Arquivo de Stade Français - Fair Play

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Fair PlayMaio 16, 201710min0

O Rugby no Fair Plays segue para mais uma crónica mensal, desta vez com Hélio Pires com «Visto de Fora». Pink is Not Dead!, o primeiro tema da coluna do historiador que se “apaixonou” pelos valores e princípios do rugby

O Desporto não pertence só a aqueles que o praticam, gerem e governam… pertence também a todos aqueles que o seguem todos os dias, seja através do youtube, artigos, twitter, instagram, que “absorvem” os ritmos e dinâmicas de cada equipa e perdem minutos da sua atenção com jogadores e treinadores.

Hélio Pires, doutor em História pela Universidade Nova de Lisboa, ganhou um fascínio pelo Planeta da Oval em 2015 com David Pocock e os valores que a modalidade defendia. Ao fim de dois anos de aprendizagem, crescimento e maturação, Hélio Pires aceitou o convite para seguir com uma rubrica mensal sobre o rugby «Visto de Fora», na óptica do adepto, apaixonado e seguidor de rugby, com algumas “pinceladas” na análise e compreensão do que se passou no jogo.

O primeiro artigo conta-nos sobre o seu interesse pelo Stade Français, o “renascimento” de um “gigante”, a final da Challenge Cup e outros pormenores da equipa parisiense. 

Pre-Match Mode

O cenário é um café-bar numa pequena cidade portuguesa, algo cheio e agitado. Os adeptos de râguebi são apenas dois, que ainda assim conseguem que se mude o canal de televisão de um direto da visita papal para as competições europeias.

O que durou até ao intervalo, altura em que foram confrontados com duas opções: ir embora ou ver o resto do jogo aos soluços, intercalando entre râguebi e Fátima a cada quinze minutos. Felizmente, numa sala ao lado igualmente apetrechada com uma televisão, houve quem não se importasse de partilhar a sua mesa e nós lá fomos, os dois adeptos, ver o resto da partida ombro a ombro com desconhecidos.

Peripécias à parte, não estávamos perante uma mera final de uma competição europeia. Havia um extra emotivo por estar em campo o Stade Français, que em dois meses passara da extinção iminente por uma fusão desigual a potencial vencedor da Challenge Cup ou Taça Desafio.

O que tem algo de heróico, mas já lá vamos. Sentados frente ao televisor, tentando abstrair-nos do ruído de fundo, pedimos um chá – somos adeptos um pouco posh – e torcemos por equipas diferentes. Porque o desportivismo é bom e recomenda-se, mas também porque os homens não se medem aos palmos e o Laidlaw é um grande senhor. Mesmo!

A rough pink! (Foto: Getty Images)

Os oitenta minutos

Não foi preciso esperar muito por momentos emocionantes. Logo aos 5 minutos, a bola andou pelos 10 metros do Gloucester sem possessão clara e, coisa de minuto e meio depois, um avant do Stade impediu o que podia ter sido o primeiro ensaio da partida. O que só aconteceu perto do quarto de hora de jogo, mas para a equipa adversária, quando Johnny May intercetou um passe e correu para a zona de validação.

A conversão pôs o Gloucester à frente por 7-0, pontuação à qual veio a somar mais três, e 10-0 ficou até o Stade marcar uma penalidade a meio dos 26 minutos. Segundos antes, ver o Will Genia esticado no chão, ele que é outro grande senhor, fez-me temer que saísse por lesão.

O que felizmente não aconteceu, em parte graças à resistência do médio de formação australiano, que volta e meia não escondia algum desconforto. E aos 31 minutos, uma bola à solta pelos 5 metros do Gloucester deu ao Stade o seu primeiro ensaio, marcado por Sergio Parisse com a ajuda de Hugh Pyle – o Jon Snow lá do sítio, como é conhecido entre os adeptos rosa. Ainda houve dúvidas sobre um possível avant, mas o vídeo árbitro pô-las de parte. Jogada limpa, conversão marcada e tudo em aberto.

Antes do final da primeira parte, ainda houve tempo para um cartão amarelo ao número 9 do Gloucester, que levou as mãos à cara de Plissou durante um salto, e um maul que… não acabou bem. Abençoado intervalo pela oportunidade de irem todos arrefecer a cabeça nos balneários!

No início da segunda parte, Laidlaw entrou em campo, para nossa alegria, que já não o víamos a jogar desde a lesão nas Seis Nações. E depois, aos 55 minutos, viu-se porque é que a bola oval pode ser traiçoeira: chutada pelo capitão escocês perto dos 10 metros do Stade, parecia que ia sair, tanto que Hugo Bonneval limitou-se a cobri-la, mas ficou disponível para ser apanhada. E foi Tom Marshall quem o fez, chutando-a para a frente já na linha dos 5 metros, embora em desequilíbrio e por isso incapaz de poisá-la claramente antes de sair da zona de validação. Foi ensaio ou não foi ensaio? A vídeo arbitragem mostrou que não, mas foi por uma unha negra. Literalmente!

Com as emoções ao rubro, o Stade marcou menos de dois minutos depois, após uma intercessão de Djibril Camara que fez lembrar o ensaio de Johnny May na primeira parte. O desempate estava assim quebrado e os franceses assumiam a liderança, para gaudio dos adeptos rosa. E a dez minutos do final, engrossaram a vantagem pelas mãos de Geoffrey Doumayrou, que recebeu a bola perto dos 22 metros do Gloucester e conseguiu fugir não a dois ou três, mas seis jogadores ingleses!

A julgar pela forma como olhou para trás, ele próprio nem acreditava no que tinha feito, e marcou o ensaio com um pequeno salto para a felicidade – língua de fora e braço no ar incluídos. A conversão, seguida de uma penalidade uns minutos depois, pôs os franceses à frente por quinze pontos, vantagem que o Gloucester ainda conseguiu reduzir a minuto e meio do fim com um ensaio de Ross Moriarty. O que é de aplaudir, porque um jogo só acaba quando o árbitro apita, mas não havia tempo para mais. O Stade saiu vencedor por 25-17 e Sergio Parisse ergueu a taça para alegria de muitos, eu incluído.

Le nouvelle champion de Challenge Cup (Foto: EPCR)

Húbris e redenção

Como disse antes, há nisto qualquer coisa de heroico. Se recuarmos até Março, altura em que os presidentes dos dois grandes clubes parisienses anunciaram uma fusão, o Stade estava em 12º lugar no Top14, apenas uma posição acima da descida de divisão, e era quase certo que seria extinto se se unisse ao Racing. Uma fusão é sempre uma absorção do mais fraco e o Stade estava ferido, a braços com maus resultados, problemas financeiros e uma escassez de adeptos que parece ser característica de Paris, conforme notou um artigo da Rugby World.

A esse estado de coisas acrescia ainda a forma como a fusão foi planeada, às escondidas e sem nunca se consultar os jogadores, a equipa técnica, funcionários ou adeptos, apresentando-a como um facto consumado onde as pessoas tinham, quando muito, o direito a votar em coisas como o aspeto do equipamento. Foi uma decisão burocrática com sabor a facada nas costas.

Ou dito de outra forma, um jogo de folhas de Excel por presidentes de formação empresarial, mas que se esqueceram de duas coisas: por um lado, que têm deveres para quem trabalha nos clubes, do mais simples funcionário ao mais famoso jogador; e por outro, que uma associação desportiva não é um mero somatório de bens e números, não podendo ser alienada ou fundida sem mais. Um clube tem história, tem memória, e tem acima de tudo uma forte carga emocional que está profundamente ligada ao sentido de identidade dos adeptos.

Achar que se podia passar por cima disso, como se uma fusão produzisse um simples somatório de massa associativa, é algo a que os gregos chamariam húbris, a ousadia desmedida e por isso condenada ao fracasso. E tal como nos mitos antigos, cada vez que se ousava em excesso, os deuses intervinham. Não que eu esteja a dizer que o Stade foi objeto de um milagre, mas teve qualquer coisa de heroico. Porque no espaço de dois meses, subiu para o sétimo lugar no Top14 e venceu uma das competições europeias. Foi como se a extinção iminente tivesse acendido uma chama que faltava e algo ou alguém, algures, quisesse dar uma estalada de luva branca em quem dava o clube como morto. Mais le rose n’est pas mort!

E agora?

Claro que depois da festa vem sempre a ressaca. O Stade venceu a Taça Desafio e provou estar vivo, mas os problemas que originaram a proposta de fusão não desapareceram. As contas continuam por equilibrar, o estádio por encher e há jogadores que estão de saída. É o caso de Hugo Bonneval, que vai para o Toulon, de Rabah Slimani, que segue para o Clermont, de Jono Ross, que vai juntar-se aos Sale Sharks, ou de Pascal Papé, que termina a sua carreira e foi uma das caras da luta contra a fusão. Aliás, vê-lo na tribuna no levantar da taça, apesar de não ter jogado ou sequer sido suplente, teve um sabor especial precisamente por causa disso e, entre os adeptos do Stade, Papé é um herói a quem já se diz, em tom de brincadeira ou não, que devia ser presidente. Mas não é, pelo menos por enquanto. À frente do Stade Français continua Thomas Savare, o mesmo que negociou a fusão e tem injetado dinheiro no clube.

Está ainda por perceber que impacto terá tudo isto. A vida é feita de mudança e o Stade não está imune a isso, mas depois do desastre que foi a tentativa de fusão, é pouco provável que o futuro passe por outra coisa que não um rosa choque, ainda que numa divisão inferior. Veremos.

http://www.rugbyworld.com/news/racing-92-stade-francais-77437

Fim de uma ameaça…até quando? (Foto: L’Equipe)
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Fair PlayMarço 15, 201712min0

Quando uma fusão entre clubes “abala” com os valores e princípios de uma modalidade, há que reflectir sobre o futuro da mesma. O Portal do Rugby deu a sua opinião sobre a fusão do Stade Français com o Racing Metró 92′ e as potenciais consequências desta fusão dos gigantes parisienses

Este artigo nasce de uma reflexão de Victor Ramalho (Portal do Rugby) após a polêmica fusão entre Stade Français e Racing na França. E ela se estende ao dia a dia do rugby em qualquer parte do mundo, nas atitudes dos praticantes e dirigentes, torcedores e treinadores.

TL;DR (“na boa, é muito grande, não vou ler”): No texto abaixo vou defender que os valores do rugby são incompatíveis com a ideia de vitória e de crescimento a qualquer custo e que a forma com quem foi anunciada a fusão entre Stade Français e Racing vai contra os preceitos do esporte, sendo desrespeitosa com os torcedores e servindo de alerta de que o rugby possa tomar caminho semelhante ao de outros esportes que se entendem como meros negócios, sem o devido apreço aos valores morais de conduta que pregam.

Como não sou adepto de opinião na forma de cinco minutos de gritaria raivosa num vídeo ou no rádio ou de meia dúzia de memes sarcásticos, optei por um texto longo analisando a questão e garanto que quem ler não se arrependerá, concordando ou não. E, claro, deixem seus comentários. Sem isso, perdemos nossa capacidade de debate sério.

Valores do rugby?

Pois bem, quando se fala em “valores do rugby” e “espírito do rugby” está cada dia mais claro para mim que cada um parece ter a sua própria versão desses conceitos, normalmente ajustados ao que melhor convém. Então, não darei muitas voltas, vou deixar claro como enxergo os tais “valores” da bola oval, que para mim são muito preciosos.

Na visão do World Rugby, o rugby tem 5 pilares em sua ideologia: Integridade; Respeito; Solidariedade; Paixão; Disciplina (no Brasil, você encontra eles em todos os materiais didáticos sobre rugby).

Espera, você falou ideologia? Sim, porque “ideologia” nada mais é que um sistema de ideias e valores sobre o mundo, algo que qualquer ser humano tem, querendo ou não. Direita, esquerda, centro, liberal, conservador, anarquista, niilista, coletivista, individualista ou um pouco de cada. Todo mundo tem uma visão de mundo sobre cada aspecto da vida.

Esportes não têm ideologias sozinhas, eles não são pessoas. Eles podem servir a qualquer propósito, a qualquer ideologia, basta enviesar algum aspecto a seu bel prazer. Na verdade, com tanta informação disponível na vida, chegamos ao cúmulo de que qualquer um “prova” o que quiser.

Coerência, conceito, fundamento, método, espírito crítico no manuseio de dados (ou fatos) são o que definem o quão perto da “verdade” uma ideia está, mas parecem que viraram detalhes incômodos no mundo atual que podem ser escondidos em prol de uma boa retórica, por mais barata que ela seja.

Por isso, eu volto aos pilares do rugby. Quando a federação internacional define que esses aspectos morais (sim, morais, porque todos eles são relativos à conduta pessoal) são centrais ao praticante, ela está enviesando sua forma de enxergar o esporte. Eu, por acaso, concordo com essa visão de que o rugby não seja apenas um jogo, ele é algo a mais, ele exprime uma forma de se relacionar com o mundo.

A revolta de um dos jogadores do Stade Français (Foot: Facebook)

Novamente, esses valores pode ser lidos e entendidos de formas completamente diferentes, de acordo com a visão de mundo do leitor. Para mim, quando juntamos os 3 primeiros pilares, “Integridade; Respeito; Solidariedade”, a ideia mais clara é de que falamos em um esporte coletivo, no qual o respeito ao próximo é aspecto central.

Seja ao amigo(a) de clube, seja ao adversário em campo. Seja ao árbitro, seja ao torcedor. Não é essa a leitura que na prática a maioria de nós no rugby temos dos valores?

Avançando na análise dos valores, o respeito ao próximo somado ao quinto pilar, o da “Disciplina”, me leva a mais uma conclusão dos valores da bola oval: o do jogo limpo.

Isto é, o respeito às regras do jogo, que tem como espírito por trás o bem comum. Certo? E quando se fala no respeito às lideranças, à hierarquia, trata-se de uma via de duas mãos, isto é, quem lidera ou quem arbitra tem igualmente que seguir os mesmos valores de quem respeita a liderança e a arbitragem.

O desdobramento mais lógico desse “jogo limpo”, na minha cabeça, é justamente o de que no rugby a vitória – que é movida pela “Paixão”, o quarto pilar, que gera o esforço e a dedicação em se fazer o melhor – é sempre uma consequência do trabalho e que não deve ser perseguida a qualquer custo. Exatamente. “Vencer de qualquer modo” não faz parte, na minha cabeça, dos valores do rugby.

O ganho pessoal deve ser consequência e compatível com a essência coletiva do jogo. Não é o que falamos sempre, que é o time que ganha junto e perde junto? Não por acaso o rugby foi amador por tanto tempo (de 1845 a 1995), para impedir que a “Paixão” seja trocada pela “Ganância” e que o ganho pessoal seja único fim, obtido por quaisquer meios.

E mais: a palavra “vencer” pode ser trocada por “crescer” também. “Crescer” a qualquer custo não faz parte do rugby do mesmo jeito. E por “crescer” eu volto ao segundo parágrafo deste texto, pois “crescer” com a ideia de “melhorar” é costumeiramente trocado pela ideia de “progresso”.

O “progresso” a qualquer custo, que não significa absolutamente nada se não for devidamente definido: o que é “progresso” nesse caso?  Ou ainda, “progresso” para quem? É preciso definir, colocar na mesa de qual “vitória”, de qual “crescimento” e de qual “progresso” se fala e, mais importante de tudo, qual é o caminho para eles. Justamente porque no rugby vencer a qualquer preço não é compatível com os pilares do esporte.

Mais que isso, a derrota é parte natural da vida, por consequência. Pelos valores do rugby que eu enxergo, a derrota não tem nenhuma desonra. A desonra está em não dar seu melhor, apenas isso.

Uma direcção, dois clubes (Foto: L’Equipe)

Torcedor é só consumidor e clube é só empresa?

No caso dos clubes de Paris citados, a fusão entrou em conflito, na minha visão, com os pilares do rugby. Mais precisamente com os 3 primeiros. Quando falamos de clubes profissionais, falamos de torcidas. Em qualquer esporte. O torcedor pode não ser o dono legal do clube, mas ele fornece os alicerces para o clube existir.

Sem torcida, não há o “negócio esporte”. É claro que essa lógica se aplica a qualquer mercadoria, mas o esporte vai além, pois o torcedor não é mero consumidor, ainda mais no rugby. O torcedor se baseia no exclusivismo, ele sempre torce para apenas um e faz o trabalho voluntário (“marketing” voluntário e incondicional) por paixão, não por mero gosto.

Mais que isso na verdade, o torcedor é também produto do clube. Sim, ter uma torcida e as características da torcida agregam valor ao próprio clube, que usa o torcedor para ganhar justamente o apoio do patrocinador.

O fabricante de sabão em pó não usa seu número de consumidores e a fidelidade deles para que uma montadora de automóveis estampe sua marca na caixa de sabão em pó. E ninguém se prende a um produto se ele passa a ser de má qualidade.

O clube esportivo faz dinheiro também porque tem uma torcida e sua torcida é fiel ao clube independente da qualidade do time. Dinheiro esse que interessa à própria torcida, que quer vê-lo reinvestido na equipe para vê-la campeã ou simplesmente com resultados melhores.

O torcedor não abandona o time quando ele vai mal. O resultado ruim apenas inibe novos torcedores e fãs de aderirem ao time. Já uma mercadoria ruim (como o sabão em pó que citei aleatoriamente) afasta o consumidor, óbvio. Ele não é fiel por amor ao produto.

O título, por sua vez, não tem nenhum valor direto a não ser status para atrair mais torcedores, que gerarão mais patrocinadores e apoiadores, interessados na visibilidade e em agregarem valor às suas marcas (o valor da associação ao vitorioso, ao bem sucedido, à quem tem seriedade).

Diferente do torcedor aficionado, há o fã, que aprecia mais de um time ao mesmo tempo, é claro, e que muitas vezes tem seu carinho a um time movido pelas característica da torcida à qual ele quer momentaneamente se juntar.

Todos somos torcedores de uns e fãs de outros. E rivais de outros. No caso do rugby, a rivalidade se baseia nos pilares também, isto é, paixão com respeito e integridade. O rival é amigo, mas não deixa de ser rival.

É fato também que grandes empresários e empresas possam ser responsáveis pelo crescimento de equipes esportivas, pois o esporte profissional tem valores tão inflacionados hoje que não basta apenas o dinheiro dos torcedores – entendidos como clientes – para um time ser competitivo.

A realidade inflacionada do futebol e dos esportes americanos, movida por toda uma rede de ganhos pessoais que existem dentro da máquina esportiva, chegou ao rugby – para o pesadelo dos rugbiers do século passado e do século retrasado, que tinham horror ao esporte profissional, por razões que não cabem serem esmiuçadas aqui. Isso é uma realidade.

A questão agora é: quais os limites que os pilares do rugby deveriam impor às práticas econômicas (do “esporte como negócio”, que nasceu fora do rugby) dentro do esporte?

Afinal, qual a conclusão e o que os franceses tem a ver com isso?

Na minha opinião, se os pilares do rugby não limitarem certas práticas econômicas, o rugby estaria se transformando em outro esporte. E deveria, portanto, abrir mão de falar em seus valores, caso contrário seria hipocrisia.

Amarrando, todo o valor que a torcida e que os sócios hoje e ontem deram a uma equipe gerará em partes o que essa equipe será amanhã. Isto é, o valor de uma equipe é gerado por quem a construiu.

Quando um empresário compra uma equipe, ele não está montando um negócio dele do zero, ele está assumindo a responsabilidade de gerir algo que foi criado por outras pessoas e que segue em alguma medida preso à forma com que essas pessoas – os torcedores e sócios – se relacionam com a equipe.

Quando Racing e Stade Français, que são clubes rivais na mesma cidade, anunciam a fusão sem que antes tivessem consultado seus torcedores e com a alegação de que a união seria para se construir um clube ainda mais vitorioso, a única coisa que passa pela minha cabeça é que suas direções não tiveram o menor respeito pelo que pensam os torcedores.

Da noite para o dia, o torcedor que foi devoto de uma agremiação passará a ser obrigado a torcer por outra. Ele ou ela que emprestou sua dedicação na construção da instituição não foi consultado sobre isso.

Decidiram por ele ou ela que o mais importante é vencer e que seguindo cegamente a liderança (uma que não conduziu seu clube balizada pelos pilares do esporte, mas que apenas a comprou) a vitória será supostamente obtida.

Mais bizarro ainda vindo de um clube que foi o campeão nacional da França em 2015 (Stade Français) e do clube que foi o campeão nacional de 2016 (Racing), isto é, que já eram vencedores em suas histórias. No ano em que ambos estão indo mal, o risco da derrota levou a pulverização dos pilares do rugby. E de forma incrivelmente imediatista.

Isto é, para eles, tudo vale para vencer, pois apenas crescer é o que importa. Para mim, unir equipes é algo natural no rugby, pois rivais não são inimigos. Porém, as fusões devem, no mínimo, ser reflexo de uma vontade coletiva, não capricho de uma ambição pessoal.

Da forma com que houve a fusão na França, temo que ela vire um marco da viragem de que o rugby profissional estaria disposto a abrir mão de seus ideias em prol da vitória, do espetáculo ilimitado. Ou melhor, que o rugby estaria disposto a trocar de ideias, abrindo mão da quina “Integridade-Respeito-Solidariedade-Paixão-Disciplina” pela ideologia da vitória e do crescimento econômico a qualquer preço. E isso é uma questão de ideologias, passível de ocorrer em qualquer lugar do planeta oval.

A fusão no rugby: possível? (Foto: L’Equipe)

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