A importância da Primeira Guerra Mundial para a massificação do desporto

João FreitasAgosto 3, 20214min0

A importância da Primeira Guerra Mundial para a massificação do desporto

João FreitasAgosto 3, 20214min0
Um dos maiores torneios de ténis e eventos de desporto recebeu o nome de Roland-Garros e agora podes ficar a conhecer toda a sua história

A primeira guerra mundial assumiu-se como um momento de rutura na história da humanidade. Aquela que ficou conhecida como a primeira guerra de massas e a ultima de exércitos, assinala para muitos historiadores – um dos quais Eric Hobsbawm – o fim do século XIX e início do XX. Nunca como outrora na história tantos homens e mulheres “foram à guerra” – como se dizia em Portugal. As cifras apontam para um numero total e 70 milhões de soldados a serem envolvidos nos diversos teatros de guerra.

De uma forma geral, durante o século XIX, uma burguesia confiante de si e da sua civilização reclamava viver na Belle Époque (Bela Época). O desporto, o lazer e as férias eram apenas um privilégio para um pequeno número de favorecidos, a grande maioria da população tinha um horário de trabalho embrutecedor – a jornada de 8 horas de trabalho só se tornaria uma realidade, no ocidente, após 1918. O único desporto conhecido da população geral era o ciclismo, pois a bicicleta era o meio de transporte mais comum entre o operariado dos grandes centros urbanos (Paris, Berlin, Londres, Viena).

Com o início do conflito, milhões de homens foram chamados a pegar em armas. Contudo a guerra rapidamente evoluiu para um conflito de trincheiras, em que as frentes ficariam definidas por um longo período de tempo. As rotinas do exercito eram bem definidas: na maior parte dos exércitos, como no francês, os soldados ficavam 15 dias na frente e 7 de “descanso”. E com o intuito de que os soldados não ficassem 100% inativos na retaguarda, a pratica do desporto passou a ser incentivada entre os militares. Camponeses e operários que nunca antes haviam tido o “privilégio” de praticar desporto foram introduzidos a diversos jogos, desde alguns mais pacíficos (futebol, atletismo e o rugby) ou outros mais bélicos, embora percursores de muitas modalidades que agora conhecemos como olímpicas (tiro ao alvo, lançamento de granada em comprimento – que será substituído pelo lançamento do peso -, esgrima, etc.).

Após o conflito mundial, o mundo desportivo jamais seria o mesmo, assim como o mundo, a política e a sociedade. Milhões de homens foram introduzidos ao desporto, tornando algo que era exclusivo de uma elite num fenómeno de massas. Uma das grandes novidades da “Guerra que iria por fim a todas as Guerras” seria a Aviação de Guerra, esta criaria as primeiras “rockstars” do conflito: os pilotos de caça.

Nomes como Von Richtoffen – o celebre Barão Vermelho – ou Roland Garros entravam em força para o quotidiano das massas durante este período. Roland Garros faz alusão ao celebre torneio de Tenis que usa o seu nome, porem Garros nunca foi grande jogador de Ténis, tendo jogado algumas vezes ocasionalmente…

Garros foi desde jovem um apaixonado pela aviação e pelo seu desporto de eleição: o Rugby. As suas proezas nos ares remontam a períodos antes da guerra. Em 1913, fez a primeira travessia do Mediterrâneo sem escalas, voando desde o sul de França até à Tunísia durante 7h53m. Durante o conflito (1914-1918) tornou-se num dos mais celebres Ases dos Ares – pilotos com mais do 5 vitórias em duelos – o que o catapultou ainda mais para a ribalta.

Antes do seu estrelato pelas proezas nos ares, o jovem Roland estudava em Paris na Escola de Haut Etudes Commerciales onde tinha como grande amigo Emile Lesieur – uma das maiores figuras da História do Rugby francês. Lesieur era um parisiense de gema e atleta de um dos escudos mais carismáticos do rugby gaulês – o Stade Français.

Em 1908, Lesieur convidou o seu grande amigo Roland a juntar se Stade, tornando-o atleta e apaixonado pela modalidade. Roland apos obter o seu diploma no HEC deixou a modalidade dedicando-se exclusivamente a aviação. Curiosamente, Lesieur seguiu os passos de Roland tendo também se tornado piloto de caça na guerra, mas ficou longe do sucesso do seu grande amigo.

Roland morreria em combate em 1918, apenas a um mês do fim do conflito, mas as suas proezas ecoavam postumamente. No ano de 1928, na celebração do 10 aniversário da morte de Roland Garros, o seu amigo Lesieur em assembleia geral do Stade Français propõem que os campos desportivos construídos nos terrenos do Stade Français sejam nomeados em homenagem ao Herói da Grande Guerra.

As instalações seriam utilizadas, nesse ano, pela organização dos Internacionaux de France – um torneio de tenis realizado desde 1891 em Paris, porém acabaram por ficar mais conhecidos pelo nome do estádio onde são disputados – Tournoi de Roland Garros.

Cartaz de Roland-Garros de 1928 (Foto: Roland-Garros)

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