Brasil mais forte do que Portugal num arranque lamacento de 2020

André CoroadoMarço 1, 20207min0

Brasil mais forte do que Portugal num arranque lamacento de 2020

André CoroadoMarço 1, 20207min0
Portugal e Brasil defrontaram-se no clássico das areias por duas vezes este fim-de-semana, em particulares realizados na Praia do Gonzaga em Santos. O Brasil venceu nas duas ocasiões, tendo as duas formações escrito uma história bem distinta no lamaçal de uma praia que não se apresentou à altura do duelo mais aguardado da história da modalidade.

As selecções nacionais de Portugal e Brasil iniciaram o programa competitivo de 2020 com dois amigáveis disputados na Praia do Gonzaga em Santos, no estado de São Paulo, Brasil, tendo a vitória sorrido à formação Canarinha nas duas ocasiões. Num terreno particularmente impróprio para a prática da modalidade, as duas formações protagonizaram um espectáculo atípico de futebol de praia, tendo os comandados de Gilberto Costa prevalecido sobre os actuais campeões do mundo. Os jogos, no entanto, conheceram histórias bem distintas…

Triunfo brasileiro por 4-2 em jogo sem história

Num confronto que não contou com transmissão televisiva, o Brasil entrou determinado a providenciar uma demonstração cabal da sua força com uma vitória contundente sobre o novo campeão mundial, Portugal. Se as hostes lusitanas ainda conseguiram conter as investidas brasileiras no primeiro período, que terminou com uma vantagem magra de 1-0 para o escrete, o mesmo não se verificou no 2º período, em que a melhor adaptação da turma sul-americana ao lamaçal de Santos culminou com uma vantagem de 4-0 sobre os pupilos de Mário Narciso. Já no 3º período, os irmãos Bê e Léo Martins, na sequência das boas combinações a que nos têm habituado, reduziram a desvantagem no marcador, colocando o resultado final em mais honrosos 4-2.

Em todo o caso, a maior contrariedade para as cores lusas prendeu-se com a lesão de Jordan Santos, o melhor jogador do mundo da actualidade, que não pôde alinhar na partida de domingo e aguarda uma resonância magnética para averiguar a gravidade da sua lesão. O encontro marcou também a primeira partida de Portugal sem Madjer, que pela primeira vez observou o jogo da bancada enquanto coordenador do futebol de praia da FPF, e o primeiro compromisso de Belchior envergando a braçadeira de capitão.

Resposta portuguesa no Domingo, com reviravolta e nova vitória Canarinha

Atendendo à diferença de intensidade competitiva entre as duas selecções, natural atendendo aos meses de paragem de inverno no hemisfério norte e assumida pelo seleccionador nacional, seria de esperar uma partida da contornos idênticos na manhã deste domingo na praia do Gonzaga. Também o elevado teor de água da arena permitia antever uma partida atípica, em tudo semelhante à de sábado. No entanto, se o estilo de jogo foi o mesmo, a força relativa das duas selecções foi bastante distinta, tendo Portugal surgido nitidamente mais forte no primeiro período.

Com efeito, os lusos entraram mais determinados em campo, deixando desde logo alguns avisos por intermédio dos irmãos Martins. A materialização da superioridade lusa chegaria dos pés de Rúben Brilhante, que aproveitou uma bola perdida em zona central para visar, num remate ultra-preciso, o ângulo superior esquerdo da baliza de Mão. O Brasil ia respondendo por jogadores como Mauricinho e FIlipe, mas Andrade demonstrava grande solidez entre os postes. Acabaria mesmo por ser Portugal a dilatar a vantagem, mercê de um canto inteligentemente executado, com Belchior a assistir a entrada de Léo Martins ao segundo poste e o desvio subtil de Coimbra a ditar o 2-0. Nos minutos finais do período, o Brasil ainda introduziu a bola na baliza de Andrade, mas o pontapé de bicicleta de Edson Hulk aconteceu já depois do som da buzina que pôs fim ao período.

No início da segunda etapa, a vantagem portuguesa ainda seria estendida por intermédio de Léo Martins, aproveitando da melhor maneira uma das múltiplas ocasiões em que a bola ficou presa nas poças de água do terreno para assinar o 3-0. Na baliza brasileira estava já Rafa Padilha, aposta de Gilberto Costa para montar o 5×4 e, com um jogo mais directo, ultrapassar as dificuldades que as condições do terreno estavam a interpor à construção do jogo do Brasil. Os índices de produtividade dos anfitriões subiram, mas foi notável a consistência defensiva dos actuais campeões do mundo, negando oportunidades de golo ao Brasil, que continuou a não conseguir desfeitear um inspirado Elinton Andrade. Também por duas vezes os ferros negaram o golo do Brasil (ou o autogolo de Portugal).

Já no terceiro período, a entrada de rompante do Brasil produziu efeitos, tendo o primeiro golo da Canarinha sido obtido ainda no minuto inaugural através de um pontapé de canto, mercê da entrada fulgurante de Catarino na área perante Bê Martins. O ala luso respondeu da melhor forma e por duas vezes esteve perto de bater Rafa Padilha, mas Portugal não conseguiu responder com golos à entrada brasileira na partida. O Brasil acabaria por reduzir novamente a vantagem da equipa das quinas aproveitando um momento de atrapalhação dos jogadores lusos em razão das condições do terreno, com o primeiro tento de Filipe Silva. Com 3-2 no marcador, a partida continuaria a desenrolar-se na mesma toada: Brasil mais dinâmico, criando perigo através de um jogo mais directo, próximo da baliza de Andrade, e Portugal respondendo com a velocidade dos seus alas, mas sem revelar os índices de eficácia dos dois primeiros períodos. Como tal, o empate surgiu num remate acrobático de Rodrigo após ganhar o ressalto numa jogada de insistência brasileira, e foi já nos instantes finais da partida que uma perda de bola de Belchior foi capitalizada da melhor forma por Filipe, selando o 4-3 que deu a vitória à equipa da casa.

Duas equipas, duas partidas

Mais do que o resultado e os dois triunfos brasileiors, há que tentar encontrar indícios deixados por estes jogos amigáveis para o futuro das duas equipas no contexto do ano de 2020. Do lado português, as condições do terreno e a lesão de Jordan obstaram a que o estilo de jogo que levou as cinco quinas ao topo do mundo em 2019 fosse repetido. No entanto, os comandados de Mário Narciso demonstraram uma versatilidade interessante na forma como corrigiram os erros do primeiro para o segundo jogo e conseguiram criar perigo com base em processos simples, jogando a bola pelo ar e tirando partido da velocidade dos seus alas. Foram também interessantes as dinâmicas da segunda equipa, com os três jovens André Lourenço, Rúben Brilhante e Von a demonstrarem bom entrosamento, acompanhados por um experiente Torres num quarteto promissor.

Do lado brasileiro, com seria de esperar, as ausências de Bruno Xavier, Bokinha, Rafinha e Lucão foram devidamente compensadas pelos novos valores chamados por Gilberto Costa na medida em que não se sentiu que a forma de jogar do Brasil pudesse ter sido diferente se estes nomes fortes tivessem estado presentes (teria sim mudado e muito se as condições do areal fossem outras). No entanto, é verdade que os progatonstas da partida foram ainda os jogadores mais experientes e habituados às ordens de Gilberto Costa, não obstante a qualidade inegável de jogadores como Jordan Soares ou Thanger. A expectativa é grande para verificar como se irá processar a renovação e transformação do Brasil nos pórximos tempos.

Finalmente, a outra ideia que vale a pena ressalvar, no seguimento do nosso anterior artigo, prende-se com a reflexão sobre as condições da prática da modalidade. Sendo certo que ninguém pode prever o estado da meteorologia com a antecedência necessária para o agendamento destes eventos, o futebol de praia não deveria jogar-se em semelhantes condições. A deposição de areia no campo foi medida insuficiente para tornar o terreno propício à prática de futebol de praia, sendo que uma solução alternativa deveria ter sido pensada (adias as partidas, cobrir o recinto da partida ou simplesmente mover os jogos para uma arena coberta). Trata-se de uma medida importante para situações como esta, de jogos disputados numa região do globo e numa época do ano em que as chuvas intensas e duradouras são frequentes (tal como a realiação de torneios indoor surge como resposta natural à impossibilidade de praticar futebol de praia ao ar livre no inverno ruso).


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