Arquivo de Luisão - Fair Play

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Rui MesquitaNovembro 19, 20176min0

O experiente capitão encarnado conta com 36 anos e 15 anos de Benfica. É pouco menos de metade da sua vida dedicada ao clube da Luz. Partilhou o eixo da defesa com mais de 15 centrais diferentes. Mas agora, longe da forma física de outrora, Luisão tornou-se mais um problema do que uma solução? É o que tentamos perceber ao longo deste artigo.

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Pedro AfonsoJunho 1, 20178min0

Tetracampeões. Uma novidade para as hostes benfiquistas. E que novidade! Os encarnados cimentam a sua posição como clube português mais titulado e colocam o último prego no caixão da hegemonia portuense, que vigorou durante os últimos 30 anos. Mas que época foi esta? Poderemos reduzir todo um ano a um título, mesmo que signifique ser Tetracampeão?

Ainda a época não tinha começado e já as vozes da desconfiança se erguiam: por um lado, um Sporting com contratações sonantes e uma espécie de all-in para a conquista do tão almejado título de campeão nacional; por outro lado, a contratação de NES que viria, em teoria, reacender a mística portista; e ao centro, a falta de soluções credíveis para a saída de Renato e Gaitán. Mas se ainda havia dúvidas acerca do técnico Rui Vitória ser capaz de ser reinventar, a vitória na Supertaça por 3-0 frente ao Braga serviu para dissipar as dúvidas. Foi o arranque perfeito para uma época com 62 jogos, 42 vitórias, 12 empates, 8 derrotas, 136 (!) golos marcados e apenas 48 sofridos.

O “golo” [Fonte: MaisFutebol]

Pontos altos

  • A vitória por 2-1 frente ao Sporting CP. Para além do óbvio simbolismo que se prende com a vitória num derby, este jogo serviu para quebrar o enguiço, foi um afastar de uma vez por todas as superioridade de JJ nos mind-games e demonstrar que o Benfica se tornou, com Rui Vitória, uma equipa madura, cínica, fria e competente.
  • 5-0 ao Vitória SC. Há maneiras e maneiras de se ser campeão. No fundo, é “apenas” confirmar que, matematicamente, será impossível para os adversários ultrapassar a nossa pontuação. E o Benfica, em casa, foi capaz da melhor exibição da época, com “nota artística”, num autêntico banho de futebol que culminaria com a vespa de Eliseu.
  • A conquista da Supertaça. Uma vitória por uns expressivos 3-0 que foi capaz de dissipar dúvidas acerca da capacidade do técnico ribatejano e acerca da valia do plantel encarnado.
Traição e falta de carácter. [Fonte: Goal.com]

Pontos baixos

  • Derrota frente ao Moreirense para a Taça da Liga. Não desvirtuando o mérito do clube minhoto, a displicência e sobranceria com que os jogadores abordaram a 2ª parte custaram a possibilidade de disputar mais uma final e fazer o pleno a nível interno. Um balneário brincalhão virou displicente e, nos jogos seguintes, o nervosismo transpareceu no banco encarnado.
  • A caminhada Europeia. Ao contrário de anos passados, os encarnados não se podem queixar de um grupo difícil. Uma fase de grupos em que se contam 2 vitórias contra o D. Kiev, 2 empates infantis frente aos turcos do Besiktas (o primeiro na última jogada do jogo e o segundo após uma vantagem de 3-0 ao intervalo) e 2 derrotas categóricas frente ao Nápoles, apurou um Benfica com pouco andamento para a Champions. Seguiu-se um Dortmund ao qual é “roubada” a 1ª mão, face à superioridade gritante dos alemães, e que na 2ª mão fez questão de trucidar as hostes encarnadas. É o Dortmund, mas não é o Dortmund de outros tempos.
  • A razia de lesões. É incompreensível como um clube da dimensão do SL Benfica apenas tenha tido o plantel todo à disposição por volta da trigésima jornada. O azar não explica tudo e o caso mais gritante será a gestão de Jonas, com a sua entrada na Madeira, agravando uma lesão e demonstrando um certo amadorismo, imperdoável.
O Maestro. [Fonte: Sapo Desporto]

MVP

  • Pizzi. Pelo que jogou, pelo que fez jogar, pela adaptação a uma posição que não é a sua e por ver caminhos e espaços onde mais ninguém via, quando o coração já só mandava correr desalmadamente, em desespero, e todos precisavam de alguém que os guiasse. Jogador com mais minutos e imprescindível para o jogo encarnado. Um craque.
Incansável [Fonte: The Sun]

Revelação

  • Nélson Semedo. A época passada tinha deixado um leve perfume daquilo que seria a “locomotiva” na faixa direita benfiquista. Não tendo acabado a época passada na melhor das posições (sentado), rapidamente ganhou o lugar a André Almeida e assumiu-se como um porto-seguro do ataque dos encarnados. Defensivamente ainda muito permeável, mas a experiência trará, com certeza, essa capacidade e “esperteza” a Nélson.

Desilusão

  • Rafa. Os 16 milhões pesaram no craque português. Jogo após jogo, a qualidade era visível, o transporte de bola, o drible, o virtuosismo a lembrar Hazard. Mas faltou sempre critério no último passe, na hora de rematar, de matar a jogada, algo que não faltou a jogadores claramente mais talentosos que o português, mas mais decisivos para o Benfica. Na próxima época, Rafa terá de ser capaz de superar o seu bloqueio e demonstrar porque razão vale 16M. E aí poderá, até, almejar voos mais altos.
Um dos “Flops” do ano. (Foto: Record)

Casos bizarros

  • O desaparecimento de Horta. De contratação inesperada, a titular, a lesionado, a não-convocado. O percurso de Horta no Benfica desafia toda a lógica e aproxima-se de um romance kafkiano. Apenas poderá ser explicado por jogadas de bastidores que não ficam bem a ninguém. Com isto, perde o André e perde o Benfica.
  • O lugar cativo de Salvio. A dada altura da época, o 11 do Benfica era fácil de adivinhar: era Salvio e mais 10. Não sou fã do argentino, mas reconheço a importância de “Toto” (não consigo pensar numa alcunha melhor) na equipa. Contudo, creio ser inexplicável o estado de graça de Salvio que, exibição pobre atrás de exibição pobre, manteve o lugar, enquanto todos os outros extremos sorteavam quem seria titular.
  • Celis, Danilo e Felipe Augusto. O colombiano surge de pára-quedas no SL Benfica, nunca tendo demonstrado capacidade para estar no plantel do tetracampeão (tri, à altura). Contudo, RV lança o médio várias vezes, por vezes até à frente de Samaris, esperando encontrar algo que justificasse o investimento (?). A gota de água veio com o Besiktas, em casa, e Celis acabou a época no Vitória SC, a suplente. Por outro lado, a gestão de Danilo nunca pareceu clara. O brasileiro, que já há alguns promete muito e demonstra pouco, nunca foi verdadeira aposta, apesar de reunir as condições para suprir a ausência de Renato. Termina a época emprestado ao Standard. Por fim, Felipe Augusto foi contratado para fazer de Danilo, quando o SL Benfica já havia despachado Danilo. Para além disso, Felipe Augusto, altamente propenso a lesões, veio aumentar a conta do hospital de campanha da Luz. Nunca demonstrou valias suficientes para justificar a sua presença no plantel, muito menos a ultrapassagem de Horta e Samaris na corrida ao meio-campo.
O “sacrificado”. (Foto: SAPO Desporto)

Notas soltas

  • A explosão de Gonçalo Guedes. Com mais coração que cabeça, o jovem foi um dos obreiros da excelente primeira volta de campeonato e peça preponderante durante a crise de lesões.
  • O capitão Luisão. Aos 36 anos, Luisão carimbou uma das suas melhores épocas ao serviço do clube da Luz, sendo o central mais constante durante a época e um líder dentro e fora do campo.
  • Tolerância 0 para Carrillo. O peruano tem um estilo de jogo “molengão”, mas já o tinha no SCP e talento e inteligência nunca lhe faltaram. O ano de paragem adormeceu algumas qualidades, principalmente físicas, mas não se compreende a aversão do público benfiquista que se mostrou sempre profissional e que nunca deixou abater pela falta de oportunidades e má gestão da sua utilização.

E, após todas estas pequenas análises, creio que a época encarnada foi francamente positiva e calou inúmeros críticos, grupo no qual me incluo, havendo, no entanto, MUITO espaço para crescer e melhorar.

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Pedro AfonsoFevereiro 21, 20176min0

Numa altura em que os Milhões se apoderam do futebol, os românticos do futebol apregoam que “fazem falta jogadores com amor à camisola”, jogadores que cresçam e sirvam apenas um clube, à imagem de Maldini, Totti, Gerrard, Iniesta, entre outras lendas do futebol. O Capitão Luisão, não sendo formado no SL Benfica, já dedicou 13 anos à causa encarnada. Foram 500 jogos na passada Terça-feira, 501 com a vitória sobre o Braga. Uma análise ao percurso do “Girafa”.

Era o verão de 2003 e o treinador José António Camacho. Noticiava-se a chegada de um reforço para as hostes encarnadas, de seu nome Ânderson Luís da Silva, mais conhecido por Luisão. Desconhecido para a grande maioria dos benfiquistas, o central brasileiro chega a troco de 1 milhão de euros, pronto para disputar o lugar no centro da defesa benfiquista. A primeira época é difícil, levando o jovem brasileiro a considerar abandonar o clube, devido a lesões, exibições menos conseguidas, exigência da massa adepta que ambicionava lutar com o FC Porto de Mourinho. Argel, que se tornou o “pai” de Luisão, relembra essa fase como crítica para o futuro de Luisão, tendo sido importante a intervenção dos colegas de equipa para apoiar o jovem brasileiro. Não obstante, na sua primeira temporada ao serviço do Benfica apresentou bons números: 22 jogos e 4 golos marcados (o primeiro na sua estreia, com uma destreza técnica pouco vista nos anos vindouros).

Desde há 13 anos para cá, que Luisão é o Patrão da defesa encarnada, um esteio de todos os treinadores que por lá passam, um elo de ligação à massa adepta, o líder do balneário que qualquer equipa precisa. Após estes 500 (e um) jogos de Luisão com a camisola encarnada, fica uma análise a alguns números e momentos, protagonizados pelo Girafa:

Registos

  • 501 jogos oficiais pelo SL Benfica, apenas atrás de Néné (578), Veloso (534) e Coluna (528). Talvez seja possível atingir Veloso e Coluna, contudo, a marca de Néné parece já demasiado distante para os 36 anos do capitão;
  • 8 treinadores passaram pelo Benfica, desde que Luisão chegou a Lisboa: José António Camacho; Giovanni Trapattoni; Ronald Koeman; Fernando Santos; Quique Flores; Fernando Chalana; Jorge Jesus; Rui Vitória.
  • 45 golos marcados com a camisola do SL Benfica
  • Duplas memoráveis com uma panóplia de jogadores: Argel; Ricardo Rocha; Anderson; David Luiz; Garay; Jardel…

Pontos Altos

  • Sedentos de títulos, os adeptos benfiquistas mataram a sede que os perseguia desde 1994, muito graças a Luisão. Sob o comando de Giovanni Trapattoni, o Benfica chega à penúltima jornada proveniente de uma derrota por 1-0 frente ao Penafiel. O adversário é o Sporting e o título tão perto… Aos 83 minutos, um livre marcado por Petit, um falhanço de Ricardo e o golo de Luisão. O Benfica sagrou-se campeão nessa temporada.

  • Na época de 2005/2006, Ronald Koeman leva o Benfica a uma caminhada Europeia verdadeiramente memorável, restaurando (um pouco) do orgulho Benfiquista na Liga dos Campeões, perdido com tantos anos de seca. Luisão, para além da dupla brilhante que fez com Anderson e manteve a baliza encarnada incólume frente ao Liverpool, campeão em título, nos oitavos-de-final, ainda foi capaz de marcar o golo que deu a vitória em casa aos encarnados.
  • Conhecido pela sua superior capacidade aérea, Luisão nunca se destacou pela sua capacidade técnica. Contudo, isso não impediu o bom gigante de surpreender tudo e todos na noite de 14 de Abril de 2011, no Philips Stadion, frente ao PSV. A perder 2-0 ao intervalo, apesar da vantagem de 3 golos levada de Lisboa, a equipa encarnada tremia. À passagem dos 42 minutos, uma obra-de-arte.

  • Luisão sempre teve como companheiros de defesa jogadores de enorme craveira. Contudo, nenhum se complementou com o brasileiro como Garay. Entre 2011/12 e 2013/14, argentino e brasileiro fizeram, talvez, a melhor dupla de centrais encarnados dos últimos 25 anos. Jorge Jesus assentou a sua defesa numa dupla que garantiu segurança tanto nas competições internas, como nas europeias. Juntos, chegaram a duas finais da Liga Europa, deixando pelo caminho equipas como Juventus e Tottenham.

Pontos Baixos

  • Os constantes rumores de transferências não são novidade para o jogador profissional de futebol. Luisão, fazendo uso da sua enorme qualidade futebolística e peso dentro do balneário, utilizou diversas vezes esse mesmo pretexto para forçar a saída ou receber aumentos de ordenado. Apesar de, como profissional, ter toda a legitimidade de perseguir novos desafios, as exposições na Comunicação Social foram um método de “chantagem” que Luisão usou e abusou, principalmente após a conquista da Superliga em 2004/2005.
  • A 5 de Janeiro de 2008, Luisão, na altura um dos capitães da equipa, envolveu-se numa acesa discussão em pleno relvado com Kostas Katsouranis. José António Camacho, na sua segunda passagem pelo Benfica, foi peremptório em retirar ambos de campo, num jogo que terminou empatado a 1 bola como o Vitória de Setúbal.

  • No Verão de 2012, um momento verdadeiramente insólito: Luisão “agride” o árbitro do jogo de preparação entre Benfica e Dusseldorf. O resultado? Uma suspensão de dois meses para o central benfiquista.

  • Na 2ª jornada da Liga Portuguesa 2013/2014, o Benfica recebia o Gil Vicente. Aos 90 minutos, os minhotos ganhavam por 1-0 e os adeptos encarnados, agastados com o falhanço da época transacta, começavam a assobiar a equipa encarnada. 90+1′ e Markovic empata o jogo; 90+2′ e Lima dá a vitória aos encarnados. Nos festejos, Luisão manda calar os adeptos benfiquistas, com Jorge Jesus e os seus colegas a apressarem-se a reprimir a explosão do “Girafa”.

Passados 13 anos, Luisão continua longe de ser um jogador consensual na Luz. Os 36 anos começam a pesar e os “rins” já não são os mesmos, levando muitos benfiquistas a pedir banco para esta instituição do SL Benfica. A verdade é que o brasileiro continua a segurar a defesa encarnada, a garantir assistências, como frente ao Dortmund, a marcar golos e a fazer cortes providenciais, ganhando a amizade de (quase) todos os guarda-redes que passaram pela Luz. Numa época de mercantilismo, Luisão é uma lufada de ar fresco; Luisão é o Benfica personificado.

Obrigado, capitão!


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