Surf, Sol e Longevidade: um guia para o surfista
Há uma verdade simples que muitos surfistas ignoram durante demasiado tempo: o mar dá-nos liberdade, saúde mental e ligação à natureza… mas também nos expõe a um dos maiores riscos silenciosos da vida ao ar livre — o excesso de sol. Quem surfa desde miúdo conhece bem a sensação. Horas dentro de água, vento fresco, céu aberto, reflexo do sol no mar. O problema é precisamente esse: o corpo nem sempre sente o calor real da exposição. E ao contrário de uma lesão no ombro ou de uma quilha no pé, os danos solares acumulam-se devagar, sem fazer barulho.
O resultado aparece anos mais tarde.
O Surfista e a Exposição Solar: Uma relação permanente
O surf é um desporto de repetição. Não são apenas “umas férias ao sol”. São décadas de exposição contínua:
- Madrugadas no mar
- Sessões de verão de várias horas
- Reflexo UV da água
- Viagens tropicais
- Competição, pesca, vela, praia
O rosto, o pescoço, as orelhas, os ombros e as mãos tornam-se as zonas mais castigadas. Muitos surfistas veteranos carregam hoje marcas visíveis dessa vida ao sol: manchas, envelhecimento precoce da pele, rugas profundas e, nos casos mais graves, cancros cutâneos. E aqui convém dizer as coisas como são: não interessa se tens pele morena, se “nunca queimas” ou se o teu avô surfava sem protetor. A radiação UV não negocia com ninguém.
Bronzeado não é saúde
Durante muitos anos associou-se o bronzeado a uma imagem saudável e atlética. Hoje sabe-se que o bronzeado é, na prática, uma resposta de defesa da pele contra agressão solar. Ou seja: quando a pele escurece, ela já está a sofrer danos.
No surf existe ainda uma cultura antiga de resistência:
“não preciso de lycra”,
“o protetor incomoda”,
“fico bem assim”.
Mas a realidade moderna trouxe mais informação — e felizmente também melhor equipamento. Cuidar da pele não tira identidade ao surfista. Dá-lhe mais anos de mar.
O que um surfista deve fazer ao longo da vida
1. Protetor Solar não é opcional
Um bom protetor resistente à água, com FPS 50+, deve fazer parte do ritual antes de entrar no mar, como passar parafina na prancha.
Idealmente:
- Aplicar 20 a 30 minutos antes da sessão
- Reaplicar após longas sessões
- Dar atenção ao nariz, orelhas e lábios
- Preferir fórmulas minerais e amigas do oceano
Hoje existem sticks específicos para surf que resistem muito mais tempo dentro de água.
2. Lycra e Roupa UV são inteligência, não fraqueza
Antigamente quase ninguém usava proteção UV. Hoje até surfistas profissionais o fazem regularmente.
Uma boa lycra:
- reduz drasticamente exposição solar,
- protege a pele durante horas,
- ajuda até contra irritações e frio do vento.
O mesmo vale para chapéus técnicos de surf em sessões longas ou pesca embarcada.
3. Evitar as horas mais agressivas
Sempre que possível:
- surf cedo,
- surf ao final da tarde.
Entre as 11h e as 16h, especialmente no verão, a intensidade UV torna-se brutal. Portugal tem hoje índices UV muito mais elevados do que há 20 ou 30 anos, e isso sente-se particularmente no Atlântico.
4. Vigiar a pele regularmente
O grande erro é esperar que algo “pareça grave”.
Todo o surfista devia:
- observar sinais novos,
- controlar manchas que mudam,
- verificar feridas que não cicatrizam,
- fazer consultas dermatológicas periódicas.
Detectado cedo, o cancro da pele tem elevada taxa de tratamento. Ignorado durante anos, muda vidas.
O Oceano ensina respeito — também pelo corpo
Existe algo profundamente bonito na cultura do surf: a ligação à natureza. O mar ensina humildade, paciência e respeito pelos elementos. Mas esse respeito deve incluir o próprio corpo. Muitos surfistas cuidam da prancha ao detalhe:
- lavam o fato,
- afinam quilhas,
- reparam riscos imediatamente.
E depois passam décadas sem cuidar da própria pele.
A verdade é simples: o objetivo não é apenas surfar bem hoje. É continuar a entrar no mar aos 50, 60 ou 70 anos com saúde, energia e qualidade de vida.
Porque o melhor surfista não é o que apanha mais ondas numa sessão.
É o que consegue continuar a surfar durante toda a vida.



