Arquivo de Brasil - Fair Play

Cruzeiro.jpg?fit=720%2C1280&ssl=1
Marcial CortezOutubro 5, 20206min0

O Cruzeiro foi o primeiro Campeão Brasileiro após a reorganização do futebol brasileiro em 2003, com um esquadrão histórico sob o comando do técnico Vanderley Luxemburgo. Naquela época, implantou-se o campeonato de pontos corridos e regras claras de acesso e descenso entre as séries. No entanto, somente a partir de 2006 é que os formatos das Series A e B do Brasileirão foram alinhados com 20 clubes, dos quais 4 sobem e 4 descem.

Durante todo esse período, 8 equipas consideradas grandes passaram uma ou mais épocas no calvário da Série B. O Vasco lá esteve por três oportunidades – em 2009, 2014 e 2016; Palmeiras e Botafogo participaram duas vezes – o primeiro em 2003 e 2013, o segundo também em 2003 e 2015. Além destes, disputaram a Série B as equipas do Corinthians (2007), Grêmio (2005), Atlético Mineiro (2006) e Internacional (2017).

Na época atual, o Cruzeiro está a enfrentar o desafio maior de retornar à elite do futebol brasileiro. Porém, ao contrário de seus co-irmãos, o Palestra Itália de Minas Gerais não faz uma boa campanha, e nesse momento ocupa a 17ª colocação do certame, a primeira vaga à despromoção para a Série C de 2021.

Os motivos que levaram o alviceleste de Minas Gerais a essa situação já são bastante conhecidos do público brasileiro: má gestão, troca constante de técnicos, erro nas contratações, pressão dos adeptos. Os ingredientes são sempre os mesmos, e os resultados na relva refletem a bagunça nos bastidores.

O Cruzeiro iniciou sua jornada no purgatório da Série B em 2020 em condições de desigualdade: punido pela FIFA, o Palestra de Minas entrou na competição com um débito de 6 pontos devido ao não cumprimento da ordem de pagamento referente à dívida pelo empréstimo do volante Denilson junto ao Al Wahda. Como se isso não bastasse, uma nova punição da entidade máxima do futebol mundial impediu o Cruzeiro de registrar novos jogadores, por um imbróglio judicial que envolveu a transferência do jogador Willian Bigode, hoje um ídolo do Palmeiras.

Os adeptos do Cruzeiro sofrem a cada rodada, ao ver o desespero instalado no escrete alviceleste, que não consegue reagir mesmo ao enfrentar adversários de qualidade inferior. Pra piorar a situação, a claque cruzeirense é obrigada a ver o seu maior rival, o Atlético Mineiro, num momento de graça: o Galo lidera a Série A com folga, além de contar com apoios administrativo e financeiro de parceiros endinheirados, que prometeram até a construção de uma arena moderna, prevista para inaugurar em 2022.

Claque cruzeirense no derradeiro dia da despromoção à Série B, em dez/2019 Foto: Felipe Correia/Photo Premium/Folhapress

A situação é tão caótica que, mesmo que contasse com os seis pontos que foram retirados pela punição da FIFA, a Raposa (apelido carinhoso do Cruzeiro) ocuparia apenas a décima posição no campeonato (curiosamente a mesma colocação ocupada pelo Galo após 13 rodadas na Série B em 2006 – vide quadro abaixo), uma colocação que não agrada a ninguém: nem aos dirigentes, nem aos adeptos, e muito menos aos jogadores. E aí fica a pergunta – o que dever ser feito pra salvar o Cruzeiro?

A resposta não é simples. Para Gabriela Martins, adepta fanática do Cruzeiro, “a primeira atitude a ser tomada é rapidez nas investigações (muitos ex-dirigentes da Raposa, entre eles o ex-presidente Itair Machado, estão envolvidos em denúncias de corrupção e desvios de recursos) e punição dos culpados. Além disso, é preciso fazer uma reformulação de todo o estatuto do clube, pois o atual só serve para manter o status quo, o que não muda a  situação de hoje e continua a favorecer sempre os mesmos nomes. Por fim, organizar as contas do clube e reformular o elenco. Os medalhões como Henrique e Moreno não podem mais continuar a vestir a camisa celeste.”

Organizar as contas do clube é talvez a tarefa mais difícil da atual diretoria do Cruzeiro. Sem recursos e sem poder contar com as altas cotas das transmissões televisivas (as cotas da Série B são muito inferiores às cotas pagas na Primeira Divisão), o clube recorre aos seus adeptos para buscar ajuda. Recentemente foi criado o programa “Operação FIFA”, uma espécie de crowdfunding para saldar as dívidas junto à entidade máxima do futebol e salvar a vida financeira do clube.

Operação FIFA: medida desesperada para salvar o clube. Foto: Divulgação – Cruzeiro

Para Júlio Silva, adepto que tem um podcast famoso sobre o Cruzeiro, “o clube está num buraco sem tamanho, pois o despreparo da atual diretoria é tal que até blogueiros e twitteiros estão a interferir na política.” Para ele, “o Cruzeiro precisa renascer e isso só vai acontecer com a profissionalização da gestão do clube, estratégias financeiras e afastamento dos dirigentes que utilizam o Cruzeiro como plataforma política”. Vale lembrar que este ano teremos eleições para prefeitos e vereadores nas cidades brasileiras e alguns adeptos acusam dirigentes e ex-dirigentes do Cruzeiro de usarem o nome do clube para obter vantagens de ordem política.

Essa bagunça total reflete no relvado. Para efeito de comparação, veja na tabela abaixo a classificação das equipas consideradas grandes na 13ª jornada do Brasileirão Série B em suas respectivas épocas:

Tabela comparativa situação do Cruzeiro x outros grandes na Série B após 13 jornadas
*Palmeiras 2003 e Grêmio 2005 jogaram a Série B com outra fórmula de disputa
Arte: Adalberto Antunes

Enquanto os rivais já estavam todos bem encaminhados em suas respectivas participações, com exceção do Galo em 2006, que ocupava a décima colocação, todos os outros grandes ocupavam a zona de acesso ao final de 13 rodadas. O Cruzeiro está na contra mão das equipas grandes.

Ainda teremos 25 jornadas pela frente. Há tempo hábil para a mudança. Pelo bem do futebol tupiniquim, torcemos para os dirigentes criarem vergonha e tomarem as decisões que precisam ser tomadas, para que possamos contar com a participação cruzeirense nos grandes clássicos locais e regionais em 2021. Caso contrário, o Palestra de Minas pode seguir o triste caminho percorrido pela Portuguesa de Desportos, que praticamente sumiu do cenário futebolístico brasileiro.


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS