Arquivo de Seleção Brasileira - Fair Play

juninho-paulista-com-edu-gaspar-e-rogerio-caboclo-.jpg?fit=900%2C506&ssl=1
Renato SalgadoAbril 23, 202015min0

Valendo-se de uma estratégia para mudar de função no papel, o ex-jogador, atual coordenador da seleção brasileira, não deixou por completo a possibilidade de lucros em duas empresas em que tinha participações, responsáveis pelo gerenciamento do futebol do Ituano FC, que disputa a primeira divisão do campeonato paulista.

Pelo Código de Ética da CBF, o campeão mundial de 2002 teria que deixar qualquer atuação nas empresas, por “constituir situação de conflito de interesse ter participação em direitos de atletas, clubes, empresas e ativos e bens que possam vir a sofrer valorização direta ou indireta pela atuação da respectiva entidade”.

O agora cartola arrumou uma forma de driblar esse artigo 13 do código e assim seguir nas duas frentes, tanto na CBF como mantendo os pés nos negócios em um clube que recebe verba da entidade maior do futebol através de premiações e cujos atletas podem se valorizar se convocados para a seleção.

Com um ato na Junta Comercial, deixou de constar como sócio para virar “usufrutuário”.

Foi um drible sutil.

Dessa forma: o futebol do Ituano é gerido pela “JP Gerenciamento de Futebol” e pela “Dimache Participações Esportivas” desde 2009, como mostram os balanços financeiros do clube. Ambas com participação de Juninho Paulista. Nos balanços, está dito que tais contratos foram ampliados e prorrogados em 2015 e especifica que a Dimache seguirá gerindo o Ituano até 2030.

Em 9 de abril de 2019, o responsável pela gestão do futebol do Ituano assume como “diretor de desenvolvimento de futebol” da CBF, cargo que já o obrigaria a deixar a participação nas empresas.

Três meses depois, 8 de julho, recebe promoção e é anunciado como o novo coordenador da seleção principal. No lugar de Edu Gaspar, que no dia seguinte é apresentado oficialmente pelo clube inglês Arsenal como diretor técnico.

O cargo na CBF exige a saída de uma empresa que tem negócios ligados ao futebol, como mostra o estatuto. A Dimache, gestora do Ituano, tem dois sócios: a JP Gerenciamento de Futebol e a Oxi Esportes e Entretenimentos.

Em 30 de julho, 22 dias depois de Juninho assumir a coordenação da seleção principal, a Dimache entra no protocolo da Junta Comercial de São Paulo (Jucesp) para comunicar que o ex-atleta deixava a função de gestor da empresa para dar lugar a Paulo Silvestri. Em 7 de agosto o ato é publicado. Com o ato, Juninho deixa o cargo de gestor da Dimache como pessoa física, mas a sua “JP Gerenciamento de Futebol” prossegue na empresa.

O drible no estatuto se completa em 7 de dezembro do mesmo 2019. Se já tinha saído da “Dimache” mas a “JP Gerenciamento de Futebol” permanecia, faltava deixar a empresa que leva suas iniciais.

É quando, na “JP Gerenciamento de Futebol”, no lugar da saída como determinaria o Código de Ética, o dirigente da CBF lança mão de uma artimanha muitas vezes usada para mascarar a participação de pessoas públicas com conflitos de interesse: a “JP Gerenciamento de Futebol” comunica a saída de Oswaldo Giroldo Júnior, o Juninho Paulista, da empresa, transferindo sua parte por R$ 992.000,00 (novecentos e noventa e dois mil reais) para Edney Arakaki.

E no ato seguinte, a JP Gerenciamento de Futebol estabelece que Juninho Paulista passa a ser “usufrutuário” do capital desse mesmo Edney Arakaki.

Pelo sistema jurídico do direito civil, o usufrutuário tem posse naquela parte mas não a sua propriedade. E pode assim, mesmo sem constar na sociedade, “obter os seus frutos, tanto naturais como civis”. Assim, para todos os efeitos, o usufrutuário, não tem mais participação acionária na empresa, mas pode se beneficiar dos ganhos.

Dessa forma, em resumo, a “Dimache”, administradora do Ituano, tem a “JP Gerenciamento de Futebol” na sociedade mas esta, no papel, não teria mais Juninho, evitando conflito de interesse.

Salvo se não tivesse deixado de ser acionista para ser “usufrutuário”.

A reportagem mostrou o caso para diversos profissionais da área do direito que foram unânimes em afirmar, ao lerem os documentos, que nessa condição, Juninho Paulista pode vir a receber eventuais ganhos em transações do Ituano e das empresas.

No conselho executivo da Dimache estão ainda o pai de Juninho Paulista, o senhor Oswaldo Giroldo, e também Edney Arakaki, de quem é usufrutuário.

Na história recente do Brasil, o mais famoso usufrutuário foi Eduardo Cunha, o ex-presidente da Câmara dos Deputados atualmente preso por corrupção. Em tentativa desesperada para se livrar da perda de mandato, em entrevista ao Fantástico em 2015, afirmou que não era dono das contas no exterior atribuídas a ele e sim “usufrutuário”. Posteriormente, precisou se retratar em sessão da Comissão de Ética do Congressso pela falsa versão, mas alegou que a condição de usufrutuário não representava patrimônio e sim “expectativa de direito”, e portanto não era beneficiário. No fim acabou cassado pela farsa e posteriormente preso.

Saída de Gabriel Martinelli do Ituano para o Arsenal coincide com data da ida de Edu Gaspar para Londres e chegada de Juninho na CBF

Foto: globoesporte.globo.com

Julho de 2019 foi especialmente movimentado em relações comuns e coincidentes entre Edu Gaspar e Juninho Paulista.

Ao mesmo tempo em que Gaspar deixava a seleção para assumir a direção do Arsenal, na Inglaterra, onde foi apresentado no dia 9, Juninho Paulista pegava o lugar dele na CBF, oficializado no dia 8.

Uma semana antes, no dia 2, o jovem atacante Gabriel Martinelli, de 18 anos, foi anunciado no clube londrino para onde estava indo Edu Gaspar, em transação, segundo o site Transfermarket, tradicional do mercado do futebol, de 6,70 milhões de euros. O jovem foi revelado no Ituano, gerido por Juninho Paulista e suas empresas, e estava na mira de diversos clubes da Europa.

Cronologia da negociação de Gabriel Martinelli entre Ituano e Arsenal :

2/7/2019: Gabriel Martinelli é anunciado pelo Arsenal

8/7/2019: O ex-gestor do Ituano mas ainda usufrutuário Juninho assume na CBF como coordenador no lugar de Edu Gaspar

9/7/2019: Edu Gaspar deixa o posto de coordenador na CBF e assume o Arsenal

Foto: globoesporte.globo.com

Edu Gaspar, Juninho Paulista e o Arsenal,foram perguntados por quem a transação foi conduzida entre as partes. Se Juninho Paulista e Edu Gaspar participaram, mesmo estando ainda na CBF. Através da sua assessoria de imprensa pessoal, a mesma do Ituano, Juninho Paulista afirmou que participou do início da transação mas “já não fazia mais parte da administração do Ituano” no momento da venda.

Gabriel Martinelli está tendo um início arrasador na Premier League inglesa. A avaliação é de que esteja valendo já o triplo do que custou. Com o jovem especulado até para o Real Madri, o Arsenal acena com também triplicar o salário daquele que já marcou 10 gols em 21 jogos e já é o jogador mais jovem da história do clube londrino a fazer gol na estreia como titular na primeira divisão ao empatar o jogo contra o West Ham, no encerramento da 16ª rodada.

Apenas como exemplo de possível interesse de conflitos entre eventual obtenção de lucros como “usufrutuário” da participação na gestão de um clube e a condição de dirigente da CBF: o Arsenal não informa os termos da transação. Mas no modelo de transações atuais, é comum que entre as metas esteja a remuneração do clube vendedor em caso de convocações do atleta para seleção nacional. Assim, se Gabriel Martinelli vier a ser convocado, hipoteticamente, havendo essa cláusula, o Ituano poderia lucrar com isso. E ainda no campo das hipóteses, a empresa gestora também, tendo o Coordenador da seleção brasileira e também usufrutuário dos ganhos. O jogador já foi convocado uma vez para amistoso da sub-23, atuando na derrota do Brasil para a Argentina por 1×0, em Buenos Aires, no dia 17 de novembro de 2019. Na ocasião, os documentos da “JP Gerenciamento de Futebol” apontam Juninho ainda entre os sócios, já que a mudança para a condição de usufrutuário está registrada apenas no dia 7 de dezembro.

A Berlain Team: Juninho nega relação com empresa em paraíso fiscal que tem documentos em nome de Oswaldo Giraldo Júnior

A reportagem encontrou registros de uma empresa em nome de Oswaldo Giroldo Júnior no paraíso fiscal do Panamá, a Berlain Team, aberta em 14 agosto de 2007 no equivalente a Junta Comercial daquele país.

Na documentação, o endereço que consta como de Oswaldo Giroldo Júnior é Banque Safdié AS, em Genebra, Suíça. O dirigente da CBF negou conhecer tal empresa. (veroutro lado” abaixo).

Ter offshore não é crime, desde que a existência seja comunicada a Receita Federal do Brasil.

Oswaldo Giroldo Júnior, o Juninho Paulista, nega conhecer a Berlain Team, offshore em paraíso fiscal em que consta um “Oswaldo Giroldo Júnior”:

Outro lado:

Juninho Paulista:

A reportagem enviou as questões abaixo para Oswaldo Giroldo Júnior, o Juninho Paulista, através da assessoria de imprensa da CBF, que reencaminhou para a assessoria pessoal de Juninho Paulista, que é a mesma que a do Ituano.

Perguntas:

1- Depois de assumir o cargo de Coordenador da Seleção Brasileira, foram verificadas movimentações nas empresas responsáveis pela gestão do Ituano Futebol Clube nas quais o senhor tinha sociedade, como a JP Gerenciamento de Futebol e a Dimache Participações Esportivas. No entanto, através dessas movimentações, é possível se constatar que o senhor ainda tem algum vínculo com elas, na condição de “usufrutuário”. Também os representantes que entraram em seu lugar nas empresas são os mesmos que assumiram responsabilidades e cargo no Ituano.

2- Gostaria de saber se o senhor não considera que pode haver conflito de interesse e descumprimento do “Código de Ética” da CBF em manter a possibilidade de ganhos com as empresas gestoras de um filiado da CBF.

3- A venda do jogador Gabriel Martinelli do Ituano para o Arsenal se concretizou no exato período em que o senhor assumia o cargo de coordenador no lugar de Edu Gaspar, que foi para o clube inglês. Gostaria de saber se a negociação por parte do Ituano teve sua participação.

4- Em caso negativo, se o senhor não tomou parte, quem conduziu as negociações por parte do Ituano? As empresas JP e Dimache não obtiveram dividendos com a venda? Em caso positivo, o senhor não considera que pode ter existido conflito de interesses em função do cargo ocupado na CBF?

5- O senhor abriu a Berlain Team no Panamá em 2007. A empresa está registrada no Brasil?

Resposta:

“Desde o início do mês de abril de 2019, quando fui oficializado como Diretor de Desenvolvimento da Confederação Brasileira de Futebol, eu deixei a administração do Ituano Futebol Clube.

Sobre a negociação do atleta Gabriel Martinelli com o Arsenal, fui o responsável pelas primeiras conversas no final de 2018 até o acordo em março de 2019. A venda só se concretizou em junho de 2019, quando o atleta completou 18 anos de idade. Quando o contrato foi formalizado, já não fazia mais parte da administração do Ituano. Por fim, desconheço a existência da empresa Berlain Team”.

Arsenal e Edu Gaspar:

A reportagem enviou, através da diretoria de comunicação do Arsenal, questões para Edu Gaspar e para o próprio clube. A assessoria mandou apenas uma resposta para os dois. Ver questões e respostas abaixo:

Para Edu Gaspar:

  1. A compra do jogador Gabriel Martinelli se concretizou exatamente no momento em que o Sr deixava o cargo na CBF e ia para o Arsenal. Em seu lugar, ficou o ex-jogador Juninho Paulista, ex-dirigente do Ituano, clube de Martinelli. Gostaria de saber se a negociação do jogador já foi feita pelo senhor, então ainda ocupando cargo na CBF?

2. Em caso negativo, se o senhor não tomou parte alguma, quem conduziu as negociações por parte do Arsenal? Em caso positivo, se não acha que existia conflito de interesses sendo diretor da CBF em negociar o jogador.

3. Em caso de ter participado das negociações, quem era o representante do Ituano nas negociações?

Para o Arsenal:

  1. Quem foi o representante do Arsenal nas negociações com o Ituano para contratação de Gabriel Martinelli?

2. Quem era o representante do Ituano nas negociações?

3. Qual foi o preço final? Houve comissão para intermediários? Se houve, quanto?

Resposta:

“A transferência de Gabriel Martinelli foi concluída antes que Edu se juntasse a nós. Não divulgamos pagamentos por transferência nem detalhes específicos sobre transações de transferência para nenhum jogador.”

Decisão de CBF

Já o presidente da CBF, Rogério Caboclo, decidiu manter Juninho Paulista no cargo de coordenador da seleção brasileira, apesar de o ex-jogador ter permanecido como usufrutuário da empresa que gere o Ituano. O caso foi revelado pela Agência Sportlight.

Segundo Caboclo, a CBF tomou conhecimento de que o ex-jogador permanecia como usufrutuário da empresa somente quando foi consultada para a matéria.

– Para ele, a questão do usufruto era suficiente para que ele tivesse deixado (o Ituano) porque, na prática, ele já não frequentava mais o clube, não tinha gestão. Segundo orientação de advogados, ele entendeu que o usufruto era o suficiente, desde que não exercesse mais poderes sobre a empresa. Surgiu a notícia, eu disse a ele que não era suficiente. Ele compreendeu. Tinha que sair da empresa. Foi suficiente. É uma questão que passou. Ele saiu da empresa e a vida vai continuar do jeito que estava. Existiu a definição. Ele deixou a empresa definitivamente – disse Rogério Caboclo ao GLOBO.

O presidente da CBF entende que Juninho não chegou a concretizar desvio ético, apesar de ter passado mais de seis meses como usufrutuário da companhia – período no qual já trabalhava como diretor de desenvolvimento da CBF. O status na companhia permitia a Juninho se beneficiar do dinheiro, mesmo não permanecendo como sócio. Foi o Ituano quem vendeu o atacante Gabriel Martinelli ao Arsenal. Uma eventual convocação à seleção principal pode valorizá-lo, gerar nova transferência e render percentual ao Ituano pelo mecanismo de solidariedade.

– Não houve erro ético porque ele não fez nenhuma venda e não se valeu do cargo dele aqui para nenhum tipo de negócio. A situação do Martinelli (ida ao Arsenal) é anterior à entrada dele. E não tem nada com a saída do Edu Gaspar também, que assumiu o clube pós-Copa América e não tinha ingerência no Arsenal. O negócio do Martinelli estava engatilhado desde março, antes de o Juninho entrar aqui e muito antes de o Edu ir para lá – completou Caboclo.

Na decisão de manter Juninho, o presidente da CBF indicou que pesou o fato de não haver substituto natural com o perfil que a entidade quer para o cargo de coordenador da seleção: ser ex-jogador. Caboclo recordou os questionamentos sobre Gilmar Rinaldi, que era empresário antes de trabalhar na seleção ao lado de Dunga.

– As pessoas cobram presença de atletas na CBF. Eu sou entusiasta disso. Acho que algum dia a CBF pode ter um ex-atleta como presidente. É algo natural para mim. Mas tem que ser um ex-atleta preparado. Não tem um ex-atleta preparado vagando no mercado. Ou seja, que esteja desempregado, sem atividade relacionada ao futebol. Ou você traz ele de alguma atividade, função. Para isso, você tem que compreender que ele tem que se desligar da atividade. Cobraram porque Gilmar Rinaldi exercia a função de agente. Ele era, e precisou de um tempo para se desvincular. Com Juninho, não foi diferente – afirmou o dirigente.

Mas a manutenção de Juninho Paulista não o livra do procedimento aberto pela Comissão de Ética do Futebol Brasileiro. Segundo o artigo 13 do Código de Ética do Futebol Brasileiro, ao qual a CBF está submetida, um dos itens que constituem conflito de interesse é o funcionário possuir participação de empresas que possam sofrer valorização direta ou indireta pela atuação na respectiva entidade.

– A comissão de ética é independente. Eles vão avaliar sob o ponto de vista ético, com análise crítica deles – finalizou o presidente da CBF.

20170329030206_58db4dde2020e.jpg?fit=1024%2C682&ssl=1
Victor AbussafiMarço 30, 20178min0

A imprensa brasileira repete insistentemente e se derrete em elogios ao jogador. O torcedor mais apaixonado não tem dúvidas. A promoção de Neymar ao título de melhor jogador do mundo ganha força com as recentes ótimas exibições e os resultados alcançados no Barcelona e na Seleção Brasileira. Será que chegou a hora do craque tupiniquim?

Nos últimos jogos de Dunga, na Copa América, e nos primeiros das Olímpiadas (dois empates do Brasil), a pressão da imprensa nacional sobre Neymar foi intensa. Criticado por estar nervoso em campo e tentar decidir os jogos sozinho, Neymar não conseguia jogar nem fazer jogar. Como resultado, o jogador se fechou e deixou de dar entrevistas coletivas nas convocações da Seleção.

O silêncio foi quebrado 244 dias depois, com Neymar em alta, num time que joga por música e já classificado para a Copa da Rússia. Até Galvão Bueno, maior narrador do país, e crítico da fase que viveu Neymar sob o comando de Dunga, já se rendeu:

O melhor Neymar da história

Uma coisa é fato. O avançado brasileiro tem jogado à um nível cada vez superior e vive, pelo menos até agora, seu auge e, com muitos anos úteis pela frente, certamente ainda evoluirá mais.

Neymar amadureceu. Isto é mais evidente na Seleção, onde é o principal destaque em campo e passou a desempenhar um papel ainda mais efetivo como líder técnico da equipe. Com Tite, que conduziu o escrete canarinho à 8 vitórias em 8 jogos pelas eliminatórias, o jogador mostra nova postura em campo e parece que tudo o que faz, dá certo.

Se com Dunga, Neymar parecia irritadiço em campo e mais caia e brigava do que resolvia jogos, com Tite, apesar de pegar menos na bola, a cada vez que aparece no jogo desespera dos defensores adversários. As últimas vítimas foram Uruguai e Paraguai pelas eliminatórias (Coates, zagueiro uruguaio do Sporting, deve ter pesadelos com ele até hoje).

Com os dois gols marcados, nos últimos jogos, faltam apenas quatro para igualar Romário, quarto maior artilheiro da história da Seleção Brasileira. À sua frente, ficam Zico, Ronaldo e Pelé. Depois da conquista do Ouro Olímpico, a conquista da Copa do Mundo em 2018 colocaria Neymar num patamar dos Deuses do Futebol no Brasil, com apenas 25 anos.

Esse jogador, mais maduro e confiante, se mostra também na Catalunha, com Neymar a chamar para si o papel de decidir jogos e buscar o jogo. Isso ficou evidente no histórico jogo contra o Paris Saint-Germain:

O que dizem os números

Uma forma de tentar comparar Neymar aos mitos Messi e Cristiano Ronaldo é avaliar as estatísticas da atual temporada. Se juntarmos os jogos por clube e seleção neste ano, Neymar esteve envolvido em 16 gols (10 gols e 6 assistências).

Apesar de ter marcado menos gols do que em temporadas anteriores, sua média subiu de 0,3 gols por partida na primeira metade da época para 0,44 gols por partida em 2017. Entretanto, o novo Neymar é o novo recordista de assistências em uma edição da Liga dos Campeões, com 8, e fez em 2016 o seu recorde pessoal de assistências num mesmo ano 32 em 54 jogos.

Bons números, mas insuficientes contra os sempre eficientes craques que dominam a o prémio de Melhor do Mundo da Fifa. Os 22 gols com participação de Messi (18 gols e 4 assistências) e 19 de Cristiano Ronaldo (15 gols e 4 assistências) ainda colocam os jogadores mais experientes acima do jovem brasileiro.

Outro dado interessante é que o brasileiro é o jogador que mais sofre faltas entre as principais ligas europeias. Segundo o site “Who Scored?”, Neymar sofreu uma média 4,4 faltas por jogo na La Liga, contra 2,1 de Messi e 17 de CR7. Essa média de faltas tem aumentado todos os anos, o que mostra que o camisa 11 é cada vez mais visado pelos sistemas defensivos adversários e mais difícil de ser parado.

O que dizem os especialistas

O primeiro a rasgar elogios ao jogador é o comandante Tite: “O Neymar não pode falar, mas eu posso. Ele vai ser o melhor do mundo. Ele fez 25 anos agora e Cristiano e Messi estão nos 30 para lá. Nessa geração vejo Neymar, nesse processo de maturidade.”

Ronaldo, Ronaldinho, Belletti, Kaká e muitos outros ídolos do futebol brasileiro têm dito o mesmo e esse movimento parece ter superado os limites geográficos do Brasil.

O italiano Costacurta afirmou à Sky: “Acredito que, neste momento, Neymar seja melhor que Ronaldo ou Messi. É o melhor jogador agora, em 2017“. Para o italiano, o brasileiro tem sido mais consistente ao produzir sua melhor forma em todos os jogos. Além dele, são muitos os astros internacionais e jornais internacionais que afirmam que Neymar deve ser o próximo na linha sucessória dos Reis do futebol.

What a night for this man ✌ Future world No1? #Neymar #Barcelona #UCL

Uma publicação compartilhada por @uefachampionsleague em

Até o jornal argentino Olé já reconheceu o talento do jogador, após o jogo contra o Paraguai, e brincou com a ausência de Messi, suspenso na Seleção Argentina: “Como o melhor do mundo está suspenso e num momento delicado, o outro melhor do mundo fez reluzir o 10 do Brasil”.

Entre os grandes

Se a análise fria dos números ainda mostra uma certa distância para o panteão onde vivem Messi e CR7, é inegável para quem assiste os jogos dos três por clube e seleção que o brasileiro vive um momento mágico.

Neymar tem sido decisivo e cada vez mais importante para os times onde joga. Se no Barcelona ainda manda Messi, no campo o brasileiro é o responsável pela dinâmica ofensiva da equipa e foi fundamental para manter o clube vivo nas competições que disputa e nas quais pode, em 16 jogos, terminar com mais uma tríplice coroa.

Neymar comemora na vitória contra o PSG. Jogador liderou a remontada. (Foto: Reuters)

É muito cedo para cogitar um prêmio de melhor do mundo ao final do ano, até por que Messi pode ser decisivo num possível título europeu do Barcelona ou Cristiano Ronaldo pode faturar mais uma Champions League e tornar toda essa conversa irrelevante. Mas é evidente que Neymar hoje chegou a um nível em que está acima dos demais mortais, apesar de não ser um Deus Imortal como os dois rivais.

Neste ano ou no próximo, o semi-Deus Neymar completará suas missões e alcançará o Olimpo do Futebol. A Bola de Ouro o aguarda com a expectativa de quem, desde 2007, não é cogitada para nenhum outro jogador que não Messi ou Ronaldo. Só isso já faz com que Neymar mereça aplausos.

20161107160006_5820c126d9b40.jpg?fit=1024%2C682&ssl=1
Victor AbussafiNovembro 17, 20167min0

Em 6 jogos passamos da dúvida da classificação para a certeza do carimbo russo no passaporte. O bom desempenho da Seleção Brasileira ecoa aqui na Europa e assusta as principais potências do futebol mundial. Mas o que mudou em 6 jogos para permitir o brasileiro dizer que o respeito voltou?

Tite era o favorito do povo para assumir o cargo de selecionador nacional após a Copa de 2014 e, nesse caso, a voz do povo deveria ser a voz de Deus. A aposta em Dunga provou-se equivocada rapidamente e o treinador não resistiu a eliminação na Copa América Centenário. Em 6 jogos e pouco mais do dobro de treinos Tite mudou a cara da Seleção. O que mudou?

Ambiente

O ponto mais evidente e rapidamente percebido foi uma mudança no ambiente do Brasil. Dunga era muito pressionado pela imprensa e vivia uma relação pouco saudável com a mídia no geral. Ainda não era muito querido por alguns jogadores e sempre foi conhecido por ser duro com quem não seguia sua cartilha. Com isso, entrou em atrito com jogadores importantes.

Tite, Edu e a nova comissão técnica baseiam seu trabalho no merecimento e no diálogo com os jogadores. Edu, coordenador de Seleções, através de conversas com os jogadores se aproximou de todos para atender reivindicações antigas como variar de hotéis durante a estada com a Seleção para diminuir a sensação de prisão nas concentrações ou facilitar a logística dos vôos.

Edu Gaspar e Daniel Alves (Foto: Pedro Martins / MoWA Press)
Edu Gaspar e Daniel Alves (Foto: Pedro Martins / MoWA Press)

A estrutura foi alterada para privilegiar a recuperação dos jogadores, trazendo mais um fisioterapeuta para o grupo, e a comunicação e monitoração dos cerca de 50 jogadores selecionados para uma lista de convocáveis é constante. Essa lista é atualizada conforme o desempenho, mas garante que o desempenho dos jogadores, mesmo em mercados distantes como a China, seja devidamente acompanhado e, assim, os jogadores sentem-se próximos da comissão técnica.

Convocados

Essa reaproximação com os jogadores, trouxe de volta talentos renegados por Dunga como Marcelo, provavelmente o melhor lateral esquerdo do mundo, Fernandinho, Paulinho, Thiago Silva, entre outros. Jogadores que ficavam de fora apesar de  manter um bom desempenho em seus clubes, por escolhas técnicas ou pelo relacionamento com o treinador anterior.

Paulinho estava fora da Seleção desde a Copa do Brasil (Foto: Pedro Martins / MoWA Press)
Paulinho estava fora da Seleção desde a Copa do Brasil (Foto: Pedro Martins / MoWA Press)

No 11 titular, são 4 jogadores diferentes do time habitual anterior. Marcelo, Paulinho, Fernandinho e Gabriel Jesus. Sendo que Coutinho era reserva e virou titular na Copa América pela ausência de Neymar. Ou seja, quase meio time diferente. Ainda, a forma de jogar mudou muito.

Formação

Tite passou para um 4-1-4-1 que joga muito próximo e com transições velozes. Com inteligência, o Brasil reaprendeu a determinar o ritmo do jogo e saber quando se impor. Contra a Argentina (3-0 para o Brasil), começou o jogo tendo que se defender mais e esperar por um contra-ataque. No começo do jogo, Fernandinho, responsável por vigiar Messi quando este ia para o meio do campo, recebeu um cartão amarelo. O que poderia ser preocupante foi facilmente corrigido com a troca de posições com Paulinho e deu origem ao domínio brasileiro no jogo. Renato Augusto invertia de papéis com Coutinho, que saía da direita para o meio e tumultuava a marcação da seleção rival.

Contra o Peru, num jogo em que a defesa oscilou mais, teve que garantir a posse de bola para controlar o ímpeto da boa seleção peruana e mostrou inteligência mais uma vez. Por usar os jogadores em posições que estão acostumados a jogar em seus clubes, Tite facilita a adaptação à um esquema de jogo moderno e eficiente.

Coutinho é o único que joga em uma função diferente do que a que joga no seu clube, mas essa adaptação foi validada por Klopp em conversa com Tite, ao afirmar que costumava treinar essa possibilidade com o jogador. Uma geração contestada como pobre em talento já é vista de outra maneira.

Comemoração durante Jogo da Seleção Brasileira contra a Argentina (Foto: Pedro Martins / MoWA Press)
Comemoração durante Jogo da Seleção Brasileira contra a Argentina (Foto: Pedro Martins / MoWA Press)

Confiança

Quem vê Gabriel Jesus marcar um gol, como o feito no último jogo, corre o risco de esquecer que ele tem apenas 19 anos. A segurança encontrada para Gabriel brilhar, desde os dois gols marcados na sua estreia, é mais um mérito da comissão técnica atual. (Aliás, o desempenho do jogador não é surpresa para o Fair Play) Mas dependeu muito do bom trabalho de Rogerio Micale nas Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Gabriel Jesus comemora gol contra o Peru (Foto: Pedro Martins / MoWA Press)
Gabriel Jesus comemora gol contra o Peru (Foto: Pedro Martins / MoWA Press)

O Ouro Olímpico, conquistado após derrapar nos dois primeiros jogos, mas com um ótimo futebol mostrado na reta final, deu moral para a nova geração da Seleção. Nomes como Marquinhos e Gabriel Jesus ganharam moral e confiança para crescer na Seleção. Renato Augusto e Neymar cresceram como líderes do grupo e se tornaram indispensáveis. Outros como Luan, Rodrigo Caio e Wallace já aparecem como o futuro do time. Tudo com a vantagem de ter feito as pazes com o torcedor brasileiro após o fracasso de 2014.

Não. Ainda não dá para dizer que o Brasil é um dos favoritos ao título da próxima Copa. Longe disso, após apenas 6 jogos não dá para se afirmar muita coisa. Mas uma coisa é certa: o mar virou para a gloriosa camisa amarela. E apesar do capitão do barco, Tite, afirmar que o mérito é de seus marujos (no que tem razão), é inegável dizer que foi o seu apontar de direções que leva a Seleção Brasileira de volta a uma posição de respeito no cenário mundial.

A um ponto da classificação para a Copa de 2018, a Seleção Brasileira faz seus rivais sussurrarem seu nome com medo do que podem encontrar em solo russo.

Pode sorrir, Tite (Foto: Pedro Martins / MoWA Press)
Pode sorrir, Tite (Foto: Pedro Martins / MoWA Press)
CplIzZIWEAAMFjI.jpg?fit=1024%2C572&ssl=1
Victor AbussafiAgosto 21, 20163min0

O ouro não resolve problemas do futebol brasileiro, mas pode ser um recomeço. A Seleção Brasileira começou mal, mas termina mostrando um ótimo futebol, ao mesmo tempo moderno e fiel às origens ofensivas do futebol canarinho. Foi um ouro merecido, esperado após bater na trave algumas vezes e que devolve a auto-estima à camisa amarela. Pelo menos hoje, o Campeão voltou.

A Alemanha pode não ter levado o seu melhor sub-23, mas o estilo era o mesmo da seleção principal. Muito bem postada taticamente, conseguiu se recuperar após o gol brasileiro e fez um ótimo jogo. Destaque para os defensores e para Brandt que acertou o travessão duas vezes. Mas tinha do outro lado um Brasil focado, que não deixaria essa medalha escapar.

Dois 0-0 nos primeiros jogos preocuparam o torcedor, que estava otimista com as chances brasileiras de medalha. Rogério Micale, treinador jovem e desconhecido para muitos, vinha chamando a atenção com treinos modernos e uma proposta de jogo ofensiva, mas que não funcionou quando a bola rolou no primeiro jogo da Olímpiada. No terceiro jogo, contra a Dinamarca, a entrada do quarto atacante como titular, Luan, mudou a cara do time.

À partir daí, apareceu o futebol envolvente que não se via há tempos no Brasil. O quarteto Luan, Gabriel Jesus, Gabriel Barbosa e Neymar se movimentava e alternava posições, construindo à partir do caos. Wallace e Renato Augusto davam solidez ao meio campo e a defesa de Zeca, Marquinhos, Rodrigo Caio, Douglas Santos e Weverton só foi vazada na final.

Micale e os garotos da Seleção Olímpica (Foto: Reuters)
Micale e os garotos da Seleção Olímpica (Foto: Reuters)

Os últimos treinadores do Brasil (Dunga duas vezes, Mano Menezes e Felipão), todos da escola gaúcha, tinham estilo de jogo que priorizava a defesa. Primeiro construíam uma defesa segura, para liberar os jogadores de frente para resolverem na qualidade individual. Micale propôs uma mudança desse paradigma. Criou um time que jogava com suas linhas próximas, compactas, mas abertas, dando amplitude, e priorizava a construção do jogo, o ataque. Eram quatro atacantes que se dedicavam também à marcação, mas a prioridade dos onze era propor o jogo. Assumir a vontade de ganhar o jogo, se movimentar com o propósito de criar e não de destruir. Fazia tempo que não via isso na Seleção. A vitória de hoje veio nos pênaltis, foi sofrida, mas veio acompanhada de bom futebol.

Neymar chora após marcar o pênalti decisivo. (Foto: Rio 2016/Laurence Griffiths)
Neymar chora após marcar o pênalti decisivo. (Foto: Rio 2016/Laurence Griffiths)

Tite, que anuncia amanhã sua primeira convocação, tem um histórico de ser um treinador mais defensivo. Mas é muito inteligente taticamente e pode se reinventar para dar sequência a essa boa nova. Muitos desses jogadores de hoje devem estar na lista de amanhã.

Não eram os adversários mais difíceis, não vinga a Copa do Mundo, não resolve todos os problemas do futebol brasileiro. Amanhã ainda temos que acordar e nos deparar com uma CBF nebulosa, com um campeonato de baixa qualidade técnica, com problemas na nossa formação e tudo mais que conhecemos bem. Mas, hoje, é dia de celebrar e de renovar as esperanças. Essa vitória reconcilia o torcedor e a seleção. Hoje, pelo menos hoje, o campeão voltou.


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS