Os capitães de equipa: análise ao papel dos líderes no futebol pt.2

Fair PlayMaio 26, 202114min0

Os capitães de equipa: análise ao papel dos líderes no futebol pt.2

Fair PlayMaio 26, 202114min0
A segunda parte desta análise ao papel dos capitães no futebol, com Paulo Meneses a contar algumas experiências pessoais neste artigo

 

A segunda parte do artigo sobre o papel dos capitães, com esta secção a ser dedicada aos vários líderes que trabalharam com Paulo C. Meneses.

Histórias com capitães

Máxima Liberdade, Máxima Responsabilidade…Máxima Exigência
(Paulo Meneses)

Capitães – Chorrillo FC
1ª Liga do Panamá

Das muitas experiências que tive no Panamá, houve uma que me marca até hoje, e está relacionada com os capitães de equipa na época 2014-15. Nesse momento, eram jogadores da Seleção do Panamá, jogadores experientes.

Estava há 2 meses no clube, houve um problema durante um jogo, onde um colega de trabalho me faltou ao respeito à frente de todo o grupo, o que me levou a ligar para a pessoa que me recomendou para o clube – Javier Miñano Treinador Adjunto do Vicente Del Bosque – dizendo que não permitia que me faltassem ao respeito dessa forma à frente do grupo de trabalho… e que eu já tinha tomado a decisão de ir embora. Javier entendeu a gravidade da situação e ficou solidário comigo.

Na manhã seguinte, os capitães da equipa, chamaram-me à parte antes do treino, e disseram-me que estavam solidários comigo, transmitiram-me o respeito por todo o trabalho e profissionalismo que sempre apresentei desde o primeiro dia no clube, onde destacaram toda a minha dedicação a todos os jogadores e que sabiam que toda a organização que eu trouxe ao clube estava a ser muito positiva para que o clube crescesse.
Pediram-me para não os abandonar. Conclusão, fiz o treino de uma forma normal, e depois do treino transmiti ao Javier Miñano esse episódio com os capitães, e que a minha decisão de ir embora, tinha caído por terra por influência dos capitães que me tinham convencido a ficar.

Ou seja, uma situação grave resultou num desequilíbrio emocional de um treinador, a ação dos capitães de equipa, as suas palavras e argumentos, acabaram por ser fundamentais para solucionar um problema que ia terminar na minha saída do clube prematuramente. Ainda hoje mantenho uma relação com os capitães do Chorrillo FC, e ainda falo regularmente com eles.

Paulo Meneses com um dos capitães do Chorillo (Foto: Arquivo pessoal)

Capitães – Sporting Club Ideal
Campeonato de Portugal

Equilíbrio, cumplicidade, compromisso, lealdade.

Quando na época 2017-18, me convidaram para fazer os últimos 4 jogos do Sporting Club Ideal, o clube estava numa situação muito critica. Estava abaixo da linha de água, já não tinha confronto directo para nenhum dos concorrentes diretos, a equipa tinha perdido o derby da ilha de S. Miguel com o Operário, trocando de posição na tabela classificativa.

No final do 2º treino, chamei os 4 capitães, disse-lhes que iríamos já ganhar no domingo, e sair da linha de água, e que nunca mais iríamos cair abaixo da minha de água, e que dentro de 4 semanas nós iríamos sorrir no fim.

Mas disse-lhes também, que eu não conseguiria fazer sozinho tudo aquilo que era necessário para conseguir salvar o clube.

Pedi-lhes para se comprometerem, me apoiarem e ajudarem com tudo aquilo que eu queria propor ao grupo de trabalho, e que, se assim fosse, iríamos conseguir o objectivo. No fim, perguntei-lhes se podia contar com eles. Prontamente, todos me comunicaram que lhes pedisse o que eu achasse necessário.

Foram 4 semanas incríveis, ganhamos 3 jogos e empatamos 1 (jogando fora com 10 jogadores desde o minuto 20). Fizemos resultados de equipa grande, porque marcamos 6 golos e sofremos 1 golo de penalty. É notório que todo o trabalho dos capitães, principalmente o Artur, foi fantástico, com uma ajuda muito grande para conseguirmos fazer, o que muita gente apelida de: milagre.

Para eu ficar na época seguinte, também os capitães tiveram um papel fundamental ao convencerem-me a ficar no clube. Antes da pré-época, foram muitas as vezes que me telefonaram para me convencerem a voltar para o Sporting Club Ideal. Disseram-me que iriam fazer o mesmo trabalho que desenvolveram nesses 4 jogos, apoiando o meu trabalho, ajudando-me em tudo o que concerne às funções de um treinador.

E, apesar de termos perdido 9 (bons) jogadores da temporada passada, jogadores que foram muito importantes na estrutura desses 4 jogos que salvaram a equipa, fizemos a melhor classificação de sempre do clube no Campeonato de Portugal, record de pontos na 1ª volta, record de vitórias em casa, record de jogos sempre a pontuar e ainda ganhamos a Taça de S. Miguel.

É claro que todos estes resultados, tiveram uma grande influência e um grande trabalho “na sombra” dos capitães, do Artur, principalmente. De referir que, além dos meus treinadores adjuntos, o capitão foi o meu braço direito em muitos assuntos – principalmente no equilíbrio emocional (às vezes diário) “do clube”, do balneário. Poderíamos falar aqui de muitos episódios onde o capitão teve um papel importante, numa época em que fizemos história no clube, muito graças ao seu contributo.

Capitães – Lusitano FC Vildemoinhos
Campeonato de Portugal

“Fazer felizes os outros homens: não há nada melhor nem mais bonito.”
Ludwin Van Beethoven (1770-1827)

A principal motivação da humanidade é ser livre. Expressar a sua verdadeira natureza e perseguir os seus sonhos sem restrições – vivenciar o que podemos chamar “liberdade pessoal”. Os nossos espíritos elevam-se quando nos sentimos livres de medo ou do peso da conformidade. Quando vivemos a nossa verdade – e expressamos quem de facto somos, como nos sentimos, o que realmente desejamos e sonhamos – então, somos autênticos, somos livres. Isto exige coragem. Coragem do treinador para dar essa liberdade aos capitães.

Falar dos capitães que tive no Lusitano FC Vildemoinhos, é falar um pouco dessa liberdade bem presente no parágrafo anterior.

Eu sempre tive uma relação de cumplicidade, de compromisso com os capitães nas equipas por onde passei.

No Lusitano não foi diferente. Muito pelo contrário, num cenário tremendamente difícil, foram os capitães que me ajudaram a encontrar o caminho, mostrando-se logo disponíveis para ajudarem-me a mim e à equipa, desde o 1º dia em que entrei no clube e os desafiei para estabelecer comigo um estado de espírito positivo e optimista – explicando-lhes as razões e os resultados que poderíamos obter desse clima emocional criado, os 4 capitães desde logo afirmaram que esse seria o caminho certo a seguir, e que eu poderia contar com todo o seu apoio.

Os estados de espirito têm influência sobre a eficiência do trabalho – os estados de espirito otimistas estimulam a cooperação, a equidade e o desempenho no trabalho. Portanto, uma boa disposição diária é necessária no dia a dia de um grupo de trabalho, porque irradia com tanta facilidade e é contagiante.

Uma memória interessante que guardo, foi depois da minha palestra no estádio de Aveiro. Passou-se com o Hélder Rodrigues. Grande capitão e grande jogador – passou por divisões superiores. De referir que é um dos jogadores mais astutos e mais inteligentes que apanhei.

Íamos jogar contra o Beira Mar, delineamos uma estratégia para defender e sair em transição. Saio do balneário e vou para o balneário do staff técnico, para deixar os jogadores equipar à vontade, para que eles pudessem falar à vontade sobre o jogo, partilhar ideias sobre o que delineamos na estratégia para o jogo. Depois de 15 minutos, regresso ao balneário dos jogadores, e quando entro deparo-me com um dos capitães (Extremo Direito), com o meu marcador na mão a explicar no quadro aos 3 colegas – alguns do mesmo sector – (Lateral direito, Central direito, e Médio Centro), como se deveriam comportar em algumas situações. Apreciei durante alguns segundos, vi que estava dentro daquilo que nós tínhamos delineado, não me intrometi.

Eu dava essa liberdade, eu incentivava a essa comunicação entre os colegas, para que ainda no balneário, eles pudessem falar de possíveis soluções, para antever o que pudesse acontecer no jogo – e assim estarem mais e melhor preparados.

Foi o que aconteceu nesse momento, com base numa ideia/estratégia que eu como treinador tinha delineado para aquele jogo, um dos capitães foi mais ao detalhe com aqueles colegas de sector, antecipando cenários e ajudando os colegas com um objectivo: ajudar os colegas e a equipa a atingir um rendimento superior.

Poderíamos falar de muitas histórias entre mim e os capitães do Lusitano FC Vildemoinhos – Calico, Helder, Ruca e Braz, onde me ajudaram como treinador a solucionar e a resolver muitas situações que aconteceram durante os meses em que estive no clube. Mas essas histórias ficam (para já) entre mim e eles. Somente realçar o grande compromisso e cumplicidade que eles tiveram com as minhas ideias, e a grande contribuição da parte deles para que essas ideias tivessem tido sucesso. Também, de realçar as boas iniciativas que eles tiveram como capitães e como líderes do balneário, trabalhando muitas vezes na “sombra”, para resolverem muitas questões relacionadas com os colegas de equipas – e isso deixava-me mais livre e mais tranquilo para trabalhar outras coisas.

Os 4 capitães do Lusitano Vildemoinhos (Foto: Arquivo pessoal)

Capitães – Aizawl FC
1ª Liga India

“Acreditar… o desafio de superar-se sempre”
Diego Simeone

Para o treinador recém campeão de La Liga pelo Atlético de Madrid,

“tudo o que não é treino, que acontece antes e depois do treino, é o que leva o jogador dar-se conta que está a melhorar. Os treinadores podem propor muitos exercícios motivantes, e claro que a partir desses exercícios teremos um bom treino. Os exercícios podem ser muito bons, mas se o jogador não tem um estado emocional positivo em relação à equipa técnica com quem trabalha, a qualidade do exercício não tem importância. Os treinos diferentes e eficazes são os que despertam estados emocionais positivos aos jogadores e aos treinadores. Quando nós nos relacionamos emocionalmente de uma boa maneira, trabalha-se mais e o trabalho reflete-se melhor no momento de jogar”.

Veremos no próximo exemplo, como esse estado emocional positivo pode desencadear prestações fantásticas, pode ajudar na superação individual e colectiva, às vezes tão necessária para os enfrentar grandes desafios. Esse estado emocional positivo, pode já existir ou, em algum momento pode ser necessário provocar o grupo de jogadores para que ele (re) apareça. Na época 2017-18, treinei o campeão da India, Aizawl FC. Houve muitas histórias e experiências fantásticas vividas durante essa temporada.

Há uma história que se passou com os 2 capitães de equipa e eu, 2 dias antes de um jogo da Liga dos Campeões AFC. Fomos ao Irão, para defrontar o fortíssimo Zobahan. É um clube com história na Liga dos Campeões AFC, com jogadores da Seleção do Irão, alguns foram ao Mundial da Rússia 2018.

A nossa equipa nunca tinha ido à Liga dos Campeões AFC, tínhamos uma equipa muito jovem e depois de 7 jogadores chave terem abandonado o clube depois de terem sido campeões da India… só pudemos utilizar 3 jogadores estrangeiros de um total de 6 jogadores estrangeiros que tínhamos no plantel.

Perante este cenário, ninguém no clube acreditava que o Aizawl FC poderia ganhar o jogo. Só eu acreditava que era possível ganhar o jogo no Irão. 1º porque sendo treinador tinha que ser eu o 1º a ter essa fé nos meus jogadores, depois, porque acreditava muito no trabalho que estávamos a desenvolver com aquela equipa.

Fruto dessa fé, preparei o meu apartamento no hotel para analisar o adversário ao pormenor e pensar na melhor estratégia para surpreender o adversário. Montei a sala com quadros táticos na parede, com o quadro tático na mesa, com o computador para ver os lances do adversário. Tocam à minha porta os 2 capitães de equipa, queriam falar comigo sobre o jogo. Quando entraram na sala, ficaram espantados com todo aquele cenário montado para preparar o jogo. Fiquei contente pelo motivo da visita deles, quando disseram:

“Mister, viemos aqui para falar consigo, porque nós acreditamos que é possível ganhar !!!”
Eu respondi: “Claro que sim! Como vocês estão a ver, eu também acredito que é possível, senão não teria montado tudo isto aqui para preparar o jogo ao detalhe!!!” No entanto, agradeci-lhes a visita ao meu apartamento no hotel, e eles acrescentaram:

“É que nós sentimos que os mais jovens estavam relaxados demais, por isso viemos aqui para o Mister fazer alguma coisa.”

Expliquei aos 2 capitães a minha estratégia para defrontar o adversário, perguntei-lhes a opinião, e eles gostaram e concordaram. Depois, convoquei uma reunião com toda a comitiva – os jogadores e todo o staff.

Entrei na sala de reuniões do hotel, já com toda a gente sentada, fui curto e objectivo:

“Acredito muito em vocês, o trabalho que temos feito desde que cheguei ao clube, tem sido fantástico, vocês cresceram e evoluíram muito como equipa, e individualmente também. Temos a responsabilidade, mas também o orgulho de representar toda a India, e o estado do Mizoram. Eu acredito e confio que podemos ganhar o jogo amanhã… se eu sinto, que há alguém nesta sala que não acredita ou que não confia que podemos ganhar o jogo, ligo já ao presidente e vai já embora, não fica aqui nem mais um minuto a influenciar os colegas”.

E saí pela porta.

Então, perante um cenário muito difícil e de descrença, com a ajuda dos capitães, conseguimos direcionar as emoções de toda a equipa (staff incluido) para um clima de confiança. Não só porque os capitães acreditavam, mas também porque a partir daquela mini reunião no meu apartamento do hotel, eles ainda ficaram mais confiantes e tranquilos para assim transmitirem essa mesma confiança e tranquilidade aos restantes colegas – liderança pelo exemplo.

Na minha opinião, o jogador asiático, muitas das vezes não consegue tomar iniciativas nem tomar decisões. Nesse caso, no que toca aos capitães, às vezes é importante que nós treinadores, os incentivemos a liderar a equipa, a liderar os colegas…quer em contexto de jogo, quer fora dele.

Para finalizar este exemplo, em relação ao jogo, sofremos 1-0 de penalty aos 2 minutos, não mudamos a nossa estratégia que tínhamos planeado, e aos 20 minutos marcamos o 1-1, com uma jogada que fazia parte da nossa dinâmica ofensiva. De referir que, até ao ano 2019, fizemos o melhor resultado de sempre na Liga de Campeões AFC de todas as equipas da India. Fizemos história.

Como vimos nos exemplo do Lusitano FC Vildemoinhos e do Aizawl FC, houve um compromisso Treinador – Capitães, um trabalho conjunto, uma visão partilhada que foram na mesma direção, existiu uma partilha da minha estratégia – incluindo-os e fazendo-os sentir importantes porque participavam no processo.

No caso do Aizawl FC, quando lhes perguntei a opinião deles, e eu acho e acredito muito que, quando tudo isto acontece tudo se torna mais fácil. Os capitães têm um labor muito importante no que toca à liderança – quando esta é partilhada pelo treinador, porque os jogadores, em particular os capitães, gostam de assumir as responsabilidades também. As novas tendências de liderança, apontam para criar lideres dentro da equipa. E não falamos só dos 2 ou 3 capitães oficiais. Na minha opinião, é importante haver 6 ou 7 jogadores dentro da equipa que liderem, que controlem o balneário.

Na terceira parte, Paulo Meneses irá analisar alguns exemplos históricos como Vítor Baía e Jorge Costa no FC Porto de José Mourinho.


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