A pressa em ser estrela: 4 jogadores que saíram precocemente de Portugal

Francisco IsaacDezembro 10, 20189min0

A pressa em ser estrela: 4 jogadores que saíram precocemente de Portugal

Francisco IsaacDezembro 10, 20189min0
O que têm em comum Renato Sanches, Bernard Mensah, Christian Atsu e Tiago Ilori? Estas jovens estrelas saíram demasiado rápido da Liga NOS e prejudicaram o seu futuro. Concordas?

O frenesim do mercado, a pressa em chegar aos melhores campeonatos, a fome e ganância de alguns empresários ou a necessidade de vender, tem forçado a saída de jogadores estrelas jovens dos seus campeonatos nativos de uma forma precoce e, por vezes, de uma forma nociva para o seu desenvolvimento.

O caso português não foge à regra e o Fair Play apresenta 4 nomes de atletas que saíram demasiado rápido da Liga NOS e acabaram por cambalear ou mesmo falhar no objectivo de se afirmarem na Europa.

TIAGO ILORI (SPORTING CP)

Numa era em que fazem falta centrais de futuro para a Selecção Nacional (só Rúben Dias está a jogar de forma constante, com Diogo Leite completamente arredado das escolhas de Sérgio Conceição), o facto de Ilori ter caído praticamente no esquecimento depois de anos de promessas acaba por ser motivo de alguma reflexão.

O central surgiu em força num dos períodos mais conturbados do Sporting Clube de Portugal, em 2012/2013 altura em que os leões terminaram no 6º lugar da Liga NOS, fruto e más decisões da direcção, com quatro treinadores a passarem pelo banco dos verde-e-brancos só nessa época. Ricardo Sá Pinto, Oceano Cruz e Franky Vercauteren precederam a chegada de Jesualdo Ferreira, numa altura em que a luta pelos três primeiros lugares já estava perdida, restando apenas lutar pela honra do emblema lisboeta.

No meio da confusão, vários novos jogadores ascenderam no plantel comandado por Jesualdo Ferreira, como William Carvalho, Cédric Soares, Eric Dier, João Mário, Bruma e Tiago Ilori, assumindo-se a Academia de Alcochete como a tábua de salvação de um clube à beira de um desastre total. Ilori, que já tinha jogado uns minutos na temporada anterior, foi preponderante numa recta final mais ao nível de um clube com a dimensão dos leões.

Excelente no jogo aéreo, dotado na saída rápida com o esférico nos pés e inteligente nas movimentações e apoios ao meio-campo, o então central de 19 anos prometia muito, sendo augurado um futuro brilhante e que oferecia uma solução para a dupla de centrais de Portugal.

Contudo, mal terminou essa fatídica temporada foi um dos atletas transferidos para o exterior, com o Liverpool FC a desembolsar cerca de 8M€ pelo jovem central, uma das primeiras vendas processadas pela administração de Bruno de Carvalho.

A partir desse momento o central foi desaparecendo com sucessivos empréstimos europeus: Granada (9 jogos), Bordéus (12) e Aston Villa (0). Actualmente joga ao serviço do Reading, onde se afirmou como titular, naquilo que pode ser entendido como um recomeçar de carreira para o internacional sub-23 português.

Será que Ilori fará o mesmo caminho que José Fonte?

RENATO SANCHES (FC BAYERN)

Um “cavalo” de trabalho, um jogador que conduz a bola como uma volatilidade total e uma agressividade nos duelos de qualidade marcaram os primeiros meses de Renato Sanches como jogador da equipa sénior do Sport Lisboa e Benfica, tendo sido um dos “motores” do futebol do primeiro ano de Rui Vitória na Luz. Em apenas uma época convenceu o Bayern de Munique a recrutá-lo por 45M€ e aos 19 anos parte em direcção a terras alemãs.

Uma saída decidida por Luís Filipe Vieira, a exemplo do que aconteceu e viria acontecer com outros jogadores como Gonçalo Guedes, André Gomes, Hélder Costa e outros nomes da formação encarnada. Os milhões do super-colosso da Baviera foram demasiado atractivos para a SAD dos então campeões nacionais e Renato Sanches não teve outra hipótese que não assinar pelo seu novo clube.

Seguiram-se duas épocas desastrosas para o médio internacional português, a começar por um 2016/2017 onde somou 1000 minutos em toda a época… raramente titular, nenhum golo marcado ou assistência realizada, passes errados, sem a intensidade dos tempos do SL Benfica e uma total inaptidão para segurar o jogo num campeonato bem mais exigente que o português.

Carlo Ancelotti bem tentou puxar pelo impetuoso e determinado médio, mas de nada valeu e parente esta inércia em confirmar o seu valor na Baviera, Renato Sanches foi enviado para a Premier League para jogar ao serviço do Swansea durante uma época.

O resultado foi novamente um fracasso total, com alguns passes mais “estranhos” a ficarem na retina, somando-se más exibições atrás de ainda piores prestações, numa clara queda anímica, física e técnica do médio português.

A saída precoce da Luz afectou totalmente o rendimento do Golden Boy de 2016, que parecia destinado a conquistar um espaço no futebol mundial logo no imediato, sem que se confirmasse esse cenário. Na temporada actual convenceu Niko Kovac a proporcionar-lhe uma oportunidade, conseguindo ser titular em sete jogos, onde se denotou mais intensidade, acerto e confiança do médio. Todavia, ficou associado ao pior momento do Bayern de Munique e no entretanto perdeu o seu lugar na equipa, sem hipótese de sair do banco para tentar a sua sorte.

Regressar a Portugal poderá ser o melhor para o futuro de Renato Sanches?

CHRISTIAN ATSU (FC PORTO)

Se Renato Sanches e Tiago Ilori foram de certa forma conduzidos para a porta de saída dos seus clubes em troca de vários milhões, Atsu foi o claro exemplo de um jogador que confiou em demasia no seu empresário, sem olhar com respeito para o FC Porto, o clube que formou-o entre os 16 e 20 anos.

O extremo apareceu a toda a velocidade no escalão sénior e foi emprestado ao Rio Ave FC, emblema pelo qual brilhou com uma força fenomenal. Em 27 jogos, garantiu 6 golos do seu pé, assistindo por 4 vezes os seus colegas de equipa, numa total afirmação aos 19 anos na Liga NOS. Atsu demonstrou uma qualidade louca na condução de bola, explorando bem os espaços interiores graças a uma velocidade estonteante que deixava a maioria dos seus adversários pelo caminho.

Estes apontamentos brilhantes captaram o interesse de Vítor Pereira, o então treinador dos azuis-e-brancos, que fez regressar o ganês à casa-mãe, quando só restava um ano de contrato. A tentativa da direcção portista passava por convencer Atsu em renovar e a oportunidade obtida para fazer parte do plantel foi nesse intuito.

Infelizmente para a carreira do extremo, Atsu não renovou e depois de uma época em que fez 31 jogos de Dragão ao peito, saiu em direcção à Premier League. O clube que o esperava? Os londrinos do Chelsea. Em quatro anos de contrato nunca jogou de azul-escuro e foi constantemente emprestado a formações secundárias como o Vitesse, Everton, Bournemouth e Newcastle… no somatório dos quatro empréstimos, o ganês jogou uns 80 encontros, com especial destaque para a época 2016/2017 ao serviço do Newcastle.

Nos magpies revelou-se como um jogador vibrante, altamente destinado a furar as linhas adversários e sempre predisposto a ir no risco, algo que Rafa Benítez aprecia quando corre bem.

Atsu tropeçou diversas vezes na sua “fome” em chegar longe, sem olhar para o processo de crescimento que o teria beneficiado e, porque não, levado a outro patamar no Desporto Rei. Um extremo com guelra à Porto, mas que se deixou fantasiar com as promessas dos grandes ingleses.

Aos 26 anos está a correr com o esférico pelos relvados da Premier League e parecer ter estabilizado a nível mental.

BERNARD MENSAH (VITÓRIA SC)

É um caso crítico e que demonstra o vazio das decisões de alguns empresários e/ou administrações de SAD’s portuguesas, sendo que vale a pena perceber o que se passou com o central Bernard Mensah.

Um talento puro que proveio do mesmo clube de Bernard Mensah no Gana, chegou à cidade de Guimarães com 17 anos de idade e foi conquistando o seu lugar nos vimaranenses. Da equipa de sub-18 passou para a formação “B” do clube do Minho, denotando-se um poder físico total para além de uma agilidade de excelência que criava sérias dificuldades aos seus adversários, sem esquecer a sua predisposição para armar bons remates e encontrar soluções de ataque de elevada categoria.

Chegou o ano decisivo na carreira de Mensah, 2014/2015. Promovido à equipa principal liderada por Rui Vitória, Mensah agarrou o lugar desde o dia 1, muito devido ao que garantia na saída para o ataque, movendo-se com facilidade no meio-campo adversário, sempre ligado à “electricidade” e à procura de criação de pormenores fantasiosos de alta categoria.

Aos 20 anos, Mensah foi um dos líderes do ataque do Vitória Sport Clube nessa temporada, o que ajudou assegurar um honroso 5º lugar na Liga NOS. 5 golos e 6 assistências, futebol prático e emocionante, rápido a decidir e mais rápido a explorar as deficiências dos seus adversários, Mensah acabou por se transferir em direcção a Madrid, esperado por Diego Simeone.

Como muitos outros reforços que foram da Liga NOS para o Atlético Madrid, Mensah iria eventualmente fracassar… ao fim de umas semanas da pré-época de 2015, Simeone dispensou-o e foi colocado ao serviço do Getafe. Uns pobres 8 jogos, representaram a primeira experiência do ganês em terras espanholas, sendo um claro sinal comprometedor para a evolução do médio-ofensivo.

Seguiu-se a estagnação e depois da fraca época no Getafe, o regresso a Guimarães foi um passo normal na tentativa de recuperar a forma de outrora. Infelizmente, Mensah falhou na sua segunda passagem pelo clube que o ajudou a formar para o futebol, somando 1000 minutos em toda a época, sem qualquer detalhe ou registo de valor.

Perante o insucesso em Portugal e nova dispensa no Atlético Madrid, Mensah viajou para a Turquia, onde serviu em 2017/2018 o Kasimpasa. Os detalhes técnicos ainda estão lá, mas a visão estratégica, o trabalho minucioso no meio-campo e o comportamento físico estagnou por completo, deixando de ser um “diamante” em qualquer dos níveis possíveis.

Joga actualmente no Kayserispor, um dos emblemas em pior forma na Süperlig, e o futuro não parece augurar nada de positivo para um atleta que encantou Portugal em outros tempos.


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