Arquivo de Eurosport - Fair Play

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Xavier OliveiraAbril 2, 201818min0

Nuno Miguel Santos, multi-campeão nacional e referência do snooker em Portugal. Miguel Sancho, outra figura de referência do bilhar em Portugal. Têm em comum o facto de serem as vozes do snooker no Eurosport. Não perca por isso a segunda parte da entrevista do Fair Play, feita durante o Players Championship, onde ambos os comentadores falam sobre o passado, o presente e o futuro do snooker nacional e internacional.

Tanto o Miguel como o Nuno saíram do FC Porto no final da época passada, alinhando agora pelo Snooker Club Lisboa. Contem um pouco como se deu essa mudança.

NMS: Em primeiro lugar quero referir que foram dois anos muito bons, no meu caso foi o regresso ao FC Porto, no caso do Miguel foi a sua estreia, tendo também contado com a presença do Pedro France, e no primeiro ano do Adérito Anil. No fundo já sabia ao que ia, é sempre um prazer representar o FC Porto, foi aliás o clube que mais me marcou na minha vida desportiva, pelo clube que é e, acima de tudo pelas pessoas que tem dentro da sua estrutura. Pessoas essas que sabem valorizar os atletas, dar-lhes todas as condições que estes necessitam e, quando assim é, o caminho para os títulos está aberto ou pelo menos torna-se mais fácil. Nesta passagem de dois anos no FC Porto, dignificamos o clube, sendo que de todos os títulos que disputámos, perdemos apenas uma Taça de Portugal, como tal o FC Porto gostou da nossa participação. Por tudo isso, seria difícil esta temporada repetir todos esses sucessos, porque em primeiro lugar não poderíamos contar com o Pedro France, que deixou de jogar por não conseguir conciliar o snooker com a sua vida familiar e profissional. Por essa razão, percebemos que ou continuaríamos apenas porque sim, ou continuaríamos a jogar para vencer, como é o desígnio do FC Porto. Chegamos assim à conclusão que seria mais interessante iniciarmos um novo projecto, com a certeza porém que a porta no FC Porto ficou completamente escancarada para que possamos voltar um dia mais tarde a unir esforços. Mudamos então de armas e bagagens para o Snooker Club Lisboa, onde continuamos na mesma senda vitoriosa, pelo menos até ao momento.

MS: Na prática não houve uma grande mudança, porque o FC Porto já jogava no Snooker Club Lisboa, sendo a única modalidade que já se jogava fora do distrito do Porto. Falando agora como atleta e como responsável do Snooker Club Lisboa, foi um enorme prazer a parceria que fizemos com o FC Porto, permitiu que o espaço crescesse, já que este apenas existia apenas como espaço comercial e não como clube propriamente dito, tendo-nos permitido assim ter competição ao mais alto nível. Eu nunca tinha sido atleta do FC Porto, ouvia o Nuno e outros dizerem o que era ser atleta do clube, mas quando o senti na primeira pessoa percebi que é fenomenal ser atleta daquela casa, tal como o Nuno dizia, pelas pessoas que lá estão, desde logo pelo próprio presidente do clube, o Jorge Nuno Pinto da Costa, que adora bilhar, sendo isso desde logo uma mais-valia tremenda relativamente aos restantes clubes portugueses. Também pelo responsável máximo da secção de bilhar, que é ao mesmo tempo vice-presidente do clube, o Alípio Jorge, que deve ser a única pessoa em Portugal que é atleta de bilhar ao mesmo tempo que tem tais funções na estrutura directiva. Não sendo nenhuma inconfidência, porque foi o próprio que nos disse, Jorge Nuno Pinto da Costa não perde um jogo de snooker que dá no Eurosport e quando pode, vai ver os torneios ao vivo, seguindo de perto a modalidade. Finalmente também toda a estrutura que está montada naquela casa, na pessoa da Manuela Pinto de Sousa, sendo uma das figuras máximas do bilhar, criando assim uma família ali, que vai desde o presidente do clube até ao mais humilde funcionário, sendo quase impossível replicar tal modelo por este existir num clube grande como o FC Porto, já que são muitos anos, uma família ali criada, havendo várias gerações ali dentro e que nos dão uma força e um carinho que às vezes nem percebemos de onde ela vem, o que torna muito especial lá jogar. Posso dizer que conheço dois casos de jogadores que passando por lá, e não sendo portistas desde pequeninos, depois de passarem por lá ficaram muito marcados, o Nuno e o Pedro Grilo, sendo que hoje posso dizer que sou mais um desses casos. Espero que o FC Porto regresse ao snooker, onde este ano tivemos o regresso do SL Benfica, sendo muito importante ter os ditos três grandes no snooker. Em relação ao Snooker Club Lisboa, o projecto é uma continuidade natural daquilo que aconteceu no FC Porto, do ponto de vista do snooker, para já estamos temos o primeiro lugar garantido em Lisboa, estando assim apurados para as fases finais. Este projecto permitiu o regresso de alguns jogadores da casa à variante de Pool, estando também bem lançados para marcar presença nas fases finais nessa variante, tal como no Pool Português.

Como tem sido a afluência ao Snooker Club Lisboa desde o seu início até então? E contem um pouco acerca da vossa própria experiência em ter o Shaun Murphy lá e a impressão com que o próprio ficou do nosso país.

MS: Em relação ao Snooker Club, acho que tem estado a correr com as dificuldades normais de quem tem que fazer renascer uma casa, mas ainda assim muito satisfeito por aquilo que tem acontecido. O Snooker Club é uma das casas mais históricas de Lisboa, foi criada em 1989, passou portanto toda uma geração, passando por tempos bons, outros menos bons. Desde o falecimento do seu fundador, obviamente que a casa passou um mau período, sendo que aquilo que temos vindo a fazer, não eu pessoalmente, mas sim a equipa extraordinária que lá trabalha liderada pela Isabel Maurício, é fazer renascer das cinzas uma casa que era vital para o bilhar em Lisboa, sendo praticamente a única existente naquela zona central da cidade. O trabalho de recuperação tem sido feito agora com muito mais mulheres, jovens, gente que não ia ao Snooker Club, e que agora vai, grupos, empresas, entre outros, o que torna a casa outra. Do ponto de vista desportivo foi feita paralelamente uma aposta no Pool, no Snooker, no Pool feminino, temos também jovens em idade de esperanças a jogar, como é o caso do Rui Fonte e outros, temos estrangeiros, já que somos uma casa internacional, com jogadores de diversas nacionalidades. Como se costuma dizer, “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, sendo que nós passamos por diversas dificuldades, mas ainda assim temos tido a ajuda de muita gente, sobretudo quer das pessoas que lá trabalham quer dos atletas da casa e que acabaram por formar uma bela equipa, fazendo com que o Snooker Club seja aquilo que foi em tempos, que é uma casa de referência do bilhar nacional.

NMS: Eu jogo em competição desde os meus 16-17 anos e o Snooker Club sempre foi aquela casa de referência. Mas o Miguel acaba por ser algo modesto quando fala, já que o Snooker Club sempre foi, e ainda é, uma das melhores casas de bilhar a nível nacional. Foi uma grande aposta do saudoso António Almeida, uma pessoa pelo qual eu sempre nutri uma grande amizade, conversávamos muitas vezes, ele gostava muito de mim, creio que era recíproco. Sempre foi aquele local onde toda gente queria jogar, de facto estava vários degraus acima do que havia por cá. Chegaram a ser lá feitos torneios importantes com os melhores jogadores a nível nacional e, sempre houve ali uma grande entrega por parte do fundador, que queria ficasse tudo ao pormenor e que tinha um enorme orgulho quando alguém lhe dizia que aquela era a melhor casa do país. Eu na altura conhecia praticamente todas as casas de bilhar em Portugal e, posso dizer com certeza que aquela era sem dúvida a melhor casa, não só para se jogar, mas também para se conviver. Tinha sempre os melhores materiais, tendo feito uma aposta mais recentemente numa mesa que acho que até hoje é a única da marca Star em Portugal, tendo também comprado quatro mesas de 9 pés, tudo de qualidade topo para garantir as melhores condições aos melhores jogadores. O facto de o turismo estar em alta na cidade de Lisboa, faz com que por exemplo entrem grupos enormes de pessoas estrangeiras pela casa adentro, disfrutando e adorando o espaço porque de facto é um espaço muito bem concebido e insonorizado. Quanto ao Shaun Murphy, adorou estar cá em Portugal, no que a nós diz respeito foi óptimo, muitíssimo bem tratado, sendo que a brincadeira que fizemos com ele correu muito bem, ele colaborou imenso (risos), tanto comigo como com o Pedro France, onde na altura foi basicamente a apresentação da equipa do FC Porto. Foi um bom evento, também uma excelente oportunidade de vermos um dos melhores jogadores da actualidade em acção, sendo que nos falta uma coisa ao espectador português, que é um jogador quando joga uma bola, não tem que jogar para embolsar, eles de vez em quando também falham e quando não estão naquele modo competitivo há mais facilidade em isso acontecer. Falta-nos ainda alguma cultura de snooker, isto também já tinha acontecido em 2004, aquando da vinda do Paul Hunter cá a Portugal, no Pavilhão das Travessas, chegaram a assobiá-lo por ele ter falhado algumas bolas, como se o mais fácil ali não fosse falhar e, apesar de isso ter melhorado drasticamente, ainda há um longo caminho a percorrer. O Murphy levou ainda uma lembrança de Lisboa oferecida pelo António Barroso (jornalista do jornal A Bola), um eléctrico de Lisboa em miniatura e uma bola de cristal “The Magician”, adorou a comida portuguesa, como não poderia deixar de ser, sendo que ele já conhecia bem Portugal, já que tinha passado férias no Algarve com os pais, em miúdo. Só para finalizar, ainda levou uma “tareia” do Miguel Sancho no Pool Português (risos).

Miguel Sancho (à esquerda) e Nuno Miguel Santos (à direita) (Fonte: Vasco Simões/Eurosport)
Sobre a presença de jogadores profissionais em terras lusas, os rumores de que brevemente haverá um ‘major’ em Portugal vão aparecendo. Quão importante seria para Portugal um torneio desses tornar a acontecer? E de que forma é que se poderá alavancar esse tipo de eventos?

MS: O regresso de o snooker a Portugal obviamente seria sempre bom. A projecção mediática que houve no snooker em 2014 com o Lisbon Open, nunca tinha existido em Portugal, nem nunca a voltaremos a ter tão cedo. Só para se ter uma ideia, o Nuno deu uma entrevista para o Telejornal da RTP, sendo que não há muitas modalidades que o tenham feito para o próprio Telejornal. O João Grilo dizia na brincadeira, que não sendo jogador de snooker, só o facto de ter conseguido chegar ao quadro da fase final do Lisbon Open fez com que ele fosse mais reconhecido, do que com todas as vitórias que tinha obtido antes. Mesmo em termos de imprensa, nunca esperei que corresse tão bem, já que estamos a falar da presença dos três grandes canais generalistas, de todos os jornais desportivos e não desportivos, da Agência Lusa, meios de comunicação social estrangeiros, tendo havido conferências de imprensa com a presença de mais de 20 jornalistas. Em termos de bilhética, nem nós esperávamos uma coisa assim, com os bilhetes mais caros a serem comprados rapidamente, bilhetes a serem vendidos para o país inteiro, tendo havido inclusive um casal israelita a vir de propósito ao Lisbon Open.

NMS: Tal como o Miguel disse, seria óptimo que o snooker regressasse a Portugal. Eu gostava de ser mais ambicioso e que ele regressasse com a tal formação para os que cá ficam depois do evento. Do ponto de vista da modalidade, poderia ser esse o legado que a World Snooker poderia deixar para os anos que aí vêm, deixando por exemplo algumas mesas para projectos de formação. Claro que desta vez a vir um torneio a Portugal teria de ser feito com muito mais tempo e mais bem pensado. Se tal acontecer, acima de tudo é necessário que seja bem feito, bem negociado e que possa trazer uma mais-valia desportiva para as provas da Federação que se realizem no futuro.

Barry Hearn soube como ninguém levar o snooker a patamares estratosféricos. Até que ponto seria interessante a World Snooker apostar mais nas redes sociais, apostando por exemplo em vídeos dos bastidores, do dia-a-dia dos jogadores, etc.

MS: Eu percebo o que estás a dizer, e dou-te razão, sendo que o problema não são propriamente os direitos, mas sim o facto de o Barry Hearn não ter conseguido chegar a todo lado. A World Snooker já percebeu que havia muito trabalho a fazer nas redes sociais e acho que o estão a fazer agora, estando provavelmente a entrar um bocadinho tarde. Acho que andaram demasiado tempo ligados ao Twitter, já que os ingleses estão fixados nesta rede social, deixando o Facebook para trás. Aquilo que tem acontecido nos últimos anos é muito devido à parceria que foi feita em 2016 com o Eurosport, ou seja foi essa ligação que fez com que nos últimos dois anos a aposta nas redes sociais tenha sido maior. Na minha opinião penso que faltam fazer algumas coisas, o programa do Ronnie O’Sullivan era bom, mas é curto, acho que falta mais promoção da modalidade para além do jogo propriamente dito. Noto no Eurosport, a falta de um magazine sobre snooker, acho que era muito importante. Este tipo de magazines poderia ser inclusive criado para o YouTube. Em Lisboa aquando da prova realizada, existia uma promoção da cidade de dez segundos a passar antes do início da transmissão. O ‘behind of scenes’ é outro caminho que devia ser explorado, já que permite que conheçamos mais e melhor os jogadores.

NMS: O Barry Hearn está ligado também à Matchroom Sport, à organização da World Pool Masters e do World Cup of Pool, sendo essas provas pontualmente transmitidas em directo no Facebook para os países que não têm acordos, sendo difícil responder a essa pergunta já que não sei quais são as condicionantes que muitas vezes existem. A World Snooker tem esse acordo firmado com o Eurosport, não fazendo sentido por exemplo transmitir esses encontros no Facebook nos países em que existe o Eurosport, acontecendo o mesmo com a CCTV para os países asiáticos.  Em termos de ‘behind of scenes’ não estou muito de acordo com o Miguel, havendo o caso do já infelizmente falecido Paul Hunter, que estava assiduamente presente em revistas cor-de-rosa, muitas vezes pelo seu perfil, pela sua fisionomia e esse não é um trabalho que caiba à World Snooker, como a FIFA e UEFA não o fazem no caso do futebol.

Da esquerda para a direita: Xavier Oliveira (Fair Play), Nuno Miguel Santos e Miguel Sancho (Fonte: Vasco Simões/Eurosport)
O mundial está aí ao virar da esquina. Fazendo um balanço daquilo que aconteceu até agora e perspetivando o que possa vir a acontecer em Sheffield, quem são os verdadeiros candidatos a vencer?

NMS: Essa é das perguntas que mais me fazem e eu só consigo dizer que tudo depende daquilo que vão jogar. Quando jogamos por equipas, mesmo que haja um jogador a jogar mal, se os outros jogarem bem e ganharmos, está tudo bem. Numa modalidade individual não há essa hipótese, não há forma de refugiar em ninguém, sou eu contra o meu adversário. Em relação a vitórias, eu acho que não podemos fugir aos três “velhinhos” (Ronnie O’Sullivan, John Higgins e Mark Williams). Mark Selby acaba por ser ainda uma incógnita, é um jogador que se vai preparar e muito para este mundial. É verdade que ele esta época ganhou o International Championship, mas não deixa de ter uma época para salvar. É aquele tipo de jogador que mesmo não estando em boa forma técnica e tática, está em boa forma física, sendo que a técnica e táctica podem ser treinadas, acabando por ser um torneio que lhe entra que nem uma luva, com jogos e distâncias longas, sendo ele um jogador resistente e resiliente. Sinceramente, não sei se atualmente o Ronnie tem o estofo necessário para ganhar o mundial. John Higgins já revelou não ter forma para aguentar um torneio tão longo, mesmo a derrota de 6-0 frente ao Anthony McGill, no Players Championship, não augura nada de bom. Mark Williams está num bom período mas ainda com alguma irregularidade, tendo novamente o problema de 17 dias ser muito tempo. Judd Trump, acaba por ter uma grande vantagem em relação aos outros, já que vai estar fora do China Open, o que lhe permite descansar mais alguns dias.

MS: Eu acho que sinceramente poderemos ter Judd Trump como campeão do mundo, estando a surpreender um bocadinho contra todas as expectativas. Pelas declarações que ouvi estes dias da parte dele, acho que a derrota dele o ano passado frente ao Rory McLeod lhe serviu de emenda. Ele referiu em declarações após o encontro frente ao Neil Robertson, no Players Championship, que não quer pressão em cima dos ombros dele e que não pensa estar na linha da frente para vencer o mundial. Eu acho que ele juntamente com o Selby, do ponto de vista técnico e físico são os que têm mais capacidade. Tenho muitas dúvidas sobre Ronnie, porque depende sempre muito do estado de espírito do mesmo, já que desde 2013 vemos sempre o inglês a ter um dia mau. Mas claro que o facto de ainda não estar disponível o quadro final, complica sempre estes prognósticos.

Façam um apelo para que as pessoas acompanhem o snooker no Eurosport, com destaque para o mundial, explicando o porquê de o deverem fazer.

NMS: Devem ver o snooker no Eurosport, porque a partir do dia 21 de Abril e até 7 de Maio, o mundo pára e não há mais nada para fazer (risos). Teremos três sessões por dia, 9 a 10 horas de emissão diária, no Eurosport 1, com comentários de Nuno Miguel Santos e Miguel Sancho, levando todas as emoções do Crucible Theatre a sua casa, aqui no Eurosport, a casa do snooker.

MS: Parece que ao mesmo tempo há outras provas desportivas menores, como a Liga dos Campeões, não sabendo sinceramente do que estão a falar (risos). Portanto do dia 21 de Abril até ao dia 7 de Maio, só há uma coisa a fazer, que é ligar o Eurosport 1 ou Eurosport 2, é à escolha. Serão 150 horas de directo, sendo importante referir que o Ronnie O’Sullivan é o embaixador do Eurosport, sendo que se ele perder mais cedo, há fortes probabilidades de subir para a cabine dos comentários e ensinar-nos um pouco sobre isto (risos).

O Fair Play agradece ao Nuno Miguel Santos, Miguel Sancho, bem como toda equipa do Eurosport, pela disponibilidade e simpatia demonstrada em todo o processo da entrevista. Desejando as maiores felicidades e o maior sucesso a ambos, quer como atletas, quer como comentadores e ao canal Eurosport.

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Xavier OliveiraAbril 1, 201819min0

Nuno Miguel Santos, multi-campeão nacional e referência do snooker em Portugal. Miguel Sancho, também figura de referência do bilhar em Portugal. Têm em comum o facto de serem as vozes do snooker no Eurosport. Não perca por isso a primeira parte da entrevista do Fair Play, feita durante o Players Championship, onde ambos os comentadores falam sobre o passado, o presente e o futuro do snooker nacional e internacional.

Desde quando surgiu este gosto pelo snooker? E como correu o primeiro contacto com uma mesa de snooker?

Nuno Miguel Santos: Em termos de conhecimento ou de contacto com a modalidade, jogo desde os 10 anos de idade, neste caso primeiramente na vertente de Pool Português e só depois no Pool. E até 2001, altura em que entrei para o Eurosport, sabia que existia snooker, mas não tinha grande contacto com a modalidade, mesmo porque praticamente não havia mesas em Portugal em número suficiente para que criasse esse bichinho e empatia. A partir do momento em que começo a comentar, a paixão cresceu exponencialmente, muito por culpa dos intervenientes, os jogadores, que nos fazem sonhar e nos fazem desejar estar ali naquele lugar. Ou seja, para quem vê, aprecia, para quem joga, gostaria de estar ali. O snooker é um caso especial dentro do bilhar, porque enquanto que por exemplo no Pool, conseguimos crescer ao nosso próprio ritmo, a aprender com a modalidade, no snooker acaba por não ser bem assim, já que chegamos a uma certa altura em que para dar o salto, é necessário que alguém nos ensine. Quem vê e não sabe muito bem do que se trata a modalidade, acha tudo aquilo muito normal, para quem vê e sabe do que se trata, acha tudo aquilo fenomenal. Aquilo que mais acaba por me impressionar nos jogadores profissionais, é que a tacada neles é sempre igual, só mudam mesmo a intensidade, o gesto técnico do punho acaba por ser sempre rigorosamente igual. Ainda neste Players Championship, que está decorrer, fiquei impressionado com uma tacada do Ding Junhui, do Mark Selby e do Ronnie O’Sullivan. A qualidade e a capacidade de se reinventarem torneio após torneio, é o que mais me apaixona pelo snooker. Relativamente ao primeiro contacto com uma mesa de snooker, foi em dezembro de 2004, num encontro de exibição frente ao Paul Hunter, em São João da Madeira. Já em competição, esse primeiro contacto foi no ano de 2010, na segunda edição do campeonato nacional, onde fiz o circuito de open’s e jogo a fase final.

Miguel Sancho: O primeiro contacto da modalidade aconteceu muito cedo, foi na localidade da Lousa, concelho de Loures, mais conhecida pelo ciclismo, mas onde existe uma grande coletividade chamada Grupo Desportivo da Lousa, onde mais tarde tive a oportunidade de jogar e, onde havia uma mesa de Pool Português e uma mesa de Carambola. Para além daí, também em Monte do Trigo, no Alentejo, onde também havia uma mesa de Carambola e onde comecei a dar as primeiras tacadas. Relativamente ao snooker propriamente dito, o primeiro contacto não foi com a modalidade em si, mas sim com o jogo de computador do Steve Davis e para quem tem sensivelmente a minha idade, lembra-se perfeitamente do ZX Spectrum, para o qual existiam vários jogos e, um deles era exactamente esse de snooker do Steve Davis. Em Lousa, houve uma história muito engraçada, já que nós na altura praticamente não tinhamos contacto com o snooker, o sinal não chegava cá e mesmo parabólicas praticamente ninguém tinha. Então na altura, houve uma pessoa da terra que tinha ido a Inglaterra e tinha trazido um poster do Steve Davis, salvo erro, campeão do mundo em 1984. Sendo que nós em Lousa tinhamos uma brincadeira de miúdos todos os sábados, em que quem vencesse tinha direito a ficar com o referido poster do Steve Davis durante uma semana e, então quando o consegui ter pela primeira vez, foi uma grande alegria para mim. E para mim até hoje, o momento mais alto do snooker foi quando tive precisamente a honra de conhecer Sir Steve Davis pessoalmente. O primeiro contacto mais a sério com o snooker, deu-se em 2010, quando na altura fazia parte da Federação Portuguesa de Bilhar, como vice-presidente, sendo que entretanto já tinha começado a fazer comentários no Eurosport. Aliás o meu grande salto de envolvimento com o snooker deu-se com a minha entrada no Eurosport como comentador, onde coincidiu tudo, com a entrada do Eurosport 2 em Portugal, e com isso haver muito mais snooker a ser transmitido e, também por nessa altura ter-se começado a jogar snooker em competição cá em Portugal. No fundo, eu gosto de todas as variantes do bilhar, gosto muito de Pool, que é a minha modalidade, adoro Carambola, modalidade a qual já tive oportunidade de comentar no Porto Canal. No caso do snooker, é um caso especial, já que acaba por ser a “Fórmula 1” do bilhar, como eu costumo dizer, é quando nós temos tudo ao mais alto nível, desde a organização das provas, o profissionalismo dos árbitros e dos jogadores, tudo o que envolve a modalidade.

Tanto o Miguel como o Nuno, já são comentadores de snooker no Eurosport há alguns anos. Quais são as grandes diferenças técnicas e tácticas que notam na modalidade desde o início dos comentários até agora?

NMS: Na minha opinião, há três grandes contributos para a modalidade e até em três décadas diferentes. Primeiro, Steve Davis, que contribuiu muito para que quem viesse a seguir fosse melhor. Stephen Hendry, talvez aquele que tenha contribuído mais, nomeadamente com o seu jogo para os buracos do meio, com a abertura de bolas vermelhas e, tudo isso contribuiu bastante para que na década seguinte, no novo milénio, aparecesse Ronnie O’Sullivan. É um jogador com um talento nato, isso é inegável, mas hoje em dia, acima de tudo a construção do ‘break’, e consequentemente o controlo da bola branca, acaba por ser aquilo que faz com que existam mais centenárias que nunca e, chegados aqui, certamente que daqui a 10-15 anos estaremos ainda melhores. Vimos por exemplo, nestes últimos 10 anos a World Snooker ser praticamente obrigada a retirar o ‘prize-money’ de 147.000 libras para a tacada máxima, já que isso de fazer um 147 é quase corriqueiro, sendo esse o ponto mais alto no snooker. Se compararmos para o início dos meus comentários cá no Eurosport, em 2001, um 147 acontecia uma ou duas vezes anualmente. Para se ter uma ideia, em 2013 ou 2014, Mark Selby fez a centésima tacada máxima de toda a história do snooker. No que toca à organização dos torneios por parte da World Snooker, penso que deveria haver uma diferenciação, tal como se faz com o ténis por exemplo. Uma das grandes revoluções feitas pelas mãos do Barry Hearn foi a criação dos ‘rankings’ dinâmicos, já que antigamente quem terminava a temporada no top-16 ia beneficiar desse facto para toda a época seguinte, já que a presença nesses torneios estava automaticamente garantida, algo que agora não se sucede, já que atualmente é necessário esses jogadores estarem bem pelo menos grande parte da época. O facto de agora, mais do que nunca, os jogadores estarem constantemente em competição é um fator crucial. Um exemplo disso, é que antigamente, depois do mundial, os jogadores tornavam a jogar apenas em Setembro, havia ali um ‘delay’ de três meses sem competição. Falando também um pouco sobre quem brilhou no passado, acho que a World Snooker esteve muito bem ao alargar o circuito profissional de 128 para 131 jogadores, ao oferecer um wild-card ao Jimmy White, ao Ken Doherty e ao James Wattana, já que mesmo parecendo que não, foram grandes embaixadores da modalidade.

MS: Para mim aquilo que eu noto mais diferença, e isso pensando desde que comecei a comentar, em 2009, é a qualidade dos jogadores médios. Ou seja, os jogadores de top continuam a ser aquilo que eram, não mudou muita coisa, claro que sempre com algumas oscilações. O jogador médio, que está na 50ª, 60ª posição, há dez anos atrás, num encontro frente a alguém do top-16, num encontro jogado no mínimo à melhor de 9 ‘frames’, esse jogador de topo quase de certeza ganharia o encontro. E aí a existência de um maior número de torneios no circuito, como os PTC’s por exemplo, foi crucial. Primeiramente porque permitiu levar o snooker para outras paragens, nomeadamente para Europa continental, algo que não acontecia antes, já que os torneios só se jogavam nas ilhas britânicas. E com isso, já tivemos provas em Portugal, em Gibraltar, na Holanda, na Bélgica, na Letónia, na Roménia, na Alemanha consolidou-se aquilo que já existia, na Polónia e com isso a presença de jogadores europeus no circuito profissional. Há um jogador belga no top-16, um suíço de ascendência portuguesa que chegou às meias-finais de um torneio esta época, já há um jogador alemão como profissional, sendo que o segundo se vai estrear na próxima temporada. Os campeonatos europeus são um bom exemplo disso mesmo, enquanto que antes se viam praticamente só jogadores britânicos por lá, agora vêem-se jogadores de inúmeros nacionalidades, como polacos, que estão com uma bela escola de snooker. E aí claro que a World Snooker foi inteligente, já que percebeu que havia esse mercado da Europa continental para explorar. Fez por exemplo uma parceria com o Eurosport, onde foi assinado um contrato de exclusividade com a duração de dez anos e, isso claro que tem a ver com o enorme impacto que o Eurosport tem não só na Europa continental, mas sim por todo mundo.

Miguel Sancho (à esquerda) e Nuno Miguel Santos (à direita) (Fonte: Vasco Simões/Eurosport)
Quais são para cada um de vocês as três grandes referências de sempre do snooker, e porquê?

NMS: Sendo um pouco pragmático, quando eu me refiro aos melhores, falo na contribuição que eles deram para que a modalidade seja aquilo que é hoje e isso é o mais importante. A forma como se irá jogar no futuro tem claramente a pegada de Ronnie O’Sullivan, a forma de atacar a bola, fazer com que a bola “ganhe vida”, isso é o legado que ele vai deixar até aparecer alguém que vai conseguir mudar o snooker para ainda melhor. Por isso é que digo que os três grandes marcos do snooker são Steve Davis, Stephen Hendry e Ronnie O’Sullivan. Se olharmos por exemplo para Alex Higgins, ao nível da técnica ele era péssimo, enquanto que qualquer um dos três que destaquei tem uma técnica a roçar a perfeição.

MS: É quase impossível fugir às três referências feitas pelo Nuno, anteriormente. Ainda assim, há um que pouca gente fala, porque praticamente ninguém o viu jogar, só mesmo em imagens, que é o grande campeão Joe Davis, tendo este senhor sido campeão do mundo 15 vezes consecutivas e, se hoje há snooker é muito graças a ele. Há depois duas linhas, a linha dos campeões e dos campeões do povo e, eu gosto das duas. Os primeiros onde se incluem Joe Davis, Steve Davis, Stephen Hendry, John Higgins e Mark Selby. E depois a outra linha que é começada por Alex Higgins, que foi uma “barbaridade” de jogador e, é continuada por Jimmy White, Ronnie O’Sullivan e agora nesta altura, talvez Judd Trump. Estamos a falar das duas faces da moeda, que é os que ganham e os que dão a ganhar ao jogo pelo espetáculo. E nesse aspeto tenho que destacar Ronnie O’Sullivan, que é o único que consegue juntar essas duas faces. Como pessoa eu identifico-me mais com Steve Davis, mas tenho que admitir que faltava alguma espetacularidade ao jogo do inglês. Toda gente gosta muito do Jimmy White, mas a verdade é que o inglês em seis finais de mundiais não venceu nenhuma e acaba a carreira com 10 ‘majors’. Toda a gente dizia que era impossível vencer jogos e dar espetáculo e Ronnie O’Sullivan veio provar a todos precisamente o contrário. Pegando um pouco naquilo que era o snooker no tempo de Joe Davis e fazendo uma comparação com Portugal, nós estamos naquela fase, ou pelo menos estávamos quando se começou a jogar por cá, em que se marca uma bola vermelha, seguido de bola de cor e caso haja uma má colocação da bola branca, defende-se. O Joe Davis quando começou a jogar era precisamente assim, ele foi o primeiro a tentar e a conseguir um ‘break’ vencedor. Depois vem o Steve Davis que faz isso com uma entrada centenária, seguido do Hendry que faz um 147, terminando com o O’Sullivan que faz uma entrada máxima em cinco minutos e vinte segundos.

Cada vez mais, é normal vermos jogadores veteranos a vencer ‘majors’, isso deve-se ao facto de terem uma maior experiência? Tal como outras modalidades individuais, o snooker é algo como 80% psicológico e 20% técnico?

MS: Isso é verdade, mas eu lembro-me na altura que entrei tive uma conversa sobre isso com o Nuno, em que se discutia muito qual era o período áureo de um jogador e, na altura defendia-se que esse período se situava entre os 35 e os 40 anos, e agora vemos esta geração a implodir isso mesmo. O Ronnie está a fazer a melhor época de sempre, o Mark Williams há muito tempo que não o víamos jogar tão bem, vemos inúmeros jogadores estrearem-se a ganhar provas depois dos 40 anos. Obviamente que o snooker não é uma modalidade que tem as exigências físicas de outras. Apesar disso vemos jogadores com algumas queixas físicas, como por exemplo o caso de Shaun Murphy, que tem tido problemas de coluna, o Mark Selby com problemas de pescoço, sendo tudo isso o suficiente para não ganhar, mas caso os jogadores tenham alguns cuidados físicos têm tudo para singrar com mais facilidade. O tempo de jogadores como o Stephen Lee acabou, tenho muitas dificuldades em acreditar que o Mark Allen algum dia possa ganhar um mundial. Vemos o caso do O’Sullivan que faz jogging todos os dias de manhã, o Neil Robertson é outro jogador que tem muito cuidado com a sua alimentação, sendo que todo este cuidado com o físico tem um peso enorme no Campeonato do Mundo, onde são 17 dias intensos e onde a componente física é um factor muito importante, estando sempre o cansaço físico ligado ao cansaço mental. Acredito que esta geração atual vai bater todos os records existentes e que o Ronnie O’Sullivan e o John Higgins vão jogar pelo menos até aos 50 anos, ou talvez mais, a conseguir ganhar provas.

NMS: Não é um desporto físico, como sabemos, mas é fundamental estar em boa forma. Apesar de a componente física não ser o mais importante, acaba muitas vezes por ser crucial, nomeadamente quando estamos a falar de extensões longas, e o mundial é a prova viva disso mesmo. E não é por acaso que se tem sentido que quem chega lá mais fresco tem sido Mark Selby, sendo de realçar o físico dele, a elegância dele, até o próprio “esticar” na mesa. Se tivermos com um peso acima do ideal é um sacrifício, estando assim a perder o foco naquilo que é o mais importante, perdendo concentração e mais energia que o normal. Não diria tanto como foi dito na pergunta, a percentagem 80/20, mas com certeza 70/30 será um valor aproximado da realidade e que demonstra que os jogadores têm necessariamente de estar bem psicologicamente.

Da esquerda para direita: Xavier Oliveira (Fair Play), Nuno Miguel Santos, Miguel Sancho (Fonte: Vasco Simões/Eurosport)
A nível nacional, o snooker está em expansão, também muito se devendo ao bom trabalho feito no Eurosport. Pegando um pouco nas palavras do Ronaldo (Gala Quinas de Ouro 2018), e “pensando em grande” como o próprio dizia, para quando um jogador luso no circuito profissional?

MS: Obviamente não existe resposta imediata para essa pergunta, já que está dependente de muitos fatores. Eu acho que o snooker em Portugal tem algumas dificuldades, que não é fácil sair delas e, falando agora como responsável de um dos espaços onde se joga snooker em Portugal, o Snooker Club Lisboa, em que me deparo diariamente com situações como o valor das mesas, a rentabilidade dessas mesmas mesas, já que essas mesmas ocupam cerca de 35 metros quadrados e, o que o gerente de um espaço onde se joga bilhar pensa nesse caso é quantas mesas de consumo poderia ter nessa mesma área. Nós temos actualmente em Portugal, dispomos de cerca de 30 mesas em espaços públicos de norte a sul do país e na ilha da Madeira. Além disso, o snooker não é uma modalidade que se aprende sozinho, mesmo usando tutoriais e vídeos existentes na Internet, sendo que isso por si só não chega, é necessário acompanhamento por parte de um treinador. E pegando em palavras ditas pelo próprio Ronaldo, nessa mesma gala, não quero estar a menorizar Portugal, sendo os problemas comuns a diversos outros países, como por exemplo, França, Espanha ou Itália. Ou seja, não tem propriamente a ver com Portugal, mas sim com Europa continental vs Reino Unido e aí algumas questões relacionadas com a própria World Snooker. É verdade que é vontade da World Snooker crescer a modalidade para Europa continental, mas continuam a realizar-se todos os apuramentos (Q School) somente na Inglaterra e portanto isto tem de mudar. Aquilo que a World Snooker tem obrigatoriamente de fazer, se quer ter jogadores de outros países no circuito, é disponibilizar técnicos próprios a irem aos outros países formarem técnicos locais, sem isso ter custos, ou com custos muito reduzidos para as respectivas federações. Aquilo que temos hoje em dia é algo muito bom, e digo isto com orgulho, porque tanto eu como o Nuno, lutamos muito para que isso acontecesse, já que temos jovens com alguma qualidade, como o caso do Diogo Badalo, que já foi campeão nacional, o caso do Tiago Teixeira, que tem umas condições fenomenais para vir a ser um bom jogador, não sei qual o patamar porque há diversos fatores que fazem com que um jogador possa ou não vir a tornar-se um grande jogador. Há inúmeros casos desses e não só em Portugal. Cá, em termos de formação só existem alguns raros episódios, sendo que talvez o melhor exemplo seja mesmo a Escola de Bilhar do FC Porto mas não de snooker, porque formação em snooker existe apenas uma pessoa, chamada Nelson Batista. Para dar aulas é preciso aprender a saber ensinar e essa é a parte mais difícil. O Shaun Murphy, aquando da visita do mesmo ao Snooker Club Lisboa, dizia algo deste género: “Vocês não imaginam, só na cidade de Manchester devem existir mil ou mais jogadores a fazerem entradas centenárias umas atrás das outras, que nem sequer estão no ‘main tour’, estando apenas a competir nas provas internas. O grande problema deles está apenas na falta de estaleca mental”. E nós em Portugal ainda nem sequer chegamos a esse nível, de termos um jogador que possamos dizer que se tivesse “cabeça” era profissional. O caso da Free Ball foi um projecto muito importante para a zona norte, obviamente que é importante que os clubes como o FC Porto, o Leixões, o Boavista também entrem na modalidade. Sobre este assunto, há uma história engraçada que aconteceu connosco há dois anos no Casino Estoril, que foi o Estoril Snooker Challenge, como aliás é hábito todos anos no lançamento do mundial por parte do Eurosport. Nesse ano havia um senhor que trabalhava naquele espaço, como porteiro no caso, e ao que à certa altura se dirige a nós e diz: “Não consigo perceber tanta dificuldade da vossa parte em embolsar bolas”, ao que eu lhe coloquei a bola amarela no sítio dela e a bola branca em posição para ver quantas vezes ele marcava a amarela no meio. Obviamente que não marcou nenhuma, tendo inclusive desistido à sétima ou oitava tentativa, chegando facilmente à conclusão de que “afinal isto é mais difícil do que parece”.

NMS: Em termos de formação nem todos são “Mourinhos”, é que para além de estudar a táctica, é necessário ensinar a técnica, sendo muito difícil ensinar essa técnica, quando esse formador não tem essa mesma técnica. Enquanto não existir alguém que reúna todas estas condicionantes para ensinar os jogadores portugueses não vai ser fácil termos um jogador luso no circuito profissional. Hierarquicamente, em termos temporais, já tivemos João Esteves da Silva, o Luís Alves, o Diogo Badalo e o Tiago Teixeira, sendo talvez os quatro grandes nomes de jogadores mais jovens, em que qualquer um destes sente exactamente esta carência que eu referi. Eu diria que a correr bem, e sem contar com aqueles jogadores que estão agora a “saltar para a ribalta” dentro da modalidade, nunca abaixo dos próximos dez anos teremos um jogador português como profissional. Se bem que ao dizer uma década, já estou de certa forma a ser algo simpático, sendo certo que os jogadores como o Diogo Badalo e o Tiago Teixeira podem abrir portas para as gerações futuras. Primeiro é necessário haver formadores com essa abrangência territorial e segundo é preciso que os clubes o queiram também.

O Fair Play agradece ao Nuno Miguel Santos, Miguel Sancho, bem como toda equipa do Eurosport, pela disponibilidade e simpatia demonstrada em todo o processo da entrevista. Desejando as maiores felicidades e o maior sucesso a ambos, quer como atletas, quer como comentadores e ao canal Eurosport.

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António Pereira RibeiroJulho 31, 20174min0

Em vésperas do encontro amigável entre as estrelas da Major League Soccer e o Real Madrid, actual campeão europeu em título, o Fair Play decidiu, com a ajuda dos comentadores da Eurosport Portugal Luís Cristóvão e Rodrigo Albergaria, escolher as figuras de uma competição entusiasmante cuja Fase Regular iniciou recentemente a sua segunda metade.

LUÍS CRISTÓVÃO

O XI Ideal de Luís Cristóvão

Mid-Season MVP – David Villa (New York City FC)

Continua a ser um jogador decisivo, um líder para uma equipa de NYC que está bastante mais forte. Sente-se que está mais liberto e confiante de que tem equipa para lutar pelo título.

Jogador Revelação – Miguel Almirón (Atlanta United)

Almirón, ainda que pelo estatuto que trazia, não se tratará tanto de uma revelação, mas de uma confirmação. Entre jogadores que não conhecia tão bem, Ring está a mostrar-se muito eficiente, levando mesmo Pirlo a passar a suplente.

Jogador Desilusão – Jermaine Jones (Los Angeles Galaxy)

Confesso que não percebi a sua contratação pelos LA Galaxy, porque não me parecia ser ele o jogador necessário para dar maior qualidade à ligação defesa-ataque da equipa. Entre lesões e más exibições, fica-lhe bem o lugar de desilusão do ano.

RODRIGO ALBERGARIA

O XI Ideal de Rodrigo Albergaria

Mid-Season MVP – David Villa (New York City FC)

Aos 35 anos, mantém todas as suas virtudes individuais no desempenho da função de homem mais avançado, ao qual tem aliado um sentido colectivo notável, que tem contagiado toda a equipa e sobretudo ajudado a crescer a malta mais nova como Jack Harrison ou Jonathan Lewis… tem sido fundamental no moldar da equipa às ideias ambiciosas do treinador Patrick Vieira.

Jogador Revelação – Julian Gressel (Atlanta United)

Nascido na Alemanha, onde chegou a fazer formação, destacou-se no futebol universitário Norte Americano e foi selecionado pelos Atlanta United no SuperDraft de 2017… Conquistou brilhantemente lugar no onze de Tata Martino que tem dado grandes espetáculos nesta 1ª metade da época e já marcou 3 golos e fez 6 assistências…

Jogador Desilusão – Kei Kamara (New England Revolution)

Em 2015 o avançado da Serra Leoa, então nos Columbus Crew, lutou com Giovinco pelo titulo de melhor marcador do campeonato… 2 anos depois o próprio jogador mostra-se desiludido com as suas prestações… depois de se ter incompatibilizado com Federico Higuain, forçando a transferência para os Revs onde, como o Austin Powers em “The Spy Who Shagged Me”, parece que perdeu o “Mojo”…

AS ESCOLHAS DO FAIR PLAY

O XI Ideal do Fair Play

Mid-Season MVP – David Villa (New York City FC)

Se no último ano, Villa recebeu o troféu de Jogador Mais Valioso de forma algo injusta, desta vez, em 2017, arrisca-se a repetir a façanha, mas com mérito incontestável. Mais do que os 14 golos e as 7 assistências, o avançado espanhol de 35 anos transforma o New York City FC numa equipa de topo a nível nacional.

Jogador Revelação – Nemanja Nikolic (Chicago Fire)

É verdade que Nikolic tem 29 anos, e já trazia consigo um historial profícuo da Hungria e da Polónia, mas poucos esperavam que o seu impacto em Chicago fosse tão substancial. Com 21 rondas da MLS disputadas, lidera isolado a lista de melhores marcadores, por ter concretizado 16 remates certeiros, contribuindo decisivamente para a boa classificação dos Fire na tabela.

Jogador Desilusão – Gyasi Zardes (Los Angeles Galaxy)

Determinante no último título conquistado pelos Galaxy em 2014, Zardes não tem conseguido confirmar o seu estatuto de promessa, e tarda em assumir-se como uma das figuras principais do plantel. Na presente temporada, o seu rendimento caiu ainda mais, coincidindo dessa forma com o mau momento colectivo do emblema californiano.

 

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António Pereira RibeiroNovembro 26, 20165min0

Em vésperas de conhecer os emblemas finalistas da Major League Soccer, pedimos aos comentadores da Eurosport Portugal que nos falassem sobre esta época atribulada. Nuno Santos, Luís Cristóvão e Rodrigo Albergaria aceitaram o desafio do Fair Play, e fizeram um balanço daquilo que presenciaram em 2016 nos relvados norte-americanos. Eis as respostas das vozes da MLS em território luso.

NUNO SANTOS

»Em relação ao ano passado a primeira nota que retenho é o facto de não termos tido uma grande estrela a assinar contrato com um dos 20 clubes da liga, ou seja, após o lançamento com  pompa e circunstância da edição dos 20 anos de MLS, ficou essa nota que a mim em particular me deixou surpreso. 

Depois em termos de qualidade de jogo mais uma vez o que se viu foram  equipas que na época regular apresentaram qualidade  mas que chegando aos Playoffs desiludiram.. .este particular  destaco pela negativa FC Dallas e os Red Bulls…Ainda coloco nesta categoria os campeões Portland Timbers que foram de facto uma sombra da equipa campeã em  2015.

Para ser coerente, voltei a apostar em equipas que eram apontadas para vencerem o titulo…e tiro ao lado. Apontei FC Dallas e Red Bulls e foi o que se viu..

Se existiu equipa que me surpreendeu foi Seattle. Estavam ligados à máquina para sobreviverem e acabam por ter uma segunda parte da época magnifica, fruto da chegada de Brian Schmetzer e essencialmente do “mágico” Nico Lodeiro…Muito e bom futebol se viu do internacional uruguaio.

Falando em Lodeiro falo do MVP da época…podia ser ele..podia ser Wright- Phillips mas escolho Ignacio Piatti, que me faz  lembrar Diego Valeri,  o “homem” que levou Portland ao colo na ultima época.

O rookie é a escolha mais óbvia, prémio entregue a Jordan Morris embora Jack Harrison acabe igualmente por fazer uma época fantástica. Treinador do ano Brian Schmetzer, acima de tudo por ter colocado Seattle na rota do titulo após um período onde já referi a equipa estava moribunda.

Um nota final para o regresso de Landon Donovan,um homem que se confunde com a própria  historia do “soccer”. Apesar do regresso, os milionários de L.A. voltaram a ficar longe do objectivo.»

LUÍS CRISTÓVÃO

«O Euro 2016 já me tinha apanhado em estúdio antes, por exemplo, o golo de Quaresma frente à Croácia foi vivido durante o directo dos Seattle Sounders contra os New York City e festejado em silêncio, mas o dia que ficará para sempre a marcar esta época foi o 10 de Julho de 2016. Depois de termos visto a final entre França e Portugal em directo já na redacção, eu e o Nuno Santos entrámos em emissão uns vinte minutos depois do fim do jogo, se tanto. Portugal campeão europeu e nós fechados numa sala minúscula, para comentar o jogo entre os New York Red Bulls e os Portland Timbers. Foi o jogo mais difícil de comentar da temporada.

Na minha cabeça, o golo do Éder, no meu corpo aquela sensação desconhecida de ser campeão europeu, uma certa apatia depois de tanta emoção durante os 120 minutos do jogo. Num dos ecrãs do computador, a festa que se vivia na rua. E, se alguém acompanhou esse jogo em directo, seguramente um discurso a rolar sem nexo, num jogo sem golos, sem outra história do que o ter acontecido no dia em que Portugal foi campeão europeu.

MVP: Bradley Wright-Phillips

Rookie: Jordan Morris

Sub-21: Cristian Roldán

Surpresa: Seattle Sounders

Desilusão: Portland Timbers

Treinador: Patrick Vieira

RODRIGO ALBERGARIA

»Chegou a altura das decisões do campeonato, que no Eurosport gostamos de dizer que não é um campeonato de futebol, mas sim de ‘soccer’…Major League  Soccer!

Como Rookie do Ano no papel de comentador começo por destacar uma tendência que julgo ter sido invertida neste ano de 2016… As equipas de Este pareceram-me mais fortes do que as de Oeste.

Melão do Ano para o despedimento de Sigi Schmid dos Seattle Sounders, enquanto no estúdio comentávamos tal situação ser praticamente impossível…E não é que os Sounders deram a volta!

MVP do ano é para mim Ignacio Piatti dos Montreal Impacts, pelos golos decisivos e pela elegância com que joga “à bola”. O Rookie do Ano é consensualmente Jordan Morris dos Seattle Sounders que revelou na sua 1ª época uma estaleca notável. A surpresa foi o “pegar de estaca” do uruguaio Nicolás Lodeiro, que chegou  a Seattle a meio da temporada para empurrar a equipa até à final da conferência e a desilusão é obrigatoriamente a equipa dos Red Bulls que passaram a época regular a praticar um futebol avassalador para chegarem à fase decisiva e tremerem que nem varas verdes…

Menção final para Andre Blake, guarda-redes dos Philadelphia Union que mostrou uma classe tremenda e para Tsubasa Endoh dos Toronto FC porque tem nome de desenho animado… Eu diverti-me à brava!!!»

Este Domingo, pelas 21 horas, Colorado Rapids e Seattle Sounders disputam um lugar na grande final da Major League Soccer. A partida terá transmissão em directo na Eurosport 1.

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Francisco IsaacNovembro 18, 201624min0

Para além dos jogadores, treinadores, dirigentes ou antigas Lendas do desporto, há um detalhe importante para qualquer modalidade: a narração e comentários nos jogos. Bernardo Rosmaninho, comentador da Eurosport, tem sido uma das “vozes” do rugby em Portugal. As opiniões, ideias e críticas ao rugby internacional e português.

fp. Bernardo… regressar ao booth da Eurosport para comentar e narrar os jogos da França. Qual é a sensação? Achas que devia ser uma aposta séria por parte do canal?

BR. Olá Francisco e saudações a toda a equipa e fãs do Fair Play. A sensação de voltar a comentar na Eurosport, sobretudo para narrar um conjunto de jogos destes, é de enorme felicidade e orgulho.

Claro que custa, tanto na Eurosport como nos restantes canais de sinal aberto em Portugal onde também comento rugby, ver a modalidade negligenciada e, pior ainda, ver que por contraste, nos canais pay-per-view, as transmissões até são empilhadas todas à mesma hora e sem qualquer preocupação com as consequências disso: a dispersão de audiências, um menor valor do produto e uma lógica de “encher chouriços” que não nos prejudicando (mais rugby na TV é sempre melhor), no cômputo geral, em pouco nos beneficia.

Desde que comecei a comentar jogos, faz cerca de 7 anos, que constato, tal como o resto da nossa comunidade, que os jogos de rugby na TV em sinal aberto são um evento esporádico, para não dizer uma gota num mar de outras transmissões desportivas, podendo (e devendo, na minha opinião) a Eurosport, por força da sua enorme relação histórica com a modalidade e da imagem muito positiva que tem junto do público, aproveitar esta lacuna na programação desportiva televisiva para voltar a fazer uma aposta consistente no rugby e com isso conquistar uma nova geração de telespectadores.

fp.O rugby e a Eurosport têm uma ligação mais profunda daquilo que as pessoas se lembram. O que se tem feito nos últimos anos?

BR. A ligação entre o rugby e a Eurosport começa com a criação da estação, em 1989, e mantém-se aos dias de hoje. Como Portugal não tem a mesma programação dos canais Eurosport que, por exemplo, a França e o Benelux, a Grã-Bretanha ou a Alemanha e os Países Nórdicos, tudo regiões que têm programação autónoma, estamos pelo menos parcialmente condicionados àquilo que é programado para a nossa região.

Nas últimas três décadas, a Eurosport transmitiu, no rugby, jogos de Campeonatos do Mundo, tanto em seniores masculinos como femininos e em juniores, e fez a cobertura de Campeonatos da Europa via tanto o 6 Nações ‘B’ como nos Sub-18 e nos Sevens. A nível de Clubes, a Eurosport sempre acompanhou os três principais campeonatos de França, o Top14, a ProD2 e o Fed1. Se isto não são exemplos de uma ligação profunda e continuada, ninguém os tem.

Infelizmente, nos últimos cinco/dez anos, as transmissões de rugby da Eurosport têm sido menos frequentes e a Portugal já não chega a cobertura das competições de clubes em França e, mais recentemente, dos Campeonatos do Mundo de Juniores, do Circuito Europeu de Sevens, do Campeonato do Mundo Feminino e Universitário, do Torneio das Nações do Pacífico, isto para não falar do Rugby Europe Championship (o torneio que apelidamos de 6 Nações ‘B’ onde Portugal até esta época, competia, tendo sido despromovido para o terceiro escalão europeu, o Rugby Trophy, que espero que os Lobos vençam já em 2017).

Estou a falar de provas que até 2016 (este ano ainda se transmitiu, por exemplo, o Mundial Universitário) foram comentadas por mim na Eurosport e que, progressivamente foram deixando de passar em Portugal.

fp.E o que gostavas de fazer?

BR. O que é que eu gostava de fazer, perguntas-me? Gostava que se apostasse na transmissão regular e constante da nossa modalidade na Eurosport (mesmo que fosse, inicialmente, apenas na Eurosport 2). Para criar uma audiência e sensibilizar o público que assiste ao desporto em geral, já para não falar da própria comunidade portuguesa de rugby, de que um canal está a investir na promoção do Rugby é preciso voltar a transmitir, durante um período mínimo de vários anos, várias competições ao longo da temporada e fazer o trabalho apropriado de comunicação das mesmas aos restantes media. Na Eurosport francesa estas provas ainda passam e se em Portugal voltarmos a ter estas e outras competições e conseguirmos sensibilizar as pessoas do rugby para a importância de verem os jogos, de visitarem, fazerem ‘like’ e comentarem os posts no facebook da Eurosport Portugal (fb.com/eurosportPT), podemos dar um contributo gigantesco para termos alternativas de qualidade e acessíveis à transmissão deste desporto no nosso país.

fp.Em relação aos Jogos de Outono, que esperas da França frente à Austrália? Aonde podem os Les Bleus ganhar o jogo?

BR. Espero que a França, frente à Austrália, seja consistente. E com isto quero dizer que a Austrália não vai dar à França, como a Samoa deu, tantas oportunidades para os gauleses praticarem aquele rugby que os tornou apelativos, o rugby ‘champagne’, aberto e alucinante, do qual o França v Nova Zelândia do Rugby World Cup de 1999, a melhor reviravolta e, provavelmente, o melhor jogo de sempre num Mundial, é fenomenal exemplo (youtu.be/LzuyAwxo2qE). Portanto, num desafio em que ambas as equipas estão em crescendo e procuram por melhores dias (e melhores exibições), espero que a França consiga fazer uma exibição sem muitos erros, que limite o jogo dos três-quartos Australianos e seja dominante nos avançados, o sector fundamental para uma vitória da equipa da casa.

O ‘quinze’ Europeu, após um Mundial de 2015 que terminou de forma desastrosa (a derrota às mãos dos All Blacks por 62-13 nos quartos-de-final é elucidativa), teve um Seis Nações 2016 horrendo (o quinto lugar só não foi pior porque a Itália perdeu todos os seus jogos) e fez uma digressão à Argentina e (até agora) um teste com a Samoa com resultados positivos mas, perante adversários de topo, inconclusivos.

Guy Nòves, Seleccionador Nacional desde Janeiro de 2016, tem feito um bom trabalho com a renovação da França e colocou os seus avançados a jogar de forma bem melhor, mas ainda tem um conjunto que a defender tem lacunas, e que nos três-quartos tem talento mas também não tem enorme eficácia face à quantidade de oportunidades que cria. Se a França quer vencer, os seus médios (Maxime Machenaud, o formação; e o abertura que substituir François Trinh-Duc, que está lesionado) têm que pelo menos não comprometer e os seus avançados têm que ser dominantes.

No meio da "confusão" (Foto: Luís Cabelo Fotografia)
No meio da “confusão” (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

fp.E qual pode ser o jogador-nuclear nesse encontro?

BR. Jogadores nucleares? Vejam bem a exibição do capitão Guilhem Guirado (este pode ser um momento importante para o veterano talonador), do três-quartos centro fenomenal Wesley Fofana (para mim o homem do jogo contra a Samoa) e por fim, do ponta Virimi Vakatawa, que até em Marte já deve ter fãs. Vakatawa tem que fazer a diferença neste sábado.

Não quero deixar de falar um pouco sobre a Austrália. Os ‘Wallabies’ foram à final do último Mundial e tiveram um Rugby Championship (o antigo Torneio das Três Nações, expandido em 2012 com a inclusão da Argentina) positivo. O Seleccionador Nacional, Michael Cheika, que teve um primeiro ano formidável, levando a Austrália à vitória no Rugby Championship de 2015 e à final do Rugby World Cup desse ano, parece-me estar a tentar organizar uma equipa que tem imenso talento, mas onde as peças por vezes não encaixam, sobretudo nos três-quartos, com atletas como Quade Cooper a revelarem-se elementos difíceis de acomodar no ‘quinze’ dos antípodas.

Nesta digressão à Europa a Austrália derrotou no primeiro jogo o País de Gales por claros 32 a 8, e sobreviveu a uma excelente Escócia para manter o objectivo do Grand Slam vivo numa vitória por 23 a 22. Este não será o teste mais difícil dos homens do hemisfério sul nesta janela internacional, mas será um daqueles embates em que se os ‘Wallabies’ não estiverem no seu melhor podem escorregar frente a uma França que tem definitivamente algo a provar.

fp.Quade Cooper ou Bernard Foley? E porquê?

BR. Evitei responder quais os jogadores a ter em conta da Austrália na pergunta anterior porque achei que esta vinha a caminho Francisco (risos). Bernard Foley.

O debate é interessante e válido, na medida em que ambos os jogadores são polivalentes, são usados no Super Rugby na mesma posição (médio de abertura) e têm fãs que os defendem de forma acérrima.

Michael Cheika, o seleccionador australiano, já os usou ao mesmo tempo e já rodou a camisola 10 por ambos. Se formos honestos temos que conceder que apesar de Quade Cooper ser um jogador de uma criatividade e disponibilidade ofensiva sensacional, ele não só é demasiado inconstante, como tem grandes fragilidades a defender, não por ser um mau defensor mas por ocasionalmente comprometer a equipa com falhas de posicionamento e de placagem.

Bernard Foley não tem um tecto, em termos de potencial, tão grande como Quade Cooper, mas não só é um melhor organizador de jogo como é bem mais constante, e pese embora também não ser um defensor de excelência ou um mestre no jogo ao pé, garante muito mais estabilidade na posição de médio de abertura.

Outros argumentos poderiam ser usados em defesa de Quade Cooper (o bom entendimento com Will Genia, o formação titular) ou de Bernard Foley (o recente momento de forma) mas o facto de neste momento ambos os jogadores estarem bem melhores a gerir o jogo da equipa, e da Austrália estar actualmente melhor preparada para causar calafrios às defesas adversárias, deve-se sobretudo ao bom trabalho da equipa técnica, em especial do treinador (ofensivo e de três-quartos) Stephen Larkham (ex-internacional com 102 jogos pelos ‘Wallabies’, médio de abertura desta selecção nos Mundiais de 1999, 2003 e 2007). E se esta equipa técnica decidiu claramente apostar no Foley como o titular com a camisola verde e dourada número 10, quem sou eu para os contrariar?

fp.Achas que os Les Bleus estão no caminho da recuperação? Qual seria a mensagem para os fãs dos gauleses que darias?

BR. Os ‘Bleus’ estão a fazer uma recuperação em termos de forma e de estilo de jogo e uma gradual renovação no seu ‘quinze’ rumo ao Mundial de 2019 e, até ver, parece-me que estão no bom caminho. Creio que os fãs da França sabem que este processo, por menos habituados que estejam a ver a sua selecção nacional a ter que passar por ele, demora tempo.

Ainda estamos a três anos do próximo Mundial e a França, tal como as outras nações do hemisfério norte, beneficia do facto de não ter, por contraste com a Austrália (por exemplo), um calendário anual tão exigente a nível competitivo. Dito isto, estes três testes de Novembro não são nada fáceis e Guy Nòves quer sobretudo elevar e dar consistência ao jogo da sua equipa.

O actual seleccionador inglês, Eddie Jones, após o Grand Slam da Inglaterra no 6 Nações, disse à sua imprensa que estava confortável com o facto do conjunto da rosa só defrontar os All Blacks a 2018. Disse isto daquele que é o adversário da França (a Nova Zelândia) para o terceiro teste, com quem a Irlanda joga duas vezes nesta janela de testes internacionais de fim-de-ano! Não restem dúvidas que Guy Nòves quer preparar a sua equipa para o próximo Seis Nações; agora só com o apoio dos fãs (e dos media, digo eu) franceses é que esta selecção pode ter uma vida menos agitada até que chegue, na primavera do próximo ano, o verdadeiro teste, o Torneio das Seis Nações de 2017, que na minha opinião deve decidir o futuro do antigo treinador do Stade Toulousain à frente dos destinos desta Selecção Nacional.

Bernardo Rosmaninho e Paulo Duarte (Foto: Do próprio)
Bernardo Rosmaninho e Paulo Duarte (Foto: Do próprio)

fp.Para o jogo da Nova Zelândia falaremos na próxima semana… mas achas que os franceses já estão com a cabeça nesse encontro?

BR. Não, de maneira alguma. Desde o Mundial de 1999, onde a França e a Austrália disputaram a final (a Austrália venceu por 35-12, celebrando o seu 2º e último, até aos dias de hoje, título de campeã do mundo), estes conjuntos defrontaram-se 18 vezes (contando com esse jogo). Sabes quantas vezes a França venceu? Cinco. E quantas vezes a Austrália foi derrotada em sua casa pelos gauleses entre 1999 e 2016? Zero!

Estes testes existem como forma de dar uma preparação gradual a uma selecção para os desafios maiores que aí vêm (o próximo Seis Nações). A Austrália não é a Nova Zelândia, isso é certo, mas por isso é que os All Blacks são o terceiro e último teste. Desde 2014 que os ‘Bleus’ e os ‘Wallabies’ não se defrontam (nesse jogo, a 14 de Novembro de 2014, também disputado no Stade de France, palco do encontro deste sábado, a França venceu por 29 a 26).

Acredita, eles sabem que o confronto e o ritmo competitivo destas equipas vai ser diferente (a Austrália vem de um Rugby Championship em que ficou em 2º lugar; a França de uma digressão à Argentina enquanto se disputavam as finais do Top14, e de um jogo contra a Samoa) e esse é o principal desafio. Igualar, esta semana, a intensidade e o ritmo dos australianos para que, na próxima semana e só então, com muita arte e engenho, se possa sonhar com uma vitória frente aos All Blacks.

fp.É importante existir esta vontade de darmos à comunidade meios que possibilitem um aumentar de cultura da modalidade?

BR. É sempre um prazer terminar esta conversa com o rugby português. Claro que temos futuro no Mundo da Oval! Esta iniciativa da Eurosport é um exemplo de uma miríade de acções que é preciso tomar se queremos ter um futuro como uma nação de topo (pelo menos do Top-20) do rugby mundial.

Foi em 1999 que pela primeira vez a World Rugby (então IRB ou International Rugby Board) reconheceu a prática da modalidade ao mais alto nível como profissional, dando início à era moderna do desporto da bola oval. Vinte anos depois, em 2019, disputaremos, no Japão, o nono Rugby World Cup. Ao olharmos para o rugby em Portugal será que encontramos muitas diferenças entre aquilo que era na altura e é agora a nossa modalidade? Mais importante, será que em 2019 seremos ainda uma nação da terceira divisão Europeia e Mundial ou aspiramos a mais do que isso?

Vemos o rugby como um exercício quasi-elitista entre amigos e (boas) famílias, uma brincadeira que o tempo, a carolice e o sacrifício de muitos transformou numa prática semi-organizada e semi-profissional, ou reconhecemos entretanto que temos que olhar de forma diferente para alguns sectores da nossa modalidade em Portugal sobre os quais mais teimamos falar mas onde só muito lentamente se muda algo?

Falo, e a nomenclatura pode mudar conforme a quem perguntes, da componente mediática, competitiva e internacional do Rugby em Portugal.

Falamos todos os anos de mudar a estrutura dos Campeonatos, sobretudo nos seniores. Mas será que já se pensou que é preciso um compromisso de pelo menos um ciclo olímpico (4 anos) para que se consiga: 1) tirar ilações acerca da melhoria e eficácia ou não do sistema implementado; 2) permitir aos clubes, aos media e aos parceiros institucionais (Juntas e Câmaras Municipais, Entidades Públicas que cedem campos, carrinhas e até verbas para a prática desportiva) que se habituem e tenham uma estrutura competitiva compreensível e estável à volta da qual podem planear as suas actividades e iniciativas; 3) desenvolver algum tipo de crescimento sustentável e de preparação internacional, e organizar provas internacionais cá em Portugal com médias de assistência superiores a 100 pessoas nas bancadas? Estas são apenas algumas noções mas parece-me óbvio que a nossa organização competitiva não só deixa muito a desejar, como deixa jogadores (sobretudo os jovens, os das divisões inferiores e o rugby feminino), pais, clubes e patrocinadores em “águas de bacalhau” ano após ano.

O mesmo acontece com os media em Portugal. Os nossos jovens têm uma quantidade cada vez maior de desportos a competir com o rugby pela sua atenção e tempo. O que é que temos para lhes oferecer em termos de conteúdo mediático? Um vídeo de 2007 dos Lobos a cantar o hino? O website da FPR? As redes sociais dos Clubes?

É ridículo como de 1999 para cá o tipo de projectos que ainda subsistem são, com nomes e pessoas diferentes, algumas revistas online, blogues pessoais, páginas de facebook e umas crónicas nos diários desportivos (ah, e rugby português em canais fechados a pagar). Como é que não olhamos para o Surf, para o Futsal, para o Bodyboard, para o Andebol, para o Basquetebol, para o Corfebol, para o Ténis e para o Padel, para os E-Sports e para outros desportos que não nomeei aqui (para os quais ano após ano perdemos atletas que poderiam estar a experimentar e a praticar rugby) e chegamos em segundos à embaraçosa conclusão que todas estas modalidades têm pelo menos um ou dois websites dedicados em exclusivo ao acompanhamento, compilação de dados e promoção da modalidade, com conteúdos de multimédia apelativos e pessoais, em vez de jogos completos e streamings que só 10 pessoas vão ver!?

Numa modalidade em que não se faz muito conteúdo de multimédia criativo, onde não consegues entrar num balneário de um clube ou selecção num pré ou pós jogo (apesar de as transmissões internacionais que vemos, e falo por exemplo da última da Eurosport e das próximas, começarem com um plano de uma câmera dentro do balneário de cada selecção; e de nos Sevens faz quase décadas! que podemos, ao intervalo, ouvir o discurso dos treinadores e ver os jogadores bem de perto a interagirem), onde andamos literalmente “às moscas” em termos de assistência média nas bancadas, onde temos um desporto lindo, com boas pessoas e bons intervenientes, um desporto de família e amigos, onde podemos e devemos apostar em trazer pessoas novas, primeiro (porque é mais fácil) aos jogos das selecções nacionais e depois aos dos clubes; continuamos a apostar em afastar espectadores (e por inerência praticantes, parceiros e verbas) ao marcarmos (por exemplo) X número de jogos ao mesmo tempo, no mesmo dia, enquanto as nossas Selecções jogam!

Em vez de resumos, boas crónicas, transmissões em canal aberto divertidas, vídeos de eventos e de iniciativas giros, que mostrem o que se faz (e quem o faz) durante o ano, boas fotos (e temos fotógrafos tão bons no rugby português!), em vez de informação e notícias em barda, o que é que chega aos media e ao grande público?

Chega por vezes o trabalho esforçadíssimo de alguns projectos nas áreas acima mencionadas, das quais dou como exemplos a nível do jornalismo pessoal o blogue Mão de Mestre, a nível do registo fotográfico o Rugby Photo Store e a um nível mais organizado e institucional a antiga página de râguebi no P3 do Público e agora um espaço multimodalidades como o Fair Play, mas infelizmente também chegam as notícias do costume (vazias de conteúdo e informação útil), chegam transmissões e streamings ou em sinal fechado ou de má qualidade (ou pior, ambas) que não interessam a ninguém; em vez de uma boa divulgação, do investimento na promoção das finais, quer seja das Selecções ou dos Clubes, mas não só dos seniores masculinos, de vários escalões e da presença das pessoas e das marcas nas bancadas. Os jogos e os resumos podem vir depois, mais tarde, na TV ou online, para consumo do nosso público nacional e internacional, mas essa não é a prioridade. A prioridade tem de ser colocar as pessoas a ver, a ler e a jogar bom rugby, tem que ser a de dar força a uma estrutura e a um conjunto de infraestruturas sobre as quais podíamos e ainda podemos investir mais e melhor.

Mais um convidado em sua "casa" (Foto: Do próprio)
Mais um convidado em sua “casa” (Foto: Do próprio)

fp.Temos futuro no Mundo da Oval?

BR. Claro que sim, se aceitarmos que o Mundial de 2007 já passou e que estamos (quase) de volta à estaca zero, portanto importa agora lutarmos pelo rugby nacional, pelo bom trabalho de formação e resultados que Clubes, Associações Regionais e Selecções (em especial as jovens) fizeram entretanto, pelos clubes que, fora das grandes cidades, fora de Lisboa em especial, cresceram e se implementaram ao longo de Portugal e pelas pessoas que, com mais ou menos sacrifício, vão contribuindo, vão acrescentando dentro e fora de campo com tempo e dinheiro, com organização, com apoios e acima de tudo, com muita paixão pela oval e pelo emblema que vestem.

Claro que sim, se compreendermos que os árbitros são uma parte essencial da formação e crescimento de uma modalidade e que têm que ser correctamente remunerados e acarinhados, não encostados ou enxovalhados como um veículo de que até precisamos mas onde sobretudo se descarregam as frustrações sobre o mau nível do rugby jogado quando este nunca vai melhorar se não se der espaço aos árbitros para também melhorarem.

Claro que sim, se a nossa comunidade aceitar que quem joga lá fora tem, inevitavelmente, um nível competitivo mais exigente e está à priori a jogar a um nível mais alto do que aqui dentro, e que é para a ProD2, para o Top14, para o Championship e para a Premiership, para os outros países do Seis Nações que os nossos jovens devem ir jogar se querem ser profissionais, se queremos, à semelhança da Geórgia e da Roménia (por exemplo), ter um futuro e uma presença regular nos Mundiais de Rugby.

Claro que sim, se os nossos dirigentes pararem de importar estrangeiros a granel de cada vez que existe dinheiro ou como via para substituir um bom trabalho de formação, isto enquanto ao mesmo tempo tratamos como mercenários os jogadores portugueses no estrangeiro, em especial os luso-descendentes, aquela gente que não vivendo cá sente por vezes Portugal bem mais do que nós e faz das tripas coração para poder competir pela Selecção.

Claro que sim, se fizermos dos media um parceiro ao qual se abre as portas (e os balneários) da modalidade e dos investimentos nessa área uma resposta inteligente a uma oferta que cada vez é maior e mais competitiva em vez da constante e mentecapta canibalização de espaços e janelas de atenção mediática entre Clubes, Selecção e entre os vários escalões competitivos.

Notem que, no que a este entrevistado concerne, fundei após o Mundial de 2007 um dos primeiros websites e lojas virtuais dedicados em exclusivo ao rugby, o Rugby Portugal (agora inactivo) e dediquei, como comentador, fotógrafo e cronista (amador, por respeito aos excelentes profissionais que abundam no nosso desporto), os meus últimos anos à promoção do rugby português. Falei do multimédia porque esse é o meio do futuro e a Xperience Sports Media, empresa onde tenho uma participação, continua a ser responsável por alguns dos bons exemplos que dei via os seus vídeos, mas existem mais exemplos, têm que existir, porque só assim o trabalho dos media, como o rugby, melhora e cresce.

Claro que sim, se formos inclusivos, trouxermos gente nova e espectadores novos para os jogos de rugby e não só o deste sábado à noite (20h) entre a França e a Austrália na Eurosport 2 ou o do sábado seguinte (à mesma hora) contra os All Blacks. Se reconquistarmos espaços, na TV pública, nos media, no desporto escolar, na atenção do público, onde a modalidade já esteve, chegaremos não só a um novo Campeonato do Mundo, mas também teremos um futuro sustentável enquanto comunidade.

Obrigado e um abraço.

Podem ouvir o Bernardo Rosmaninho sábado às 20:00 na Eurosport no jogo entre França e Austrália, no qual o Fair Play fez a sua antevisão.

A voz do Rugby na Eurosport (Foto: Do próprio)
A voz do Rugby na Eurosport (Foto: Do próprio)
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Francisco IsaacNovembro 10, 201610min0

Num país “dominado” pelo futebol, existem, ainda, algumas cadeias de televisão com vontade de nos mostrar outros “Mundos”. É o caso da Eurosport que vai trazer rugby à televisão portuguesa, em sinal aberto, com um França-Samoa, este sábado às 17 horas.

Num país dedicado à redonda, com um público absorvido entre as antevisões, jogos, resumos e debates do Domingo ou de Segunda-feira, as restantes modalidades vão lutando por um lugar ao “sol”.

A Sport TV, única empresa de transmissão televisiva de desporto, tem reservado alguns espaços para as modalidades nos seus cinco canais. Mesmo assim, continuamos a ter casos em que a transmissão X ou Y são reprogramadas para dar espaço a um jogo de futebol ou, pior ainda, a um debate entre convidados e comentadores pré-jogos que acabam por não ter um interesse tão grande como deviam.

O rugby foi sempre uma das modalidades de excelência da Sport TV, tendo decidido, logo ao início, ter um um programa (o Área de Ensaio) dedicado ao rugby português, onde podíamos ouvir algumas das personagens e personalidades do Campeonato Nacional e/ou da Selecção portuguesa. Do “menu” de programação constavam: Seis Nações (até 2002 a RTP2 passava alguns dos jogos desta competição europeia), o Tri-Nations (agora Rugby Championship), Super Rugby, Mundial de Rugby e mais uma competições, isto numa altura que a Sport TV tinha só entre 1 a 3 canais.

Com a expansão da cadeia, o rugby perdeu o seu “lugar” e foi sendo substituído… agora só podemos assistir a um programa semanal da World Rugby (traduzido e comentado por António Aguilar, um dos comentadores/repórteres com maior experiência, em Portugal), as Seis Nações (entre Fevereiro a Abril), o Mundial de Rugby e a European Champions Cup. Os jogos são poucos, a informação ainda menor e alguns dos comentadores não apresentam a qualidade pedida para que a comunidade da oval portuguesa perceba bem o que se passa no jogo (um mal comum na Sport TV).

A Comunidade do Rugby portuguesa: em expansão ou estagnação?

A comunidade da oval portuguesa também pouco fez para lutar contra este marasmo e problema, criticando pouco e mobilizando-se ainda menos para obter mais direitos e formas de ver os jogos. A liga Portuguesa foi, em tempos, explorada pela RTP2 ou Sport TV com alguns dos jogos a passarem na televisão… nos dois últimos anos ficámos arredados às finais de Campeonato e, também, da Supertaça. Mas em 2016 “saímos” de cena e só tivemos a final transmitida pela Review Sports, em parceria, com a Federação Portuguesa de Rugby no Youtube.

A RTP2 ainda chegou a transmitir uma variedade de jogos internacionais (notas para os Mundiais de 1995, para a França de Serge Blanco e pela chegada da Itália às Seis Nações). Assim como a selecção de Portugal que tinha a sua “casa” na TV pública, com os jogos dos Campeonatos da Europa de XV e 7’s a terem um espaço especial. Porém, com o tempo a RTP “desistiu” o rugby e hoje não há qualquer tipo de transmissão.

Numa primeira conclusão, podemos dizer que o rugby está a “desaparecer” do nosso dia-a-dia, que há menos jogos na televisão, com o impacto da modalidade a ser cada vez menor. Isto leva a que adeptos, que não estejam acostumados à modalidade, não se deixem “levar” tão facilmente (quantos jogadores, adeptos, pais ou amigos, ficaram entusiasmados com o rugby só por verem um bom jogo entre a Nova Zelândia e a Austrália?) o que tira a possibilidade de garantir novos espectadores. Isto representa a perda de um elemento importante para alimentar a nossa cultura da modalidade.

Os jogadores das camadas jovens dos vários clubes portugueses, são “filhos” de uma geração tecnológica, o que lhes permite ver os jogos em streamings, o que ainda requer algum esforço e vontade por parte destes para irem busca destas “fontes de informação”. Mesmo assim, os streamings têm problemas, seja pela qualidade de transmissão ou de variedade, existe a necessidade de ter uma boa net (e plataforma tecnológica) e de terem que ter uma boa dose de paciência para ir em busca de um canal que lhe possibilite ver o jogo.

A ReviewSports, uma empresa de multimédia, surgiu entre 2013-2016 como um dos streamers oficiais do rugby Nacional, com a passagem em directo dos vários jogos da Divisão de Honra. Foram responsáveis por transmissões de finais (Taça ou Campeonato) ou de BeachRugby’s. Todavia, para a nova temporada não haverá mais streaming dos jogos, ficando o Campeonato Nacional, para já, ao abandono.

No meio deste “deserto” de possibilidades, a Eurosport surge como uma nova forma de obtermos acesso aos jogos com um acompanhamento aos Jogos de Outono da França. Será o primeiro jogo internacional de seniores de XV, em sinal aberto, em muitos anos… acaba por ser um marco na História da comunidade do rugby portuguesa, um marco, também, terrível de assinalar… já que em tantos anos da nossa comunidade (o início da modalidade em Portugal remonta aos anos 40/50) só voltamos a ter rugby em sinal aberto na Eurosport em 2016, o que é um mau sinal, também.

A cadeia de televisão francesa, com um canal aberto (e dois fechados) em Portugal, já teve uma participação bem interessante na divulgação da modalidade com a transmissão de Campeonatos do Mundo de sub-escalão sénior ou Campeonatos da Europa de 7’s. O Pacific Nations foi, também, alvo de transmissão para Portugal, dando-nos um “aperitivo” do que era o rugby nas Ilhas do Pacífico.

A Eurosport como fomentadora da cultura desportiva em Portugal?

E que jogo escolheram para estrear em canal aberto? Bem, a Eurosport optou por França-Samoa, encontro que vai ter de tudo um pouco: desde o rugby champagne (menos efusivo que em outras alturas), poder físico (o impacto de ambas avançadas vai ser, no mínimo, curioso de assistir), o embate do espírito guerreiro (teremos a Samoa a fazer o seu Siva Tau) e detalhes técnicos de alguns dos jogadores mais intensos do Mundo (Louis Picamoles, François Trinh-Duc ou Ken Pisi).

Adiantamos as convocatórias de ambas as selecções:

FRANÇA

franca

SAMOA

samoa

O França-Samoa será um jogo eléctrico, que Guy Novés sentirá a obrigação não só de ganhar, mas, e principalmente, deslumbrar os seus adeptos. Marcado para as 17:00 (horas portuguesas), o jogo será realizado em Toulouse, no Estádio local.

O que esperar da França? Entrega, vontade de mostrar as suas capacidades técnicas e provar que a sua avançada é uma das mais competentes a nível europeu. O último jogo teste (o qual, nós portugueses podemos chamar de amigáveis) foi frente à Argentina, com uma vitória por 27-00. Nesse encontro o rugby mais eficaz, competente e lúcido permitiu aos Les Bleus sair com uma vitória de Buenos Aires, com François Trinh-Duc e Louis Picamoles em grande forma. A selecção de Novés está muito longe do rugby champagne de outrora, apesar de ainda existirem em alguns momentos, pormenores fantásticos. Há uma ausência de velocidade dos 3/4’s ou uma falta intensidade do apoio ao portador da bola (o apoio existe, contudo sem vontade de jogar uma 2ª bola rápida), o que pode acarretar problemas para em jogos mais dinâmicos, como será contra a Nova Zelândia.

Numa convocatória cheia de “estrelas” e nomes de alta qualidade, destacamos os regressos de Eddy Ben Arous (falhou o último jogo das Seis Nações 2016 e os amigáveis de Verão), Brice Dulin (em grande forma o defesa ado Racing Metró), Noa Nakatici (tem sido um dos centros mais fortes do TOP14 2016-2017, dando vitórias ao seu Clermont) e Jean-Marque Doussain. Hugo Bonneval, Morgan Parra ou Yacoube Camará não mereceram chamada de Novés.

Vakatawa a toda a velocidade (Foto: L'Equipe)
Vakatawa a toda a velocidade (Foto: L’Equipe)

E do outro lado, quem estará? A poderosa Samoa. Não sendo uma das melhores selecções do planeta, é uma das que possui maior poder físico e com um nível de entrega/dedicação de se louvar. Alama Ieremia convocou vários “jovens”, ou seja, vários jogadores que jogaram pouco pela Samoa internacionalmente, naquilo que está a ser uma renovação dos “quadros” de atletas: só 15 destes 33 é que estiveram no Mundial 2015; e só 8 marcaram presença no amigável de verão frente à Geórgia (19-19). Nesse jogo, a maioria dos jogadores “europeus” não puderam jogar por ordem das suas equipas, o que obrigou a Ieremia a convocar muitos jovens e a dar uma oportunidade, percebendo se existe, ou não, material para o futuro da Samoa.

A equipa do Pacífico conseguiu com esta vinda à Europa, contar com vários dos seus melhores atletas como George Pisi (um dos irmãos Pisi, tem um jeito único de pegar a oval e sair com ela a jogar), Jack Lam (asa muito aguerrido do Bristol, equipa que foi promovida à Aviva Premiership), Paul Perez (ponta do Toulouse), Ole Avei (bom início de época do pilar do Bordeaux) ou Ken Pisi (rápido, ágil e com um offload de belo efeito).

O que é o rugby samoano? Físico, uma “agressividade” apaixonante e uma força “selvagem”. É uma equipa que gosta de estar no meio do “combate”, de lutar por cada metro, de “arregaçar” as “mangas” e trabalhar no ruck, maul ou formação ordenada. Porém, há problemas estruturais, por assim dizer, com a falta de ligação entre os seus 3/4’s, um apoio que acaba por se escassear quando “esticam” o jogo ou o excesso de penalidades que cometem, permitindo o seu adversário ir subindo no terreno. Não será um jogo fácil para a Samoa, que precisa de mostrar o seu melhor, para obter um resultado histórico.

O duelo entre o Champagne em fase de Revolução e o Espírito de Guerreiro em excesso

O França-Samoa será o primeiro de três jogos transmitidos pela Eurosport2, no qual o Fair Play estará envolvido como convidado no “banco” de comentadores (pela 3ª vez, já que antes António Ribeiro, com a MLS, e André Coroado, com o Futebol de Praia, marcaram presença no canal desportivo).  Um agradecimento especial a Bernardo Rosmaninho pela atenção ao nosso espaço de discussão e promoção de ideias, sendo ele o comentador-principal para o rugby no canal de origem francesa.

França vs. Samoa – 12 de Novembro (a partir 16h45)
França vs. Austrália – 19 de Novembro (a partir das 20h00)
França vs. Nova Zelândia – 26 de Novembro (a partir das 20h00)

A Sport TV também irá investir esforços na transmissão dos Jogos de Outono, com o Inglaterra-África do Sul, País de Gales-Argentina, Irlanda-Canadá e Austrália-Escócia. O Portugal-Bélgica também será merecedor de transmissão em directo, na mesma estação, com a hora de jogo marcada para as 15:00 (o jogo será no Complexo Desportivo de Setúbal) deste sábado, 12 de Novembro.

A lista de jogos da SportTV


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