Fernando Santos, o seleccionador das oportunidades e estreias

Francisco IsaacMarço 17, 20218min0

Fernando Santos, o seleccionador das oportunidades e estreias

Francisco IsaacMarço 17, 20218min0
Portugal está em vias de voltar a entrar dentro de campo e fomos perceber o papel de Fernando Santos como promotor de estreias. É o engenheiro um seleccionador voltado para as estreias?

Portugal vai iniciar a sua campanha do apuramento para o Mundial 2022 (Catar, realizado entre Novembro e Dezembro desse ano) e na lista de convocados para os encontros frente ao Luxemburgo, Azerbeijão e Sérvia, o seleccionador nacional poderá atingir a marca de 50 jogadores estreados sob seu comando, caso Rui Silva, João Palhinha e Nuno Mendes consigam ser chamados a actuar em algum dos encontros. Desde a sua estreia enquanto o comandante da selecção masculina sénior de Portugal em 2014, Fernando Santos promoveu 47 estreias, com as primeiras duas a serem Cédric Soares (também foi convocado) e João Mário (ainda não mereceu nova chamada, podendo ser ainda incluído num futuro próximo), numa demonstração clara que o engenheiro tem sido favorável a experiências, assim como beneficiar quem melhor se tem apresentado pelos seus clubes, apesar de poder merecer críticas em algumas das opções tomadas em determinados momentos.

Mas deixando, para já, as críticas por certas promoções ou manutenções, é fundamental destacar a vontade de Fernando Santos em procurar soluções nas gerações mais jovens, em dar espaço a estes para demonstrarem que merecem estar no grupo selecto de atletas ao serviço de Portugal e de que há espaço para segundas oportunidades.

No caso de Palhinha ou Nuno Mendes, é um prémio mais que merecido e justo perante a qualidade das prestações de ambos ao serviço do Sporting CP nesta temporada, tendo ambos futuros distintos em termos de luta pelo lugar. Enquanto o trinco/médio-centro terá sempre uma missão extremamente delicada pela frente, pois disputará com Rúben Neves, Danilo Pereira, Sérgio Oliveira e Renato Sanches pelo lugar, já Nuno Mendes possui uma polivalência especial que fará a diferença em futuras convocatórias, apresentando-se como um lateral com capacidade para se desdobrar e assumir-se como médio ou até um falso-extremo, algo que permite a Fernando Santos ter uma unidade diferente e com qualidade para manter um dinamismo de contrarreação e contra-ataque de elevado nível.

Isto significa que a inclusão do internacional sub-21 (falhará o Campeonato da Europa da especialidade, o que é um sinal indicativo de como importante é já a sua introdução na selecção A) obedece a uma lógica de planeamento para o futuro, obtendo assim uma solução para o lugar de Raphäel Guerreiro, que só tinha Mário Rui (de fora desta lista de convocados) ou Nélson Semedo (a posição mais trabalhada pelo atleta do Wolves é à direita, mas quando a necessidade obriga, transita para a esquerda) como soluções.

A convocatória de Palhinha pode ser vista como tardia, depois de ter realizado uma memorável temporada ao serviço do SC Braga, mantendo o mesmo nível pelo seu clube de origem, o Sporting CP, sendo um excelente exemplo de como há justiça e mérito por detrás das convocatórias de Fernando Santos, mesmo que não seja um aspecto perene e totalmente geral em outras situações. Com a necessidade de renovar e apresentar novas caras para certos lugares, a fase de apuramento para o Campeonato do Mundo de 2022 vai servir para ao mesmo tempo trabalhar na equipa que representará Portugal nessa competição – caso se apure, já que desde 2002 nunca mais as cores nacionais falharam a prova mais importante da FIFA -, como avançar com um processo de renovação que tem vindo a ser aplicado desde 2018.

É importante não confundir renovação pensada com reformulação profunda, já que alguns adeptos criticam o facto de ainda se convocarem atletas como Rui Patrício, Pepe, José Fonte, João Moutinho e Cristiano Ronaldo, aclamando que o tempo destes já está ultrapassado e de que é necessário passar para o capítulo seguinte, impondo um corte radical entre o que estes consideram como passado, presente e futuro. Esta linha de raciocínio possui vários erros de construção analítica, já que os cinco nomes falados atrás são peças-basilares não só da estratégia de jogo implementada por Fernando Santos, mas sobretudo fulcrais pela mentalidade e experiência que emanam, sendo uma espécie de farol para as várias gerações que coabitam com estas referências mais veteranas das Quinas.

A renovação que tem sido encetada desde 2018, não sofreu qualquer retrocesso desde então, com a ascensão ao mais alto nível internacional de vários atletas, caso de Bruno Fernandes (estreia em 2017), Bernardo Silva (2015), Rúben Dias (2018), Diogo Jota (2019), Rúben Neves (2015) ou João Cancelo (2016), que têm sido vistos como peças-importantes para os ciclos de 2022/2024, sendo agora o momento em que ocuparão o lugar de referências por Portugal.

O processo de descobrir, renovar e lançar tem sido constante com Fernando Santos ao leme, com os 47 estreantes a serem uma prova clara de como há crença nas novas vagas de atletas portugueses (nascidos ou não em território nacional), identificando-se ainda casos de jogadores como Domingos Duarte, Kevin Rodrigues, Pedro Mendes ou Edgar Ié, que foram convocados sem terem se notabilizado na primeira liga portuguesa, com este “pormenor” a ser revelador da vontade de dar oportunidades por parte da equipa técnica nacional, quer estejam a actuar em Portugal ou no estrangeiro.

Não há dúvidas que certas escolhas de Fernando Santos foram recebidas com certas dúvidas e críticas – algumas justas e compreensíveis, outras nem tanto -, como a titularidade de João Félix (das 13 internacionalizações apenas uma foi do nível esperado) em 2020 depois de uma época cinzenta ao serviço do Atlético de Madrid, a aposta por Danilo Pereira entre 2019 e 2020 quando Rúben Neves se mostrava em melhor forma ao serviço do Wolverhampton FC, ou a colocação de Diogo Jota no banco de suplentes no encontro que determinou a ausência de Portugal da fase-final da Liga das Nações 2021. Contudo, olhando para o quadro-geral seria errado determinar que Fernando Santos não é um seleccionador vocacionado para dar espaço a novos jogadores, de procurar soluções fora dos moldes-típicos e de simples promoção dos mesmos, quando desde 2014 quase meia centena de atletas vestiram a camisola de Portugal por mérito, sendo talvez um dos capítulos mais assinaláveis do futebol nacional, que coincide com duas conquistas internacionais: o Campeonato da Europa em 2016 e a Liga das Nações em 2019.

47 nomes que possivelmente irão ascender a 50 em 2021, com possibilidade de se manter esta tendência nos anos vindouros, e isto significa um sinal extremamente positivo para o futuro de Portugal enquanto uma das principais selecções à escala global, um assento que vem sendo assumido no século XXI, com Fernando Santos a deter uma grande quota parte deste crescimento auspicioso. Para melhor perceber o impacto e do como foram realizadas estas estreias na era do actual seleccionador nacional, criámos a seguinte tabela:

 

Os estreantes (Foto: FP)

Alguns dados de interesse (nesta tabela não está contabilizada a convocatória de 2021):

– O ciclo com maior número de estreantes foi em 2015, um ano após Fernando Santos chegar ao comando das Quinas. Cerca de 13 atletas foram lançados em campo pelo seleccionador. O menor coube ao ano de 2019, altura em que só três jogadores receberam o direito de se estrear pela selecção nacional: Dyego Sousa, Diogo Jota e João Félix;

Média de internacionalizações do total dos 47 estreantes durante este período entre 2014-2020 está nos 12 jogos;

15 dos estreantes só efectuaram 1 jogo por Portugal, casos de Tiago Gomes, André André, Ukra, Pedro Mendes ou Marafona;

Bernardo Silva é o jogador com maior número de internacionalizações, com 49, de entre os 47 atletas lançados por Fernando Santos, seguindo-se João Mário (46) e Raphäel Guerreiro (45);

Rúben Neves, lançado em 2015, continua a ser o jogador mais jovem a ter jogado por Portugal, com cerca de 18 anos quando actuou pela 1ª vez. José Fonte foi o mais velho a ter iniciado a sua “vida” pela selecção nacional, tendo atingido este patamar aos 31 anos, tendo sido um dos primeiros estreantes de Fernando Santos;

FC Porto, Sporting CP e SL Benfica foram os clubes que mais estreantes foram promovidos durante estes 7 anos de Fernando Santos, com seis atletas cada, seguindo-se o SC Braga com 5. A nível internacional, o Wolverhamtpon FC, comandado por Nuno Espírito Santo, contribuiu com 3 e o AS Monaco com 2;


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