Arquivo de joão félix; - Fair Play

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Bruno Costa JesuínoNovembro 22, 20208min0

É unânime. Portugal junta no seu grupo alguns dos jogadores mais talentosos do planeta. Possivelmente por essa razão, os adeptos esperam muito da seleção. Uma seleção mais ousada. Mais dominadora. Com mais iniciativa. Mas existem adversário de igual ou mais valia, e além das nossas valhas, não podemos deixar de dar mérito a quem está do outro lado. Foi um cair de pé à porta da “final four”.

É importante denotar evolução ao longo dos anos. Antes não íamos às principais competições mas agora somos presença regular. Antes ficaríamos felizes por ganhar, quase sem espinhas, dois jogos à seguidos À vice-campeão do mundo (Croácia) e à sempre complicada Suécia. Hoje isso não chega. Faltou a França, aqueles que até à final de 2016 eram a nossa “besta negra”.

Os dois duelos diante a França

Mas sejamos honestos, com a França, foram dois duelos taco a taco entre o campeão europeu e o campeão do mundo. E se os franceses foram mais fortes em Lisboa, os portugueses superiorizaram-se em Paris. Que para a próxima que ganhemos nós.

Vamos analisar os números

Os números valem o que valem. Explicam alguma coisa, identificam alguns padrões e tendências, mas o remate ao lado pode ser mais perigoso que o um remate enquadrado. E a posse de bola, pode sem estéril. Mas vamos esquecer isto por momentos.

No primeiro jogo, embora dividida, Portugal teve mais pose de bola (51%), mais passes e com mais precisão, e igualou no número de remates no total (10) e à baliza (3).

Em jogo de jogado, foi um Portugal dominador e uma França em expectativa. Neste jogo que ditou o afastamento da seleção lusa, os papéis inverteram-se. A sensação amarga de ficar à porta da final four, foi maior ou igual à expectativa que todos tinham devido à prestação do primeiro jogo. Todos (ou quase) estavam à espera de mais.

Se pensarmos em números, neste segundo jogo, Portugal teve mais remates e voltou a ter vantagem na posse de bola. No entanto, deve-se, na mudança de postura das equipas a partir do golo francês, onde Portugal foi atrás do resultado. No cômputo geral, a seleção gaulesa foi melhor e mereceu ser mais feliz. Da mesma forma que Portugal merecia ter sido mais feliz um mês antes.

Cristiano Ronaldo e os “outros”

Temos na nossa equipa um dos melhores de todos os tempos. Quem dera a muitos! Um jogador desta dimensão, líder, que marca golos como ninguém e resolver golos sozinhos. Discute-se muito que a seleção joga melhor sem Cristiano Ronaldo. Essa pergunta já foi a Fernando Santos que respondeu (e bem): “Nenhuma equipa fica mais forte sem o melhor do Mundo”. Os colegas dizem o mesmo. Além de politicamente correcto, é mais que isso, os números da importância do capitão comprovam-o.

No entanto há o lado da questão, onde muitos dizem que Ronaldo (que só pelo facto de estar em campo) ‘usurpua’ o talento dos companheiros. Ou que tentam jogar demasiado para ele. Percebo a ideia. O futebol da equipa sem ele fica mais associativo, e ainda mais que isso, há jogadores no Portugal actual, que para dar liberdade ao capitão têm que sair da sua posição mais natural. É também compreensível que, por vezes os companheiro lhe tentem endossar a bola, pois sabem que ele, na grande maioria da situações, resolve o jogo com a sua capacidade ímpar de finalização.

Ponta de lança ou a partir da esquerda

Há muito que defendo, tal como escrevi num artigo aqui publicado, após a vitória na primeira edição da Taça das Nações: “Parece consensual Fernando Santos apostar no sistema que apresentou na final, pois há pouco tempo de treino, e os jogadores respiram melhor neste modelo. Ao mesmo tempo que os ‘novos jogadores’ vão criando rotinas com o grupo e se vai trabalhando paralelamente outras opções táticas. Além disso, com as opções que temos, ‘o Ronaldo atual’, é muito mais importante perto da área do que em fases de construção. A seleção tem quem construa melhor, mas ninguém que finaliza como ele. Aliás, isso ninguém tem.

Numa seleção é tentar tirar o melhor dos jogadores mas sempre em prol da equipa. Muitos jogadores, por vezes brilham nos clubes numa determinada posição, mas depois ao jogar pelo seu país têm colegas que partilham o mesmo espaço em campo. Logo, para qualquer seleccionador, é tentar montar o puzzle certo.

Como montar o puzzle?

Por exemplo, na Argentina, com tantoa avançados de qualidade, olhamos para o banco e pior avançado que lá têm, jogava em quase qualquer equipa. Não é possível jogarem todos ao mesmo tempo. No Brasil, houve uma altura em que se falava do quadrado mágico, onde todos os jogadores jogavam em espaços interiores: Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo. Talento de sobra, mas que se tornava quase tão difícil deixar algum de fora, como criar uma dinâmica de equipa que suportasse todos ao mesmo tempo, principalmente nos momentos sem bola. Mesmo em Portugal, com Sérgio Conceição, Figo, a estrela que mais brilhava na equipa, jogava muitas vezes na esquerda, ou mesmo Rui Costa e João Pinto, que muitas vezes jogava como homem mais avançado, ou então um deles tinha que descair para uma ala. Faz parte e nunca será unânime.

Qual a melhor opção para Portugal

Depois desta viagem ao passado, um regresso à actualidade. Se Ronaldo partir da esquerda terá que haver sempre alguém a fechar esquerda quando a equipa não tem bola. Também por isso, a opção do Europeu de jogar num 442, em que além dos dois médios centros (Danilo, William, Adrien e João Moutinho), pelo menos um dos dois “alas” eram jogadores com características de médio-centro. Fossem eles André Gomes, João Mário, Renato Sanches e até Moutinho jogou aí numa ocasião. Quando tinha que dar mais criatividade entrava Ricardo Quaresma para uma ala.

Com o qualidade existente ao mesmo tempo em Bruno Fernandes, João Félix, Bernardo Silva, Diogo Jota para acompanhar Ronaldo, Fernando Santos já experimentou várias soluções, deixando cair pelo menos um deles em cada onze titular. Antes da explosão de Diogo Jota e com João Félix ainda no Benfica, o engenheiro ainda tentou o 442 do europeu, com os dois médios centros, Bernardo à direita e Bruno Fernandes com falso ala esquerdo. Mas rapidamente voltou ao 433, para deixar o médio do Manchester United como terceiro médio, e na frente com João Félix e Ronaldo a trocar de posição entre a esquerda e o centro.

Neste momento apostaria num 442, quando a intenção juntar Félix ao Ronaldo, ou num 433, se optasse por jogar só com Ronaldo na frente, sendo neste caso ladeado de Bernardo (ou Francisco Trincão) na direita e Diogo Jota, na esquerda. Num meio campo a 4, acredito que Renato Sanches e João Mário poderão voltar a tornar-se importante tal como o forma no Europeu de 2016.  Até porque são os médios centros mais darão à equipa a jogar a partir de uma ala.

Nota

Para aqueles que torceram o nariz com estes dois últimos nomes que apontei porque têm um ódio de estimação “estúpido” (só por ser terem crescido num rival), lembro que Renato está entre o top em termos de pontuação no ranking da liga francesa e que João Mário é um jogador com tomada de decisão muito acima da média. Ambos têm característica muito próprias que os diferencia dos outros médios portugueses.

“Ah e tal falta um ponta de lança”

Este trecho serve apenas para quebrar um mito. Muito ouvimos “falta um ponta-de-lança à seleção”. É verdade, mas só em parte. Temos André Silva, Paulinho, Gonçalo Paciência e alguns jovens a surgir. É importante, pelo menos para alguns jogos. No entanto, existem muitas equipas que não jogam com nenhum jogador fixo. Veja-se o Barcelona esta época, a Espanha que ganhou tudo, ou mesmo por exemplo a França contra Portugal que jogou com Griezmann nas costas de dois avançado móveis: Martial à esquerda e Coman à direita. Mesmo Portugal, campeão europeu, jogou com num 442 com 2 avançados móveis: Ronaldo e Nani. Não é por acaso que Fernando Santos, nas suas convocatórias leva muitas vezes um ponta-de-lança, mas sempre com um plano B. E existem “n” casos de sucesso assim. Por isso a questão de um avançado

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Gonçalo FariaAbril 18, 20205min0

Nos dias de hoje, e devido à Pandemia do COVID-19 todos os países paralisaram os seus campeonatos desportivos e, por consequência, não só os clubes, como também os jogadores, treinadores e agentes desportivos irão sofrer repercussões graves. Desta forma, as propostas colocadas quer pelos especialistas do Futebol, quer pelos Gestores Desportivos e ainda pela FIFA poderão entrar em vigor nos próximos tempos.

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Bruno Costa JesuínoMarço 27, 20208min0

Imaginem que eram o Fernando Santos e que teriam de tomar decisões para o (agora) Europeu 2021. Quem convocavam se tivessem de decidir agora? Eis as escolhas a pensar no agora e no depois. Venham daí essas discórdias.

São Patrício e mais dois

Na baliza não há dúvidas. Rui Patrício e mais dois. Anthony Lopes, capitão do Lyon, é o que apresenta melhores credenciais para fazer sombra ao guarda-redes do Wolverhampton. No entanto, por motivos pessoais, já chegou a pedir autorização para não ser convocado. O experiente Beto com 37 anos (Göztepe), conhecido por fazer bom balneário tem sido opção habitual para número 2 ou número 3. Se o luso-francês continuar afastado da seleção destacam-se três nomes: Cláudio Ramos (Tondela), José Sá (Olympiakos) e Rui Silva (Granada).

Ordem de preferência: Rui Patrício, Anthony Lopes, José Sá, Rui Silva, Beto e Cláudio Ramos.

No eixo da defesa é Pepe e mais três. Ou será dois?

Neste sector, quando os selecionadores têm um médio que pode jogar a centrar, muitas vezes optam por levar apenas três centrais, até porque além do guarda-redes, é onde os treinadores menos mexem. Parece-me óbvio que a experiência de Pepe é fundamental e será o mais titular de todos.

Rúben Dias, tem sido sempre titular, fez uma Liga das Nações fenomenal (melhor jogador da final), e mesmo o seu menor fulgor deve-se acima de tudo às fragilidades que toda a equipa do Benfica tem apresentado. Vítima disso mesmo, e eventualmente não só, foi Ferro. O jovem central encarnado era visto como provável no leque dos 4 ou 5 principais opções, terá sido ultrapassado por Domingos Duarte, a fazer grande época do Granada. Ah e pela segunda vida de Rúben Semedo.

O terceiro continua a ser o experiente José Fonte (menos um ano que Pepe). Bruno Alves, o mais velho de todos, será menos provável.

Ordem de preferência: Pepe, Rúben Dias, José Fonte, Domingos Duarte, Rúben Semedo, Ferro e Bruno Alves.

Tantos e tão bons na direita que algum pode ir parar à esquerda

Na esquerda Raphael Guerreiro é indiscutível. Apenas o sineense Mário Rui, normalmente titular no Nápoles lhe consegue fazer sombra. A terceira opção andará muito longe.

No entanto o lugar de Mário Rui pode estar ameaçado pela ‘excesso’ de qualidade existente à direita. Nélson Semedo, João Cancelo, Ricardo Pereira, qualquer um deles já jogou várias vezes à esquerda, e ainda o campeão europeu Cédric.

Ordem de preferência: Ricardo Pereira, Nélson Semedo, João Cancelo e Raphael Guerreiro.

Seja para 442 ou 433 opções para o meio não faltam

Danilo, o mais defensivo de todos os médios, poderá beneficiar da polivalência de poder jogar a central, e assim Fernando Santos levar apenas três (tendo em conta da idade de Pepe e Fonte, poderá ser mais arriscado).

Rúben Neves e William Carvalho serão as opções mais fortes para jogar de início, seja num meio campo a 3 com um médio mais ofensivo ou com duplo pivot. João Moutinho, apesar dos seus 33 anos, será a opção seguinte para alternar com William e Rúben, até pelo entendimento que tem com Rúben no clube inglês. Sérgio Oliveira e André Gomes são ainda nomes a ter em conta.

Renato Sanches, também opção para jogar como falso ala no 442 também será um nome a ter em conta, tanto pelas suas diferentes características como pelas prestações no Lille.

Ordem de preferência: William, Rúben, Danilo, Renato Sanches, João Moutinho

Mais à frente ou como ala

A seleção tanto se tem apresentado em 442 como em 433. Na primeira opção jogadores como Bruno Fernandes e João Mário são opções para falso ala, tal como Bernardo Silva. E o já referenciado Renato Sanches, que tem jogado assim no Lille, e no Europeu 2016 jogou muitas vezes com essa função. Pizzi será outra opção a ter em conta.

Ordem de preferência: Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Renato Sanches, Pizzi

Avançados soltos e talvez um mais fixo

Na frente não dúvidas quanto ao capitão e melhor marcador de sempre da seleção. Tendo por base o 442, Cristiano Ronaldo deverá ter companhia de João Félix, Gonçalo Guedes ou Diogo Jota que tem estado em grande forma.

Na maioria das vezes, face às características dos jogadores a seleção tem optado, e bem, por jogar muitas vezes com jogadores móveis, sendo Cristiano o mais fixo.

No Euro 2016 jogou com Nani, no Mundial 2018 teve o apoio de Gonçalo Guedes ou André Silva, ficando este mais fixo. André tem sido o ponta-de-lança desde Nuno Gomes e Pauleta que tem apresentado melhores números. Depois de um época quase sempre lesionado, tem estado em boa forma no Eintracht Frankfurt. Curiosamente terá como principal concorrente o colega de equipa Gonçalo Paciência.

Éder, será sempre um nome a ter em conta, mas a sua chamada será pouco provável, e o próprio bracarense Paulinho partirá à frente.

Entre a posição de extremo no 4 do meio campo e a possibilidade de jogar na frente de ataque temos ainda a opção Rafa, importante para quando for preciso acelerar e agitar o jogo. Em circunstâncias normais será um dos selecionados. Ricardo Horta e Bruma, e o próprio Gonçalo Guedes, com características semelhantes serão alternativas dentro da mesma linha.

Ordem de preferência: Ronaldo, João Félix, Diogo Jota, Rafa, André Silva/Gonçalo Paciência, Ricardo Horta, Paulinho, Bruma e Éder.

Os “meus” 23

Guarda-redes: Rui Patrício, Anthony Lopes e José Sá

Defesas centrais: Pepe, Rúben Dias e José Fonte

Defesas Laterais: Nélson Semedo, Ricardo Pereira, João Cancelo e Raphael Guerreiro

Médio centro: William Carvalho, Rúben Neves, João Moutinho e Danilo

Médios ofensivos / Falsos Ala: Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Pizzi e Renato Sanches

Ala / Avançado: Rafa, Guedes e Diogo Jota

Avançado: Cristiano Ronaldo e Gonçalo Paciência/André Silva

Mas o europeu foi adiado um ano, o que muda?

Estas escolhas foram feitas tendo em conta o momento actual, mas sendo o europeu adiado (e bem) num ano muito coisa pode mudar. Desde já a performance que os jogadores venham a fazer na próxima época, possíveis lesões, aparecimento de novos valores e… a idade dos mais velhos.

Pegando neste último ponto, o destaque principal vai para o centro da defesa. Pepe em 2021 terá 38 e José Fonte 37. Levar os dois pode ser arriscado, e será normal que pelo menos um caia, ainda para mais se a opção for apostar convocar apenas três centrais. No entanto, salvo qualquer quebra física gigante ou lesão pelo menos um dos dois irá para ser a voz da experiência. Principalmente Pepe.

No meio campo, João Moutinho com 34, e face rotação da sua posição, poderá perder fulgor. Mas se fizer mais uma época gual a estas duas (na qual foi eleito pelos adeptos como melhor jogador) que argumentos teremos para não o chamar face à qualidade e inteligência que vai demonstrando dentro quatro linhas?

Na frente Ronaldo. Será o Ronaldo dos 36 anos inferior ao Ronaldo dos 35? Esperamos e, pelo “monstro” físico que ele é, acreditamos que vai continuar a ser decisivo.

Lado positivo? Poderemos ser o primeiro campeão europeu em título por 9 anos seguidos.

Nota: Importante todas as medidas que estão a ser tomadas. Quanto maior for o nosso sacrifício AGORA e cumprirmos as regras, mais rapidamente retomaremos a nossa vida normal. #FicaemCasa

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Bruno Costa JesuínoOutubro 12, 20199min0

Existem muitas histórias, fictícias ou reais, que servem de analogia para a vida, quer em termos pessoais como profissionais. Uma dessas histórias envolve uma lagosta. E perguntam vocês: o que essa história da lagosta em a ver com o sucesso da formação?

 

A importância de sair da zona de conforto

Vamos começar por enquadrar a história. A lagosta, desde pequena, produz uma casca que a protege. Mas ela cresce. Quando cresce um pouco, começa a sentir dor. O que significa? A casca se tornou pequena e ela precisa procurar uma gruta para produzir um novo invólucro. A dor é o sinal de uma mudança. Esse processo se dá mais de uma vez até o final do crescimento: o corpo se desenvolve e a dor retorna, anunciando que uma nova casca se faz necessária. Casca, crescimento, dor e nova casca.

O ‘caminho da lagosta‘ deve ser o percurso a seguir na formação de jogadores. Determinado jogador quando se começa a sentir demasiado confortável no respetivo escalão, deve receber um novo estímulo, de forma a continuar o seu processo evolutivo. Vamos a exemplos práticos. Principalmente no passado, temos várias situações de diversos avançados que, ao longo do percurso de formação no Benfica, Porto e Sporting, marcaram várias dezenas de golos. Destacaram-se sempre a jogar entre miúdos da mesma idade. Embora com números fantásticos, não saltaram etapas e estiveram sempre em zona de conforto, e quando tiveram que saltar “A ETAPA” de passar para o futebol sénior a esmagadora maioria não se encontrava preparada.

Esta situação ainda se tornava mais acentuada nos jovens dos ‘três grandes’ que goleavam em muitos jogos e só quase perdiam pontos nos jogos entre si. Mas felizmente houve melhorias significativas em todo este processo. Os clubes, ou pelo menos boa parte deles, começaram a lidar com a formação de forma mais profissional apostando em recursos humanos verdadeiramente entendidos no assunto. Ao mesmo tempo deixaram de apostar ou prescindir de treinadores baseando-se unicamente nos resultados das suas camadas jovens.

 

Exemplos práticos: De Zé Gomes a Fábio Silva

Mais um exemplo e agora com nomes. Fábio Silva, 17 anos. Será mais importante, tanto para o FC Porto como para o jogador, este estar envolvido na equipa A, ou estar apenas nos sub17 ou sub19 a marcar 2, 3 ou 4 golos por jogo? Parece-nos óbvia a resposta. O potencial enorme do jogador aconselha a que este queime etapas, para sob novos estímulos, perceber a sua capacidade de reação e evolução.

Aqueles que se destacam de forma inegável nos escalões jovens devem começar a ir ganhando minutos no futebol sénior. Seja minutos na equipa A e, quando não possível, na equipa B. É essa capacidade de se afirmar ou não, que vai distinguir o trigo do joio.

José Gomes, avançado, 20 anos, mais conhecido no mundo do futebol, “Zé Gomes”. Foi-lhe sempre apontado grande potencial e apresentando sempre resultados acima da média. A época 2015/16 foi o melhor exemplo disso. Com ainda 16 anos marcou quase um golo por jogo nos 28 jogos realizados pelos sub19 do Benfica, e em Maio, já com 17 anos, foi campeão europeu pela seleção de sub17. Além de melhor marcador foi considerado o melhor jogador da competição.

A projeção foi tão grande que o Benfica chegou a receber uma proposta concreta do Barcelona. Os ‘encarnados’ seguraram no jogador e deram-lhe uma oportunidade no futebol sénior, exatamente o que a performance do jogador pedia na altura. Foram cinco aparições na equipa A e 7 golos em 23 jogos pela equipa B. Nada mau para um avançado de apenas 17 anos perante um primeira experiência no futebol sénior. No entanto, nas duas épocas seguintes, a evolução que se preconizava não aconteceu, e em 52 jogos pela equipa B, marcou 6 golos, dando a ideia de alguma estagnação. No europeu sub19, que Portugal veio também a conquistar, ainda foi titular e um dos capitães, no entanto com rendimento do jogador deixou muito a desejar, em relação a quem saltava do banco para o substituir. E no mundial de sub20 nem constou entre os selecionados.

Isto tudo para concluir que, tanto o Benfica há 3 anos, como o Porto este ano, estiveram bem em promoverem os jovens avançados de 17 anos. E depois é perceber quem é “trigo” ou quem é “joio” mediante as performances nesta nova etapa.

 

Depois do individual, o colectivo: fará sentido ganhar ‘só porque sim’?

Pois bem. Vamos por partes. A formação é um dos temas mais em voga no dia a dia futebolístico, seja em conversas de café, em jornais, na TV. Um pouco por todo o lado. Até há não muitos anos, o que mais importava às direções dos clubes resumia-se numa palavra: GANHAR. Desde os infantis aos juniores. A avaliação do sucesso na formação tinha como métrica, quase exclusiva, os títulos que se iam sendo conquistados nas camadas jovens. E assim foi durante muitos anos… ‘ganhar só porque sim’.

Segundo Renato Paiva, uma das principais caras do projeto de formação do Benfica, as maiores vitórias dos treinadores da formação é verem os jogadores que passam por si triunfarem na equipa A: “É um prazer brutal ver o Rúben Dias, o Ferro, o Renato, o Guedes e muitos outros a impor-se na primeira equipa. Não chegam lá se nós pensarmos só em ganhar. Enquanto olharmos para os dígitos e estivermos agarrados aos dígitos na formação, o processo está completamente invertido”.

Embora formar jogadores a ganhar seja sempre melhor, o resultado não deve sobrepor-se à evolução individual do jogador dentro de um coletivo.

“Nós queremos todos ganhar, ninguém sai de casa para querer perder, temos é que perceber que isto é um jogo e há processos a serem trabalhados e que por vezes, com o processo bem feito, podes não ganhar. E muitas das vezes, quando o processo não é tão forte, podes perder. Enquanto as pessoas não fizerem avaliações estruturadas sobre aquilo que é o processo e viverem do ‘resultadismo’ na formação, está completamente errado! Grandes exemplos na Europa dizem perfeitamente o contrário” – conclui o agora treinador da equipa B dos ‘encarnados’.

 

Sinergias entre Sub19, Sub23 e equipa B.

O facto de estarem a ser formadas várias gerações de grande valor não está desassociada à criação das equipas B. O facto de haver uma ponte entre os os juniores sub19 e a equipa A, deixando os jogadores por perto e com a possibilidade de os chamar a qualquer momento, melhorou muito o número de oportunidades dadas aos jovens emergentes. Na maior parte das vezes, esses jovens, sem espaço na equipa A, eram emprestado a um clube e nem sempre se conseguiria adaptar da melhor forma. Ter a oportunidade de dar esse salto perto da casa-mãe, junto de quem o conhece melhor que ninguém, potencia uma melhor resposta do jogador a um novo estímulo. Ainda por cima com a possibilidade ter essa equipa secundária, na sempre competitiva segunda liga.

Mais recentemente foi criada a Liga Revelação para jogadores até 23 anos. Mais uma ponte importante para a passagem dos jogadores para o futebol sénior mas, pelo menos para os maiores clubes nacionais, não deve ser vista directamente como um alternativa às equipas ‘bês’. Exemplo disso, foi a extinção da equipa B do Sporting Clube de Portugal. Tem em Daniel Bragança (recentemente internacional sub21) um dos maiores talentos emergentes da sua formação. Começou a época passada no sub23, numa altura a qualidade do jogador já era claramente superlativa aos demais. Percebendo-se o interesse do Sporting em querer manter o jogador por perto, o contexto ideal teria sido a equipa B, onde o nível de competitividade, intensidade e dificuldade é bastante superior. Em janeiro de 2019 foi emprestado ao Farense (2ª liga) e embora tenha tido sucesso, ter antecipado essa situação poderia ter acelerado o processo evolutivo do jogador. Esta época está a rodar no Estoril, um dos candidatos à subida.

Outro exemplo recente, é o do avançado leonino Pedro Mendes, que pela época passada já se percebia que o patamar sub23 é pouco elevado para a sua qualidade. Estar o avançado a jogar numa segunda liga, onde defrontaria todas as semanas centrais com muita experiência iria deixá-lo cada vez mais preparado para a equipa principal.

Entre as seis equipas que tiveram acesso directo a uma equipa B na segunda liga em 2012/13 – Benfica, Porto, Sporting, Braga, Vitória SC e Marítimo – apenas ‘águias’ e ‘dragões’ conseguiram manter a equipa na sempre difícil segunda liga, e os leões extinguiram a equipa há duas épocas, quando foram despromovidos.

O Porto B, pela primeira vez na história das equipas B, venceu mesmo o título em 2015/16. No entanto desse plantel, apenas André Silva e José Sá, e mais recentemente Bruno Costa, conseguiram protagonismo na equipa A. No entanto o Porto parece querer inverter essa tendência dando a oportunidade a jogadores que venceram a Youth League como Romário Baró (este nascido em 2000), Diogo Leite e Diogo Costa que ficaram no plantel. Além de Diogo Queirós que foi emprestado. Da mesma geração dos “Diogos” (1999), no rival da luz, Gedson, Florentino e João Félix (este agora no Atlético de Madrid) já no passado faziam parte da equipa principal e não foram sequer utilizados na Youth League. Jota ainda foi utilizado no início da competição. No Sporting, dessa geração,mantêm-se Luis Maximiliano e Miguel Luís, tendo vendido recentemente Thierry Correia ao Valência.

Fica a nota final. As melhores vitórias na formação é ver os jogadores a brilharem na equipa principal.


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