Arquivo de kickboxing - Fair Play

cobra-kai.jpg?fit=1024%2C576&ssl=1
Fernando FernandesJulho 14, 20173min0

Podemos formular várias questões sobre este tema, como o porquê de se chamar Mestre ou Sensei, e não treinador como na maioria das modalidades. Nas modalidades de combate tais como Kickboxing, Judo, Kendo, ou Kempo, entre outras, usa-se a designação de Mestre ou Sensei, e não de treinador.

O Mestre no seu trabalho do dia-a-dia com os seus alunos trabalha não só a parte técnica da sua modalidade, mas também a parte do caráter dos seus alunos, entre eles e o respeito pelo seu adversário, e a fidelidade ao mestre, pois ele é o centro do conhecimento para todos os seus alunos. Algumas das principais vertentes a desenvolver pelo mestre entre os seus alunos é a autoconfiança, o compromisso, a disciplina e a calma.

Tem que haver por parte dos mestres o saber adquirido ao longo dos anos de trabalho e meditação para saber transmitir todo esse conhecimento aos seus alunos, pois os desportos de combate baseiam-se na disciplina e no respeito escrupuloso pelo adversário.

Todos estes conceitos podem e devem ser aplicados no dia-a-dia do atleta na sua vida quotidiana. Eis os que considero de maior relevância: a Justiça – Fazer julgamentos de acordo com a verdade; Cortesia – O respeito por todos e as boas maneiras de comportamento; Honra – A defesa da dignidade e a sua valorização; Auto-controlo – Desenvolver na sua vida o controlo sobre as suas acções, emoções e palavras; Fidelidade – Não trair ninguém, nem a si próprio e ser fiel  a si mesmo e ao seu mestre; Amizade – O companheirismo e a partilha de conhecimentos; Modéstia – Não ser arrogante ou pretensioso; Auto-Confiança – acreditar em si próprio.

Todos estes conceitos desenvolvidos pelos Mestre culminam no conceito de ética no desporto e no muito falado fair-play.

O conceito de ética desportiva representa uma estrutura moral que define alguns limites para o comportamento dos desportistas, de forma a preservar um sistema civilizado. Este código de comportamento engloba as atitudes. A ética desportiva pode ser vista como um obstáculo à procura e/ou obtenção da vitória, especialmente para aqueles atletas que procuram ganhar a qualquer custo. Vencer é uma componente essencial do espectáculo, contudo, isto não significa que seja necessário recorrer a agressões, violência, subornos, doping, etc.

As regras da ética desportiva exigem que, além de respeitar o adversário, se saiba reconhecer o mérito do vencedor, guardando para si os sentimentos de tristeza e desapontamento. O fair-play refere-se ao respeito total e constante pelas leis do jogo e pelos regulamentos, através da honestidade, lealdade e respeito pelos colegas de equipa, pelos adversários e pelo árbitro. Implica também modéstia na vitória e serenidade na derrota. É importante fazer-se a promoção do fair-play a todos os níveis, cabendo esta responsabilidade a todos os agentes desportivos.

Em forma de conclusão, aquilo a que actualmente designamos por ética no desporto já vem sendo desenvolvido desde os primórdios das artes marciais/desportos de combate, o trabalho do mestre em transmitir estes conceitos ético-morais aos seu discípulos, e não só formar o indivíduo como atleta mas também como ser humano de corpo inteiro com princípios sólidos e humanos da vivência em sociedade.

slide2.jpg?fit=1024%2C561&ssl=1
Fair PlayMaio 31, 20174min0

Fernando Fernandes, figura maior do Kickboxing nacional, anteriormente entrevistado pelo Fair Play, diz-nos o que pensa sobre a multiplicação de títulos verificada na modalidade.

No mundo do Kickboxing existem títulos e mais títulos, mas nem todos têm a mesma importância e relevância, quer a nível nacional como internacional.

O Kickboxing nacional é superintendido pela Federação de Kickboxing e Muay Thai, que gere a nível nacional toda a modalidade e que se encontra sob a égide do IPDJ.

A Federação de Kickboxing está integrada na WAKO (World Association of Kickboxing Organizations) que é a nível mundial quem rege todo o Kickboxing, sendo também por sua vez membro da SportAccord (Global Association of International Sports Federations), uma organização internacional onde se encontram actualmente várias modalidades olímpicas e não olímpicas.

No mundo do Kickboxing nacional e internacional existem títulos para todos os gostos e de todas as proveniências, mas só alguns têm a sua importância, pois como em todos os desportos, qualquer clube ou associação pode criar um título próprio. Desta forma, oferecem aos atletas uma maior motivação para trabalhar e competir no intuito de arrecadar mais um cinturão, no caso do Kickboxing, que noutras modalidades é substituído por uma taça. Os promotores e a Federação têm cada vez mais de se preocupar com os eventos que se realizam por todo o nosso país e fazer com que a “rodagem” dos nossos atletas a nível internacional seja cada vez mais relevante. Essa “rodagem” em termos internacionais deve ser nas várias disciplinas, e não nos podemos limitar a uma das disciplinas, cenário que acontece neste momento com o K1. Não vemos eventos de LowKick, Kick Light ou outras disciplinas, e isso é necessário para a evolução de todos os nossos atletas.

A verdade é que cada vez mais temos que seguir linhas de orientação e regras que levem o Kickboxing a tornar-se num desporto cada vez mais respeitado, claro e justo, com vista à evolução da modalidade. Uma modalidade não pode ter várias federações nacionais e/ou internacionais, cada uma com a sua perspectiva e linha de orientação. É preciso uma federação única que oriente o desporto a nível mundial e nacional, e que consiga uma cada vez maior respeitabilidade, tendo sempre em vista a sua evolução e crescimento, mas mantendo o foco nos atletas e na sua evolução.

Em Portugal, o trabalho que se vem desenvolvendo por parte da federação tem em vista uma cada vez maior divulgação da modalidade. Podemos ver pois o número de atletas a aumentar gradualmente, e o próprio Kickboxing deixou de ser visto como um desporto de gente bruta que anda ao “soco e pontapé”, passando a ser um desporto aberto a todos, desde as crianças aos mais velhos, cada um com os seus objectivos próprios, desde a manutenção até à competição. Verificou-se igualmente nos últimos anos uma grande evolução junto dos atletas femininos, que cada vez mais vêem neste desporto uma forma de manutenção, assim como também na área da competição que tem vindo a aumentar exponencialmente.

O que interessa neste momento não são só os títulos que cada um ganha, mas sim mostrar à nossa sociedade que o Kickboxing nacional tem regras bem claras e é um desporto como todos os outros, onde existem as federações nacionais e internacionais que são devidamente reconhecidas. Delas emanam as directrizes para que todos se orientem pelas mesmas regras e para que haja um único caminho, onde todos se integrem com vista a valorizar cada vez mais a modalidade.

Não podemos ter cada um a pensar pela sua cabeça, e a criar títulos e mais títulos. Devemos ser todos juntos a contribuir com ideias para tornar o Kickboxing nacional cada vez mais forte. A nível internacional, o Kickboxing português já começa a trazer alguns títulos, mas com mais esforço da parte de todos podemos elevar cada vez mais a sua qualidade.

 

kickbox-25-4-2008-4-capa.jpg?fit=1024%2C686&ssl=1
António Pereira RibeiroAbril 26, 20178min0

Nenhum outro atleta conseguiu deixar uma marca tão acentuada na história do kickboxing nacional como Fernando Fernandes. Lançou recentemente Ser Campeão no Ringue Como na Vida, um manual imprescindível para todos aqueles que desejam triunfar no kickboxing. O Fair Play esteve à conversa com esta figura incontornável da modalidade, responsável pela formação no Sporting Clube de Portugal há 25 anos.

fp. Já revelaste em diversas ocasiões que a longa-metragem Luta de Gigantes (1979), protagonizada por Chuck Norris, teve um papel decisivo na tua incursão pelo kickboxing. No meio de tantos filmes de artes marciais realizados nas décadas de 1970 e 1980, o que é que este tinha de tão especial?

FF. Foi o primeiro filme que debateu o início da modalidade. Quando o filme saiu, a modalidade tinha acabado de surgir, começou a ser falada no início dos anos 70. O Chuck Norris era já um actor de cinema bastante conceituado, porque tinha feito A Fúria do Dragão (1972) com o Bruce Lee. Foi um filme bastante emocional porque retratou a realidade dos desportos de combate e dessa modalidade em particular. Foi bastante importante para mim e inspirador, porque não estava habituado a esse tipo de filmes.

fp. Quando é que o kickboxing passou da ficção para a tua realidade?

FF. Comigo as coisas na vida aconteceram de uma forma muito natural e crescente, a vencer obstáculos. O espírito do desporto de combate já cá estava dentro. Esse filme veio apenas despoletar em mim aquilo que eu procurava. Um colega da escola levou-me ao sítio onde praticava a modalidade, que na altura chamava-se Karate Full Contact, depois passou a ser só Full Contact, e posteriormente kickboxing. Agora também há a versão Ultra, que é uma mistura de kickboxing com Muay Thai. Também a evolução da modalidade é de uma forma natural. O que me puxou foi o filme, o colega da escola que me levou a um sítio espectacular, onde eu treinei e aprendi imensas coisas.

fp. O teu palmarés no kickboxing é impressionante. Campeão Nacional de Kickboxing em 1992, 1993 e 1994, Campeão Europeu em 1991 e 1993, e Campeão Intercontinental e Campeão Mundial em 1994. Ficou algum título atravessado na garganta?

FF. Não. A minha carreira desportiva está concluída, atingi os meus objectivos.

fp. Ainda te lembras do combate em que te sagraste campeão do mundo?

FF. Lembro-me perfeitamente. Lembro-me da preparação para o combate, da entrada no ringue, do desenrolar do combate, do final, o contentamento e a alegria da vitória, e acima de tudo, lembro-me da minha mulher. Foi o concluir de um objectivo que o universo tinha marcado para mim.

fp. Como era o teu estilo, enquanto lutador?

FF. O meu estilo não era de predador, nunca foi o meu objectivo chegar lá e deitar o meu adversário abaixo, mas sim fazer do combate um jogo, uma troca de golpes. Como um jogo de xadrez.

fp. Conta-nos a história da tua longa relação com o Sporting Clube de Portugal, que já leva 25 anos.

FF. A minha relação com o Sporting Clube de Portugal é uma relação de amor, íntima e próxima, que como todas as relações, tem altos e baixos. Fui convidado pelo Sporting para desenvolver a modalidade, e ainda hoje mantenho esse espírito. Depois fui campeão, formei atletas, dirigentes, árbitros, uma série de pessoas que passaram pela modalidade. O kickboxing sempre teve o seu dinamismo, empenho e formação. A minha aposta vai continuar a ser a formação, agora com o meu colega de há muitos anos, o Mestre Miguel Franco.

fp. Começaste a dar formação muito cedo, quase sempre em simultâneo com a competição. Ensinar kickboxing foi sempre algo natural para ti?

FF. Sim. Actualmente já não acontece muito, e há atletas com os seus próprios treinadores, mas dantes havia uma carência de treinadores e atletas, e era natural a mesma pessoa ter as duas funções, tendo sempre apoio de alguns técnicos que me ajudavam, ou de alunos mais antigos.

fp. Depois de tantos títulos conquistados, e de milhares de alunos, ainda existe espaço para aprender com o kickboxing?

FF. Estamos sempre a aprender, e não é bom quando isso não acontece. Ainda hoje continuo a aprender tecnicamente nas várias disciplinas, e a nível da relação com os outros. Tenho essa noção a cada dia que passa, senão a modalidade estaria parada, e eu também.

fp. Fala-nos sobre a tua incursão nas massagens terapêuticas.

FF. Na área da recuperação, continuo a desempenhar a função de massagista. Na altura, a capacidade dos técnicos de recuperação não era muita, e o desporto em si não estava tão desenvolvido como está hoje, por isso tive a necessidade de recuperar as minhas lesões. Mais tarde, quando comecei a dar aulas, ajudava os atletas quando tinham alguma lesão, sempre procurei desenvolver os meus conhecimentos nessa área. Depois começaram a aparecer familiares e amigos. Por uma questão económica, dediquei à parte da recuperação, tirando cursos, e ainda hoje tenho essa função.

fp. No último ano, lançaste o livro Ser Campeão no Ringue Como na Vida, um desejo teu muito antigo. Como nasceu a necessidade de escrever este livro?

FF. Actualmente com a internet, as pessoas vão buscar informação a qualquer lado. Há uns anos atrás não havia nada. Uma pessoa queria um par de luvas, e não tinha informação. A informação que eu tinha era de vídeos que eu mandava vir dos Estados Unidos ou de França, livros…era assim que eu adquiria os meus conhecimentos e tentava melhorar a minha aprendizagem. Senti necessidade na altura de fazer um livro.

Também era uma forma de mostrar o meu trabalho e a minha dinâmica, só que não havia ninguém que quisesse investir no livro, porque a modalidade não era muito conhecida. Passados 20 anos, surgiu essa oportunidade, e o livro está cá. Tem o meu percurso como atleta, quatro artigos médicos, componente técnica e condição física que dá para qualquer desporto, aconselhamento…Uma série de coisas que são importantes para o desenvolvimento da modalidade, e também tem o mundo do Sporting Clube de Portugal. Acho que é um livro bastante completo. Em futuras edições penso vir a desenvolver outros temas, e isso é o meu projecto e objectivo.

fp. Podemos afirmar que estamos perante um guia essencial para todos aqueles que queiram triunfar no kickboxing?

FF. É um manual que pode ajudar as pessoas a adquirirem mais conhecimentos de alguém que já passou determinado tipo de obstáculos, e pode ser útil para quem queira evoluir, não só no kickboxing, mas na prática desportiva.

fp. Como é que vês a actualidade do kickboxing em Portugal?

FF. Vejo que o kickboxing em Portugal tem outra estrutura, outra dinâmica, outras bases. A própria consciencialização de todos os intervenientes, desde atletas, treinadores, árbitros, dirigentes foi importante para mudar a ideia generalizada de que no kickboxing andam dois indivíduos ‘à porrada’, quando não é nada disso. A modalidade tem muitas componentes, não só desportivas, mas também éticas, mentais e espirituais.


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS