Em prol do rugby feminino em Portugal
Com a temporada de clubes (praticamente) terminada, é agora o momento em que entramos para a fase de selecções, com os Lobos a estarem a caminho dos EUA para disputar as primeiras três jornadas da World Rugby Nations Cup, enquanto as Lobas irão só ter a selecção de 7s a entrar em acção com a participação no Women’s Rugby Europe 7s Championship Series. Apesar da época de XV das selecções europeias de rugby feminino só entrar em cena a partir de Setembro com o WXV, Portugal não vislumbra qualquer actividade internacional nesta variante, algo preocupante.
Percebendo desde logo que a selecção masculina sénior XV tem direito a mais fundos, apoios e investimento pelos feitos conquistados nos últimos seis anos, não podemos aceitar que exista uma desigualdade tão clara entre os dois ‘mundos’ até porque só alimenta a imagem que a Federação Portuguesa de Rugby só tem olhos para o masculino e que o feminino serviu de bandeira eleitoral, estando vagorosamente a caminhar para um fim conturbado. Posto isto, várias perguntas surgem neste momento e que merecem não só atenção como resposta: qual é o investimento alocado pela FPR no rugby feminino em geral? E na selecção de XV? E no desenvolvimento de atletas? E no staff? São questões e dúvidas que a instituição que rege a modalidade em Portugal terá de responder no imediato, uma vez que a margem de diferença entre Espanha, Países Baixos e a Bélgica começa a aumentar, algo que poderá empurrar as Lobas para o nível intermediário das competições Rugby Europe.
Novamente, e apesar do esforço imenso de atletas, staff, voluntários, pais, mães e funcionários, parece que a direção da Federação Portuguesa de Rugby tem pouco ou nenhum interesse em apostar no rugby feminino, tendo oferecido uma mínima ‘cenoura’ há uns anos atrás, para depois retirar 90% dos apoios e atenção numa selecção que merece muito mais. Se o argumento a favor da retirada do apoio é ‘que não ganham jogos’ ou que ‘não trazem qualquer rendimento ou investimento que se veja’ para a FPR, então a resposta é dada em três medidas:
1- federações e selecções do nível de Portugal trazem sempre mais prejuízo que rendimentos, o que força desde logo o desenvolvimento de um plano coerente e a longo prazo que permita atenuar esse ‘dano’ calculado;
2- medir o volume do investimento pelo sucesso imediato é postura de quem não tem visão para estar neste meio, o que já valeu, no passado, uma descida aos infernos aos Lobos;
3- o rugby feminino em Portugal nunca teve uma real oportunidade para crescer, tendo só atingido a dimensão actual através de um sacrifício imenso que poucos têm noção, combatendo também todo o tipo de preconceitos que muitos do rugby nacional gostam de tecer.
A máxima do ‘quando ganham são os maiores, quando perdem são os piores’ é algo que parece ainda ser inerente a uma boa parte da comunidade do rugby português, com a selecção de XV feminina a ser vítima desse pensamento imposto pelos pobres de espírito e sem visão. É fácil atribuir exclusivamente culpas a seleccionadores e jogadoras, mas ninguém parece interessado em querer colocar pressão à presidência da FPR que parece completamente desinteressada em dar o empurrão ao rugby feminino que merece, isto e apesar do comboio do Mundial 2029 já ter saído da estação.
O rugby feminino em Portugal merece muito mais do que ser tratado como o parente pobre do rugby nacional português e merece todo o respeito e atenção daqueles que gostam verdadeiramente de rugby. A misoginia não tem lugar em nenhum lugar na vida, e para aqueles que acham que o rugby jogado por mulheres não é nada mais que uma ‘brincadeira’, bem, a esses mais vale nem dar atenção, porque não percebem sequer o que é a vida, quanto mais o desporto.



