Arquivo de Futebol - Fair Play

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Bruno Costa JesuínoJunho 25, 20208min0

O futebol esteve parado durante cerca de três meses e no que a polémicas diz respeito foi quase um sossego. Mal recomeça a competição, devido a um resultado menos conseguido um autocarro leva uma pedrada no vidro… que se deveria transformar numa “pedrada no charco”, para se começar a ter mão pesada nestas situações.

Quem acredita em ‘pedradas motivadoras’?

Acredito que parte significativa das pessoas que leram este título vão associar que o “pedrada no charco” (leia-se ‘fazer reagir quem está acomodado’) se deve ao facto de a pedrada no vidro serviria para acordar a equipa do Benfica, o treinador ou mesmo o presidente. Mas não. Longe disso. Há quem defenda e cheguei a ouvir “vais ver se eles não vão correr em Portimão”. Antes de mais, a razão do empate com o Tondela, não foi por correram pouco. Além do mérito do adversário, a equipa não mostrou argumentos técnicos e tácticos para ultrapassar a boa organização do Tondela, e correram muito. Muito mas muito mal.

Medo Versus Motivação

Além do acto em si, que é um caso de polícia, o medo nunca fez ninguém ser melhor naquilo na actividade que desempenha. Só causa toda uma pressão necessária. Façam este exercício. Imaginem um jogador que viu os murais de casa pintando e a ver as suas famílias ameaçada a ter que um penalty no último minuto. Será que os adeptos acham que o jogador vai estar mais capaz de o executar com sucesso? O pior é que alguns acham que sim. Acham-se tão senhores da razão que mandam pedradas ao autocarro da própria equipa para os “chamar à razão”. E, provavelmente, vão continuar sempre a achar. Mas ao menos se se começar a punir severamente estas atitudes ao menos que não destruam propriedade alheia.

Podemos fazer o mesmo exercício agora extra futebol. Imaginem-se no vosso trabalha alguém criticar a performance da sua empresa e ameaçam a vossa família. Alguém no seu perfeito juízo acha que vai ser melhor profissional com base no medo? Motivação sim. Motivação é a chave catalisadora para qualquer profissional cumprir melhor as suas funções.

Futebol pós-covid ainda sem sal

Agora vamos à performance dentro de campo. Desde que a liga portuguesa regressou, a qualidade só tem aparecido a espaços… muito espaçados. Faz lembrar aqueles jogos de início pré-época… mas sem pré-época. Com menos público e com os jogadores com níveis físicos ainda mais baixos. E as bancadas despidas de público complementam tudo o que se quer… para 97 minutos de algo muito insosso.

Depois quando falta ritmo de jogo as diferenças entre as equipas fica mais curta, tornando os jogos mais equilibrados. Se repararem grande parte dos golos e jogadas de perigo tem sido através de erros defensivos. Não só forçado, mas mesmo não forçados. Isto acontece porque os níveis de concentração médio dos jogadores também voltaram muito mais baixos. E com o decorrer do jogo, quando o cansaço aumenta o discernimento desce e essas desconcentrações ainda se tornam mais evidentes.

A influência do factor público

Já muitos estudos se fazem e muitos mais irão ser feitos sobre a influência que as bancadas vazias estão a ter no desempenho nas equipas. Já se sabia que quando aconteciam jogos à porta fechada a equipa da casa por norma tinha desempenhos mais baixos. Mas talvez não se pensasse que a influência fosse tão grande. Só agora, com jogos sucessivos sem público, é que a amostra é suficiente para poder tirar dados. Não será por acaso que o público é considerado “o sal do futebol”, e é por eles que o futebol é considerado o desporto rei e desperta tantas paixões e emoções.

Em outros países nem tanto, mas em Portugal bem sabemos que os clubes grandes têm sempre mais público que o adversário mesmo quando jogam fora. Com excepção dos confrontos entre eles. A motivação que os adeptos dão à equipa faz sentir os jogadores mais tranquilo e motivados e há maior pressão sobre o adversário.

Uma história real sobre adeptos

Sempre que se fala em adeptos e da sua influência lembro-me de um relato do ex-benfiquista Mozer. História essa que envolve o regresso ao Estádio da Luz como jogador do Marselha e o ex-internacional francês Jean-Pierre Papin, na altura colega do brasileiro.

Conta Mozer que quando chegou o clube, Papin disse a Mozer que pressão dos adeptos do Marselha era muita quando estavam entre 30 a 40 mil adeptos. E semana após semana “azucrinava-lhe” a cabeça, e ele, habituado a jogar no Maracanã e ao Estádio da Luz, nunca sentia essa “tal” pressão.

O que é melhor do que ser a contar? Passar a palavra a um dos protagonistas:

Até que nas eliminatórias da Taça dos Campeões Europeus, nas meias-finais, para azar dele caiu o Benfica. E eu pensei assim: “Agora vai ser a minha vez!” No dia a seguir a ter saído o sorteio virei-me para ele e perguntei:
— Jean-Pierre, você viu com quem caímos?
— Vi, vi. Com o teu ex-clube.
— Pois é. Agora você é que vai ver o que é pressão.
— Porquê?
— Porque o estádio lá vai encher.
— Vai encher? E quantos mete?
— 120 mil!
— O quê?!
— É. 120, meu filho. Lá não se brinca.

Viemos para Portugal para o jogo da segunda mão, depois de termos ganho em casa por 2-1. Chegámos com dois dias de antecedência e treinámos naqueles campos secundários do Estádio Nacional.

Quando chegámos lá estava lotado de benfiquistas à volta da cerca, nem conseguíamos ver o relvado, e ele falou assim:

– O Benfica está treinando?
– Não, não. Isto aqui é para esperar a gente mesmo, a pressão começa aqui.
Ele ficou completamente nervoso! Chegou o dia do jogo, trocámos de roupa e fomos para o aquecimento. Eu tinha o hábito de ser sempre o último a sair do balneário, porque gostava muito de prestar atenção ao estado de espírito dos meus colegas, para ver se íamos fazer um bom jogo. Sempre fui muito observador nesse aspecto. Quando o meu balneário já não tinha mais ninguém, já tinham saído todos para o relvado, fui também. Quando estava a chegar ao relvado, no túnel de acesso ao campo, eles estavam ali todos escondidinhos, assim só a espreitar e o estádio estava super lotado.

– Vamos embora!
– Não, nós estamos esperando você.
Fui em primeiro, subi a escadaria que dava acesso ao campo, e quando entro no relvado, do outro lado saiu o Eusébio para ser homenageado. Ai Jesus, o estádio explodiu! Um barulhão, e quando olhei para trás estava sozinho no campo. E a receber vaia, 120 mil a dar vaia em mim sozinho. Comecei a chamá-los.
– Não, vamos esperar até o barulho passar.
– O barulho não vai passar, meus amigos. Isto vão ser 90 minutos assim. Anda lá, meu!
Ninguém vinha. E pensei “pronto, já perdi o jogo.”

Foi a história mais caricata e engraçada que tive com um colega de profissão, que era um grande jogador. O inferno da Luz tinha surtido efeito naquele período e realmente era bastante difícil jogar no Estádio da Luz cheio. Para quem não estava habituado era muito complicado.

Públicos nos estádios: Sim ou não?

Tem sido um assunto muito debatido, e agora ainda mais, com a possibilidade (quase) confirmadíssima de Lisboa receber a ‘final 8’ da Liga dos Campeões. Há argumentos válidos que defendem que se eventos culturais aconteceram com 1/3 ou 1/4 de sala, porque é que um estádio de 60.000 não pode ter pelo menos 10.000 ou 20.000 pessoas, o bastante para manter distâncias sociais. Mas há um factor que é preciso ter em conta e poderá ser decisivo. Existe algum evento de massas que mexa tanto emocionalmente com as pessoas como um jogo de futebol? Quantos desconhecidos já se abraçaram a festejar um golo decisivo do seu clube ou da sua seleção?

Para terminar, dou novamente a palavra a um dos protagonistas, neste caso, eu mesmo.

10 Junho de 2016. Final do Euro. Mais um vez escolhi o Terreiro do Paço como palco para ver o segundo jogo mais decisivo de sempre da nossa Seleção. Se em jogos anteriores estava cheio, o que dizer da final. E não só de portugueses. Ao longo dos 90min o ambiente era é tão contagiante, que havia ali ao pé um grupo de turistas polacos a viver o jogo quase como se fossem um de nós. Quase.

Até que no meio de tantos nervos, há sempre quem fale demais e mande aquelas ‘bocas’ típicas do “mete este”, “tira este”… “assim vamos perder”. Isto em loop. Alguém perdeu a paciência e acertou-lhe em cheio com o capacete na cabeça e/ou ombro.

Uns 20 ou 30 minutos depois. Golo de Portugal. Todos se abraçaram incluindo essas duas pessoas. Dois desconhecidos que tinham tido um atrito grave que, em qualquer outro contexto, teria sido impossível acabar com um abraço.

Para que não restem dúvidas, eu fui apenas co-protagonista. Apenas visualizei a situação, mesmo ali ao lado.

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Marcial CortezJunho 20, 20208min0

Quem acompanha o podcast ¨Ginga Canarinha¨ sabe que futebol e política andam sempre lado a lado no Brasil. Pois bem, o presidente Jair Bolsonaro alterou na última quinta feira a Lei 9615/98, conhecida como ¨Lei Pelé¨, num ato que pode mudar radicalmente o futuro do futebol no país.

O assunto é complexo e tem múltiplos aspectos. Vamos tentar destrinçar todos estes pontos e entender os impactos políticos e esportivos desta medida.

Vamos começar pela explicação da legislação no Brasil. O presidente assinou uma Medida Provisória (MP). A MP, como o próprio nome diz, é provisória e tem validade a partir de sua assinatura até o prazo máximo de 60 dias, prorrogável por mais 60 dias. Para virar Lei, a MP precisa ser votada pelas Casas Legislativas (Câmara dos Deputados e Senado Federal). Caso isso não ocorra, ela perde a validade e deixa de existir. Pois bem, na própria quinta feira, alguns minutos depois da assinatura da MP, o Presidente da Câmara, Deputado Rodrigo Maia, já sinalizou que colocará o assunto em pauta. Ou seja, essa MP tem tudo para realmente se tornar Lei.

Agora vamos ao cenário. No Brasil, a Rede Globo é a maior e mais importante emissora do país e detém os direitos de transmissão de todos os jogos dos principais campeonatos. Existe uma ¨guerra não declarada¨ entre a Globo e o presidente Jair Bolsonaro. A equipa do Flamengo, atual campeã brasileira e detentora da maior torcida do país, também não morre de amores pela emissora.

Jair Bolsonaro e os presidentes do Flamengo e do Vasco. Foto: Reprodução Instagram

Na última quarta feira, um dia antes da assinatura da MP, Bolsonaro convidou o presidente do Flamengo para a posse do novo Ministro das Comunicações, o Deputado Fábio Faria. Ocorre que Fábio Faria é casado com Patrícia Abravanel, que por sua vez é filha de Sílvio Santos, empresário e dono de uma emissora de televisão – o SBT – um dos principais concorrentes da Rede Globo na briga pela audiência. Em outras palavras, o presidente nomeou como Ministro das Comunicações o genro do dono da principal concorrente da Globo.

Mas afinal, o que diz a MP 984 que pode mudar o futuro do futebol no país? São duas as principais mudanças. A primeira delas é pontual: altera o tempo mínimo de contrato dos jogadores com suas equipas. Com a pandemia e a paralisação dos campeonatos regionais, muitos jogadores tiveram seus contratos encerrados. A Lei antiga não permitia contratos com validades inferiores a 90 dias. A mudança reduz o tempo mínimo para 30 dias. Quando o futebol retornar, muitas equipas ainda terão duas ou três rodadas a cumprir, e um contrato de 90 dias seria muito prejudicial a esses times. A alteração beneficia então as pequenas equipas e praticamente não afeta as grandes.

É a segunda alteração que causa mais polêmica e tem um ¨efeito bomba¨ sobre o futebol brasileiro: ela trata dos direitos de arena (transmissão) dos jogos dos campeonatos regionais e nacionais. Antes da publicação da MP, a emissora só poderia transmitir uma partida se tivesse contratos assinados com as duas equipas da disputa. A MP determina que para um jogo ser transmitido, basta contratar a equipa mandante da partida. Com isso, cada equipa pode vender seus direitos de transmissão pra quem ela bem entender, não dependendo do contrato do adversário. Na prática, é o fim do monopólio da Globo no futebol brasileiro.

Porém, não se quebra um monopólio de mais de 20 anos da noite para o dia. A maioria das equipas tem contratos assinados com a Globo, e pela legislação brasileira estes contratos são considerados negócios jurídicos perfeitos, ou seja, tem validade até o seu final, independente da legislação ser alterada durante a vigência do contrato. Na prática, isso significa que os próximos campeonatos brasileiros terão pouca ou nenhuma alteração com relação às transmissões. Na média, os contratos das equipas da Série A do Brasileirão com a Globo vão até 2024. Isso não se aplica aos campeonatos regionais, que tem contratos específicos.

Bangu 0 x 3 Flamengo: retomada do Carioca não teve transmissão pela TV. Foto: Flickr Flamengo

Apesar disso, o imbróglio já se instala: na retomada do campeonato carioca na data de ontem, por exemplo, na partida entre Bangu e Flamengo, a Globo possuía os direitos de transmissão do Bangu, mas não assinara com o Flamengo. Assim, pela lei antes da MP, não poderia transmitir o jogo. Mas após a MP não teria problemas, tendo em vista que o Bangu foi o mandante. A Globo decidiu não transmitir, visando não abrir precedentes e obter uma proteção jurídica frente a futuros problemas.

Não demorará muito para as coisas se complicarem. Em breve, teremos as finais do campeonato carioca e tudo indica que o Flamengo vai disputá-las. Como não houve acordo entre a equipa e a Globo, o time de Jorge Jesus não terá seus jogos transmitidos. A Globo ofereceu cerca de três milhões de euros pelos direitos de transmissão. O Flamengo queria 17 milhões. Em seguida, o Flamengo baixou a pedida para 13,5 milhões. A Globo não aceitou. Todas as demais equipas do Rio de Janeiro assinaram seus direitos de arena com a Globo. Em outras palavras, uma meia final ou final entre Flamengo e Botafogo, por exemplo, não poderia ser transmitida pela lei antes da MP, mas pode ser transmitida pela lei atual. Porém, já existe um contrato assinado pelo Botafogo com a Globo, e assim a partida não poderá ser transmitida. É claro, líquido e certo que essas decisões extrapolarão o relvado e irão para os tribunais.

No Brasileirão a situação é um pouco mais calma. Como a maioria das equipas já assinaram com a Globo, não teremos problemas a curto prazo. Mas existem três equipas, Athletico, Coritiba e RB Bragantino, que não acertaram com a emissora. Sendo assim, nas partidas que envolverem as três, vale a regra nova. Nas demais, prevalece a regra antiga.

Flamengo x Globo: quem ganhará essa guerra?

Vale lembrar que toda essa alteração ocorreu sem consulta prévia a nenhuma equipa e muito menos à CBF, que é a entidade máxima do futebol brasileiro. O renomado Gustavo Binenbojm, Professor Titular da Faculdade de Direito da UERJ, comentou sobre o tema para o portal Globo Esporte:

“A Medida Provisória editada sem observância dos requisitos constitucionais de relevância e urgência, sem que tenha sido antecedida por qualquer debate público e com objetivo aparente de beneficiar específicas e determinadas entidades privadas, na verdade configura um caso de típico desvio de finalidade legislativa. E pode até caracterizar ato de improbidade contra a administração, levando à configuração de crime de responsabilidade passível de punição com a perda do mandato por impeachment”.

Com toda essa situação, a pergunta que fica é – quem ganha e quem perde com a mudança? A resposta pode parecer simples, mas não é. Equipas grandes com certeza irão se beneficiar, pois terão mais liberdade e poderão leiloar seus direitos, obtendo melhores contratos. Quanto às equipas menores, o resultado é uma incógnita. Elas poderão optar pela segurança de um contrato longevo com valor mais baixo, ou arriscarão na negociação jogo a jogo, obtendo valores superiores e se expondo ao risco. É como um investimento, vai depender do perfil dos seus dirigentes.

Por fim, a última mudança da MP – emissoras e programas de TV poderão patrocinar as camisolas das equipas. Assim, o que se viu na final da Copa João Havelange no início do século pode se repetir: a Globo transmitir um jogo entre duas equipas patrocinadas por emissoras ou programas de TV concorrentes.

O lado bom de tudo isso é que teremos mais motivos para os amigos do podcast ¨Ginga Canarinha¨ comentarem sobre a bagunça do futebol brasileiro. Como se diz por aqui, ¨o Brasil não é para amadores¨.

 


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