Mercado de Inverno 2021… o mercado de todos os medos (e certezas)

Francisco IsaacFevereiro 2, 20218min0

Mercado de Inverno 2021… o mercado de todos os medos (e certezas)

Francisco IsaacFevereiro 2, 20218min0
O mercado de Inverno deste Janeiro 2021 trouxe mais dúvidas que certezas e analisámos o que se passou. Estará o futebol-negócio em questão?

Vários milhares de milhões que não entraram nas contas dos clubes, federações e supra-federações ditaram que o Mercado de Transferências de Inverno de 2021 mantivesse os mesmos tons de cinzento que têm pautado a vida de tudo e todos desde que o SARS-CoV-2 entrou em exercício em Janeiro do ano passado, lançando largas dúvidas na sobrevivência financeira dos emblemas desportivos, seja nos de menor dimensão ou nos gigantes.

Mas o que realmente nos conta este mercado de transferências? Fomos à procura de dados e números, de argumentos e explicações e de dúvidas e perguntas para percebermos os problemas do agora e próximo futuro que vai assolar o futebol mundial, especialmente o europeu.

AFINAÇÕES RARAS PERANTE UM ATAQUE À DESPESA

Transferência mais “cara” desta janela de transferências de 2021? Se não considerarmos a transferência de Saïd Benrahma, que reforçou o Westham em Outubro passado só se processando a transferência total dos direitos agora em Janeiro, então é a chegada de Sébastian Haller ao Ajax que obtém o “título” de contratação mais gorda, tendo o emblema holandês dispensado 22,5M€ para garantir os serviços do internacional costa-marfinense. De resto, só se processaram mais três transferências por 20M€, seguindo-se um top-10 completo por transacções a rondar entre os 18M€ e 10M€, entre as quais a de Paulinho. Mas terá sido assim tão diferente de 2020 para 2021?

Comparativamente, houve uma queda abismal – e esperada – entre estas duas janelas de Inverno, e basta para isso olhar para o top-10 entre ambos os anos, onde se nota desde logo uma estrondosa diferença pois em 2020 a média de euros transacionados nas 10 transferências mais caras rondou os 29,5M€ com um total de 295M€ (Bruno Fernandes foi a compra mais cara, uma vez que o Manchester United pagou 55M€ em Janeiro do ano transacto), enquanto 2021 acabou com uma média de 17M€ neste top-10 (cerca de 178M€).

É impossível dizer o número certo de transferências operadas durante este mercado de transferências, mas não há margem de dúvidas que o volume de negócios baixou drasticamente, ficando intactos a larga maioria dos plantéis quero do Velho Continente, ou na América do Sul, sendo a situação actual consequência da pandemia e das decisões governamentais necessárias para pôr fim ao avanço do SARS-CoV-2. Sem adeptos nos estádios, o decrescer tanto no número de inscritos nas formações como o número de associados, levou a uma perda de receita preocupante, sabendo-se que os 50 emblemas mais ricos da Europa perderam cerca de dois mil milhões de euros no total, impondo um corte nas despesas, com esta janela de transferência do Inverno de 2021 a ser um reflexo disso mesmo.

Menos receita, menor liquidez e manutenção das mesmas despesas forçaram uma reestruturação profunda no modus operandi dos clubes e agentes desportivos, revelando as fragilidades que o sistema económico do futebol padece e que seriamente poderá comprometer com parte deste sistema, colocando os clubes mais vulneráveis (aqueles que já apresentam dívidas pesadas sem qualquer possibilidade de fazer um lucro sistemático que as salve) no limiar da sobrevivência.

Deixando para trás as previsões da crise profunda que poderá assolar o futebol à escala mundial – mesmo que o público retorne em força a partir do fim de 2021 e início de 2022, as perdas nunca serão recuperadas -, o que ainda nos diz este mercado?

CRISE ECONÓMICA FORÇA MUDANÇA DE PARADIGMA

Qual será o paradigma actual ou a melhor estratégia para a larga maioria dos clubes das primeiras divisões de campeonatos como Espanha, Itália, Inglaterra, França, Alemanha, Portugal ou Rússia? Aproveitar, trabalhar e fazer render o plantel com que se começou a temporada. Em todos os mercados de transferências de Inverno das últimas duas décadas era natural ver Liverpool, Manchester United, Inter de Milão, Barcelona, Atlético de Madrid, SL Benfica ou FC Porto, entre outros clubes de grande dimensão europeia/local, a moverem peças e a fazer um esforço simples/monumental para garantir algum tipo de reforço que funcionasse como vitamina para a 2ª metade da temporada, caso das contratações recorde de Virgil van Dijk (Janeiro de 2018), Philippe Coutinho (Janeiro 2018), Julian Draxler (40M€ em 2017), Fernando Torres (Janeiro 2011) – Julian Weigl foi a transferência de Inverno mais cara do futebol português, por 20M€ em 2020 -, entre outras.

2021, ao contrário dos anos anteriores, foi o contrário já que foi rara a contratação vinda de um dos maiores emblemas de qualquer uma das Big-5 ou de ligas como a portuguesa, russa e holandesa, com só a Juventus (Nicolò Rovella por 18M€), Atlético de Madrid (Geoffrey Kondogbia por 15M€) e Manchester City (Filip Stevanovic por 8,5M€) a operarem mexidas de algum relevo neste Janeiro mais cinzento.

Isto significa que o esforço dos clubes europeus para a época 2020/2021 teria/terá de ser mais numa óptica de uma longa e montanhosa maratona, fazendo bom uso dos activos existentes invés de desesperar por boas novas através da janela de transferências.

Acima de tudo, o objectivo para esta temporada é sobreviver, aguentar com o impacto da crise económica e desinvestimento o melhor possível e rentabilizar quer os jogadores séniores ou de formação, garantindo até renovações que não seriam prioridade noutros tempos – ou que se tornariam mais difíceis de concluir pela pluralidade de propostas -, reforçando os plantéis de uma maneira mais assertiva e de menor risco. Para o mal e/ou bem, as operações no mercado de transferências em Portugal ajudam a perceber a actualidade do futebol mundial.

O QUE O MERCADO EM PORTUGAL CONTA

O que sabemos do mercado de transferências da Liga NOS? De acordo com o transfermarkt, foram operadas 97 negócios (entre saídas e entradas, só contando um por jogador) menos 70 e 80 em comparação com 2020 e 2019, tendo sido o Sporting CP o clube mais gastador, isto graças aos 16M€ gastos na contratação de Paulinho (a nível monetário os “leões” terão de pagar 13M€, com o passe de Borja a garantir outros 3M€ neste negócio), secundando por Lucas Veríssimo, central que custou 6,5M€ ao SL Benfica, e em terceiro Borja para o Braga e Manuel Ugarte para o FC Famalicão.

Em comparação com épocas anteriores, houve uma decrescimento tanto no volume de contratações como nos valores obtidos pois em 2019, a Liga NOS vendeu internamente e internacionalmente um total de 79,5M€ e em 2020 chegou aos 103M€, sendo que nesta época transferiu-se um total de 36/40M€. Apesar das quedas nestes dois vectores, é curioso ver que se gastou mais em 2021 do que em 2020 e 2019, com um total de 31M€ em despesa, em comparação com os 28M€ e 16,5M€ respectivamente dessas duas janelas de transferências anteriores.

Olhando só para os actuais 5 primeiros classificados da Liga NOS, observamos que só Sporting CP e SC Braga contrataram mais que 1 jogador, enquanto SL Benfica e Vitória SC só efectuaram uma contratação, com o FC Porto a não realizar qualquer transferência de Inverno, uma situação quase inédita para um dos emblemas que mais negócios realiza nesta altura da época (4 em 2019 e 2018, 2 em 2017 e 3 em 2016). Por ordem, o contingente bracarense contratou três novos jogadores e fez Caju e Lukic regressar a “casa” após empréstimos, seguindo-se o Sporting CP que assinou com também três novos activos, enquanto as hostes de Guimarães compraram os direitos de Rúben Lameiras, e o SL Benfica cumpriu um dos últimos desejos (ou devaneios?) de Jorge Jesus com a contratação de Lucas Veríssimo.

Pode-se discutir que os encarnados não fizeram mais movimentações em Janeiro porque os esforços orçamentais realizados nas três janelas de transferências anteriores foram suficientes para dar as ferramentas necessárias ao staff técnico, não sendo necessário criar ainda mais despesa… mas se a pandemia não tivesse existido, teria o SL Benfica actuado de outra forma, assim como o FC Porto?

Na restante tabela, o FC Famalicão, que atravessa uma situação complicada nesta temporada, foi quem mais se reforçou com cerca de 9 contratações (5 transferências e 4 empréstimos), estando em 2º o FC Rio Ave (5 transferências) e Portimonense.

Nota para a contratação a 100% de Stephen Eustáquio pelo Paços de Ferreira, que é sem dúvida um dos melhores negócios levados a cabo neste Janeiro de 2021, com o médio português a ser actualmente um dos jogadores de maior impacto nesta Liga NOS 2020/2021.

Um mercado de Inverno menos intenso em Portugal reflecte perfeitamente a situação a nível europeu e global, assistindo-se a uma contração de todo o sistema económico do futebol que enfrenta assim a sua primeira grande crise e olha agora para os negócios estratosféricos do passado como um problema e não sucesso, principalmente quando possivelmente se construiu um sistema incomportável e que deverá sofrer algumas e ligeiras alterações ao seu funcionamento.


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