Arquivo de Renato Sanches - Fair Play

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Gonçalo MeloDezembro 21, 201710min0

Mais um ano finda, e aqui estão os destaques do ano Alemão, desde os goleadores Auba e Lewa, aos destaques Leipzig e Nagelsmann, há de tudo, inclusive uma referência ao publico alemão.

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Gonçalo MeloJunho 7, 20176min0

Após analisados os destaques de mais uma edição da Bundesliga é tempo de analisar e comentar as desilusões ou, como de diz na gíria futebolística, os “flops”. Numa lista composta por algumas surpresas, algumas delas jogadores já internacionais, salta à vista um nosso bem conhecido, o campeão europeu Renato Sanches.

É pelo jovem internacional português formado no Seixal que começamos. Contratado por 35 milhões de euros com apenas 18 anos, Renato chegava à Baviera em alta após ter sido campeão português pelo Benfica e campeão europeu por Portugal.

No entanto, fruto da forte concorrência e inadaptação ao estilo de jogo do Bayern, Renato foi pouco utilizado, sem nunca conseguir expor o futebol apresentado no anterior clube e na seleção, tornando-se provavelmente no maior flop do ano na Alemanha, devido ao que custou e à qualidade e esperança que nele depositavam (explicamos melhor a sua situação no artigo dedicado ao jovem prodígio).

Mas, para alem dos vários flops individuais, como Douglas Costa que não deu seguimento à qualidade apresentada na primeira época, ou Marco Reus que não consegue jogar dois meses seguidos sem se lesionar (podia ser o melhor jogador alemão da atualidade, não fosse ele de cristal) os principais flops desta edição da Bundesliga foram coletivos.

O Bayer Leverkusen, que se propunha a disputar o terceiro lugar, terminou num paupérrimo 12º lugar a uma longa distância de 23 pontos do seu objetivo. Um ano para esquecer para os farmacêuticos, com vários jogadores a realizarem épocas abaixo do esperado.

O capitão Lars Bender teve um ano fustigado por lesões, o turco Hakan Çalhanoglu nunca conseguiu expor a qualidade técnica e visão de jogo a que nos habituou, Karim Bellarabi parece ter estagnado (foi ultrapassado por Julian Brandt e Leon Bailey nas alas, para alem de ter perdido o comboio da seleção) e os avançados Stefan Kiessling, Kevin Volland e Admir Mehmedi foram pouco produtivos a nível de golos, sendo muitas vezes Chicharito o abono de família da equipa, com a sua finalização e sobretudo abnegação a trabalhar em prol da equipa.

A nível defensivo, Jonathan Tah e Aleksandar Dragovic nunca deram a segurança necessária, e os laterais ofensivos Wendell e Benjamin Henrichs deixaram muitas vezes espaço para os oponentes, revelando dificuldades a fechar os corredores. Valeu muitas vezes o inspirado guarda redes Bernd Leno, que já pede voos mais altos. A dececionante campanha levou ao despedimento do técnico Roger Schmidt, algo que não fez subir a produção da equipa, bem pelo contrário.

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Foto: Der Bild

Outra grande desilusão foi o histórico Schalke 04. Com um defeso movimentado e cheio de aquisições que prometiam, como Breel Embolo, Yehven Konoplyanka, Nabil Bentaleb, Coke ou Baba Rahman, previa-se uma época a lutar pelos lugares de Champions League, algo que não sucedeu.

Com um novo timoneiro, Markus Weinzierl, que tinha realizado um bom trabalho ao serviço do Augsburgo, o Schalke nunca conseguiu ser uma equipa coesa e constante (as lesões não ajudaram, Embolo e Huntelaar quase não jogaram, e o lateral direito Coke só realizou a ponta final da época para alem dos jogos iniciais de Agosto).

O craque ucraniano Konoplyanka eclipsou-se, nunca sendo uma mais valia nem apresentando o talento que demonstrou no Dnipro e na seleção e sendo suplente a maior parte dos jogos, Baba Rahman nunca consegui destronar Kolasinac, Johannes Geis teve uma temporada abaixo do esperado, tal como Benjamin Stambouli que chegava do PSG com rótulo de craque, e os avançados Choupo Mouting e Di Santo que nunca conseguiram suplantar a ausência do goleador Huntelaar.

Por outro lado, valeram a Weinzierl o talentoso Leon Goretzka, os experientes defesas Naldo e Benedikt Howedes e os reforços de inverno Guido Burgstaller e Daniel Caligiuri, que conseguiram que a equipa terminasse num menos mau 10º lugar.

Max Meyer conseguiu por pouco escapar ao rótulo de flop nesta temporada (jogou muitas vezes fora da sua posição, a descair para a esquerda ou demasiado na frente de ataque) devido ao talento individual demonstrado muitas vezes, sem grande constância no entanto.

Apesar destes dois flops, nada bate a péssima época dos novos ricos do futebol alemão. O Wolfsburgo do português Vieirinha escapou à despromoção apenas no playoff diante do Eintracht Braunschweig, realizando a pior época dos últimos anos.

Numa anarquia tática constante, os lobos nunca pareceram ter uma ideia e forma de jogar definidas, vivendo à base de rasgos de Julian Draxler na primeira metade da época, e dos golos de Mario Gomez na segunda.

É portanto fácil identificar vários flops desta dispendiosa equipa, como o lateral esquerdo Ricardo Rodriguez que baixou muito o rendimento que o tornou num dos mais apetecíveis laterais esquerdos da europa, os médios defensivos Josuha Guilavogui e Luiz Gustavo, os criativos Maximilian Arnold e Daniel Didavi, os contratados em Janeiro Paul-George Ntep (que nunca apresentou o nível e qualidade que levaram o clube patrocinado pela Volkswagen a desembolsar 18 milhões na sua aquisição) e Riechedly Bazoer, ou até o guarda redes Diego Benaglio que perdeu o lugar para Koen Casteels. Salvaram-se os jovens Yannick Gerhardt, Vieirinha e Yunus Malli.

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Foto: Martin Rose / Getty Images

Nas restantes equipas, o Mainz e o Hamburgo podem também ser consideradas flops desta temporada que agora findou, devido à dificuldade em manter-se acima da linha de água.

No Mainz, o suíço Fabian Frei teve uma época num nível baixo, tal como o jovem promissor Kevin Oztunalli e o defesa central/trinco André Ramalho.

No Hamburgo, que mais uma vez se consegui manter na primeira liga, destaque negativo para o central Yohan Djourou, para o avançado Pierre Lasogga que marcou apenas 1 golo na temporada, e para o jovem trinco brasileiro Wallace Silva que denotou alguns problemas de adaptação a uma nova realidade fora do Brasileirão.

Num ano de descida para Darmstadt e Ingolstadt, que nem podem ser considerados flops devido ao baixo nível da maioria dos seus jogadores em relação a jogadores de outras equipas rivais na luta pela permanência (salvo alguns casos como Dario Lezcano, Matthew Leckie, Pascal Gross, Jerome Gondorf ou Marcel Heller), estes foram os principais destaques negativos de um campeonato disputado e atrativo até à ultima ronda.

Na próxima época, estas desilusões vão certamente querer dar a volta por cima e esquecer esta má temporada. Em Agosto começa tudo novamente, e tudo pode acontecer.

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Fair PlayMaio 26, 201710min0

A parcialidade da imprensa, aliada à “venda fácil” e ao “manipular” da cultura desportiva tornam-se decisivos para um extremar de opiniões, abrindo uma divisão profunda entre adeptos do mesmo desporto. Tiago Estêvão convida-nos a olhar atentamente para três situações: Marco Silva, Renato Sanches e João Mário.

A influência dos media continua a ser de proporções enormes nos dias de hoje e a secção futebolística não foge à regra. A grande parte dos meios tem algum grau de parcialidade – algo inevitável – mas a sua grande maioria age como se não o fosse – algo evitável. Narrativas são forçadas e reprimidas consoante os interesses e influências.

Do outro lado temos o adepto comum de futebol em Portugal, que mantém ainda duas típicas caraterísticas: a falta de conhecimento e apreciação pelo jogo em si, combinada com uma gritante paixão pelas cores que defendem, na generalidade, sem pensar duas vezes. Esta combinação de fatores leva a duas situações constantes: adeptos a repudiarem qualquer narrativa e publicação de caráter negativo para com o seu clube e vice-versa.

Sabendo que não podemos simplesmente desligar e ligar grande porção da imprensa escrita em Portugal, vou analisar neste artigo três situações que levaram a inúmeras discussões durante a temporada que agora termina. Marco Silva, Renato Sanches e João Mário. Expondo factos, tenho como objetivo apenas a abertura de horizontes do leitor e a contextualização das situações em discussão.

MARCO SILVA

Todos os dias se tem questionado pela Internet a qualidade de Marco Silva como treinador – sendo o grande argumento de quem apoia tal opinião o facto da imprensa estar do lado do ex-treinador do Hull, sobrevalorizando as suas conquistas e reprimindo seus falhanços.

Olhemos para a sua carreira: chegou ao comando do Estoril com a época a decorrer, acabou campeão da Segunda Liga, conseguiu posição europeia na época de chegada à Liga NOS e de novo na seguinte. No panorama do futebol português é impossível fazer melhor – daí a receção apoteótica que teve no seu dia de apresentação em Alvalade.

Com os ‘leões’ conseguiu aquele que é ainda um dos únicos títulos da Era Bruno de Carvalho (só mais uma Supertaça para além deste) – tendo estado a minutos de deitar tudo por perdido na final, é certo, mas venceu. E se não tivesse sido a decisão errada de terceiros em Gelsenkirchen, tinha passado a fase de grupos da Champions com uma dupla de centrais composta por Maurício e Sarr – o primeiro agora quarta escolha do Spartak, enquanto Sarr acabou de descer da segunda para a terceira divisão francesa com o Red Star.

No campeonato acabou em 3º, num ano de pouco investimento (cerca de 10M€ + Nani), competindo com um FC Porto que tinha acabado de investir quatro vezes mais e um Benfica já em andamento. Na Grécia vence a liga com o Olympiakos – claro objetivo do clube –, bate recorde de vitórias consecutivas no campeonato e acaba 3º na Fase de Grupos da Liga dos Campeões, empatado em pontos com o 2º Arsenal.

Em Inglaterra aterrou numa equipa que muitos consideravam sem hipóteses de ficar no campeonato – no último lugar com 13 pontos – e tendo perdido os 2 jogadores mais influentes no balneário. O Hull passou de uma média de 0.65 pontos por jogo para um 1.16 com o treinador português, e passou a haver uma inesperada hipótese de sobrevivência para o clube. Pelo meio valorizou jogadores como Maguire e Clucas, tal como por cá tinha feito.

A verdade é que vacilou nos últimos três jogos, perdendo contra o já relegado Sunderland (que acabou a sua série de 51 jogos sem perder em casa) e Palace, antes acabar a temporada com o péssimo 7-1 frente ao Tottenham – dos 36 golos que sofreu, 13 foram nesses últimos três jogos. Culpar Marco pela descida do clube ao Championship é de loucos, já que a expetativa era zero. Que a equipa vacilou no último mês, talvez. Mas o seu histórico fala por si no que toca à sua qualidade como treinador – faltam-lhe os troféus e provar-se num clube que lhe dê recursos (até agora trabalhou mais com orçamento limitado – para seu bem ou não) para se poder colocar numa classe elevadíssima. Mas que tem qualidade, tem. Afinal, há razão para ter vários clubes da Premier League a tentar desviar a sua ligação ao FC Porto.

No que toca à sua relação com os media, tanto nos dias após pontuar frente a Liverpool ou United como depois de perder frente a Sunderland e Palace, teve o mesmo (pequeno) espaço nas capas de jornais.

A única exceção deu-se depois do 7-1 frente ao Tottenham, onde nenhum dos 3 grandes jornais noticiou o assunto na sua capa. A sua saída do Sporting foi extremamente controversa – nem sou ingénuo ao ponto de acreditar que tenha sido só aquilo que foi passado para fora –, a do Olympiakos também levantou algumas questões na Grécia, mas penso que não há informação suficiente sobre tal para fazeres juízos de valor ao seu caráter como pessoa – tenho sim mais que suficientes para dizer que sim, é bom treinador dentro de um contexto que beneficie as suas caraterísticas.

Marco Silva e pluralidade de opiniões (Foto: Getty Images)

JOÃO MÁRIO E RENATO SANCHES

As duas grandes revelações do futebol português transferiram-se por grandes quantias no passado verão e, após terem dificuldades nas suas novas realidades, agora servem de peões para discussões entre adeptos sobre quem esteve “menos mal”. Começar por dizer que cada situação é isolada, e só como tal se deveriam analisar.

Renato Sanches foi crucial para a conquista do campeonato pelo Benfica há um ano, com caraterísticas que se adaptavam na perfeição ao jogo dos encarnados. Entrou na equipa e não mais saiu, conseguindo depois também acabar por ajudar na conquista do Euro.

No entanto, ao serviço do Bayern fez apenas 800 minutos – LC + Bundesliga. Podemos começar por mencionar que Renato tem 19 anos e acabou de se mudar para um dos maiores clubes do planeta, e cada atleta tem um tempo de adaptação diferente, o que é compreensível.

Taticamente falando não faltavam opções à sua frente: Thiago foi um dos (para mim “o”) melhores médios da Europa esta época, Vidal tem lugar garantido e Kimmich já tinha sido muito rodado na equipa na época passada (era natural começar um passo à frente). Sem mencionar o Alonso (e até Javi Martinez por vezes) na posição de médio defensivo pois não é esse o papel de Renato, e relembrar ainda que quando revertiam para um 4-2-3-1 com Muller como segundo avançado se perdia mais um lugar no meio-campo.

Acho sinceramente que a saída de Renato se podia ter consumado, mas o Bayern foi uma escolha menos boa. Por muito que Ancelotti tenha dado o seu cunho à equipa, uma equipa pós-Guardiola irá continuar a incutir a sua verticalidade através do passe em oposição a uma verticalidade dada pela progressão com bola como acontecia no Benfica – e como acontece noutras equipas que se falavam interessadas no Renato.

Não é um jogador com capacidade de passe para substituir Xabi Alonso, nem lhe beneficiaria ficar preso a terrenos tão recuados e temo que, se o tentarem moldar demasiado, possa descaracterizar-se daquilo que já faz com qualidade.

Voltando ao assunto dos media: foram inúmeras as capas de jornais e a quantidade de propaganda ao Renato, pintou-se uma imagem desviada da realidade sobre um jogador humilde e com mérito pela época que fez – algo que não beneficiou o jogador que teve de lidar com pressão acrescentada e expetativas que não encaixavam com a realidade. Resultou numa invariável corrida dos colossos europeus cuja prioridade era garantir o “novo bola de ouro” antes que explodisse no campeonato europeu, e não necessariamente verificar até que ponto encaixava na sua equipa.

Pressão, pressão e mais pressão em Renato Sanches (Foto: Der Bild)

A situação de João Mário é algo diferente. Acho que poucos questionam a sua qualidade, mas a sua tomada de decisão ao ingressar no autodestrutivo Inter deverá ser questionada – se, como se reportou na altura, haviam outras equipas dispostas a pagar o mesmo. Mais um ano em que o Inter apresentou um projeto que lhes levaria “de volta aos tempos áureos”, mas no qual em novembro já De Boer tinha sido despedido. Enquanto Renato teve dificuldades em quebrar uma estabilidade constante da equipa do Bayern, no Inter foi a instabilidade constante que não beneficiou João Mário.

Quando finalmente a equipa entrou numa boa sequência já com Pioli – 11 vitórias em 13 na liga entre dezembro e março – o português era normalmente preterido. Num 4-2-3-1 em que Gagliardini e Kondogbia se tornaram âncoras do meio campo, na direita era necessária a largura dada por Candreva – algo que JM não sendo um extremo puro não consegue dar – e pelo meio surgia Banega em forma. Pioli acabou por liderar de novembro a maio, saindo depois dos resultados caírem a pique, mas não ajudou o facto de o treinador que treinou JM durante maior parte da época não ter sido quem decidiu investir 40M€ nele.

Apesar de tudo somou 2000 minutos na Serie A, 22 vezes titular, contribuiu com 3 golos e 5 assistências, e teve uma mão cheia de grandes jogos. Mas se pegarmos em todos os jogos nos quais marcou ou assistiu e ainda adicionarmos o 2-2 frente ao Milan no qual foi tão elogiado, temos 8 jogos. Façamos as contas: são três os grandes jornais desportivos portugueses que saem no dia seguinte. Se só contarmos os tais oito jogos em que João Mário teve direta influência, temos de avaliar 24 capas e, surpresa ou não, João Mário foi incluído em apenas uma, pel’A Bola. Enquanto isso, a Gazzetta Dello Sport se deliciava com a sua qualidade e questionava a Pioli a sua falta de tempo de jogo. Claro que as capas de jornais não significam tudo, mas são um bom indicador do que se passa na comunicação social portuguesa.

No fundo, se querem comentar e debater jogadores, pelo menos vejam jogos primeiro. A imprensa desportiva nacional padece de vários problemas, apesar de ter algumas virtudes… no caso de Renato Sanches, o excesso de “luz” dado ao médio-centro do Bayern acaba por criar uma “ilusão” e pressão desnecessária sobre o antigo jogador do SL Benfica. O crispar de opiniões, a divisão entre adeptos e o extremar de posições é proporcionado pela construção de notícias e capas de jornais que criam uma fantasia positiva ou negativa, não fundamentada ou pouco clara, que só prejudica a cultura desportiva em Portugal.

Artigo da autoria de Tiago Estêvão, analista de futebol português nas plataformas WhoScored e PortuGOAL.net.

Que futuro João Mário? (Foto: Pier Marco Tacca/Getty Images)
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Gonçalo MeloAbril 16, 20177min0

Renato Sanches vive dias atribulados em Munique, provavelmente os mais atribulados da sua ainda curta carreira. Opção de banco na maioria dos encontros (foi apenas titular em 10 ocasiões esta época), o antigo jogador do Sport Lisboa e Benfica estará numa situação problemática? Mas quais as razões para um jovem talento, campeão nacional, campeão europeu e Golden Boy não se conseguir impor num colosso como o Bayern?

Orientado por Carlo Ancelotti, o Bayern tornou-se uma equipa mais incisiva na forma como aborda os jogos, mudando um pouco o chip que existia na era Guardiola, em que a posse de bola era altamente elevada em todos os jogos, passando, agora, para uma forma de jogar mais pragmática e calculista, bem ao jeito italiano.

No entanto, os ensinamentos de Guardiola ainda perduram, notando-se uma preocupação por parte de todos os jogadores em ter muita bola e em produzir jogadas elaboradas em que a mesma passa por grande parte dos elementos.

Com laterais de topo mundial e centrais fortes na saída de bola torna-se mais fácil a implementação de um estilo de jogo que preze a posse de bola, podendo os médios pegar o jogo em zonas mais adiantadas do terreno, não precisando de baixar excessivamente.

Aqui reside um dos principais problemas para o menino da Musgueira. Habituado a enorme liberdade quando jogava no Benfica (aparecia em todas as zonas do campo, quer a atacar quer a defender), no Bayern essa liberdade é reduzida. O jogo de posse de bola constante não permite ao internacional português aqueles raides a que ele habituou às bancadas, sendo por isso obrigado a tornar-se um jogador mais de toque curto, na linha dos restantes médios do Bayern como Thiago Alcântara, Xabi Alonso ou Joshua Kimmich.

Mas deve um jogador, selvagem como Renato Sanches, (que com o seu estilo rebelde e irreverente conquistou um lugar a titular na seleção campeã europeia e conquistou o prémio de Golden Boy) ser obrigado a mudar a sua forma de jogar? Ou a única solução será a equipa moldar-se ao jovem craque? A resposta pode parecer impossível de dar, mas estará algures no meio das duas hipóteses.

Renato Sanches não é um médio altamente eficaz no passe, não o era no Benfica (colocava a equipa em dificuldade muitas vezes com passes errados ou perdas de bola, tendo no entanto grande parte dessas vezes a capacidade física e a velocidade para ir apagar o fogo que o próprio tinha ateado) e continua a ter esse problema em terras Bávaras.

Um dos problemas é que na Bundesliga a exigência é bastante superior em comparação com a da Liga Nos, uma vez que um erro contra o Arouca ou o Tondela não vai causar as mesmas repercussões que um erro ou uma perda de bola contra um Hoffenheim ou um Bayer Leverkusen.

Outra das contrariedades que o campeão europeu enfrenta é a exigência dos adeptos. Quando na Luz tudo lhe era perdoado, fruto de ser a pérola da formação que os adeptos tanto ansiavam ver impor-se na equipa principal, em Munique a paciência e o carinho dos adeptos para com o médio é manifestamente inferior. Cada passe errado ou cada perda de bola é mais uma forma de criticar o jovem português, e mais uma forma de pôr em causa o valor e o preço de Renato Sanches. Cabe ao portento da Musgueira dar a volta à situação.

Foto: TransferNews

O que se segue? Qual a melhor solução? Moldar-se a uma nova forma de jogar ou manter a irreverência e o futebol de rua puro que tantos apaixonou e cativou?

Na opinião de muitos o melhor para Renato é mesmo mudar de ares, pois o colosso bávaro não é a equipa ideal para o crescimento do jovem. Para outros, onde nos incluímos, o problema prende-se no timing da transferência (mais uma época com a camisola encarnada do Tricampeão Nacional teria sido o ideal, onde teria tempo e compreensão para melhorar as suas debilidades continuando a ser uma referencia no 11 e a ter muito tempo de jogo).

Ora, não sendo possível recuar no tempo só resta olhar para o futuro, e Renato tem razões para olhar sorridente para o mesmo. Sendo um jovem, tem tudo para se poder afirmar na segunda época onde já não vai ter os típicos problemas de ambientação, tanto ao estilo de jogo da nova equipa como a toda a realidade envolvente a que é sujeito um jogador de 19 anos quando se muda do seu bairro e cidade de sempre para uma cidade nova, a falar uma língua completamente diferente e a ganhar 5 vezes mais do que ganhava (para muitos a questão monetária é vital para um bom rendimento, e muitas vezes ganhando mais vai levar a um descurar da competitividade e empenho no treino e no jogo).

A juntar a isto, na próxima época Renato tem um novo aliciante. Com a reforma de Xabi Alonso, abre-se uma vaga no trio do meio campo de Ancelotti, juntamente com Arturo Vidal e Thiago Alcântara. E agora? Sanches ou Kimmich? A favor do português tem a sua força e capacidade física, podendo recuar Vidal e entrar Renato para o seu lado.

Porém, Kimmich está mais identificado com o estilo de jogo bávaro, sendo mais evoluído tacticamente e evidenciando uma considerável maior qualidade de passe. No meio destas duas hipóteses está outra que nos parece menos plausível, mas que para os alemães pode ser possível.

E se Renato Sanches assumir o lugar de Xabi Alonso? Poderá um irreverente e selvagem menino assumir um lugar (e mais que um lugar, uma forma de jogar) ocupado por um dos jogadores mais elegantes e inteligentes das últimas duas décadas? Um jogador com uma qualidade de passe tremenda, tanto curto como longo?

Renato Sanches tem várias lacunas, sobretudo ao nível do passe, embora já se note uma clara melhoria neste aspeto, sobretudo no passe longo. Mas daí a assumir o lugar do bicampeão europeu e campeão mundial por Espanha vai uma enorme distância. Para além da enorme melhoria que tinha de evidenciar ao nível do passe e do posicionamento tático, o prodígio teria de abandonar o seu estilo irreverente e de rua para assumir o papel do craque espanhol, algo que poderá tornar Renato num jogador banal.

Será o Benched Boy, que tão criticado tem sido pelo pouco que tem apresentado e pelo que custou, capaz de dar a volta às criticas e de assumir uma posição de destaque no meio campo bávaro, ainda para mais na posição 6? Ou o melhor será manter o seu estilo esperando que o mesmo resulte e que isso o leve a garantir a titularidade? Ou o melhor será mudar de ares para onde possa assumir livremente o seu futebol? Seja qual for a solução, Renato terá na próxima época uma tarefa, decidir que tipo de jogador quer ser.

E a sua decisão irá influenciar para sempre a sua carreira, podendo tornar-se num dos melhores de sempre do nosso país ou tornar-se um jogador banal como aconteceu a várias promessas. Para os adeptos portugueses, é preferível a primeira e acreditamos que o Benched Boy de 2016/17 vai saltar dessa condição para se afirmar como um dos melhores médios da Europa. É que o Bayern não liberta 35 milhões por um jovem de 18 anos recorrentemente, e vai querer provar que os gastou bem.

Foto: L’Equipe

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