Arquivo de Libertadores - Fair Play

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Diogo AlvesDezembro 3, 20165min0

Marcelo Gallardo está há cerca de dois anos e meio como treinador principal do River Plate, e as conquistas continentais têm sido a sua grande obra ao serviço dos “Millionarios” de Buenos Aires. Uma Copa Sul-Americana, uma Libertadores e duas Recopas Sul-Americana. Já jogou sete finais e apenas perdeu duas, esta semana garantiu a oitava. A da final da Copa da Argentina.

Marcelo Gallardo chegou em 2014 ao River Plate, numa altura em que o clube já se tinha levantado após a descida de divisão em 2011 para a Divisão B (II Liga) da Argentina. Ramón Díaz era o treinador e o River acabava de vencer o Torneio Clausura. Ramón Díaz após a conquista do título abandonou o River e decidiu aventurar-se ao serviço da selecção do Paraguai.

Roberto D’Onofrio – carismático presidente do River Plate – decidiu então chamar por um dos meninos queridos dos hinchas do River, Marcelo Gallardo. Os adeptos ficaram apreensivos e gerou-se a dúvida e a incerteza quanto à qualidade de Muñeco Gallardo como treinador principal. Que ele foi um óptimo jogador ninguém duvidava, mas como treinador era uma incógnita. Apenas tinha tido uma experiência como treinador no Nacional de Montevideo.

Foto: AFP
Foto: AFP

Gallardo chegou e pegou numa equipa campeã e recheada de talentos individuais, mas era preciso agora transformar as individualidades num colectivo forte, coeso e capaz de continuar a vencer pelo River Plate. O 4-4-2 foi o sistema escolhido, ora com mais gente por dentro, em losango, ora mais clássico com dois homens sobre as faixas para dar largura ao seu jogo. Uma equipa forte em ataque rápido e a pressionar forte sobre o adversário. Nunca mostraram ser uma equipa com um futebol muito elaborado, mas eficaz.

As dúvidas e incertezas dos adeptos aos poucos foram dissipando-se sobre Gallardo, e nem o adepto mais optimista poderia imaginar o que Gallardo iria conseguir fazer em dois anos e meio. Apesar de ainda não ter vencido o campeonato, o River Plate com Gallardo já disputou sete finais, venceu cinco e perdeu apenas duas. Saldo positivo para Muñeco Gallardo.

Mais positivo fica quando falamos em finais continentais e as consegue vencer. Assim foi em 2014 – ano de chegada ao clube – quando conseguiu vencer a Copa Sul-Americana num trajecto imaculado que culminou com a vitória sobre o Atlético Nacional. 1-1 em Medellín e 2-0 em Buenos Aires. Foi inclusive a primeira vez que o River venceu tal competição.

Se o final do ano de 2014 tinha sido positivo, o verão de 2015 guardava o título maior do continente Sul-Americano: a Libertadores. Uma fase de grupos muito inconstante – e aqui estão os sinais da irregularidade do River – mas uma fase a eliminar muito boa – é a praia de Gallardo. O Tigres do México foi o rival na final e acabou goleado no Monumental de Nuñez por 3-0 no segundo jogo. Gallardo mostrava mestria nos jogos a eliminar, um estratega neste tipo de eliminatória.

Foto: Taringa.net
Foto: Taringa.net

Já a nível interno o desempenho não tem sido assim tão bom ao longo destes dois anos e meio, se na primeira época de Gallardo o título foi possível tendo terminado a época em 2º lugar a apenas dois pontos do campeão Racing, de lá para cá nunca mais foi exequível ver o River nas grandes decisões da Primera Divisón.

Gallardo não tem conseguido mostrar-se um estratega nas provas longas como o campeonato argentino que tem ao todo trinta jornadas e para ser campeão é preciso manter um bom nível de regularidade. E cada vez mais as grandes equipas da Argentina mostram uma boa evolução do seu jogar, o que torna o campeonato muito mais atractivo e difícil ao mesmo tempo. Se tivesse de apontar o grande defeito a Gallardo seria este, a falta de regularidade no campeonato.

Ainda assim esta época parece estar a ser a mais constante dos últimos tempos e apesar do 6º lugar, a diferença para o Estudiantes é de apenas seis pontos. Seis pontos hoje em dia na Primera Divisón não é nada dado o bom nível competitivo que a Primera Divisón tem mostrado esta época com muitas equipas próximas do líder Estudiantes. E a recente passagem à final da Copa da Argentina pode dar à equipa um ânimo extra para afrontar os desafios que terá pela frente nos próximos tempos.

Cabe agora a Gallardo conseguir manter a regularidade na sua equipa, uma equipa jovem e recheada de bons talentos como Driussi ou “Pity” Martínez. Mas que conta também com a experiência de D’Alessandro, Ponzio e Maidana. Uma mescla de juventude e experiência que Gallardo trouxe ao River e que lhes dá doses de criatividade, irreverência mas também maturidade. Assim como Gallardo que ainda é um jovem treinador de apenas 40 anos, tanto esta equipa como o seu treinador podem conseguir feitos históricos para o River, e quem sabe, se nos próximos anos não teremos Marcelo Gallardo de volta à Europa para mostrar o seu trabalho, mas agora como treinador principal.

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Francisco IsaacSetembro 30, 20169min0

1993, o ano das coincidências macabras para Medelín: Escobar entre a fuga e a caça, uma guerra nas “entranhas” de Medelín e um redefinir de ilusões. O 2º episódio de uma trilogia do Fair Play

Convidamos o leitor a colocar a seguinte banda sonora para acompanhar a leitura: goo.gl/ksIbNR

No caso de não ter lido o 1º episódio, recomendamos que o faça: goo.gl/KtPgZC

O Muro de Berlim caiu, assim como a União Soviética; Bill Clinton é presidente nos EUA; a World Wide Web “nasce” no CERN; o Jurassic Park faz “estremecer” o Mundo do Cinema; Whitney Houston arrebata a crítica; e o Marselha conquista a sua 1ª Taça dos Campeões Europeus. Na Colômbia, o barril de pólvora de Escobar estava pronto a explodir…

Imaginem, por um momento, o que seria a Colômbia à passagem de 1993… Os tumultos em Medelín, com Escobar foragido do Search Bloc/Bloque de Búsqueda  e de Los Pepes, tentando, por entre fintas e dribles do mais fantasista possível, escapar da morte a todo custo. Na mesma cidade, o Deportivo Independiente de Medelín estava perto de voltar a sagrar-se campeão colombiano, algo que lhes escapava desde 1957 – a vitória tinha de chegar! As fintas de Henry Zambrano (avançado do DIM) encantavam o público do Equipo del Pueblo. E quem se encontrava por entre os fãs dessa mítica equipa de Medelín? Don Pablo!

O coração de Escobar não palpitava pelo Atlético Nacional, não; e, talvez, nem a selecção colombiana excitasse a sua paixão pelo futebol como o Deportivo Independiente de Medelín o fazia (pelo menos como afirma o seu filho mais velho, Sebastián Marroquín, e Popeye, o Sicario de Escobar). Do vermelho enternecido no azul, com um subtil toque do branco, as cores do DIM eram quase como um auto-retrato da história e personalidade de Escobar, que fez a sua vida entre o vermelho sangue do seu trabalho ou das suas vítimas, o azul do céu  da altitude do vale de Aburrá ou do rio Porce (que “vive lado-a-lado” com a cidade de Medelín) e o branco dispensa explicações. Entre a loucura de ser um hincha do DIM, de chefiar o maior cartel da América do Sul (e talvez das Américas) e da sua vida familiar “escondida” de todos, Escobar sabia perfeitamente do alcance da sua Lenda.

Ao estilo da série, comecemos pelo final do reinado de Don Pablo que cruza, coincidentemente, com a história do DIM e do Campeonato de futebol da Colômbia de 1993. Escobar estava no final da linha, o seu coração palpitava a cada noite que se levantava, com os seus inimigos sedentos de fazer justiça e de pôr fim ao tango Escobariano dos últimos 18 anos. Escondido em Medelín, Don Pablo deveria desconhecer qual seria a data da sua morte, apesar de todos os seus intuitos para driblar, fintar e regatar os seus fiéis perseguidores. Porém, sabia que o momento final estaria a chegar. Sobre o mesmo timbre e ritmo, o DIM tentava fugir com o título de campeão da Colômbia e a loucura e paixão que se faziam ouvir e sentir no Estádio Atanasio Girardot demonstravam que o sonho estava perto. Muito perto.

Numa contenda complicada contra o sempre favorito Atlético Nacional (estaria a ser financiado ou não pelo Cartel de Medelín?), o América de Cali (orquestrado pelo Cartel de Cali, rivais de Escobar), o Junior de Barranquilla (os “puros” do futebol colombiano, aqueles que nunca se venderam) e o Deportivo Independiente de Medelín, o campeonato acabou na Liguilha a 4. Nessa altura o campeonato da Colômbia estava dividido em três fases: campeonato com 16 equipas, divisão em dois grupos com os 8 melhores onde se apuravam 2 e os 4 finalistas. Na 3ª fase, a liga a 4 decorria em duas voltas e quem somasse o maior número de pontos era considerado o campeão. Difícil? Complicado? Confuso? Não, era a paixão sul-americana pela redonda, pelo calor das arenas onde as maiores estrelas se degladiavam para atingirem o rótulo de Mito e Lenda.

No Junior jogava Valderrama, o enigmático médio colombiano (com mais de 110 internacionalizações) que conseguia levar qualquer arena à loucura, impondo todo um perfumepaixão em campo que “matavam” o público ao fim de 45 minutos. A equipa purista habitava nessa “mansão” do futebol colombiano, entre o pânico de fazer frente aos rivais governados pelas redes de tráfico de droga e influência e a emoção de provar que não precisavam de uma mão misteriosa para indicá-los ao caminho da Glória.

No América de Cali jogava um portento físico, também no meio-campo, chamado Freddy Rincón. O médio da selecção da Colômbia (84 int.) possuía um porte físico quase inultrapassável, aguentando qualquer carga e impondo toda uma raçaatitude ao estilo do nome pelo qual os hinchas colombianos o classificavam, El Colosso. Atenção que o Cali em 1993 era o campeão em título e queria manter o troféu em “casa”, como se fosse uma prova de que o Cartel de Cali dominava – ou queria dominar – em todas as frentes de “combate”.

E por fim, o Atlético Nacional de Medelín, o grande rival do DIM… e que era apoiado, supostamente, por Don Pablo. Los Verdolagas beneficiaram da ousadia, capricho e génio de Escobar, que ajudava o Atlético Nacional a chegar ao estrelato e, ao mesmo tempo, “limpava” os vários milhões de Pesos Colombianos “sujos” pelo negócio que comandava a sua vida. Em 92/93 o Atlético sorria por ter o fascinante René Higuita que “voava” (sem uso da branca) para chegar aos mais indefensáveis remates que acabavam, assim, expulsos da portería do Atlético.

El Nacional (Foto: ESPN)
El Nacional (Foto: ESPN)

Este era o quadro final da temporada de 1992/1993. Uma luta intensa ao bom estilo do calor da paixão pelo futebol dos colombianos, que caminhavam para os estádios sob os gritos e urras dos seus hinchas, enquanto os cartéis maquinavam as suas conspirações, estabeleciam o seu poder e desgovernavam o poder político que tentava, a todo custo, se libertar das amarras que tinha aceitado colocar anos atrás.

O mês das decisões chegava em Dezembro de 1993. Para todos. Pablo Escobar estava foragido das forças policiais, após ter “desaparecido” da sua prisão-fortaleza La Catedral na noite de 22 de Julho, sem que as autoridades dessem conta do sucedido. Como quem está rodeado de amigos de escola no campo de futebol, Escobar ludibriou tudo e todos, com todos os seus regates, evitando uma transferência para uma prisão menos ao seu gosto – La Catedral tinha todos os luxos que poderiam imaginar, desde uma cascata, cinema, bar e, melhor do que tudo, um campo de futebol! -, assim tentando relançar a sua carreira, que nunca entrou em modo pausa.

Esta acção levou a que os Estados Unidos da América, em parceira com o Governo da Colômbia, criassem uma força policial-militar apelidada de Search Bloc/Bloque de Búsqueda , que tinha um único objectivo: encontrar Pablo Escobar. O Search Bloc/Bloque de Búsqueda,  composto por uma liderança americana que treinaria operativos colombianos, possuía todos os meios para encontrar o líder do Cartel de Medelín. Vivo ou Morto, era a ordem de César Gaviria, Presidente da Colômbia. Ordem que Hugo Martínez Poveda, coronel do exército colombiano e agora da equipa de captura de Escobar, acatou.

A pressão sobre o líder do cartel de Medelín era quase incapacitante, uma vez que todos os movimentos mais audaciosos poderiam captar a atenção. E, para piorar o cenário para Don Pablo, o emergir de Los Pepes vinha duplicar os seus problemas.

Quem assistiu à série sabe que Los Pepes era um grupo rebelde, composto por vigilantes, que só queriam caçar e aniquilar Pablo Escobar, erradicando a Colômbia da memória e jugo do déspota da Branca. Porquê Los Pepes? O nome provem de: Perseguidos por Pablo Escobar, ou seja, todos aqueles que foram alvos da extorsão, violência, ameaças e coação por parte de Pablo Escobar. Para além disso, entre as fileiras de Pepes estavam familiares de indivíduos mortos por Don Pablo, o que alimentava ainda mais uma fúria incessante, um desejo único em pôr termo ao “demónio” que lhes retirou a liberdade, humildade ou vontade de viver. A criação dos Pepes ficou marcada para Setembro de 1992, com Fidel Castaño, Carlos Castaño e Diego Fernando Murillo Bejarano a liderarem este grupo que no futuro iria inspirar outros “inícios” de luta na Colômbia. O peso de Escobar na política colombiana foi tal, que o governo local foi obrigado a constituir duas forças anti-narcóticos, que nas suas “entranhas” tinham nascido para caçar Don Pablo.

Escobar, Verde por fora, rojo por dentro (Foto: ESPN)
Escobar, Verde por fora, rojo por dentro (Foto: ESPN)

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