Poderá ser o Rugby World Cup 2019 o melhor de todo o sempre?

Francisco IsaacSetembro 10, 201914min0

Poderá ser o Rugby World Cup 2019 o melhor de todo o sempre?

Francisco IsaacSetembro 10, 201914min0
Estamos prestes a começar o Mundial de Rugby 2019 e oferecemos alguns destaques especiais na antecâmara da 9ª edição da prova! O Rugby World Cup 2019 no Fair Play

Faltam poucos dias para o início do 9º Campeonato do Mundo de Rugby, naquela que será a primeira organização orquestrada por uma nação asiática e, ao que tudo indica, será a edição mais disputada, sem um claro favorito à vitória final como em outras ocasiões aconteceu. Mas o que esperar deste Mundial, que vai ter uma mescla de surpresas, decepções, apontamentos inéditos, problemas meteorológicos, exibições gloriosas e muito mais? Vamos então à antevisão que promete deixar uma promessa de uma competição excitante e histórica que começa no dia 20 de Setembro e vai até a 2 de Novembro, envolvendo as 20 melhores selecções do Mundo.

A ASCENSÃO DAS TIER 2 A UM PATAMAR SUPERIOR?

Tier 2… um termo familiar para os adeptos da bola oval, mas nem tanto para os que não acompanham a modalidade tão de perto, tendo uma explicação fácil: o rugby mundial está dividido em patamares, existindo três níveis de dimensão/qualidade que não só aferidos pelo número de aficionados, como também pela quantidade de clubes em actividade, praticantes per capita, desenvolvimento a nível escolar e de formação, profissionalismo e impacto económico.

Tier 1 são tipicamente as selecções mais antigas do rugby, como Nova Zelândia, África do Sul, Inglaterra, Irlanda, País de Gales, etc, enquanto que as Tier 2 são formações como as Fiji, Tonga, Samoa, Geórgia, Estados Unidos da América ou Japão, existindo ainda um Tier 3. E é exactamente pelo Japão que interessa perceber o como as Tier 2 podem fazer mossa neste Mundial, a começar pelo facto desta 9ª edição ser organizada pela primeira vez por uma nação deste patamar, fugindo ao controlo dos actuais titãs da oval.

Os nipónicos têm vindo a crescer a cada novo ano, não só observado pelo aumento de número de praticantes (que sempre foi algo normal no território japonês), mas igualmente pelo crescimento da própria liga interna (teremos a oportunidade de ver em 2020 a Super League japonesa, que “só” vai ter 30 atletas de craveira mundial dentro das quatro-linhas a alinhar pelas poderosas clubes-empresa do Japão), da obtenção de bons resultados frente a selecções do mesmo patamar ou até contra adversários do nível acima (vitória frente à África do Sul em 2015, uma derrota por 3 pontos na visita ao País de Gales em 2016, uma exibição portentosa em Twickenham no ano passado que pregou um susto à Inglaterra, etc) e do aumento extraordinário do número de adeptos fiéis à modalidade, com estádios sempre cheios ou perto da lotação total.

Ao garantir a organização de um Mundial (um feito que só por isso merece toda a relevância possível), o Japão deu um passo decisivo para não só sonhar com o atingir do patamar do Tier1, como de poder perfeitamente acreditar que conseguirá chegar a esse nível nos próximos anos. Uma forma “rápida” de receber as estrelas de Tier 1 passa por garantir uma qualificação inédita para os quartos-de-final do Campeonato do Mundo, furando por completo com um protocolo instituído pelas maiores selecções do rugby… os nipónicos estão no mesmo grupo que Irlanda, Escócia, Samoa e Rússia, perspectivando-se boas possibilidades para chegar a um sonho que foi por muito pouco adiado em 2015.

Outra selecção de Tier 2 que tem todos os argumentos para criar uma surpresa em 2019 são as Ilhas Fiji, responsáveis sempre por jogos emotivos, recheados de pormenores loucos e uma fisicalidade desconcertante e de alto impacto.

Durante anos as Fiji prometeram que iam conseguir fazer algo de extraordinário, mas faltou sempre uma maior consistência táctica, um seguir imperturbável da estratégia delineada (os fijianos muitas vezes desviam-se do plano inicialmente traçado pelas equipas técnicas durante os momentos mais emotivos dos jogos) e de ter uma boa base de soluções para todas as posições. Felizmente, parece que nesta edição do Mundial teremos uma selecção aprimorada em todas as secções, podendo fazer mossa à Austrália, País de Gales, Geórgia e Uruguai, todas parceiras do mesmo grupo.

OS ASES QUE VÃO PERTURBAR A LUTA PELO MVP DO MUNDO

Em todos os mundiais de modalidades colectivas a expectativa por saber quem vai ser o melhor jogador é alta e o rugby não é excepção a esta regra. Normalmente a equipa vencedora do Campeonato do Mundo consegue arrebatar todos os prémios de final de época, como aconteceu com a Nova Zelândia em 2011 (só perdeu no Melhor Jogador, conquistado pelo francês Thierry Dusautoir) ou 2015, tirando levemente a esperança que o MVP venha a ser alguém que fique de fora das meias-finais. Ou seja, o esforço colectivo vai permitir que um determinado jogador venha a conquistar um mérito individual, numa expressão normal associada ao rugby (o colectivo primeiro e o individual vem a seguir). Mas bem, quem são os hipotéticos jogadores que poderão vir a subir ao trono de Melhor do Mundo após o RWC 2019?

Comecemos pelo vencedor de dois troféus do Melhor do Mundo nos últimos três anos, de seu nome Beauden Barrett. O médio-de-abertura/defesa dos All Blacks (fez parte do grupo que ganhou o Mundial de 2015 em Inglaterra, tendo mesmo feito um ensaio na final) tem criado um legado expressivo graças ao seu virtuosismo, criatividade e poder de mudar um jogo num par de minutos, dando outra dimensão à posição de nº10, apesar de não ser um talento total nos pontapés aos postes ao nível do seu antecessor, Dan Carter (três vezes Melhor do Mundo). Com Barrett em campo e no seu esplendor máximo a oval parece ganhar vida, impondo um brilhantismo e uma genialidade extraordinária que não se fica só pela arte de atacar ou de montar o jogo táctico, mas também pelo seu engenho e velocidade em ir buscar adversários em cima da área de ensaio.

Curiosamente, Beauden Barrett move tanto uma onda de paixões como de ódios, com uns a seguir cegamente a sua passada electrizante, enquanto outros preferem arremessá-lo para um nível inferior de qualidade em comparação com outras estrelas da modalidade… aonde é que já vimos algo similar? Richie Mo’unga ou Samuel Whitelock são contenders ao prémio, principalmente o capitão dos All Blacks que é um dos jogadores invisíveis (significa que fazem todo o trabalho de sacrifício e de luta, sem que as pessoas se apercebam) que merece um maior destaque.

Na senda dos nº10, o homem que vai vestir essa camisola nos Springboks poderá perfeitamente terminar o Mundial como o melhor… Handbré Pollard é o nome a seguir com atenção. Um estratega estupendo, competente na defesa, é na forma como consegue impor os ritmos e dinamismos de jogo da África do Sul que se pode vislumbrar o melhor que tem para oferecer, somando-se ainda a excelência na pontaria aos postes, um apontamento que pode fazer a diferença nos jogos mais disputados de um mundial.

Pode não ser tão fantasioso como outros atletas, mas é impossível não ficar impressionado pela inteligência, versatilidade, amplitude defensiva, domínio no jogo ao pé e de dar outra estrutura aos Springboks, que necessitam de um Pollard sempre ao mais alto nível. Da África do Sul também pode sair o “coelho” Faf de Klerk com o galardão de MVP, dependendo se consegue mostrar o seu melhor ao exemplo do que se passou em 2018.

Da actual 1ª classificada do ranking da World Rugby, a Irlanda, parece não existir um candidato ao título de Melhor do Mundo, e só a conquista do Mundial poderá valer a Jonathan Sexton a revalidação do prémio que somou em 2018…. todavia, e caso a Selecção do Trevo consiga colocar a oval nas mãos do veloz Jacob Stockdale, poderá o ponta perfeitamente fazer algo que só Bryan Habana e Shane Williams conseguiram fazer no passado.

Não obstante aos candidatos já mencionados, há dois nomes que estão bem encaminhados para chegar a esse sonho… Maro Itoje e Owen Farrell. O 2ª linha e abertura/centro, respectivamente, ganharam tudo o que havia para ganhar a nível de clubes em 2018/2019 (pelos Saracens) e caso a Inglaterra chegue à final da competição, ambos podem ser candidatos perfeitos para receberem a maior honra agraciada a jogadores a nível individual.

A genialidade de Beauden Barrett

JOGOS A DOER NA FASE-DE-GRUPOS

Nota: lembrar que os jogos vão decorrer no Japão e isto significa um acrescento de 8 horas em relação ao horário GMT, por isso atenção aos horários. Em relação aos jogos must see da fase-de-grupos, há alguns que merecem a vossa total atenção. Quais? Começamos com um África do Sul vs Nova Zelândia, logo no jogo de estreia de ambos neste Mundial e não há favoritismo assumido nem dos ‘boks ou All Blacks. Uma vitória oferecerá, praticamente, o 1º lugar do grupo B mesmo que ainda faltem três jogos por se jogar, enquanto que a selecção derrotada neste jogo será forçada a caminhar por um trilho mais exaustivo e desafiante até à final.

O Austrália-Fiji também estará imbuído de um interesse profundo, até porque os Wallabies não estão confortáveis a nível da atitude defensiva e, apesar da possibilidade de haver surpresa por parte dos Flying Fijians ser mínima, este encontro terá de ser encarado como explosivo.

E porque não um Le Crunch, isto é… um Inglaterra-França? Parecendo que não os Les Bleus apresentaram-se em Agosto em boa forma e começam a demonstrar atributos essenciais para voltar a poder lutar por uma posição alta no ranking mundial. Por outro lado, a Inglaterra parece estar perto do seu nível máximo de qualidade e Eddie Jones não vai querer oferecer o flanco logo na fase-de-grupos, evitando desde logo o fantasma de 2015, edição do Mundial em que os seleccionados de Sua Majestade ficaram pela fase-de-grupos.

No fecho da fase-de-grupos vamos ter um encontro emotivo… Escócia frente ao Japão. Não há dúvida nenhuma que passará por aqui a discussão pelo 2º lugar do grupo A e os nipónicos terão uma bancada completamente cheia para apoiá-los do primeiro ao último suspiro, tratando-se quase de uma autêntica final.

Os horários com os jogos principais da fase-de-grupos:

POSSÍVEIS EMPARELHAMENTOS NO MATA-MATA

Se os jogos emotivos da fase-de-grupos não vos chegam, então podemos apresentar algumas teorias do que podem vir a ser as eliminatórias a partir dos quartos-de-final. No grupo A é certo que a Irlanda vá passar em 1º lugar, ficando o 2º lugar reservado para a Escócia ou Japão; no grupo B Nova Zelândia e África do Sul vão ficar com as vagas para as eliminatórias; no terceiro grupo, teremos uma disputa louca por qualquer um dos lugares de acesso aos quartos, com a Inglaterra a somar um ligeiro favoritismo, enquanto França e Argentina vão estar numa guerra aberta pela segunda posição; e, por fim, País de Gales, Austrália e Fiji vão tentar o acesso aos quartos-de-final, com os campeões actuais das Seis Nações a ter clara vantagem na conquista pelo 1º lugar, oferecendo o beneficio da dúvida aos australianos.

Perante este cenário, os quartos-de-final e meias-finais poderão vir a ser estes:

A grande dúvida prende-se com a posição da África do Sul e Nova Zelândia, que acabará por ser a maior incógnita no meio destas “previsões”. De resto, e apesar de estarmos a arriscar um pouco com o Japão, este será o quadro-geral das eliminatórias. Qual é a vossa proposta?

CURIOSIDADES QUE FAZEM DO RUGBY ESPECIAL

Para finalizar algumas curiosidades que valem a pena saber de antemão, seja para a conversa com amigos e familiares durante a visualização dos jogos, para quando estiveram a acompanhar os comentários da Sportv, etc! Vamos por partes:

A saga dos três irmãos Barrett: Jordie, Scott e Beauden, todos de apelido Barrett, vão marcar presença no Mundial de Rugby, um dado incomum na história de edições anteriores, mas não inédito já que em 2007 os três irmãos Tuilagi representaram a selecção da Samoa (Henry, Anitele’a e Alesana). É normal irmãos e primos constarem na mesma selecção em certos momentos, e neste Mundial vamos ter para além dos três Barrett, os dois Vunipola, os Lay ou Lam da Samoa ou os Davies do País de Gales. Qual a melhor irmandade?

A força do querer de Nasi Manau e Christian Lealiifano: quem diria que o 3ª linha do Tonga e o abertura da Austrália iriam estar neste Mundial há 3 anos atrás? Ambos padeceram de problemas oncológicos graves e foram mesmo forçados a colocar uma pausa nas carreiras, e por momentos existiram rumores que apontavam no sentido de uma reforma antecipada. Contudo, quis o destino e a força de vontade de Manau e Lealiifano, tudo mudou num par de anos e os dois profissionais conseguiram  voltar não só a jogar, mas a actuar ao mais alto nível, conquistando uma convocatória para o Mundial 2019. Um exemplo de que é possível transpor as adversidades e chegar longe!

A paixão de Mamuka Gorgodze: um dos maiores ícones do rugby georgiano estava retirado dos jogos de selecção desde 2017, vincando a ideia que não voltaria para o Mundial de 2019, optando por dar espaço ao novo “sangue” dos lelos. Chegado a Agosto de 2019, a Geórgia padeceu de vários problemas dentro de campo, faltando alguém que conseguisse colar uma selecção dividida entre a experiência e a juventude, recaindo esse papel no “Gorgodzilla”. Mesmo sem jogar pela Geórgia nos últimos dois anos, a forma como o gigante 2ª/3ª linha foi aplaudido e agraciado demonstra que ainda é um dos maiores símbolos-vivos dos lelos;

A tríplice que pode fazer o trio: Kieran Read, Sonny Bill Williams e Samuel Whitelock podem fazer o impensável… ganhar três mundiais de forma consecutiva. Os três All Blacks estiveram no Mundial 2011 (quem se esquece de SBW a arrancar a manga da camisola no jogo de abertura dessa edição da maior prova de selecções) assim como em 2015 e voltam a estar juntos agora para tentar chegar ao tricampeonato consecutivo. Owen Franks, Ma’a Nonu, Aaron Cruden, Jerome Kaino, Victor Vito, são alguns dos All Blacks que também têm duas estrelas de campeões do Mundo, mas não terão a oportunidade de chegar ao tri;

A meteorologia que pode dar empates: nesta altura do ano, o Japão é assolado por espectaculares tempestades, com os tufões a ocuparem um lugar VIP neste aspecto… e o que significa um tufão no meio de uma competição desportiva ao ar livre? Impossibilidade de jogar. E no Mundial de Rugby qual é a regra caso não haja possibilidade se realizar o jogo na data indicada? Nada de adiamentos, oferecendo um empate a zeros às duas selecções. Num grupo como o da Nova Zelândia e África do Sul não é significativo, mas imaginemos que há um jogo cancelado do grupo D, deixando Austrália, País de Gales e Fiji mais nervosas, ou no grupo da morte disputado entre França, Inglaterra e Argentina. Alerta Tufão!

A história de Lealiifano


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