21 Jun, 2018

Crónicas do Sr. Ribeiro – Um árbitro pode ter clube?

Fair PlayJaneiro 9, 20184min0

Crónicas do Sr. Ribeiro – Um árbitro pode ter clube?

Fair PlayJaneiro 9, 20184min0
Pode um árbitro ter clube? E que riscos acarreta o "sim"? Nas Crónicas do Sr. Ribeiro discutiu-se essa situação e chegou-se a uma conclusão!

Como recém chegado à arbitragem este é um problema com o qual me tenho deparado. Será que me é legítimo ter um clube?

Não sabendo a resposta, vou tentar explicar a minha situação.

Eu sou do CDUL, apesar de todo o carinho e respeito que tenho pelo CDUP que também sinto um bocadinho meu.

Comecei a jogar nos universitários de Lisboa com 14 anos, entre saídas e regressos mantive-me por lá até aos 30 anos, altura em que, já casado e pai de dois filhos, fui viver para o Porto e tive a oportunidade de fazer uma época de verde.

No fim dessa época voltei para Lisboa e comecei a dar treinos, primeiro aos sub16 depois aos sub-18. Mantive-me como treinador até 2015. Entretanto, os meus dois filhos mais velhos, os tais que ainda me viram jogar, já estão no CDUL.

Assim, quando eu arbitro não me represento apenas. Represento o CDUL, pelo menos é o que sinto. Para todos os efeitos eu sou um dos dois árbitros do CDUL. Qualquer falha, não técnica que essa será exclusivamente minha, de carácter será também imputada por quem assiste ao meu clube.

Daí eu me preocupe tanto com isenção e independência a arbitrar. Tento manter exactamente o mesmo critério com as equipas que apanho. Não posso levantar questões. Não posso permitir que uma das equipas ache que foi, deliberadamente, prejudicada. A famosa equidade é o pilar a quem mais me agarro quando entro de apito em campo.

A maior dificuldade que tenho em arbitrar nem é ter um clube. Acho que essa controla-se relativamente bem. A dificuldade é ter uma equipa.

Qual a diferença?

O clube é o que tenho comigo, é meu independentemente de quem joga, onde e quando. Faz parte da minha identidade e, com isso, também do meu código de ética.

A equipa é a que escolho no dia. É uma coisa que acontece porque sim. Que não consigo controlar.

Quando vou arbitrar duas equipas e é normal identificar-me mais com uma. Porque jogam de uma maneira que gosto mais, porque são mais fáceis de arbitrar, ou mesmo porque são mais simpáticos…Seja qual for o motivo. Normalmente, há uma equipa com que simpatizamos mais. Acontece. Não se controla.

O problema de isso acontecer é o de ver todas as faltas.

Imaginem que estão a ver um jogo do vosso clube. Partem do princípio que, tirando o arruaceiro da equipa, vocês não fazem faltas, por isso podem concentrar-se nas faltas do adversário. Isto é inato. Cria uma dificuldade na arbitragem que é associar o gesto à pessoa.

No meu primeiro jogo deste ano, o CDUL em séniores, houve uma mão escandalosa num ruck, mas era um jogador que não o devia ter feito. Demorei mais tempo a processar toda essa informação. A imagem parecia errada… Não era suposto aquela pessoa ter feito aquilo. Apitei a falta e o jogador pediu desculpa, mas deixou-me a pensar, quantas faltas deixo eu passar por não estar atento? Por confiar?

É que isso deve acontecer-me no fim-de-semana, quando apanho um Belenenses/ Académica. Ao logo do jogo vão haver jogadores com quem me identifico e em quem passo a confiar, instintivamente, e provavelmente esses safam-se com homicídio.

Quando coloquei ao Presidente do Conselho de Arbitragem a questão do clube, foi-me explicada a questão do divórcio.

Não o divórcio com o clube, mas com as equipas.

À medida que for ganhando experiência a arbitrar, vou pertencendo mais à equipa de arbitragem e vou procurando menos uma identificação com os jogadores. Eles têm um papel, eu tenho outro.

Chegará a altura em que farei o meu papel de forma mais automática, como se estivesse dentro da Matrix, e só nesse momento poderei ser bom árbitro.

Aquele momento em não precisarei de confiar ou deixar de confiar em jogadores. Em que o jogo é apenas isso, o jogo e eu apenas o arbitrarei.

Até lá, peço desculpa pelas faltas que não assinalei. Foi mesmo porque não vi.

Fica aqui o meu compromisso de não deixar de assinalar o que quero que seja por simpatia pessoal ou clubística.

Uma nota apenas para o jogo deste fim-de-semana, Campeonato de Sub-16, Belenenses / Académica:

– Uma falta por entrada de lado num ruck para cada equipa, ambos alegaram que a bola estava fora – pareceu-me que não, por isso tive de marcar as faltas, foi o mais grave que se passou em campo;

– zero cartões;

– zero faltas por anti-jogo;

– zero faltas por discutir com o árbitro;

– zero agressões, ou tentativas;

. Mais mellees que penalidades.

Um resultado de 36-19, com 9 ensaios!

Uma tarde fantástica no Restelo. Obrigado

Foto: Arquivo de Luís Sommer Ribeiro


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