Arquivo de Nice - Fair Play

FotorCreated.jpg?fit=1024%2C576&ssl=1
Pedro NunesMaio 4, 201712min0

Têm 18 aninhos (ou até menos) mas para eles não é a idade que define o posto. Estes meninos saltaram a fase de serem considerados jovens promessas e já são opções regulares nas suas equipas. Montamos um onze com jogadores deste perfil, que poderão ser as grandes estrelas do mundo do futebol nos próximos tempos.

Nota: para este artigo filtramos apenas jogadores que nasceram depois de 1998 (inclusive) e que já sejam presenças habituais nas suas formações.

Gianluigi Donnarumma (AC Milan | Itália | 25-02-1999 | 18 anos)

Buffon pode ter um final de carreira mais descansado. A passagem do testemunho está a ser feita aos poucos e a sucessão devidamente acautelada. De Gianluigi para Gianluigi, a comparação é óbvia, obrigatória e fácil de fazer. São já várias as vozes que assumem que a seleção italiana tem um homem destinado à sua baliza para mais 20 anos. Donnarumma é feito de tudo o que um guarda-redes de alto nível deve ter. Com cento e noventa e seis centímetros e uma agilidade pouco comum, multiplica-se em defesas de encher o olho, muitas delas completamente decisivas e que já salvaram muitos pontos ao clube.

Para além disto, revela uma capacidade de comando de área “especial” para a idade. Com 15 anos, Inzaghi deu-lhe a oportunidade de se sentar no banco de suplentes contra o Cesena. A estreia deu-se pouco depois, quando um Diego Lopez em baixa forma deu lugar ao menino. Naquela que é, muito provavelmente, uma das piores fases da sua história, este ano zero da formação transalpina pode ser o indicador do que aí vem. A reconstrução começará pela baliza, onde o keeper já pegou de estaca.

Felix Passlack (Borussia Dortmund | Alemanha | 29-05-1998 | 18 anos)

O nome deste versátil alemão surge sempre lado a lado com o de Pulisic, visto que ambos despontaram aproximadamente na mesma altura, aparecendo na equipa principal do Dortmund. No entanto, há algumas diferenças entre ambos que devemos vincar. Enquanto Pulisic é um criativo, Passlack é mais “pau para toda a obra”. Apesar de ter feito a formação como médio ofensivo, não são raras as vezes que o vemos a actuar nas laterais, à esquerda ou à direita. Isto deve-se à excelente capacidade do jovem perceber o jogo, fazendo esquecer a tenra idade.

A estes atributos, adiciona ainda uma capacidade de tackle muito aprimorada e sabe usar muito bem o físico para ganhar duelos individuais. A questão de ter jogado em zonas mais adiantadas do terreno durante a formação faz também com que consiga emprestar à equipa uma capacidade de passe de excelente nível, seja qual for a posição em que jogue. Passlack é, por isso, um dos jogadores mais completos dos “Golden Boys” de Dortmund.

Dayot Upamecano (RB Leipzig | França | 27-10-1998 | 18 anos)

Dayotchanculle Upamecano é, de longe, o nome mais hipster desta lista. Mas não é só isso que faz deste central um jogador diferente. Com apenas 18 anos, contempla um físico de respeito e já se revela um central muito completo, capaz de ser influente em ambas as áreas. Este produto da escola dos clubes da Red Bull já passou por várias etapas na formação dos vários emblemas da empresa. Há poucos sítios melhores para um jovem evoluir neste momento. Os holofotes começaram a apontar para este central quando o RB Salzburgo deu 4 milhões de euros ao Valenciennes pelos seus serviços — valores nada comuns quer para a posição, quer para a idade. Na altura tinha ainda 16 anos.

Antes de ser opção regular para Hasenhüttl em Leipzig, passou pela “filial” em Salzburgo e ainda pelo Liefering, da segunda divisão austríaca, clube que também faz parte da companhia de bebidas energéticas. Pelo meio, foi também campeão Europeu sub-17 juntamente com Mbappé. Numa eventual parelha com Sarr, Upamecano vem para garantir que a ‘zaga’ francesa está aí para durar.

Malang Sarr (Nice | França | 23-01-1999 | 18 anos)

Numa nação que parece não conseguir parar de produzir talento, Malang Sarr é outro dos nomes a seguir com atenção. Só nesta lista cujos perfis são bastante restritos, a França consegue apresentar uma dupla de centrais que pode ser a titular da seleção dentro de 10 anos. Com poucas jornadas por jogar na liga francesa, o Nice continua a ser uma das surpresas da época. E isso tem algumas justificações que saltam à vista. Uma delas é ser uma das melhores defesas da liga.

Lucien Favre pegou na equipa e não torceu o nariz a dar a titularidade a um rapaz de 17 anos, atirando-o às feras. Neste momento, Sarr é um dos jogadores com mais minutos na liga e continua a ser uma das bases da equipa. Dominador no jogo aéreo e, ao mesmo tempo, muito rápido, é um bom protótipo daquilo que se pede a um central do futuro. A falta de experiência não tem sido um problema, pois é um dos factores que este adolescente consegue fazer passar despercebido. A aposta do clube na sua formação é conhecida e os frutos do trabalho desenvolvido começam a ser notados.

Ryan Sessegnon (Fulham | Inglaterra | 18-05-2000 | 16 anos)

Da lista, é talvez o menos conhecido e também o mais novo. O único que nasceu já depois de virar o milénio. Essa questão não o impede de ser titular e cada vez mais influente no Fulham, da segunda divisão inglesa. Ainda adolescente, está no clube desde os 9 anos e estreou-se aos 16 anos e 81 dias. Uma marca absurda. Embora jogue a defesa esquerdo, já fez vários golos com a camisola dos The Whites, fruto da excelente capacidade de chegar à área para finalizar. São 5 golos, 3 assistências e várias nomeações como o melhor em campo.

O grande companheiro de Sessegnon nesta aventura tem sido Scott Parker. O experiente médio tem ajudado o menino a adaptar-se às novas lides, à fama e a manter os pés na terra. Com esta idade e estas capacidades, obviamente já começa a entrar nas cogitações dos grandes europeus. Um caso sério a acompanhar.

Foto: The Sun

Manuel Locatelli (AC Milan | Itália | 8-01-1998 | 19 anos)

A base de uma grande equipa que se quer ganhadora é a chamada ‘prata da casa’. É denominador comum praticamente para todas elas. Normalmente, os jogadores que cresceram e fizeram a formação num clube são os que têm mais entrega quando é tempo de o representar profissionalmente. A revolução rossoneri assenta em devolver ao clube os jovens que foram lá formados e posicioná-los de maneira a que possam ser opções regulares. A par de Donnarumma, Manuel Locatelli é o outro grande talento saído das camadas jovens do gigante adormecido AC Milan. A carreira ainda curta já tem algumas histórias para contar. A mais bonita delas no golo que deu a vitória ao Milan sobre a Juventus – a primeira desde 2012.

O médio foi entrando na equipa para fazer frente às sucessivas lesões que iam aparecendo nas opções do plantel principal para aquela posição. Substituindo Montolivo, tem um papel muito similar de Busquets em Barcelona, colocando-se à frente da linha defensiva e fazendo girar o jogo da equipa para os todos os lados. Usa a capacidade de posicionamento como grande aliado para a sua postura em campo. Para além disso, conta com uma excelente capacidade chegada à área para fazer golos. Com Locatelli, a posição de regista não será dor de cabeça para quem treinar a equipa do AC Milan nos próximos anos.

Christian Pulisic (Dortmund | EUA | 18-09-1998| 18 anos)

Do país do soccer, chega-nos a mais recente coqueluche e grande esperança do país para os próximos tempos – onde lhe colocaram o rótulo de ‘American Messi’. A ascenção deste jovem foi rapidíssima. Tornou-se no estrangeiro mais novo de sempre a marcar na Bundesliga e um mês depois registou a marca de mais jovem a marcar com a seleção dos yanks. As prestações ao serviço das seleções jovens americanas fizeram soar o alarme na prospeção do Dortmund.

Antes disso teve ainda o seu bocadinho de globetrotter — fez testes no Porto, Chelsea, Barcelona e PSV Eindhoven — mas o físico não deixou que a sua carreira prosseguisse nesses clubes. Solucionadas algumas questões relacionadas com a nacionalidade do jogador, está num dos clubes mundiais com melhor ambiente para ajudar à sua progressão. É opção regular de Thomas Tuchel e a história deste menino melhora de dia para dia a olhos vistos.

Tom Davies (Everton | Inglaterra| 30-06-1998 | 18 anos)

Meias para baixo, cabelo loiro sem grandes manias e calções por cima do joelho. Tudo é nostalgia em Tom Davies. O último talento das escolinhas de Finch Farm estreou-se com Roberto Martinez, foi opção válida para David Unsworth e cimentou o seu lugar com Ronald Koeman.

O jogo da consagração foi contra o City, em que o Everton venceu por 4-0, no qual culminou a partida com a sua estreia a marcar. E que golo. Com De Bruyne e David Silva pela frente, o ‘puto’ não se sentiu, de todo, amedrontado e fez uma exibição de encher o olho. Isto apesar de ser apenas a sua segunda partida a titular na Premier League. Volvidos alguns meses, é seguro admitir que estamos perante um dos pilares da equipa de Ronald Koeman. Com todos estes argumentos, o Everton apressou-se a renovar-lhe o seu contrato por 5 anos. O futuro do miolo da equipa de Liverpool passará por aqui.

Foto: Goal

Kai Havertz (Bayer Leverkusen | Alemanha | 11-06-1999 | 17 anos)

Num Leverkusen a tentar encontrar-se a si próprio, Havertz tem sido uma das boas notícias da equipa. O estilo de jogo deste playmaker é o que mais impressiona. A calma com que joga com os mais velhos, procurando sempre ser racional e tomar a melhor decisão possível, augura-lhe um futuro risonho. Nos farmacêuticos, tem vindo a fazer história. Foi o mais novo de sempre a vestir a camisola do Leverkusen na Bundesliga e foi também o mais novo de sempre a marcar pelo clube.

Numas vezes a sair do banco, noutras a titular, a verdade é que o jovem de 17 anos vai ganhando o seu espaço. E até a seleção alemã também começa a ver nele uma das grandes apostas dos próximos anos. É o próprio capitão do Leverkusen, Lars Bender, que se desfaz em elogios ao companheiro de equipa, admitindo que nunca viu ninguém tão completo nesta fase tão embrionária da carreira e que ficou espantando com a maturidade do miúdo ao chegar a um balneário com jogadores profissionais há quase tantos anos como ele tem de vida. Com serenidade e simplicidade – na vida e em campo – o futuro será risonho para este jovem alemão. Ballack e Özil têm aqui um possível sucessor.

Justin Kluivert (Ajax | Holanda | 05-05-1999 | 17 anos)

Kluivert é um apelido já com bastante história no futebol holandês e mundial. A herança é pesada e isso, desde logo, é um desafio ainda maior para aquilo que o Kluivert mais novo poderá vir a ser no futebol. Para já, não se tem notado nem um bocadinho dessa pressão de ter um pai como lenda. Este driblador nato tem vindo a confirmar o seu potencial jornada após jornada e é cada vez mais figura de proa neste Ajax.

O clube de Amesterdão é, como se sabe, uma excelente incubadora para estes jovens talentos em bruto e Justin Kluivert é mais um para lapidar. O estilo de jogo equipara-se a Neymar num contexto mais europeu, com menos técnica e mais ordem tática. Pelas alas, já se estreou a marcar pela equipa — curiosamente no Dia do Pai — e tem sido utilizado a titular, somando minutos numa formação que ainda luta para chegar à final da Liga Europa deste ano.

Kylian Mbappé Lottin (Mónaco | França | 20-12-1998 | 18 anos)

Nasceu em 1998, ano em que Buffon jogava o Mundial de França. Hoje estarão frente-a-frente numa meia final da Champions. Kylian Mbappé Lottin tem deixado a Europa rendida aos seus feitos e à sua maturidade. Os números dizem-nos que, comparativamente a Messi e Ronaldo aos 18 anos, o francês é melhor que ambos. Foi o mais novo jogador de sempre a chegar aos 15 golos na liga. Uma capacidade goleadora astronómica.

Tem marcado em quase todos os jogos com uma consistência inacreditável para um rapaz desta idade. Fez golos nos quartos da Liga dos Campeões, em Dortmund, e é uma das peças fundamentais do Mónaco de Jardim, que vai deixando a Europa de queixo caído. Um bom menino, com a cabeça no lugar. Alia uma capacidade física e técnica a uma humildade significativa para a idade e para a forma como lhe está a correr a carreira. O grande ídolo é Ronaldo e a possibilidade de o enfrentar pela primeira vez na final da Champions está em cima da mesa. A ver vamos.

O presente artigo foi realizado no âmbito da parceria que o Fair Play estabeleceu com o Sapo24 e a sua publicação original pode ser consultada aqui.

C7ONHpwXQAEiKyC.jpg?fit=1024%2C576&ssl=1
Pedro NunesMarço 30, 20175min0

Os muitos golos de Modeste têm sido um dos temas quentes desta edição da Bundesliga. Um francês que até agora vinha passando pelos pingos da chuva, acaba por estar também à espreita da Bota de Ouro. À beira de fazer 29 anos, segue entre Aubameyang e Lewandowski, na melhor forma da sua carreira. Para Modeste, vestir a camisola do Colónia tem funcionado como um incentivo para chegar a estas marcas estratosféricas.

Flop em Inglaterra, questionado em França, goleador na Alemanha e pretendido pela China. Nos últimos tempos, têm sido estas as diferentes perspectivas acerca de Anthony Modeste. Até há cerca de duas temporadas, o avançado gaulês vinha passando meio que despercebido aos olhos do comum adepto. No entanto, a chegada a Colónia para jogar no maior clube da cidade acabou por mudar tudo o que se pensava dele.

Foi uma carreira de altos e baixos até chegar a este ponto. Depois de fazer finalizar a formação nas escolinhas do Nice, o clube da Riviera emprestou-o por uma temporada ao Angers, onde começou a ganhar visibilidade. Os 20 golos em 37 jogos na segunda liga francesa chamaram a atenção do Bordéus, que desembolsou 3,7M€ para a sua contratação. Nos girondins demorou a afirmar-se e foi emprestado por duas vezes. A experiência em terras de Sua Majestade não correu nada bem. Nove jogos na Premier League e um total acumulado de zero golos pelo Blackburn, valeram-lhe o rótulo de flop. No segundo empréstimo, acabou por fazer 15 golos em 36 jogos com a camisola do Bastia.

Foto: Youtube

Esta marca levou-o à Alemanha. Depois de dois anos a representar o Hoffenheim com alguns golos à mistura, Colónia foi a cidade seguinte. E foi exatamente nos Billy Goats que deu a conhecer todo o seu poderio. Talvez como uma espécie de premonição, o primeiro golo com a camisola do Colónia demorou 45 segundos a chegar, numa partida da taça alemã. A partir passou a aplicar-se a máxima do nosso pensador madeirense – foi como o ketchup.

O golo típico de Modeste é um golo fácil. Normalmente um toquezinho chega. Característica de um autêntico matador e de um jogador muito auto-sustentável. Dos 37 golos do Colónia na liga, 22 são do avançado gaulês, o que significa que 60% dos golos são seus. Um dado que fala por si. Outra marca também bastante interessante é a sua eficácia. Para fazer golo, precisa de menos tentativas que Lewa e Auba. Para chegar à marca de 22 que carrega no momento, necessitou apenas de 74 ocasiões. Como referência de comparação, Aubameyang dispôs de 84 e Lewandowski de 100.

Considerando apenas a variável do impacto que tem na equipa, Modeste está bastante à frente dos outros dois. Com 25 jornadas já jogadas, o francês segue na roda de Lewandowski e Aubameyang, na luta pelo desejado Torjägerkanone. Esta época têm sido batidos recordes na Bundesliga neste sentido. Até à data, a liga nunca havia visto três jogadores com mais de 20 golos à 25ª jornada.

Foto: Squawka

Os que defendem que Modeste deve estar na seleção nacional usam de um argumento poderoso. Afirmam que o francês é melhor que Aubameyang e Lewandowski. A razão é simples. O gabonês e o polaco têm uma equipa recheada de estrelas, com companheiros de classe mundial que lhes fazem chegar excelentes bolas. Com Modeste isso não acontece. O Colónia é uma equipa de meio de tabela, que o francês está a colocar na luta pelos lugares europeus, aos quais não chega desde a época de 92/93. Apesar disto, entrar para as contas para a frente de ataque gaulesa não é pêra doce. Por entre os elegíveis para aquela posição estão nomes com Griezmann, Gameiro, Giroud, Lacazette, Moussa Dembelé e Gignac.

Na luta pela Bota de Ouro, o dianteiro segue em 5º – a par de Belotti, que é outro caso semelhante. Sempre atenta ao que se passa no futebol ocidental, a China já acenou com muitas notinhas. Modeste vive agora o melhor momento da carreira mas também o mais decisivo visto que está perto de fazer 29 anos. Entre ir para a China para ter uma reforma descansada, tentar os altos voos europeus ou ficar em Colónia, tudo é opção para Anthony Modeste.

Foto. ZeroZero
destaque.jpg?fit=1024%2C773&ssl=1
Fair PlayMarço 1, 20177min1

A capacidade negocial dos 3 grandes evoluiu e tornou mais difícil o recrutamento em Portugal. Mas e quanto aos restantes? Como é (e como pode ser) a vida dos clubes portugueses mais pequenos no global mercado futebolístico? Uma perspectiva diferente sobre um nicho que tem material de qualidade indubitável para ser explorado.

Já fica para trás o tempo em que clubes das grandes ligas europeias utilizavam os grandes da liga portuguesa como um autêntico viveiro de talento do qual retiravam jogadores de qualidade e elevado potencial a preço de saldo. Constantes provas dadas por jogadores formados ou transformados em Portugal – como é o caso dos muitos jovens estrangeiros que o FC Porto e SL Benfica aproveitaram e moldaram –, somados às capacidades negociais dos grandes clubes portugueses, fizeram com que isso deixasse de acontecer. O crescimento da importância de agentes como Jorge Mendes e a enorme reputação dos treinadores portugueses, que continuam a influenciar a carreira de tantos destes jovens jogadores, ajudaram também.

Hoje só clubes de alta dimensão têm capacidade para pagar a Porto, Benfica e Sporting – que finalmente começou a acompanhar os rivais neste espectro durante a era Bruno de Carvalho – o que estes exigem pelos seus melhores talentos. No entanto, continuo a notar uma falta de exploração por parte do mercado internacional para com uma grande parte do mercado português: os clubes de menor dimensão.

As diferenças económico-financeiras continuam a ser gritantes entre os grandes do futebol português (somados ao SC Braga que se encontra num plano intermédio) e as outras 14 equipas que compõem a Primeira Liga. Esta situação leva a que muitas vezes estes clubes vendam os seus maiores valores a preços abaixo da sua “valorização”. Sejam eles jovens portugueses formados pelos próprios clubes ou sul-americanos já com experiência europeia devido a um par de boas temporadas na nossa liga, grandes clubes de ligas medianas europeias ou clubes de meia tabela das grandes ligas tendem a aproveitar-se da situação… mas não o suficiente. Com o intuito de demonstrar tal situação construí uma tabela na qual disponho as transferências internacionais de relevo de clubes portugueses que não os “4 grandes” nas últimas épocas.

Quadro da autoria de Tiago Estêvão (@tiagoestv)

As siglas “Value ATT” e “Value ATM” são, respetivamente, os valores no momento da compra e o valor neste momento. O primeiro tem o intuito de ser comparado com aquilo que foi realmente pago pelo clube – provando ou não a teoria de que os clubes muitas vezes conseguem jogadores abaixo do seu valor –, enquanto o valor neste momento é suposto relacionar-se com a evolução de tal jogador após a transferência e, consequentemente, o elevado potencial dos jogadores do nosso campeonato.

É bom relembrar que os valores são todos retirados do site Transfermarkt e não são necessariamente a melhor maneira de avaliar a performance de um atleta nem o seu potencial futuro – foi simplesmente um prisma uniforme pelo qual decidi olhar este fenómeno. Para além disso a escolha das transferências em foco foi minha: mencionei grande parte das que movimentaram valores mais elevados, deixei de fora todas as transações nos quais os valores não foram divulgados – como a recente de Jorginho para o Saint Étienne, por exemplo – e, devido a ser uma lista curta, vão sempre faltar alguns.

De uma lista que contém 25 jogadores, apenas em 6 transferências foi pago um montante acima do valor do jogador no momento. Desses 6 atletas – Jota, Dalbert, Deyverson, Vezo, Lucas Lima e João Pedro –, 5 têm neste momento um valor superior ou igual àquele pago pelo clube, demonstrando que nas poucas vezes que os clubes portugueses exigem um valor superior fazem-no por saber o potencial talento que têm em mãos. A situação acaba por beneficiar ambas as partes.

O único que ainda não chegou a esse valor é João Pedro, recentemente contratado pelo LA Galaxy da MLS – competição que arranca esta semana. Não tenho qualquer dúvida de que “JP” vai ver o seu valor aumentado dentro de meses, já que tudo aponta à sua titularidade na Califórnia. Gerso encontra-se numa situação similar – apesar de não estar incluído na lista –, sendo que o Sporting KC acabou por pagar um valor superior à sua valorização para o levar para a MLS.

João Pedro trocou o Vitória SC pelo LA Galaxy (Foto: MaisFutebol)

Vemos ainda mais alguns padrões de mercado na tabela. O Málaga, por exemplo, é um clube que muito tem aproveitado esta situação, comprando Antunes (agora em Kiev), Horta (que se tornou internacional A português a jogar pelos Malaguenhos) e Flávio Ferreira – sem clube aos 25 anos mas que estava valorizado em 2.5M€ quando saltou da Académica para os espanhóis por apenas meio milhão.

Em França já há uma série de clubes a seguir atentamente o nosso mercado: 9 das 25 transferências mencionadas ocorreram de Portugal para França. Seri, muito elogiado por Paulo Fonseca nos seus tempos de Paços, está juntamente a Dalbert a surpreender ao serviço do Nice. O costa-marfinense tem 9 assistências esta temporada, ninguém tem mais nas grandes ligas europeias. Fabinho continua as excelentes exibições pelo Monaco e, com maior ou menor influência de agentes, também ele passou por Portugal antes de dar o salto. Apesar do último lugar na tabela, Cafú tem mais de 1000 minutos jogados pelo Lorient e a ele se juntou Wakaso. Interessante ainda o estranho caso de Afonso Figueiredo que, após uma grande temporada pelo Boavista e muitos rumores que o ligavam aos grandes, seguiu para o Rennes mas infelizmente ainda só tem 90’ jogados pelo clube.

Por fim, temos ainda os países da Península Arábica e o aumento da quantidade de jogadores que assinam por estes clubes de grande capacidade económico-financeira. Para o Al-Fateh foram Ukra e Nathan Júnior, de momento cada um tem cinco golos e quatro assistências em 18 e 19 partidas respetivamente, sendo simultaneamente os melhores marcadores e melhores assistentes da equipa. Leo Bonatini, fora da lista por falha minha, assinou pelo Al Hilal após a sua época fantástica com o Estoril – demonstrando todo o seu poder económico, a equipa saudita pagou 5M€ pelos seus serviços (2M€ valor de mercado na altura, 3.5M€ agora).

Ukra também deixou a Liga NOS rumo a um destino exótico (Foto: Público)

Não se encontram aqui incluídas as transferências de jogadores que deram o salto de equipas menores em Portugal para os “quatro grandes”. Mas Soares, André Horta, Paulo Oliveira, Sérgio Oliveira e Ricardo Ferreira são exemplos daquilo que seria outra enorme lista.

Existe qualidade e preços baixos em Portugal comparativamente àquilo que encontraríamos noutras ligas europeias de cariz similar e tanto o mercado internacional tem de tomar a Liga Portuguesa mais em conta para o seu próprio benefício, como os próprios grandes têm de aproveitar as oportunidades, apostando em talento já com provas dadas em Portugal, contraditoriamente às apostas em jogadores incertos do mercado internacional que contribuem ainda mais para o agravamento das suas folhas salariais.

Artigo da autoria de Tiago Estêvão, analista de futebol português nas plataformas WhoScored e PortuGOAL.net 

FotorCreated.jpg?fit=1024%2C576&ssl=1
Pedro NunesNovembro 5, 20164min0

São dois dos enfant terribles do futebol. Também é por causa de jogadores como Balotelli e Ben Arfa que este é o desporto-rei e o esplendor do entretenimento dos dias que correm. Apesar de serem diferentes em muita coisa, a carreira de ambos acabou por ter um ponto similar na chegada a Nice. E há melhor sítio para iniciar uma nova vida do que a Riviera francesa?

Estas bem podiam ser as histórias de duas péssimas ideias. Talvez concordemos que levar cidadãos como Hatem Ben Arfa e Mario Balotelli – jogadores milionários e com as suas carreiras no maior ponto de interrogação – para uma das melhores estâncias turísticas da Europa, onde há uma multiplicidade de distrações ao trabalho, tinha tudo para dar errado. O extremo gingão é mais um daqueles casos a quem o futebol salvou a vida. Filho de pais tunisinos e nascido num dos bairros mais problemáticos dos arredores de Paris, foi naquele pé esquerdo que depositou toda a esperança que se tornasse no seu ganha-pão e da sua família. Tem um talento que sempre precisou de espaço para poder brilhar. Ou a equipa faz dele a estrela, ou ele apaga-se ou então funciona apenas intermitentemente. Aos 29 anos, a suposta evolução na maturidade levou-o ao PSG deixando o Nice órfão do seu criativo.

Foto: GFI
Foto: GFI

Mas apesar da perda do seu playmaker, esta época as coisas têm corrido de feição aos aiglons, ainda de melhor do que se esperava. As mudanças foram muitas, pois para além da saída de Ben Arfa também Claude Puel abandonou o clube depois de o levar da zona de descida à Europa e para o lugar dele foi chamado o ex-Gladbach, Favre.

À 11ª jornada o clube de Côte D’Azur surge na liderança da Ligue 1, destacados do resto dos concorrentes, com uma vantagem de 6 pontos. É realmente de tirar o chapéu ao que o senhor Lucien Favre está a conseguir fazer, deixando para trás Mónaco e PSG – o candidato crónico. Com um plantel de jogadores jovens com muito para evoluir, tem sido muito interessante acompanhar a afirmação de jogadores como Plea ou Cyprien, que têm sido decisivos na manobra ofensiva da equipa. Há ainda dois jogadores bem conhecidos dos portugueses que fazem parte deste núcleo duro – Ricardo e Seri. O lateral/médio dá consistência em qualquer lugar que jogue, somando ainda boas participações ofensivas, numa capacidade que já vem de anos transactos e passa despercebida nos media nacionais. Quanto ao ex-Paços, tem funcionado como o elo de ligação entre o miolo e o ataque, assinando já um bom número de assistências. Até o central Dante está a conseguir dar um novo alento à sua vida futebolística. Mas a grande epígrafe desta fase inicial do Nice é outra…

O segundo filme tem basicamente o mesmo enredo, o mesmo número na camisola e o personagem principal é parecido. No entanto, este parece ter sido escritopor Woody Allen tal é o número de peripécias em que já foi alvo. De casas de banho incendiadas a brincadeiras num segway por Lisboa, há de tudo no portefólio de Balotelli. Bom referir que nem Mourinho conseguiu ter mão nele.

“Queria um sítio bonito, onde te levantes, olhes pelas janela e isso seja o suficiente para mudar o teu dia”, disse Balotelli para justificar a escolha do clube, onde tem sido um fenómeno também de marketing – são vendidas 6 camisolas do avançado por hora. Com Favre, Super Mario ainda não funciona como um relógio suíço, mas quase. Os grandes golos e as exibições voltaram, mas também já houve expulsões um pouco complicadas de explicar, nada a que ainda não nos tivesse habituado. Seis golos em cinco jogos é uma boa marca para um reforço que chegou já em cima dos derradeiros minutos de mercado à última da hora e a custo zero. Aos 27 anos, a vida resolveu dar a enésima oportunidade ao Super Mario. E desta vez é rumo à bola de Ouro, diz ele.

Foto: 20 Minutes
Foto: 20 Minutes

Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS