Arquivo de Liga Portugal - Fair Play

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Fair PlayMarço 1, 20177min1

A capacidade negocial dos 3 grandes evoluiu e tornou mais difícil o recrutamento em Portugal. Mas e quanto aos restantes? Como é (e como pode ser) a vida dos clubes portugueses mais pequenos no global mercado futebolístico? Uma perspectiva diferente sobre um nicho que tem material de qualidade indubitável para ser explorado.

Já fica para trás o tempo em que clubes das grandes ligas europeias utilizavam os grandes da liga portuguesa como um autêntico viveiro de talento do qual retiravam jogadores de qualidade e elevado potencial a preço de saldo. Constantes provas dadas por jogadores formados ou transformados em Portugal – como é o caso dos muitos jovens estrangeiros que o FC Porto e SL Benfica aproveitaram e moldaram –, somados às capacidades negociais dos grandes clubes portugueses, fizeram com que isso deixasse de acontecer. O crescimento da importância de agentes como Jorge Mendes e a enorme reputação dos treinadores portugueses, que continuam a influenciar a carreira de tantos destes jovens jogadores, ajudaram também.

Hoje só clubes de alta dimensão têm capacidade para pagar a Porto, Benfica e Sporting – que finalmente começou a acompanhar os rivais neste espectro durante a era Bruno de Carvalho – o que estes exigem pelos seus melhores talentos. No entanto, continuo a notar uma falta de exploração por parte do mercado internacional para com uma grande parte do mercado português: os clubes de menor dimensão.

As diferenças económico-financeiras continuam a ser gritantes entre os grandes do futebol português (somados ao SC Braga que se encontra num plano intermédio) e as outras 14 equipas que compõem a Primeira Liga. Esta situação leva a que muitas vezes estes clubes vendam os seus maiores valores a preços abaixo da sua “valorização”. Sejam eles jovens portugueses formados pelos próprios clubes ou sul-americanos já com experiência europeia devido a um par de boas temporadas na nossa liga, grandes clubes de ligas medianas europeias ou clubes de meia tabela das grandes ligas tendem a aproveitar-se da situação… mas não o suficiente. Com o intuito de demonstrar tal situação construí uma tabela na qual disponho as transferências internacionais de relevo de clubes portugueses que não os “4 grandes” nas últimas épocas.

Quadro da autoria de Tiago Estêvão (@tiagoestv)

As siglas “Value ATT” e “Value ATM” são, respetivamente, os valores no momento da compra e o valor neste momento. O primeiro tem o intuito de ser comparado com aquilo que foi realmente pago pelo clube – provando ou não a teoria de que os clubes muitas vezes conseguem jogadores abaixo do seu valor –, enquanto o valor neste momento é suposto relacionar-se com a evolução de tal jogador após a transferência e, consequentemente, o elevado potencial dos jogadores do nosso campeonato.

É bom relembrar que os valores são todos retirados do site Transfermarkt e não são necessariamente a melhor maneira de avaliar a performance de um atleta nem o seu potencial futuro – foi simplesmente um prisma uniforme pelo qual decidi olhar este fenómeno. Para além disso a escolha das transferências em foco foi minha: mencionei grande parte das que movimentaram valores mais elevados, deixei de fora todas as transações nos quais os valores não foram divulgados – como a recente de Jorginho para o Saint Étienne, por exemplo – e, devido a ser uma lista curta, vão sempre faltar alguns.

De uma lista que contém 25 jogadores, apenas em 6 transferências foi pago um montante acima do valor do jogador no momento. Desses 6 atletas – Jota, Dalbert, Deyverson, Vezo, Lucas Lima e João Pedro –, 5 têm neste momento um valor superior ou igual àquele pago pelo clube, demonstrando que nas poucas vezes que os clubes portugueses exigem um valor superior fazem-no por saber o potencial talento que têm em mãos. A situação acaba por beneficiar ambas as partes.

O único que ainda não chegou a esse valor é João Pedro, recentemente contratado pelo LA Galaxy da MLS – competição que arranca esta semana. Não tenho qualquer dúvida de que “JP” vai ver o seu valor aumentado dentro de meses, já que tudo aponta à sua titularidade na Califórnia. Gerso encontra-se numa situação similar – apesar de não estar incluído na lista –, sendo que o Sporting KC acabou por pagar um valor superior à sua valorização para o levar para a MLS.

João Pedro trocou o Vitória SC pelo LA Galaxy (Foto: MaisFutebol)

Vemos ainda mais alguns padrões de mercado na tabela. O Málaga, por exemplo, é um clube que muito tem aproveitado esta situação, comprando Antunes (agora em Kiev), Horta (que se tornou internacional A português a jogar pelos Malaguenhos) e Flávio Ferreira – sem clube aos 25 anos mas que estava valorizado em 2.5M€ quando saltou da Académica para os espanhóis por apenas meio milhão.

Em França já há uma série de clubes a seguir atentamente o nosso mercado: 9 das 25 transferências mencionadas ocorreram de Portugal para França. Seri, muito elogiado por Paulo Fonseca nos seus tempos de Paços, está juntamente a Dalbert a surpreender ao serviço do Nice. O costa-marfinense tem 9 assistências esta temporada, ninguém tem mais nas grandes ligas europeias. Fabinho continua as excelentes exibições pelo Monaco e, com maior ou menor influência de agentes, também ele passou por Portugal antes de dar o salto. Apesar do último lugar na tabela, Cafú tem mais de 1000 minutos jogados pelo Lorient e a ele se juntou Wakaso. Interessante ainda o estranho caso de Afonso Figueiredo que, após uma grande temporada pelo Boavista e muitos rumores que o ligavam aos grandes, seguiu para o Rennes mas infelizmente ainda só tem 90’ jogados pelo clube.

Por fim, temos ainda os países da Península Arábica e o aumento da quantidade de jogadores que assinam por estes clubes de grande capacidade económico-financeira. Para o Al-Fateh foram Ukra e Nathan Júnior, de momento cada um tem cinco golos e quatro assistências em 18 e 19 partidas respetivamente, sendo simultaneamente os melhores marcadores e melhores assistentes da equipa. Leo Bonatini, fora da lista por falha minha, assinou pelo Al Hilal após a sua época fantástica com o Estoril – demonstrando todo o seu poder económico, a equipa saudita pagou 5M€ pelos seus serviços (2M€ valor de mercado na altura, 3.5M€ agora).

Ukra também deixou a Liga NOS rumo a um destino exótico (Foto: Público)

Não se encontram aqui incluídas as transferências de jogadores que deram o salto de equipas menores em Portugal para os “quatro grandes”. Mas Soares, André Horta, Paulo Oliveira, Sérgio Oliveira e Ricardo Ferreira são exemplos daquilo que seria outra enorme lista.

Existe qualidade e preços baixos em Portugal comparativamente àquilo que encontraríamos noutras ligas europeias de cariz similar e tanto o mercado internacional tem de tomar a Liga Portuguesa mais em conta para o seu próprio benefício, como os próprios grandes têm de aproveitar as oportunidades, apostando em talento já com provas dadas em Portugal, contraditoriamente às apostas em jogadores incertos do mercado internacional que contribuem ainda mais para o agravamento das suas folhas salariais.

Artigo da autoria de Tiago Estêvão, analista de futebol português nas plataformas WhoScored e PortuGOAL.net 

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Filipe CoelhoNovembro 3, 201610min0

Aos 33 anos, é um dos jogadores mais emblemáticos da Liga NOS. Construiu uma carreira a pulso até se tornar líder em campo de uma das equipas que mais cresceu no contexto português nos últimos anos. O seu exemplo vale, porém, por outros aspetos. Acaba de concluir o Mestrado em Ciências do Desporto e tem-se dedicado àquela que define como a sua causa: a da gestão das carreiras desportivas. Eis Ricardo Monteiro – ou melhor, Tarantini.

fpComo é que o Ricardo José Vaz Alves Monteiro se transformou em ‘Tarantini’?

T. O culpado foi o futebol. É uma alcunha do tempo em que jogava no Sporting da Covilhã, dada por Virgílio Martins (adjunto de João Cavaleiro). Hoje, com exceção de pais e irmãs, toda a gente me chama e conhece-me por Tarantini.

fp. Passou pelo Sporting da Covilhã e pelo Gondomar antes de atingir a divisão maior. O que lhe ficou desses tempos? O que oferecem os escalões inferiores do futebol nacional a um jovem futebolista sénior?

T. Além desses também o Portimonense. O tempo no Sporting da Covilhã foi diferente, pois além de ter tido uma carreira profissional conciliei uma carreira académica. Naquela altura, o Sporting da Covilhã estava a tentar relançar-se outra vez nos campeonatos profissionais e foi uma luta a todos os níveis. Senti as dificuldades que são pertencer a um clube que quer voltar a crescer, sair dos problemas financeiros e ainda por cima num clube que vive no interior.
A ida para o Gondomar e Portimonense foram passos importantes, para um jogador que tinha como objetivo chegar ao escalão principal. Os escalões inferiores devem ser olhados como mais uma etapa e oportunidade de quem pretende chegar mais acima. Os escalões inferiores dotam os jogadores de comportamentos que jamais serão conhecidos por outros. O futebol é como uma pirâmide, em que só chegam, permanecem e continuam os mais fortes. A 1ª Liga é apenas metade do caminho.

fp. Chegou ao Rio Ave em 2008/09, época que marcou o regresso do clube ao principal escalão do futebol português. Que avaliação faz relativamente à evolução do emblema vila-condense desde esse momento?

T. Uma evolução brutal. Só quem conhece o Rio Ave por dentro percebe o que foi feito e o que está a ser para tornar este clube um dos melhores de Portugal. Sé é o melhor, não é; se há coisas por fazer, certamente que sim; mas as poucas pessoas que cá trabalham têm isso em mente, tornar o Rio Ave mais competitivo. As recentes campanhas da equipa ajudaram a dar força na mudança. Para o Rio Ave continuar a crescer falta o aumento da massa associativa, falta mais gente nos estádios, faltam mais rioavistas. Acredito que há uma nova geração a aparecer, aquela que viu o Rio Ave a ganhar mais vezes.

fp. Alguma vez sentiu que a mentalidade de um treinador poderia prejudicar a equipa? Ou seja, alguma vez percepcionou que a forma como o treinador queria que a equipa jogasse ficava aquém do potencial da mesma e não permitia a evolução dos jogadores?

T. Obviamente que todos os jogadores sabem quando tiveram ou estão a ter um melhor rendimento, e aí sim é quando o treinador e a equipa estão a tirar o melhor desse jogador. Mas são inúmeros os fatores que condicionam isso.  Não existe uma só forma de ganhar. Enquanto jogador tenho de ter a capacidade de perceber e conseguir adaptar-me às ideias do treinador. Depois posso conseguir ou não. Caso não consiga estou mais perto de não jogar ou até de ter uma performance mais fraca. Podemos é sentir (no jogo) que as ideias são boas ou más, mas aí cabe ao treinador conseguir compreender o que é melhor para a equipa e para cada jogador. Porque no final só pode haver uma voz de comando e o comandante é sempre o treinador.

fp. O que diria ou como avaliaria o seu trajecto enquanto futebolista se ele terminasse hoje?

T. Eu fui sempre um homem de objetivos. E ao analisar pelos objetivos intermédios posso dizer que apenas ainda não consegui jogar na seleção nacional. Pois quando era miúdo queria ser profissional, quando me tornei profissional queria jogar na 1ª Liga. E quando aqui cheguei pensei em permanecer e depois chegar à seleção nacional. Se calhar foi aqui o meu erro, deveria ter percebido mais cedo que podia chegar ainda mais acima. Depois vieram os timings do futebol: nas minhas melhores épocas tinha contrato ainda com o Rio Ave e aí não tive o que outrora tive, alguém que acreditasse que podia jogar a outro nível. Não fico a lamentar, fico a pensar que não sou suficientemente bom para lá chegar, pois se pensasse o contrário estava a pensar como muitos outros, a lamentar.

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fp. O regresso à Universidade foi como que um regresso ao passado – à Covilhã e à Universidade da Beira Interior – ou uma projecção do futuro?

T. Sem dúvida uma visão para o futuro. Capacitar-me para o que ai vem, e acredito que serão coisas boas, ainda melhores.

fp. Qual o maior desafio e/ou dificuldade que teve de enfrentar na conciliação entre o estatuto de estudante e atleta?

T. Não tenho nada que possa dizer que foi impossível. Foi fácil? Não foi. Mas prescindindo de muitas coisas e tendo um compromisso forte com aquilo que pretendemos, é sem dúvida o primeiro passo para se conseguir. Temos de estar completamente focados com os nossos objetivos – eu quis e fui atrás.

fp. Considerando a sua experiência, julga que deveria haver outra atenção para com os atletas que pretendem não abdicar de uma carreira escolar/académica? Caberá aos clubes, nas suas academias, facilitar e fomentar essa formação?

T. Pela minha experiência, é preciso primeiro que os desportistas queiram mesmo uma carreira escolar/académica. O problema de hoje em dia é o facilitismo. Todos querem alcançar o que quer que seja o mais facilmente possível. É preciso ir atrás, pois se não fosse difícil toda a gente conseguia. Se não fosse difícil jogar ao lado de Cristiano Ronaldo, toda a gente jogava.
E depois sim, vêm as condições e a mentalidade de quem tem o poder de decisão, que têm de estar alinhadas com essa vontade.

fp. No seu site pessoal aborda uma causa que o move. Que causa é esta e de onde é originária? E como julga que pode intervir a este nível?

T. É uma causa, uma atitude que sempre esteve presente em toda a minha vida. Sempre tive uma preocupação com o que iria fazer na vida. Quando me tornei profissional comecei a perceber que o problema era e continua a ser mesmo real.

Neste momento tenho três objetivos com este projeto:
– dar continuidade, com mais qualidade e informação a palestras educativas em clubes, universidades e instituições interessadas na temática;
– conseguir quantificar o problema em Portugal, através da realização de diversos estudos;
– e encontrar parceiros que possibilitem a criação e divulgação de testemunhos inspiradores nas diferentes modalidades.

Acredito que se as instituições não pegarem nisto a sério, esta ideia vai morrer. Vou intervir dentro das minhas possibilidades, dos meus recursos, até quando achar que sou útil para esta causa.

fp. Sente que há sensibilidade por parte dos seus colegas de profissão relativamente a estas questões?

T. Uma coisa é achar que eles são sensíveis à questão, outra coisa é se eles fazem algo para mudar. De um modo geral, se a resposta à primeira é sim, à segunda é não.

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fp. A dado momento, na sua tese de mestrado, refere que “um dos grandes objetivos deste trabalho foi fornecer ao treinador dados quantificáveis e aplicáveis, identificando e caraterizando quais as relações mais estáveis que caraterizam o sucesso defensivo em situações de ‘passe entre linhas’ no futebol”. O Mestrado foi o primeiro passo no seu futuro pós-futebol? Equaciona a possibilidade de vir a ser treinador?

T. Sim, o mestrado foi o primeiro passo a pensar no futuro, outros já dei e continuo a dar. Ser treinador é uma grande possibilidade, no entanto não sei se algum dia vai acontecer ou quando. Tal como os jogadores, também os treinadores têm uma profissão em que são avaliados semanalmente. É uma carreira muito difícil, está sempre a ser posta à prova. Para quem tem essa vontade têm de se preparar o melhor possível, para quando a oportunidade aparecer.

fp. Que sonho ainda lhe falta cumprir, pessoal e futebolisticamente falando?

T. Tirando a seleção nacional, ganhar um título por um clube dito mais pequeno, como por exemplo o Rio Ave.

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O Fair Play agradece a pronta disponibilidade do Tarantini para a realização da entrevista, desejando-lhe as maiores felicidades a nível profissional e pessoal.

(Todas as fotos inseridas no corpo do texto foram gentilmente disponibilizadas pelo Tarantini)


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