 anos. Mais uma ponte importante para a passagem dos jogadores para o futebol sénior mas, pelo menos para os maiores clubes nacionais, não deve ser vista directamente como um alternativa às equipas ‘bês’. Exemplo disso, foi a extinção da equipa B do Sporting Clube de Portugal. Tem em Daniel Bragança (recentemente internacional sub21) um dos maiores talentos emergentes da sua formação. Começou a época passada no sub23, numa altura a qualidade do jogador já era claramente superlativa aos demais. Percebendo-se o interesse do Sporting em querer manter o jogador por perto, o contexto ideal teria sido a equipa B, onde o nível de competitividade, intensidade e dificuldade é bastante superior. Em janeiro de 2019 foi emprestado ao Farense (2ª liga) e embora tenha tido sucesso, ter antecipado essa situação poderia ter acelerado o processo evolutivo do jogador. Esta época está a rodar no Estoril, um dos candidatos à subida.

Outro exemplo recente, é o do avançado leonino Pedro Mendes, que pela época passada já se percebia que o patamar sub23 é pouco elevado para a sua qualidade. Estar o avançado a jogar numa segunda liga, onde defrontaria todas as semanas centrais com muita experiência iria deixá-lo cada vez mais preparado para a equipa principal.

Entre as seis equipas que tiveram acesso directo a uma equipa B na segunda liga em 2012/13 – Benfica, Porto, Sporting, Braga, Vitória SC e Marítimo – apenas ‘águias’ e ‘dragões’ conseguiram manter a equipa na sempre difícil segunda liga, e os leões extinguiram a equipa há duas épocas, quando foram despromovidos.

O Porto B, pela primeira vez na história das equipas B, venceu mesmo o título em 2015/16. No entanto desse plantel, apenas André Silva e José Sá, e mais recentemente Bruno Costa, conseguiram protagonismo na equipa A. No entanto o Porto parece querer inverter essa tendência dando a oportunidade a jogadores que venceram a Youth League como Romário Baró (este nascido em 2000), Diogo Leite e Diogo Costa que ficaram no plantel. Além de Diogo Queirós que foi emprestado. Da mesma geração dos “Diogos” (1999), no rival da luz, Gedson, Florentino e João Félix (este agora no Atlético de Madrid) já no passado faziam parte da equipa principal e não foram sequer utilizados na Youth League. Jota ainda foi utilizado no início da competição. No Sporting, dessa geração,mantêm-se Luis Maximiliano e Miguel Luís, tendo vendido recentemente Thierry Correia ao Valência.

Fica a nota final. As melhores vitórias na formação é ver os jogadores a brilharem na equipa principal.


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