A Liga NOS e o Mercado: números, surpresas e factos de interesse

Francisco IsaacOutubro 18, 202014min0

A Liga NOS e o Mercado: números, surpresas e factos de interesse

Francisco IsaacOutubro 18, 202014min0
Análise ao que foi o mercado de transferências da Liga NOS percebendo o impacto das acções de alguns dos clubes portugueses e o que nos revela da Primeira Liga.

O mercado de transferências encerrou a 2 de Outubro e fomos analisar as movimentações de mercado de alguns dos principais emblemas que jogam nesta Liga NOS, percebendo os fluxos de despesa e lucro, tentando perceber qual foi a estratégia seguida por estes clubes.

FC Porto e empréstimos e o dispensar de jovens promessas

Mercado activo para o FC Porto especialmente no início e final do mesmo, com várias entradas e saídas destacando-se desde logo os “adeus” de Alex Telles e Danilo Pereira. Mas antes de irmos aos nomes e perceber o impacto da saída de alguns dos membros nucleares do plantel campeão de 2019/2020 – e também de quem chegou para reforçar o campeão nacional em título – é importante compreender os números, especialmente o balanço entre saídas e chegadas, ajudados pelo site Transfermarkt:

– Entradas forçaram um investimento de 11,50/21M€, dependendo do custo de Toni Martinez, Mehdi Taremi e Nanú, com os valores de transferência destes três nomes a não ostentarem qualquer valor pelo Transfermarkt. Contudo, a imprensa nacional veiculou que o avançado iraniano terá custado ao redor de 4,5M€, enquanto o jovem espanhol saiu do FC Famalicão a troco de 3M€ e para contratar o lateral direito ex-Marítimo foi necessário dispensar 2M€.

– Saídas atingiram quase os 80M€, mais concretamente 76,65M€, desconhecendo-se só o valor das transferências de Saidy Janko e Diogo Queirós (uma das estrelas da formação saiu para o FC Famalicão de forma quase inexplicável). Fábio Silva ficou com o direito do título de venda mais lucrativa, pois o avançado internacional sub-21 foi para o Wolves FC por troca de 40M€.

Ou seja, o saldo dos dragões foi extremamente positivo com um balanço final na ordem dos 55M€, algo visto como fundamental para manter a SAD à tona de água, ou da crise financeira que assolou o Dragão nos últimos 6 anos. Porém, para atingir este “positivismo” de saldo, foi necessário abrir as portas de saída a jogadores essenciais para a estrutura de jogo de Sérgio Conceição como Alex Telles (de longe um dos melhores atletas a actuar em Portugal), Danilo Pereira e Tiquinho Soares, tendo estes saído já para evitar o espectro da saída a custo-zero.

Em relação à validade das chegadas e do peso das saídas, podem ler o artigo de Francisco da Silva sobre o tema. Mas um dos factores a tirar é o de como a SAD liderada por Jorge Nuno Pinto da Costa optou por vender ou deixar sair jovens promessas como Vitinha, Tomás Esteves, Diogo Queirós ou Fábio Silva, para optar por reforçar com atletas de dúbia qualidade como Carraça (não foi chamado para qualquer encontro até este momento) ou de seguir pelo caminho dos empréstimos sem opção de compra, a exemplo do que aconteceu na primeira época que Julen Lopetegui passou pelo FC Porto.

Outro factor é a saída de atletas que quando entraram, forçaram um esforço financeiro considerável, mas acabaram por abandonar por um valor mais baixo, caso de Zé Luís, Vincent Aboubakar ou Tiquinho Soares, podendo-se especular que a entrada do SARS-CoV-2 teve impacto nos valores recebidos pelo emblema portista.

SL Benfica e o investimento inicial forte mas nem por isso no fecho

Os encarnados agora comandados por Jorge Jesus entraram a matar no mercado de transferências, com as chegadas de Everton “Cebolinha” Soares, Jan Vertonghen, Gilberto, Helton Leite e Luca Waldschmidt, para depois paralisar quase por completo até à última semana, momento em que chegaram Nicolas Otamendi e Jean-Clair Todibo. Quando parecia que Luís Filipe Vieira iria brindar Jorge Jesus com um plantel de alto calibre, acabou por terminar em alguma desilusão com o próprio treinador a insistir na chegada de mais reforços para moldar o plantel da Luz aos seus desejos e desígnios.

Verdade que a queda para fora da Liga dos Campeões afectou por completo as possibilidades de não só contratar mais jogadores de outro patamar, mas de manter todos os principais atletas das últimas épocas, revelando-se aqui um dos principais pontos de preocupação por parte do staff técnico que de todo não queria perder Rúben Dias (independentemente dos ganhos obtidos pela SAD, a realidade é que o plantel saiu a perder a curto, médio e a longo prazo) sem antes vir um central com as mesmas competências e de qualidade superior. Foi o mercado em que o SL Benfica mais fundos dispensou, cerca de 98,50M€ mas parece existir alguma dúvida se os problemas foram totalmente sanados em termos de falhas na defesa ou na validade do ataque, resignando-se a equipa técnica em jogar com Seferovic, acompanhado pelo muito interessante reforço Darwin Nuñez.

Foi também um mercado de aproveitamento para eliminar as “gorduras” em excesso do plantel, como como AndrijaZivkovic, Cristian Lema, Dyego Sousa, Ljubomir Fejsa ou Yony Gonzalez. Por outro lado, também se registou algo esperado por uma falange dos adeptos e comentadores desportivos nacionais, que era a saída de vários jovens ou atletas formados na Academia do Seixal, com sete atletas a procurarem novas oportunidades temporariamente ou definitivamente longe da Luz, como Rúben Dias, Tomás Tavares, Ivan Zoblin ou Jota.

Outro dado interessante é o facto do SL Benfica só ter sido capaz de efectuar um grande negócio em termos de vendas, tendo sido a transferência de Rúben Dias para o Manchester City por 68M€. Carlos Vinicius também poderá vir a render alguns milhões, mas tal situação só acontecerá em 2021. Outro dado curioso passa pela subida de número de atletas estrangeiros no plantel do SL Benfica, pois cinco portugueses abandonaram (Rúben Dias, Jota, Tomás Tavares, Florentino e Dyego Sousa), enquanto sete não-portugueses apetrecharam as opções de Jorge Jesus, revelando isto talvez a nova direcção que o timoneiro dos encarnados deseja dar.

Último ponto… o balanço de saídas/entradas para 2020/2021 ficou nos negativos 22M€.

Sporting CP com surpresas inesperadas mas faltou o goleador

Pedro Gonçalves, Nuno Santos, João Mário e Bruno Tabata foram os reforços mais sonantes de um elenco idealizado por Rúben Amorim, faltando o tal avançado móvel e de acompanhamento de processos rápidos tão desejado. Contudo, a acção da SAD leonina nesta janela de transferências foi no mínimo interessante, actuando de forma “silenciosa” e célere ao fechar rapidamente os dossiers de Pedro Gonçalves e Nuno Santos, atletas que chegaram a ser sondados pelo FC Porto, SC Braga e outros emblemas internacionais de média-grande dimensão, conferindo algum mérito ao trabalho de Frederico Varandas e restantes responsáveis pelo departamento de futebol.

Ficaram por fechar as saídas de atletas com folhas salariais altas, como Tiago Ilori (um erro da actual administração dos verde-e-brancos), Bruno Gaspar, Rafael Camacho (algo incompreensível como o jovem internacional sub-21 português não tem conseguido ser constante nas opções da equipa principal) ou Luiz Phellype. Mas ultrapassando este tema, os verde-e-brancos foram capazes de terminar com um saldo positivo de 23M€, continuando a ter sucessivas boas participações nas últimas três janelas do mercado de transferências. E terão os leões perdido capacidade competitiva com as saídas registadas? Ou o planeamento encetado pela direcção com o treinador Rúben Amorim é positivo?

De elementos fulcrais nas últimas épocas, saíram somente Wendel e Marcos Acuña – não se contabiliza Jérémy Mathieu -, abrindo assim espaços na lateral-esquerda e no meio-campo. Observando a estratégia implementada pela equipa técnica leonina neste arranque de temporada é de constatar o uso dos três centrais, o que “fecha” o problema – pelo menos para já – do lateral-esquerdo, apesar de ter sido contratado Vitorino Antunes, internacional português com vasta experiência. No meio-campo, a dúvida ficará para a entrada de João Mário, sendo que Matheus Nunes dificilmente perderá o lugar conquistado, lançando dúvidas de qualidade para qual a melhor opção a tomar.

Os reforços contratados são vistos como excelentes apostas para o futuro próximo, tendo já experiência de jogo para serem referências dentro da Liga NOS, tendo ainda a ajuda de uma excelente vaga de atletas dos quadros da formação do clube lisboeta, que possibilitam o evitar gasto em contratações.

Vitória SC e a aposta em diamantes por lapidar

Foi uma das formações mais seguidas durante este período diferente de reforçar o plantel e que novamente surpreendeu tudo e todos. O Vitória Sport Clube voltou a aplicar uma acção de contratar largamente jovens atletas entre os 18 e 24 anos (só Sílvio e Ricardo Quaresma fugiram à regra), num sentido de potenciar o plantel para anos vindouros. As apostas em Matous Trmal (1,20M€), Lyle Foster (1,5M€), Jorge Fernandes (250m€), Noah Holm (custo-zero), Nicolas Tie (sem especificação) demonstram a atitude que o emblema vitoriano tem feito valer desde a época passada, esforçando-se para construir um plantel com uma identidade jovem e “alegre”, sem esquecer a necessidade de oferecer peças mais experientes à equipa técnica.

Porém, esta construção da equipa que disputará as competições nacionais em 2020/2021 levantou alguns problemas internos, tendo resultado na demissão de Tiago Mendes, técnico principal, sem que nunca fossem explicados os reais motivos da saída inexplicável do ex-internacional luso – poderá ter havido um choque entre a direcção do departamento de futebol e o treinador devido à construção do plantel, um dos elementos aludidos no comunicado publicado pela SAD. A chegada de João Henriques poderá ser um catalisador importante para elevar as aspirações do clube vimaranense, mas tudo está dependente da acção que foi feita durante o mercado de transferências.

Veja-se que chegaram 19 jogadores novos (3M€ gastos) e abandonaram outros 20, criando assim um problema de continuidade e estabilidade, ainda por mais num grupo de trabalho bastante jovem mas com qualidade. Fica a questão no ar: será o Vitória SC uma espécie de entreposto para atletas jovens, que beneficia ao obter boas classificações na liga?

Famalicão e os riscos de ser um “laboratório”

Por falar em entrepostos, o que dizer do laboratório famalicense que iniciou a época de forma turbulenta? A saída de vários dos seus infantes e a tardia chegada de novos diamantes criaram vários problemas a João Pedro Sousa, com o treinador a ter de procurar outras soluções para sobreviver aos três jogos da Liga NOS (uma vitória, derrota e empate, destacando-se a goleada sofrida em casa frente ao SL Benfica), esperando por um reforço do plantel durante os últimos dias de mercado.

Com o Vitória SC, a base de contratações pendeu para os jovens com só três atletas a pertencerem a uma faixa etária acima dos 23 anos (Vaná, Dyego Sousa e Marcelo Trotta) dos 21 reforços adquiridos durante este período de transferências, sendo que 11 vieram por empréstimo e os restantes contratados sem qualquer custo ou por uma quantia simbólica (Ivan Zlobin foi a contratação mais cara, com um preço de custo de 1M€), mantendo-se a estratégia adoptada desde a época transacta.

Mas até que ponto este viveiro de empréstimos e atletas de uma idade jovem pode levar a uma ruptura dentro do laboratório do FC Famalicão? A nível desportivo pode garantir manutenções seguras, e o exemplo que temos para isso é excelente temporada realizada em 2019/2020, mas é necessário perceber se o mesmo irá acontecer em 2020/2021. Do ponto de vista económico, o clube pode não retirar grandes ganhos da maioria dos activos, tendo conseguido obter quase 10M€ neste Mercado de Transferências (pelas vendas de Pedro Gonçalves para o Sporting CP e Toni Martinez ao FC Porto) dos poucos jogadores que lhes pertenciam quase na totalidade.

O impacto da estratégia escolhida pela SAD famalicense só poderá realmente ser alvo de análise quando findar a temporada actual.

SC Braga e a pouca necessidade de reforçar

Foi dos clubes que mais lucrou no mercado de transferências do Verão de 2020, obtendo um lucro de 24M€ depois de ter vendido Francisco Trincão ao FC Barcelona por 31M€, sem esquecer a saída de Ahmed Hassan para o Olympiakos no valor de 2M€. De resto, as restantes saídas foram quase por completo empréstimos de uma temporada sem opção de compra (Luther Singh, Pablo Santos, Murilo de Souza, Fábio Martins ou Xadas estão nesta situação) esperando um possível encaixe no final desta época.

Mas o interesse principal vai para a atitude na hora de contratar… quando se esperava um SC Braga “agressivo” e comprador, tivemos uns guerreiros mais focados em comprar pouco mas bem, como revelam as apenas oito chegadas ao plantel treinado por Carlos Carvalhal. Abel Ruiz, ex-FC Barcelona, e Lukas Hornicek, ex-FK Pardubice, vieram a troco de 8M€ e 1M€ respectivamente, enquanto Nico Gaitán, André Castro, Guilherme Schettine, Al Musrati a custo-zero, e Iuri Medeiros por empréstimo assim como Zé Carlos (por via do Leixões).

Se por um lado podemos dizer que os bracarenses podem ter sentido o impacto da pandemia, por outro é possível afirmar que o plantel que transitou entre a época passada para esta tem o potencial suficiente para realizar uma campanha no campeonato português de alto calibre, sem esquecer a participação na Liga Europa. Houve uma tentativa real de impedir a saída dos principais nomes, seja o de Paulinho, Ricardo Esgaio, Galeno, Fransérgio, Paulinho ou Ricardo Horta, optando por só deixar “cair” Francisco Trincão.

Plantel equilibrado mas com capacidade para lutar pelo título de campeão, como António Salvador tanto profetizou?

Alguns dados de interesse finais…

O top-5 de maiores vendas foram: Rúben Dias (68M€), Fábio Silva (40M€), Trincão (31M€), Wendel (20M€) e Alex Telles (15M€). Destaca-se aqui a venda do central ex-SL Benfica, sendo que o FC Porto conseguiu colocar duas entradas nesta lista, ficando a nota que Alex Telles saiu 25M€ abaixo do seu valor de mercado. Já o top-5 de contratações mais caras é o seguinte: Darwin Nuñez (24M€), Éverton “Cebolinha” (20M€), Pedrinho (18M€), Nicolás Otamendi (15M€) e Luca Waldschmidt (15M€). Não há dúvidas que foram as “águias” que mais contrataram – significa também melhor? -, tendo dispensado quase 100M€ para garantir estes cinco nomes ao plantel de Jorge Jesus.

A venda e compra mais cara realizada internamente foi a de Pedro Gonçalves por cerca de 6,5M€. Voltando aos reforços, de fora do círculo dos quatro principais candidatos ao título, foi o Boavista FC a dispensar mais milhões num só jogador, tendo sido ele o atleta dos Estados Unidos da América, Reggie Cannon com um preço de custo de 2M€.

O FC Porto foi o clube com melhor balanço entre saídas/entradas, registando 65M€ positivos, seguido por SC Braga (24M€), Sporting CP (22M€), FC Famalicão (7,5M€) e Portimonense SC (5M€). O SL Benfica foi o emblema que pior balanço registou, pois fechou com os tais 22M€ negativos.

Uma má notícia veio para queda abrupta no lucro final obtido pela Liga NOS… se no Verão de 2019 tinha sido atingido os 260€ de balanço, em 2020 foi só possível atingir os 108M€, que é o valor mais baixo desde 2014 (95M€). O factor da entrada do SARS-CoV-2 e da paragem total da indústria durante meses afectou os ritmos de mercado, mas nem tudo pode ser explicado por esses factores.


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