10 anos depois de Hernâni

André CoroadoAbril 23, 20189min0

10 anos depois de Hernâni

André CoroadoAbril 23, 20189min0
Capitão da selecção nacional de futebol de praia até 2008, Hernâni foi um jogador marcante durante mais de uma década de História do futebol de praia. O Fair Play recorda o ninja e avalia a sua importância nas fundações da selecção nacional.

Em 2018 assinala-se o décimo aniversário da despedida de Hernâni da selecção portuguesa de futebol de praia. Trata-se de um jogador emblemático, marcante no seio de uma geração de atletas que construiu a História da modalidade. Acumulando mais de 10 anos com as cinco quinas ao peito, Hernâni capitaneou a selecção nacional praticamente desde os primeiros passos de Portugal na modalidade até à sua retirada no prolífico verão de 2008.

Enquanto envergou a braçadeira de capitão, o futebol de praia cresceu, deixando de ser uma modalidade amadora praticada por antigos profissionais de futebol de 11 para se tornar numa modalidade FIFA, com campeonatos do mundo oficiais organizados em destinos diferentes a cada edição. Personagem carismático, patrão das tarefas defensivas mas com uma influência tremenda na manobra ofensiva da equipa, Hernâni terá sempre um lugar de destaque nos anais do futebol de praia.

Um futebolista de renome

Hernâni Neves, nascido a 2 de Novembro de 1963 em Mourão, Évora, deu os primeiros passos no mundo do futebol ainda muito jovem. Começando no Vitória FC (Setúbal), clube da cidade onde habitava, a afirmação de Hernâni não foi imediata, sendo emprestado ao Farense. No entanto, regressou ao Bonfim no ano seguinte e evoluiu rapidamente, tendo alcançado um estatuto preponderante na equipa. Cientes do seu grande potencial, os responsáveis do SL Benfica trataram de assegurar a sua contratação, sendo transferido para o clube lisboeta.

No Benfica permaneceu 6 épocas, sob o comando de Toni (coadjuvado por Jesualdo Ferreira) e onde jogou ao lado de atletas como Mozer, Rui Águas, António Veloso, Rui Costa, João Pinto entre outros. Desempenhando as funções de médio defensivo, enfrentou uma forte competição pela titularidade, nem sempre com sucesso, o que de alguma forma o impediu de alcançar maior visibilidade internacional. As suas lesões, que se agravaram ao longo do tempo, também não contribuíram para a sua afirmação no plantel encarnado.

Ainda assim, Hernâni continuou a combater, com a força guerreira que se lhe reconhece, conseguindo regressar aos relvados e participar em grandes momentos de sucesso colectivo. O momento alto foi mesmo a titularidade na final da Liga dos Campeões Europeus da época de 1989/90, disputada em Viena. O Benfica foi derrotado por 1-0 pelo AC Milan, falhando a conquista da competição, é certo, mas a final europeia constitui ainda assim um marco histórico na carreira de um futebolista, ao alcance de poucos.

De águia ao peito, Hernâni conquistou 3 vezes o Campeonato Nacional de Futebol e foi vencedor da Taça de Portugal por uma ocasião. Forte fisicamente, dotado de um notável ímpeto no domínio do meio campo, Hernâni cumpria de forma exemplar as suas funções, transmitindo uma segurança assinalável ao jogo da equipa encarnada. Mesmo com poucos jogos disputados ao longo das épocas, os golos da sua autoria constituíram verdadeiras obras de arte, permanecendo na memória colectiva dos adeptos benfiquistas.

Apesar das dificuldades múltiplas que enfrentou no seu percurso futebolístico, o talento e a conduta trabalhadora de Hernâni foram premiados pela chamada à selecção nacional de futebol, pela qual fez 2 jogos, o último dos quais em 1990. Depois de uma conturbada, mas frutuosa carreira no Benfica, Hernâni alinhou durante mais dois anos pelos sadinos, clube da terra que abraçou como sua, vindo depois a finalizar a carreira de futebolista profissional na época de 1996/97, ao serviço do Desportivo de Beja.

Foto: Futebol em Portugal

Futebol de Praia: A luta por um sonho pelejando nos areais

Acabava a carreira como jogador de futebol de 11, começava a promissora carreira no futebol de praia. Em Portugal, representou o SL Benfica nos campeonatos amadores que se iam realizando, mas foi em Itália que teve a oportunidade de jogar profissionalmente, entre 2006 e 2009, quando a liga transalpina se afirmava claramente como a melhor do mundo. Hernâni envergou durante 4 épocas a maglia do Viareggio Cavalieri del Mare, uma das mais poderosas equipas do futebol de praia italiano, onde alinhou ao lado dos compatriotas Madjer, Alan e, mais tarde, Belchior.

No entanto, o seu principal legado na modalidade prende-se com o contributo prestado ao longo de 12 épocas para a Selecção Nacional de Futebol de Praia, que capitaneou de forma exímia, fazendo valer a sua experiência. Presente desde o primeiro instante, Hernâni fez parte do primeiro contingente lusitano que disputou em 1997 o ainda jovem Campeonato do Mundo da modalidade (terceira edição da prova), e permaneceria com firmeza na vanguarda das hostes portuguesas até 2008, ano em que completou 45 anos de idade.

Hernâni rapidamente se tornou um ícone das areias. Geralmente apresentava-se numa posição mais recuada no terreno, que na nomenclatura comumente utilizada hoje em dia corresponde às posições 2 (fixo) e 3 (ala mais defensivo). Evidenciava-se pela solidez defensiva que conferia à equipa, constituindo uma barreira muitas vezes intransponível para os adversários. Hernâni ficou célebre pelos seus desarmes magistrais, que lhe valeram a alcunha de ninja, pela qual era tratado no seio da selecção. Não obstante, Hernâni sempre foi um jogador de grande pendor ofensivo, participando activamente na construção (e muitas vezes na conclusão) de jogadas de ataque, portador de uma capacidade técnica formidável, ainda hoje rara num jogador conotado com tarefas mais defensivas.

A herança de Hernâni

No final, mais do que a série de grandes golos que constam no seu currículo invejável, sobressair a enorme capacidade de comunicação dentro e fora do grupo da selecção nacional. Dentro de campo, as palavras que empregava para motivar os seus companheiros materializavam-se em actos de sacrifício em prol da equipa, que davam o exemplo aos mais jovens, potenciando a superação individual de cada um. Perante as câmaras, erguia com eloquência a voz em defesa dos companheiros e do simbolo que orgulhosamente ostentava ao peito.

Esse foi o maior legado de Hernâni. Patente no espírito apaixonado de devoção total com que cantava o hino nacional a plenos pulmões no início de cada batalha, os olhos cerrados, a mão firme no peito resoluto, e a certeza contagiante de deixar tudo em campo pela pátria que era a sua.

A nível de títulos individuais e colectivos, todo o destaque recai sobre o Campeonato do Mundo de Futebol de Praia de 2001, disputado na Costa do Sauípe (Espírito Santo, Brasil), onde inclusivamente foi eleito o melhor jogador da competição. Confirmado que estava o seu lugar entre os melhores dos melhores de sempre, a senda vencedora do mítico camisola 3 incluiu a conquista da Liga Europeia de Futebol de Praia por 3 vezes e da Taça da Europa por 6 ocasiões, bem como a Copa Latina de 2000 e, finalmente, os Mundialitos de 2003 e 2008, triunfos com um significado especial para Hernâni, uma vez que foram obtidos em solo nacional diante do Brasil, com um cunho muito pessoal por parte do capitão luso. Na memória colectiva ficam guardadas as palavras sábias que proferiu após a vitória sobre o Brasil (7-4) na final do Mundialito de 2003, na Figueira da Foz, quando dedicou a conquista inédita da prova aos bombeiros que trabalhavam noite e dia para defender o país das chamas que alastravam nesse tórrido verão.

Despedida vitoriosa

No final de 2007, após um campeonato do mundo menos conseguido por parte das cores lusas (eliminação nos quartos de final frente ao Brasil), Hernâni ponderou abandonar a equipa para dar lugar a novos valores, mas acabou por decidir ficar por mais um ano e contribuir com a sua experiência para a renovação sustentada do plantel. O plano de restruturação da selecção encetado pelo então técnico José Miguel Mateus deu frutos, tendo Hernâni facilitado a integração de novos jogadores no plantel através da transmissão dos seus vastos conhecimentos.

Nesse verão, Hernâni fez dupla com Pedro Sousa no sector mais defensivo, numa equipa reforçada ainda com Bruno Torres, Tiago Melo, Paulo Graça, Luís Bilro, Zé Maria e Durval. O bronze no Mundial de Marselha soube a pouco para uma equipa que praticava o melhor futebol de praia do mundo, mas os erros defensivos na meia final diante do Brasil impediram Hernâni de terminar a carreira com o ceptro mundial nas mãos. Depois disso, seguiram-se 7 triunfos consecutivos em outras tantas partidas e 2 conquistas memoráveis: Mundialito e Liga Europeia.

O ninja marcou pela última vez no Mundialito de Portimão, frente à Argentina, numa competição em que Portugal colocou um ponto final nos 3 anos de invencibilidade do Brasil, batendo a Canarinha por 5-4 numa epopeia. Semanas mais tarde, Portugal sagrar-se-ia campeão europeu da modalidade, com 3 goleadas, em Vila Real de Santo António, no último torneio de Hernâni com a camisola da selecção nacional. O seu último jogo foi diante da Holanda, com uma vitória portuguesa por 5-1, após a qual Hernâni levantou o derradeiro grande troféu conquistado ao serviço dos cinco escudos azuis.

Foto: FPF

Uma década depois, o legado de Hernâni foi prolongado e expandido pelos seus sucessores, quer por Madjer enquanto capitão da equipa das quinas, quer pelos jogadores que posteriormente se constituíram como pilares defensivos da selecção, nomeadamente Pedro Sousa, Bilro, Marinho (também ele durante tanto tempo colega de Hernâni na retaguarda lusa), Nuno Tavares, Bruno Torres, Rui Coimbra e, mais recentemente, Pedro Vasconcelos Silva e Tiago Batalha. A conquista que faltava a Hernâni acabaria por ser alcançada em 2015, com o triunfo português no Mundial FIFA realizado em Espinho, troféu que reafirmou o estatuto cimeiro do futebol de praia nacional no plano global: um estatuto cuja construção foi iniciada pela geração primordial na qual Hernâni desempenhou um papel-chave.


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