Arquivo de Renato Sanches - Página 2 de 2 - Fair Play

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Fair PlayMaio 26, 201710min0

A parcialidade da imprensa, aliada à “venda fácil” e ao “manipular” da cultura desportiva tornam-se decisivos para um extremar de opiniões, abrindo uma divisão profunda entre adeptos do mesmo desporto. Tiago Estêvão convida-nos a olhar atentamente para três situações: Marco Silva, Renato Sanches e João Mário.

A influência dos media continua a ser de proporções enormes nos dias de hoje e a secção futebolística não foge à regra. A grande parte dos meios tem algum grau de parcialidade – algo inevitável – mas a sua grande maioria age como se não o fosse – algo evitável. Narrativas são forçadas e reprimidas consoante os interesses e influências.

Do outro lado temos o adepto comum de futebol em Portugal, que mantém ainda duas típicas caraterísticas: a falta de conhecimento e apreciação pelo jogo em si, combinada com uma gritante paixão pelas cores que defendem, na generalidade, sem pensar duas vezes. Esta combinação de fatores leva a duas situações constantes: adeptos a repudiarem qualquer narrativa e publicação de caráter negativo para com o seu clube e vice-versa.

Sabendo que não podemos simplesmente desligar e ligar grande porção da imprensa escrita em Portugal, vou analisar neste artigo três situações que levaram a inúmeras discussões durante a temporada que agora termina. Marco Silva, Renato Sanches e João Mário. Expondo factos, tenho como objetivo apenas a abertura de horizontes do leitor e a contextualização das situações em discussão.

MARCO SILVA

Todos os dias se tem questionado pela Internet a qualidade de Marco Silva como treinador – sendo o grande argumento de quem apoia tal opinião o facto da imprensa estar do lado do ex-treinador do Hull, sobrevalorizando as suas conquistas e reprimindo seus falhanços.

Olhemos para a sua carreira: chegou ao comando do Estoril com a época a decorrer, acabou campeão da Segunda Liga, conseguiu posição europeia na época de chegada à Liga NOS e de novo na seguinte. No panorama do futebol português é impossível fazer melhor – daí a receção apoteótica que teve no seu dia de apresentação em Alvalade.

Com os ‘leões’ conseguiu aquele que é ainda um dos únicos títulos da Era Bruno de Carvalho (só mais uma Supertaça para além deste) – tendo estado a minutos de deitar tudo por perdido na final, é certo, mas venceu. E se não tivesse sido a decisão errada de terceiros em Gelsenkirchen, tinha passado a fase de grupos da Champions com uma dupla de centrais composta por Maurício e Sarr – o primeiro agora quarta escolha do Spartak, enquanto Sarr acabou de descer da segunda para a terceira divisão francesa com o Red Star.

No campeonato acabou em 3º, num ano de pouco investimento (cerca de 10M€ + Nani), competindo com um FC Porto que tinha acabado de investir quatro vezes mais e um Benfica já em andamento. Na Grécia vence a liga com o Olympiakos – claro objetivo do clube –, bate recorde de vitórias consecutivas no campeonato e acaba 3º na Fase de Grupos da Liga dos Campeões, empatado em pontos com o 2º Arsenal.

Em Inglaterra aterrou numa equipa que muitos consideravam sem hipóteses de ficar no campeonato – no último lugar com 13 pontos – e tendo perdido os 2 jogadores mais influentes no balneário. O Hull passou de uma média de 0.65 pontos por jogo para um 1.16 com o treinador português, e passou a haver uma inesperada hipótese de sobrevivência para o clube. Pelo meio valorizou jogadores como Maguire e Clucas, tal como por cá tinha feito.

A verdade é que vacilou nos últimos três jogos, perdendo contra o já relegado Sunderland (que acabou a sua série de 51 jogos sem perder em casa) e Palace, antes acabar a temporada com o péssimo 7-1 frente ao Tottenham – dos 36 golos que sofreu, 13 foram nesses últimos três jogos. Culpar Marco pela descida do clube ao Championship é de loucos, já que a expetativa era zero. Que a equipa vacilou no último mês, talvez. Mas o seu histórico fala por si no que toca à sua qualidade como treinador – faltam-lhe os troféus e provar-se num clube que lhe dê recursos (até agora trabalhou mais com orçamento limitado – para seu bem ou não) para se poder colocar numa classe elevadíssima. Mas que tem qualidade, tem. Afinal, há razão para ter vários clubes da Premier League a tentar desviar a sua ligação ao FC Porto.

No que toca à sua relação com os media, tanto nos dias após pontuar frente a Liverpool ou United como depois de perder frente a Sunderland e Palace, teve o mesmo (pequeno) espaço nas capas de jornais.

A única exceção deu-se depois do 7-1 frente ao Tottenham, onde nenhum dos 3 grandes jornais noticiou o assunto na sua capa. A sua saída do Sporting foi extremamente controversa – nem sou ingénuo ao ponto de acreditar que tenha sido só aquilo que foi passado para fora –, a do Olympiakos também levantou algumas questões na Grécia, mas penso que não há informação suficiente sobre tal para fazeres juízos de valor ao seu caráter como pessoa – tenho sim mais que suficientes para dizer que sim, é bom treinador dentro de um contexto que beneficie as suas caraterísticas.

Marco Silva e pluralidade de opiniões (Foto: Getty Images)

JOÃO MÁRIO E RENATO SANCHES

As duas grandes revelações do futebol português transferiram-se por grandes quantias no passado verão e, após terem dificuldades nas suas novas realidades, agora servem de peões para discussões entre adeptos sobre quem esteve “menos mal”. Começar por dizer que cada situação é isolada, e só como tal se deveriam analisar.

Renato Sanches foi crucial para a conquista do campeonato pelo Benfica há um ano, com caraterísticas que se adaptavam na perfeição ao jogo dos encarnados. Entrou na equipa e não mais saiu, conseguindo depois também acabar por ajudar na conquista do Euro.

No entanto, ao serviço do Bayern fez apenas 800 minutos – LC + Bundesliga. Podemos começar por mencionar que Renato tem 19 anos e acabou de se mudar para um dos maiores clubes do planeta, e cada atleta tem um tempo de adaptação diferente, o que é compreensível.

Taticamente falando não faltavam opções à sua frente: Thiago foi um dos (para mim “o”) melhores médios da Europa esta época, Vidal tem lugar garantido e Kimmich já tinha sido muito rodado na equipa na época passada (era natural começar um passo à frente). Sem mencionar o Alonso (e até Javi Martinez por vezes) na posição de médio defensivo pois não é esse o papel de Renato, e relembrar ainda que quando revertiam para um 4-2-3-1 com Muller como segundo avançado se perdia mais um lugar no meio-campo.

Acho sinceramente que a saída de Renato se podia ter consumado, mas o Bayern foi uma escolha menos boa. Por muito que Ancelotti tenha dado o seu cunho à equipa, uma equipa pós-Guardiola irá continuar a incutir a sua verticalidade através do passe em oposição a uma verticalidade dada pela progressão com bola como acontecia no Benfica – e como acontece noutras equipas que se falavam interessadas no Renato.

Não é um jogador com capacidade de passe para substituir Xabi Alonso, nem lhe beneficiaria ficar preso a terrenos tão recuados e temo que, se o tentarem moldar demasiado, possa descaracterizar-se daquilo que já faz com qualidade.

Voltando ao assunto dos media: foram inúmeras as capas de jornais e a quantidade de propaganda ao Renato, pintou-se uma imagem desviada da realidade sobre um jogador humilde e com mérito pela época que fez – algo que não beneficiou o jogador que teve de lidar com pressão acrescentada e expetativas que não encaixavam com a realidade. Resultou numa invariável corrida dos colossos europeus cuja prioridade era garantir o “novo bola de ouro” antes que explodisse no campeonato europeu, e não necessariamente verificar até que ponto encaixava na sua equipa.

Pressão, pressão e mais pressão em Renato Sanches (Foto: Der Bild)

A situação de João Mário é algo diferente. Acho que poucos questionam a sua qualidade, mas a sua tomada de decisão ao ingressar no autodestrutivo Inter deverá ser questionada – se, como se reportou na altura, haviam outras equipas dispostas a pagar o mesmo. Mais um ano em que o Inter apresentou um projeto que lhes levaria “de volta aos tempos áureos”, mas no qual em novembro já De Boer tinha sido despedido. Enquanto Renato teve dificuldades em quebrar uma estabilidade constante da equipa do Bayern, no Inter foi a instabilidade constante que não beneficiou João Mário.

Quando finalmente a equipa entrou numa boa sequência já com Pioli – 11 vitórias em 13 na liga entre dezembro e março – o português era normalmente preterido. Num 4-2-3-1 em que Gagliardini e Kondogbia se tornaram âncoras do meio campo, na direita era necessária a largura dada por Candreva – algo que JM não sendo um extremo puro não consegue dar – e pelo meio surgia Banega em forma. Pioli acabou por liderar de novembro a maio, saindo depois dos resultados caírem a pique, mas não ajudou o facto de o treinador que treinou JM durante maior parte da época não ter sido quem decidiu investir 40M€ nele.

Apesar de tudo somou 2000 minutos na Serie A, 22 vezes titular, contribuiu com 3 golos e 5 assistências, e teve uma mão cheia de grandes jogos. Mas se pegarmos em todos os jogos nos quais marcou ou assistiu e ainda adicionarmos o 2-2 frente ao Milan no qual foi tão elogiado, temos 8 jogos. Façamos as contas: são três os grandes jornais desportivos portugueses que saem no dia seguinte. Se só contarmos os tais oito jogos em que João Mário teve direta influência, temos de avaliar 24 capas e, surpresa ou não, João Mário foi incluído em apenas uma, pel’A Bola. Enquanto isso, a Gazzetta Dello Sport se deliciava com a sua qualidade e questionava a Pioli a sua falta de tempo de jogo. Claro que as capas de jornais não significam tudo, mas são um bom indicador do que se passa na comunicação social portuguesa.

No fundo, se querem comentar e debater jogadores, pelo menos vejam jogos primeiro. A imprensa desportiva nacional padece de vários problemas, apesar de ter algumas virtudes… no caso de Renato Sanches, o excesso de “luz” dado ao médio-centro do Bayern acaba por criar uma “ilusão” e pressão desnecessária sobre o antigo jogador do SL Benfica. O crispar de opiniões, a divisão entre adeptos e o extremar de posições é proporcionado pela construção de notícias e capas de jornais que criam uma fantasia positiva ou negativa, não fundamentada ou pouco clara, que só prejudica a cultura desportiva em Portugal.

Artigo da autoria de Tiago Estêvão, analista de futebol português nas plataformas WhoScored e PortuGOAL.net.

Que futuro João Mário? (Foto: Pier Marco Tacca/Getty Images)
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Gonçalo MeloAbril 16, 20177min0

Renato Sanches vive dias atribulados em Munique, provavelmente os mais atribulados da sua ainda curta carreira. Opção de banco na maioria dos encontros (foi apenas titular em 10 ocasiões esta época), o antigo jogador do Sport Lisboa e Benfica estará numa situação problemática? Mas quais as razões para um jovem talento, campeão nacional, campeão europeu e Golden Boy não se conseguir impor num colosso como o Bayern?

Orientado por Carlo Ancelotti, o Bayern tornou-se uma equipa mais incisiva na forma como aborda os jogos, mudando um pouco o chip que existia na era Guardiola, em que a posse de bola era altamente elevada em todos os jogos, passando, agora, para uma forma de jogar mais pragmática e calculista, bem ao jeito italiano.

No entanto, os ensinamentos de Guardiola ainda perduram, notando-se uma preocupação por parte de todos os jogadores em ter muita bola e em produzir jogadas elaboradas em que a mesma passa por grande parte dos elementos.

Com laterais de topo mundial e centrais fortes na saída de bola torna-se mais fácil a implementação de um estilo de jogo que preze a posse de bola, podendo os médios pegar o jogo em zonas mais adiantadas do terreno, não precisando de baixar excessivamente.

Aqui reside um dos principais problemas para o menino da Musgueira. Habituado a enorme liberdade quando jogava no Benfica (aparecia em todas as zonas do campo, quer a atacar quer a defender), no Bayern essa liberdade é reduzida. O jogo de posse de bola constante não permite ao internacional português aqueles raides a que ele habituou às bancadas, sendo por isso obrigado a tornar-se um jogador mais de toque curto, na linha dos restantes médios do Bayern como Thiago Alcântara, Xabi Alonso ou Joshua Kimmich.

Mas deve um jogador, selvagem como Renato Sanches, (que com o seu estilo rebelde e irreverente conquistou um lugar a titular na seleção campeã europeia e conquistou o prémio de Golden Boy) ser obrigado a mudar a sua forma de jogar? Ou a única solução será a equipa moldar-se ao jovem craque? A resposta pode parecer impossível de dar, mas estará algures no meio das duas hipóteses.

Renato Sanches não é um médio altamente eficaz no passe, não o era no Benfica (colocava a equipa em dificuldade muitas vezes com passes errados ou perdas de bola, tendo no entanto grande parte dessas vezes a capacidade física e a velocidade para ir apagar o fogo que o próprio tinha ateado) e continua a ter esse problema em terras Bávaras.

Um dos problemas é que na Bundesliga a exigência é bastante superior em comparação com a da Liga Nos, uma vez que um erro contra o Arouca ou o Tondela não vai causar as mesmas repercussões que um erro ou uma perda de bola contra um Hoffenheim ou um Bayer Leverkusen.

Outra das contrariedades que o campeão europeu enfrenta é a exigência dos adeptos. Quando na Luz tudo lhe era perdoado, fruto de ser a pérola da formação que os adeptos tanto ansiavam ver impor-se na equipa principal, em Munique a paciência e o carinho dos adeptos para com o médio é manifestamente inferior. Cada passe errado ou cada perda de bola é mais uma forma de criticar o jovem português, e mais uma forma de pôr em causa o valor e o preço de Renato Sanches. Cabe ao portento da Musgueira dar a volta à situação.

Foto: TransferNews

O que se segue? Qual a melhor solução? Moldar-se a uma nova forma de jogar ou manter a irreverência e o futebol de rua puro que tantos apaixonou e cativou?

Na opinião de muitos o melhor para Renato é mesmo mudar de ares, pois o colosso bávaro não é a equipa ideal para o crescimento do jovem. Para outros, onde nos incluímos, o problema prende-se no timing da transferência (mais uma época com a camisola encarnada do Tricampeão Nacional teria sido o ideal, onde teria tempo e compreensão para melhorar as suas debilidades continuando a ser uma referencia no 11 e a ter muito tempo de jogo).

Ora, não sendo possível recuar no tempo só resta olhar para o futuro, e Renato tem razões para olhar sorridente para o mesmo. Sendo um jovem, tem tudo para se poder afirmar na segunda época onde já não vai ter os típicos problemas de ambientação, tanto ao estilo de jogo da nova equipa como a toda a realidade envolvente a que é sujeito um jogador de 19 anos quando se muda do seu bairro e cidade de sempre para uma cidade nova, a falar uma língua completamente diferente e a ganhar 5 vezes mais do que ganhava (para muitos a questão monetária é vital para um bom rendimento, e muitas vezes ganhando mais vai levar a um descurar da competitividade e empenho no treino e no jogo).

A juntar a isto, na próxima época Renato tem um novo aliciante. Com a reforma de Xabi Alonso, abre-se uma vaga no trio do meio campo de Ancelotti, juntamente com Arturo Vidal e Thiago Alcântara. E agora? Sanches ou Kimmich? A favor do português tem a sua força e capacidade física, podendo recuar Vidal e entrar Renato para o seu lado.

Porém, Kimmich está mais identificado com o estilo de jogo bávaro, sendo mais evoluído tacticamente e evidenciando uma considerável maior qualidade de passe. No meio destas duas hipóteses está outra que nos parece menos plausível, mas que para os alemães pode ser possível.

E se Renato Sanches assumir o lugar de Xabi Alonso? Poderá um irreverente e selvagem menino assumir um lugar (e mais que um lugar, uma forma de jogar) ocupado por um dos jogadores mais elegantes e inteligentes das últimas duas décadas? Um jogador com uma qualidade de passe tremenda, tanto curto como longo?

Renato Sanches tem várias lacunas, sobretudo ao nível do passe, embora já se note uma clara melhoria neste aspeto, sobretudo no passe longo. Mas daí a assumir o lugar do bicampeão europeu e campeão mundial por Espanha vai uma enorme distância. Para além da enorme melhoria que tinha de evidenciar ao nível do passe e do posicionamento tático, o prodígio teria de abandonar o seu estilo irreverente e de rua para assumir o papel do craque espanhol, algo que poderá tornar Renato num jogador banal.

Será o Benched Boy, que tão criticado tem sido pelo pouco que tem apresentado e pelo que custou, capaz de dar a volta às criticas e de assumir uma posição de destaque no meio campo bávaro, ainda para mais na posição 6? Ou o melhor será manter o seu estilo esperando que o mesmo resulte e que isso o leve a garantir a titularidade? Ou o melhor será mudar de ares para onde possa assumir livremente o seu futebol? Seja qual for a solução, Renato terá na próxima época uma tarefa, decidir que tipo de jogador quer ser.

E a sua decisão irá influenciar para sempre a sua carreira, podendo tornar-se num dos melhores de sempre do nosso país ou tornar-se um jogador banal como aconteceu a várias promessas. Para os adeptos portugueses, é preferível a primeira e acreditamos que o Benched Boy de 2016/17 vai saltar dessa condição para se afirmar como um dos melhores médios da Europa. É que o Bayern não liberta 35 milhões por um jovem de 18 anos recorrentemente, e vai querer provar que os gastou bem.

Foto: L’Equipe
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Pedro AfonsoMarço 29, 20175min0

Pizzi será, nesta altura e fruto de uma época recheada de lesões para Jonas, o melhor jogador do Benfica e, ainda que discutível, o melhor jogador do Campeonato Português. Um jogador que pensa o jogo mais depressa que todos aqueles que o rodeiam, mas que, em virtude de uma péssima construção do plantel benfiquista, se vê obrigado a jogar num meio-campo a dois. Exigem do transmontano que seja um 8, quando a sua natureza lhe pede que seja um 80.

Jogar em 4x4x2 não é pêra-doce. A formação da moda em Portugal deve o seu estatuto ao técnico da Amadora, Jorge Jesus, que aperfeiçoou uma tática que havia sido esquecida nos últimos largos anos, em detrimento de um 4x3x3, mais coeso, mais equilibrado, mais fácil de implementar. Não deixa de ser curioso que os anos mais proveitosos do SL Benfica sob a tutela do atual técnico leonino aliassem ao médio-defensivo recuperador de bolas um verdadeiro médio área-a-área, um jogador capaz de disputar todas as bolas como se fossem a última, de dar tudo o que têm, e às vezes o que não tem, para condicionar o jogo do adversário, e ainda ser capaz de transportar a equipa às costas, queimando linhas e abrindo espaços. Ramires era exímio nesta tarefa, Enzo Pérez conferia à equipa um pouco mais de criatividade, fruto do seu início de carreira a médio-ala e Witsel pautava o jogo como ninguém, fazendo crer todos aqueles que o viram jogar que passou ao lado de uma carreira brilhante.

Quando Rui Vitória herda a equipa encarnada no passado ano desportivo, percebe que um trabalho de seis anos não deve ser descurado. Bebendo das bases deixadas pelo seu antecessor, foi capaz de incutir novas rotinas, mais em linha com as suas ideias, mudar comportamentos defensivos e ofensivos, afinar a máquina à sua maneira. Mas a essência da equipa continua lá, uma equipa que joga em 4x4x2 clássico, que o re-inventa e recebe elogios daquele que será talvez o melhor treinador da atualidade, Pep Guardiola. A história da época passada toda a gente a sabe, mas há um pequeno pormenor que coincide com a rápida subida de rendimento do SL Benfica e a caminhada triunfal até ao Marquês: a entrada de Renato Sanches no 11.

O 8 e o 80 [Foto: A Bola]

A entrada do médio bávaro foi decisiva por duas razões: pela sua força física e irreverência e pela migração de Pizzi para a ala. A primeira razão valeu a Renato uma transferência estratosférica para o Campeão Alemão, a segunda razão valeu a Pizzi a melhor forma da sua vida (o carrossel Benfiquista agradece!). Contudo, a saída do jovem prodígio português deixou um vazio no meio-campo benfiquista cuja importância foi largamente descurada pela Estrutura Benfiquista. Num Verão longo, o SL Benfica contrata Danilo e André Horta, acabando por dispensar o primeiro na Janela de Transferências de Inverno, e “encostando” o segundo, após um início fulgurante, mas que rapidamente deixou claras as limitações táticas e fisícas do jovem benfiquista. O bombeiro de serviço é Pizzi que, jogue onde jogar, não sabe jogar mal. Assume-se como o Maestro do meio-campo encarnado, pautando o jogo, distribuindo, fazendo jogar bem e bonito. Tem tanto controlo sobre o futebol encarnado que, quando está mal, a equipa joga mal, e quando está bem, a equipa joga bem.

O Carrossel Benfiquista [Foto: Sapo]

Mas Pizzi não é um 8. Não o obriguem a jogar simples, a correr desenfreadamente com a bola, arrastando adversários, “abalroando” opositores, recuperando defensivamente quando o seu parceiro de meio-campo não está lá. Se Pizzi soubesse defender tão bem como sabe atacar, não estaria em Portugal. Com as devidas diferenças, imaginem que o Barcelona jogava com Iniesta e Busquets no meio-campo, em 4x4x2. Iniesta nunca seria o Deus do Futebol que é hoje. Da mesma forma que Pizzi, com as suas tarefas defensivas acrescidas, nunca poderá atingir o seu total potencial e esplendor, porque nasceu para jogar de frente para a baliza e apenas a pensar no próximo passe de rotura.

Mas há opção melhor?

Infelizmente, não. Nem Danilo nem Horta se mostraram suficientes para colmatar a saída de Renato. E a contratação de Filipe Augusto é quase anedótica, tendo em conta o seu perfil quase idêntico a Danilo e o seu historial de lesões. Pizzi é um excelente jogador e um 8 competente, que, contra equipas com um bloco baixo (como 90% dos jogos da Liga NOS), assume um papel importantíssimo, construindo desde trás. Mas contra grandes equipas, a equipa de Rui Vitória sofre, e sofre muito por culpa desta incompetência defensiva de Pizzi. Se somarmos a estas limitações a intermitência física de Fejsa e a regressão absurda de Samaris como trinco (“morde” quando não deve “morder” e “fica” quando não deve “ficar”), a equipa de Rui Vitória ressente-se (e muito) deste mau desenho do plantel.

Até ao final da época, o Benfica estará condenado a “sofrer” defensivamente e a ganhar ofensivamente, num desequilíbrio que não convém a nenhum grande. E mesmo que se ganhem os jogos, perde o futebol. O génio do médio Benfiquista não se pode simplificar. Não se pode passar do 80 para o 8.

O esforço de um Génio [Foto: RR]
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Pedro AfonsoJaneiro 30, 20175min0

Gonçalo Guedes foi o mais recente triunfo do Mercantilismo que a SAD do SL Benfica entende como sendo essencial para a manutenção da estrutura do clube, de um ponto de vista financeiro. Um modelo de negócios alicerçado na criação de jovens valores que pouco ou nada trazem ao Benfica, de um ponto de vista desportivo. Qual o futuro do plantel encarnado?

Nos últimos 4 anos, a Academia do Seixal trouxe para o Mundo do Futebol alguns dos maiores diamantes, uns mais em bruto do que outros, que o futebol português tem para oferecer. A aliar aos grandes plantéis aos quais a estrutura benfiquista nos tem habituado, que começaram a ser construídos no início do trabalho de Jorge Jesus na Luz, a abundância de opções de futuro nas hostes encarnadas traz uma sensação de confiança no futuro a qualquer adepto benfiquista. Ou pelo menos, trazia. Ao contrário daquilo que Luís Filipe Vieira tem vindo a lançar para a comunicação social, em declarações quase proféticas de uma “nova espinha dorsal da Selecção Nacional”, de apostas em jovens da casa, com a mística benfiquista, parece cada vez mais claro que o intuito da Academia não é criar condições de auto-sustentabilidade para o projeto do futebol do Benfica. Tornou-se, verdadeiramente, uma máquina da produção em série, em busca da próxima estrela para vender pelos maiores valores possíveis, novamente investidos em jogadores das mais variadas proveniências, por razões que, de quando em vez, me ultrapassam.

A “fábrica” de pérolas [Fonte: SLBenfica]

Desengane-se quem pensa que pertenço à nova vaga de afectos à Formação Benfiquista, tratando cada novo jogador como o próximo Eusébio. Penso que é claro que, qualquer clube que pretenda ter sucesso, necessita de se reforçar convenientemente com os jogadores que aparentem ter mais qualidade, que possam assumir-se como apostas de presente e não esperanças de um futuro risonho. As compras de Mitroglou, Rafa, Cervi e Zivkovic demonstram esta necessidade de um plantel se rodear da maior qualidade possível, não obstante a qualidade presente nos plantéis secundários encarnados, com Gonçalo Guedes, João Carvalho, Pedro Rodrigues, entre outros. Contudo, não nego que um plantel deve compor-se de apostas de futuro, da “casa”, que transmitam algo, um espírito, um sentimento, que muitos “estrangeiros” são incapazes de transportar em si.

Olhando para os últimos 20 anos, apenas me consigo recordar de dois jogadores que personifiquem a mística Benfiquista perante os adeptos: Rui Costa e Simão. Dois senhores do futebol, que qualquer adepto não irá esquecer, não só pela sua qualidade, mas por tudo aquilo que representavam para o adepto, pela personificação da Mística Encarnada, pela continuação do adepto no campo, na forma de jogador. E quem personifica esta Mística agora? Curiosamente, a meu ver, parece-me que o expoente máximo de Benfiquismo se concentra em Samaris, um jogador que se fez “Benfica”.

A despedida do “Maestro”, o último dos “nossos” [Fonte: Globo Esportes]

Desportivamente, é-me difícil encontrar explicações para a única afirmação da cantera Benfiquista ser Renato Sanches, que apenas passou meia-época no plantel principal da Luz, tendo sido logo vendido para o colosso Bávaro de Munique. Uma análise cuidada aos “craques” que saíram da Luz nos últimos anos mostra-nos um conjunto de negócios financeiramente discutíveis e desportivamente ruinosos:

  • Bernardo Silva, o príncipe monegasco, que abandonou o Benfica após o seu talento ser ignorado por Jorge Jesus, em 2014. 15M€ justificaram a perda de um talento raríssimo.
  • André Gomes, o pretenso herdeiro de Xavi, que, após duas épocas em Valência foi o escolhido para reforçar o meio-campo blaugrana. 15M€ voltaram a justificar a perda de uma enorme promessa.
  • João Cancelo, lateral atualmente no Valência, com passagem agendada para Barcelona no final da época, vendido por mais 15M€.
Nunca contou para o “Potenciador”, agora espalha magia no Principado [Fonte: Mais Futebol]

E o passado recente não se mostrou bom conselheiro para LFV, que parece continuar nesta senda de enfraquecimento do futuro encarnado, com as saídas confirmadas de Gonçalo Guedes e Hélder Costa, bem como as inúmeras sondagens por Lindelof, Nélson Semedo e Ederson.

Para além do claudicar de um futuro assegurado por uma estrutura que traz novos valores, a preços baixos, com a vantagem de uma formatação para um modelo de um clube, o clube perde referências de benfiquismo, jogadores que carreguem a mística, criando um vazio que as bancadas buscam procurar com craques que, tantas vezes, não compreendem o amor que o adepto sente pelo intérprete, como foi o caso de Enzo Pérez. O futebol é, mais que nunca, um negócio, contudo não podemos negar aos adeptos a oportunidade de ver em campo “um dos seus”, a oportunidade de ver miúdos crescer com a águia ao peito, que irá ser a sua segunda casa. Talvez seja utópico e um pouco romântico, mas fazem falta mais Guedes, mais Bernardos e mais Renatos ao Benfica.

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Pedro AfonsoDezembro 21, 20165min0

Rui Vitória foi o escolhido para iniciar um novo paradigma no SL Benfica: aliar o sucesso desportivo ao sucesso formativo. Não chega ganhar para a atual Direcção do Benfica, é necessário ganhar com a “prata da casa”, com a Formação. Será possível manter o nível de exigência e de sucesso do atual tricampeão, criando bases para uma aposta sustentada em jovens valores?

Em 1994, Alan Hansen proferiu uma das frases mais marcantes do futebol britânico, após uma derrota de 3-1 do Aston Villa contra o Manchester United de Sir Alex Ferguson. Nesse dia, Hansen profetizou que “Miúdos não ganham títulos”. O Villa acabara de perder com um United que contou com nada mais nada menos que 6 (!!) jogadores com menos de 23 anos. No final da época, Hansen percebeu que estava errado.

Há cerca de 4 anos, quando o SL Benfica chegou a duas finais da Liga Europa e praticava um futebol que poucas equipas na Europa podiam almejar, ouvia-se um burburinho de fundo, indignado, inflamatório, clamando que a ausência de jogadores portugueses no 11 titular constituía uma afronta e um duro golpe para a evolução do futebol português. Mas a indignação não se limitava à ausência de jogadores locais, estendia-se à total falta de atenção por parte da equipa técnica do Benfica aos prodígios que iam emergindo da formação do Seixal. E a verdade é que podemos constatar que muito talento foi desperdiçado (desportivamente falando), voltando à memória os casos de Bernardo Silva, André Gomes e João Cancelo.

[Foto: Serbenfiquista.com]

O Benfica foi tendo sucesso, foi criando uma cultura de exigência que perdera há largos anos, mas continuava a faltar algo. A Alma Benfiquista sentia-se vazia de um craque português, de um veículo de propagação, de uma personificação do Benfiquismo. Foram anos de vazio que necessitavam de ser colmatados, exigência do 3º anel que a Direcção ignorou demasiado tempo. E em 2 anos, assistimos uma mudança abrupta do paradigma: são apostas regulares no Benfica agora 4 jogadores da formação, não esquecendo a venda de Renato Sanches e os inúmeros lançamentos de jovens ao longo da época transacta. Mas até que ponto será esta obsessão positiva? Será capaz o Universo Benfiquista de exigir o mesmo que exigia a um Enzo Pérez a um André Horta; a um Gonçalo Guedes o mesmo que a um Lima? Mais importante, serão os jovens capazes de aguentar o peso das ambições de um tetracampeonato inédito?

Voltemos à época passada:

  • Maxi abandona a Luz após 6 anos como dono da lateral direita. O escolhido? Nélson Semedo. O seu início é fulgurante, culminando com a chamada à selecção AA das Quinas e uma lesão que o relegou para o banco até ao final da época.
  • Júlio César lesiona-se. O chamado? Ederson Moraes. Não mais largou o lugar, com o seu excelente jogo de pés e a sua bravura no momento de sair entre os postes.
  • Crise de centrais no Benfica. O escolhido? Lindelof. O “Ice-man” fez com Jardel uma das melhores duplas de centrais da Europa, culminando com a chamada ao Euro 2016 e a putativa transferência para Manchester agora em Janeiro
  • Pizzi não rende, Talisca pouco acrescenta, e a equipa continua orfã de um senhor no meio-campo. A cobaia é o Astana e a solução é Renato Sanches. E o resto da história parece saída de um filme.

Foi de facto uma época brilhante para os jovens da Formação Benfiquista. Mas e este ano? A verdade é que este ano a aposta não tem sido tão diversificada e inclusive alguns dos jogadores mostraram um nível exibicional e uma paragem de crescimento algo assustadora. Se por um lado Nélson Semedo se assume como um elemento preponderante na lateral direita e um jogador com um potencial enorme, Lindelof passa a pior fase da sua curta carreira no Benfica, acumulando erros cruciais em partidas dos últimos 2 meses, dando origem a 4 golos adversários. Horta, um Benfiquista de alma e corpo não pode carregar em si o peso de um meio-campo do tri-campeão e mostrou ser muito curto para voos tão altos nesta fase. Mesmo Gonçalo Guedes, não obstante a sua excelente forma exibicional e não negando o seu enorme potencial, teve inúmeras oportunidades desperdiçadas, mantendo-se no 11 graças à praga de lesões que assolou a equipa da Capital.

[Foto: Record]

O que talvez falte compreender aos benfiquistas, é que estas pérolas não se renovam todos os anos, como se de uma máquina de produção em série se tratasse. Não se pode achar que Yuri Ribeiro, Zé Gomes, Pedro Rodrigues e João Carvalho serão as próximas pérolas e indiscutíveis no 11 do futuro. Rui Vitória tem o difícil trabalho de ensinar os jovens num contexto de máxima exigência.

[Foto: @informglorious (Twitter)]

O United de Ferguson não voltou a repetir a façanha de 1994 e viveu da genialidade de Giggs e Scholes até aos 35/36 anos. A formação deve ser complementada por um balneário forte, com qualidade, que obrigue os jogadores a superar-se em todos os jogos. Se esse balneário não existir e o banco não for opção, teremos jogadores em baixo de forma, titulares, e cujos agentes oferecem o passe a grandes clubes sem ter em consideração o crescimento dos seus clientes. O banco, por vezes, é o melhor dos conselheiros. E a paciência a maior das virtudes.


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É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


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