O imbróglio na CBF: Qual será o futuro da Entidade?

Marcial CortezJunho 7, 20217min0

O imbróglio na CBF: Qual será o futuro da Entidade?

Marcial CortezJunho 7, 20217min0
Nos relvados, a Seleção Brasileira segue a impor sua dominação América do Sul afora: a equipa lidera com folga as eliminatórias da Copa do Mundo 2022. No entanto, nos bastidores a CBF está cada dia mais complicada, com pressões políticas de todos os lados e acusações ao seu presidente, Rogério Caboclo. Qual será o futuro da Entidade?

Em 5 actos, contamos o que se passa entre a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Tite e a Presidência do Brasil, dando conta do início de uma possível crise perigosa para os destinos da selecção brasileira de futebol…

Cena 1: Colômbia

Quinta-feira, 13 de maio de 2021, Estádio Romelio Martinez, Barranquilla, Colômbia. A partida válida pela fase de grupos da Libertadores da América, entre Atlético Mineiro e América de Cali foi interrompida por conta da contaminação do ar por gás de pimenta, que fora lançado do lado de fora do estádio, devido a protestos políticos no país. Este evento foi o início de uma crise sem precedentes na história da Confederação Brasileira de Futebol.

Cena 2: Argentina

A Copa América de Seleções estava marcada inicialmente para o ano de 2020. A pandemia de Covid-19 adiou o Torneio para o ano seguinte, com dois países sede: Colômbia e Argentina. Com os problemas políticos enfrentados pelo primeiro, a Conmebol optou pela realização da Copa em território 100% argentino. Porém, o aumento de casos da doença em solo portenho fez com que nossos vizinhos desistissem de sediar o Certame.

Cena 3: Conmebol

A Conmebol, diante desta situação, começou a pensar em alternativas para não adiar mais uma vez o Certame. Países como Uruguai e Chile foram cotados, mas diante da urgência (a Copa está prevista para iniciar no dia 13/06), estes países não deram resposta e o Brasil surgiu no cenário como candidato natural ao Torneio, pela estrutura do país e qualidade de suas arenas.

Cena 4: Brasil, Bolsonaro, Globo, SBT, Patrocinadores e outros

Imediatamente após a recusa da Argentina e ao vacilo na resposta dos demais países, o presidente Jair Bolsonaro sinalizou a realização da Copa em terras canarinhas. Por meio de suas redes de comunicação (sim, o presidente tem seus própios meios de comunicação paralelos, separados da grande mídia do país), afirmou que a Copa América seria no Brasil.

Iniciou-se então uma reação em cadeia. Os Governadores dos Estados alinhados com Bolsonaro viram a ideia com bons olhos, enquanto seus opositores foram veementemente contra. João Dória, Governador de São Paulo, opositor do presidente, afirmou que “nenhuma partida da Copa América ocorrerá em gramados paulistas, e nenhuma Seleção ou Delegação irá se hospedar no Estado de São Paulo”.

Optou-se por três cidades, a saber: Cuiabá, no Estado do Mato Grosso, Rio de Janeiro, no Estado de mesmo nome, e Goiânia, no Estado de Goiás. Bolsonaro ficou feliz, a Conmebol ficou feliz e os Governadores ficaram felizes. Estava tudo resolvido!

Porém, estamos no Brasil. A situação por aqui nunca é simples. A Rede Globo de Televisão (RGT), principal emissora do país e opositora ao Governo Bolsonaro, não detém os direitos de transmissão da Copa América. O Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), do empresário Sílvio Santos e aliado do Presidente da República, é quem irá transmitir os jogos do certame.

E foi justamente a RGT quem iniciou uma “campanha velada” contra a realização da Copa América no Brasil. Seus principais comentaristas, jornalistas e narradores criticam vorazmente o Torneio em terras canarinhas, com a alegação de que o país vive um dos piores momentos da pandemia, e um Torneio Internacional não seria bem vindo por aqui nesta situação.

Cena 5: CBF e Rogério Caboclo

Com esse caldeirão a ferver, adicionou-se um tempero a mais nos últimos dias. Os jogadores da Seleção, com apoio da Comissão Técnica, decidiram que não irão disputar a Copa América. Na última partida entre Brasil e Equador, válida pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2022, o capitão Casemiro disse com todas as letras que “todos sabem o nosso posicionamento, e nós vamos nos manifestar na próxima terça-feira, depois do jogo contra o Paraguai. O posicionamento não é meu, é meu e de todo o grupo, incluindo a Comissão Técnica. O que fala um, falam todos”.

Casemiro foi ao mesmo tempo misterioso e categórico. Ele afirma que “todos sabem” o posicionamento do grupo. Mas o grupo não falou abertamente sobre isso em nenhum momento, o que se sabe foi dito pela imprensa em geral. Na noite do último sábado, enquanto escrevia este artigo, os capitães das 10 seleções participantes foram convidados para uma reunião virtual com os presidentes Jair Bolsonaro e Rogério Caboclo. Nenhum jogador participou do encontro. Representantes de Uruguai, Chile e Argentina confirmam que há um desconforto por parte dos jogadores com a realização da Copa.

Bolsonaro e Caboclo
Os presidentes Bolsonaro e Caboclo, em Brasília. Foto: Marcos Corrêa / PR

Pra piorar ainda mais a situação, Rogério Caboclo sofreu uma acusação de assédio sexual e moral por uma funcionária da CBF. Os patrocinadores, incluindo a Nike, que recentemente rescindiu um contrato com Neymar quando ele enfrentou uma denúncia de estupro, informam que estão a observar atentamente o desenrolar do caso para tomar as atitudes necessárias.

No final da tarde do último domingo, ocorreu o afastamento de Rogério Caboclo do cargo de Presidente por 30 dias pelo Conselho de Ética da CBF, para que ele possa ter tempo de preparar sua defesa. Como se tudo isso não bastasse, surgem novas acusações contra Caboclo, desta feita com relação ao abuso de álcool em situações de jogos e eventos, nos quais ele apareceria visivelmente embriagado.

Nas redes de comunicação bolsonaristas, corre a informação sobre a futura demissão de Tite logo após o jogo contra o Paraguai e que Renato Gaúcho entrará em seu lugar. No entanto, vale lembrar que as redes de apoio ao Presidente da República são famosas em espalhar notícias falsas sobre os mais diversos assuntos.

Pressões políticas, econômicas, denúncias de assédio e abuso de álcool, motim de jogadores e Comissão Técnica, interferência do Presidente da República na Seleção Brasileira, Presidente da CBF afastado pelo Código de Ética, expectativa sobre a declaração dos atletas na terça feira. Tudo isso somado à incerteza sobre a realização da Copa América no Brasil. Infelizmente para o futebol e para o país, todos estes assuntos estão fora do relvado.

Particularmente, torço para que os jogadores se unam e digam um sonoro NÃO a todos. Seria uma forma de recuperar o prestígio da camisa amarela, tão politizada e desacreditada deste lado do Atlântico. Seleção Brasileira e política não deveriam se misturar. O Presidente da República de um país com quase meio milhão de habitantes mortos pela pandemia deveria ter mais motivos para se preocupar do que a realização de um torneio sem interesse. Quanto a Rogério Caboclo, que as investigações sigam firmes e, caso confirmem sua culpa, que se aplique a lei.

Tite: cargo ameaçado pelo Presidente da República? Foto: Lucas Figueiredo / CBF

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