Arquivo de Eslovénia - Fair Play

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Fair PlayAbril 2, 201716min0

O que é o mundo do futebol? Esta é uma questão que espelha bem a realidade que nos rodeia, em termos absolutos, e que podemos transpor para o fenómeno futebolístico. A realidade que conhecemos é uma ínfima, maior ou menor, parte do todo real e aquilo a que tantos apelidam de mundo do futebol retrata habitualmente uma fatia pequena daquilo que é, do que envolve, da verdadeira dimensão do ‘mundo do futebol’.

Esta pode ser uma viagem pelo meu mundo, de mente e braços abertos, sem preconceitos, procurando abrir horizontes, como tento fazer a cada dia – e já antes da sua criação – no Observatório das Ligas Europeias de Futebol, que começou como uma página de suporte a uma ideia de investigação científica, não concretizada por falta de apoios, mas que se transformou numa referência para quem gosta do alternativo, de se aprofundar nas várias temáticas envolventes do ‘Belo Jogo’, de tirar dúvidas, de seguir a Diáspora portuguesa menos mediatizada, de olhar para todas as ligas europeias, mundiais, secundárias, terciárias, distritais, seguido por diversos profissionais de medias desportivos portugueses e internacionais.

Respondendo ao desafio do Ricardo Lestre em escrevinhar algo para o Fair Play, com liberdade temática, optei por uma crónica de índole mais intimista e pessoal, para fugir realmente ao que se lê, seja na análise de um encontro ou de um atleta, seja nas imensas temáticas que envolvem o futebol e o desporto e que muito me fascinam, a psicologia, o marketing, a comunicação, a promoção.

Portugal sempre viveu confundido, somos uma sociedade confusa e com imensas dificuldades em se olhar ao espelho. Pela minha experiência in loco por toda a Europa, Ocidental, Central, Nórdica, Balcânica, Mediterrânica, pelo Médio Oriente, somos o povo com maior dificuldade em assumir culpas, em se enfrentar ao espelho e isso reflecte-se em todas as áreas, na justiça, na saúde, na educação e, claro, no desporto.

O meu gosto pelo desporto nasceu cedo, talvez por razões genéticas, sem grandes influências directas, mas crescendo rodeado de alguns jovens que seriam futuras estrelas do(s) desporto(s) português(es), e logo tido, respeitado e procurado como ‘enciclopédia desportiva’, na verdadeira essência da expressão, ao contrário do utilizado em Portugal para tantos outros. A confusão que se faz entre se saber um pouco, ou bastante, de futebol – desde tenra idade – e realmente ter-se conhecimento multidesportivo é uma das notas fáceis de conotar com a falta de cultura desportiva portuguesa e como se toma o futebol por todo o desporto.

Foto: Getty Images

Desde os 12 anos, talvez, ainda os jornais desportivos lusos eram editados três vezes por semana, que chegava à escola com o periódico debaixo do braço, pernas arqueadas e dar ‘postulados’, de quando em vez, para receber os ‘cognomes’ de ‘Mister’ ou ‘Almirante’ (sim, gostava do David Robinson, é verdade, entre outras estrelas da NBA). Eram tempos em que nos intervalos de aulas não se falava apenas de futebol, discutia-se andebol, o basquetebol da NBA, que acabava de chegar à RTP2, hóquei em patins (em escola de ‘campeões’ como Reinaldo Ventura – ainda me lembro quando calçou patins as primeiras vezes no café do seu padrinho, deveria ter ele 2/3 anos), voleibol, Fórmula 1, Rali, Moto GP, entre os amantes de Kevin Schwantz, de Wayne Rayney, de Wayne Gardner, de Eddie Lawson, de Mick Doohan e eu, um confesso admirador do espectáculo que Randy Mamola trazia a cada corrida, em interessantíssimas e ricas conversas (não, não se pense que apenas se discutia desporto).

Mais tarde, já adolescente, no café matinal cruzava-me por vezes com as ‘estrelas’ jovens do Salgueiros, Pedrosa e Sá Pinto, um bar chamado ‘Help’ onde as manhãs (pelas 8h00) tinham grandes ‘serões’ futebolísticos, entre N conversas paralelas, as dicotomias entre secundária e colégio, que ali partilhavam espaço, o fumo, a confusão, por vezes ânimos exaltados, mas sem nunca ir além de encontrões, o futebol ganhava dimensão e a minha voz era solicitada, afinal já tinha experiência passada de rádio (ainda eram piratas quando o fiz) e apresentava argumentos bem justificados e ponderados, qual século das luzes, eram mesmo o final dos anos 80 e anos 90.

A vantagem de cedo e facilmente aprender e conhecer outras línguas, das viagens quando ainda nem tinha a maioridade completa, de ter acesso a parabólica, deram-me imensos utensílios, ferramentas para me aprofundar neste meu amor, o desporto.

 

Foto: sjpf.pt

Amor!

Eis mais um tema onde o português se confunde, os significados e significâncias das palavras amor, paixão, tesão, obsessão fundem-se e baralham-se nas mentes, seja em termos latos, seja no sentido estrito que aqui se relaciona – o futebol. Existe uma enorme obsessão por clubes em Portugal, não é amor, pode ser paixão, mas é muitas vezes obsessão pura, ali encontrando uma fuga, uma relação para substituir problemas na ‘vida real’.

É engraçado como tanto se diz e escreve que os portugueses amam ou adoram o futebol… mentira. Nota-se que não existe tanto interesse assim pelo futebol no seu conceito mais puro, há gostos relativos, entreténs, mas não uma adoração, essa existe – como acima notado, a extravasar para a obsessão – por equipas de futebol. Essa é uma parte, importante, dos problemas constantes, crónicos e estruturais do futebol português. Não havendo um amor pelo jogo, uma capacidade de compreender para além do próprio umbigo, onde se incluem profundamente vários dos responsáveis de clubes, de pensar micro e macro, de raciocinar e não agir meramente por emoções, aceitando – após esfriar a mente – as derrotas como parte da vida.

Percebe-se – ou intui-se, pelo menos – que o ‘Belo Jogo’ na visão portuguesa apenas existe na medida da vitória do clube desse indivíduo, basta ouvir comentários do género “bom mesmo é ganhar nos descontos com penálti inventado” para se ter essa noção bem presente. Isto tem muito a ver com a falta de cultura desportiva, uma ausência de respeito mútuo, uma sensação de impunidade e o gosto pela trapaça, pelo ‘chico-espertismo’, que tanto caracterizam a sociedade portuguesa.

Foto: Fotos da Curva

Media

A obsessão mediatizou-se, assumiram gestão dos media portugueses pessoas com estas visões redutoras, que entendem o fenómeno futebol como a soma de três partes, acrescentando-lhes outras duas ou três, como sejam a selecção sénior masculina e os mediáticos Mourinho e Cristiano Ronaldo, deixando de valorizar aquilo que faz cada clube existir, a competição.

Se não existissem competições a sério essas forças tão sobrevalorizadas pelos media portugueses não seriam nada além dos Harlem Globetrotters do futebol ou, se preferirem, o Hungaria, aquela famosa equipa de desertores magiares liderada por Daucik e onde estavam Fuzesi, Liska, Gyula Toth, Hrotko, Zsengeller, Ferenc Mészáros (o que alinhou no Sporting Braga nos anos 50), Janos Kiss, Andrej Nagy, Imre Danko, Turbeky, Bela Sarosi, Monsider, Rakoczi, Magay, Marik e, claro, a lenda Kubala, que brilharam em amigáveis na Europa Ocidental enquanto a FIFA não permitiu que alinhassem por clubes do lado de cá da ‘Muralha de Ferro’, geniais, mas uma equipa de amigáveis, que seria aplicável a estas mesmas equipas caso não existissem ligas, taças e outras competições.

As televisões contratam especialistas a peso de ouro, muitos deles pelo menos, mas sem o necessário conhecimento, são indivíduos que se guiam por uma avaliação de campeonatos e equipas assente em visões enviesadas dos mesmos, desconstroem uma liga por três ou quatro equipas que vêem ou, ainda pior, assentes em pressupostos definidos alguns anos antes, já desactualizados e descontextualizados, como se vem notando desde 2015, por exemplo, com a Série A italiana.

Foto: imortaisdofutebol.com

Exemplos

Como nas outras áreas da sociedade e onde os media intervêm, as comparações cingem-se quase sempre a nações/liga de comparação quase impossível, seja pelos distintos estágios de desenvolvimento/capacidade económico-financeira, população, desenvolvimento industrial, mas a falta de capacidade para ir além do óbvio traz este recalque cíclico.

Ainda sou do tempo em que os estádios portugueses – como os pavilhões – estavam bem compostos. Por um lado, os clubes não souberam acompanhar a evolução dos tempos, o surgimento de tantas novidades ao nível do entretenimento, o afastamento dos mais jovens, a vertente virtual-social, a comunicação, todas estas áreas continuam com exploração desajustada e pouco potenciada, acordando-se tarde para todos estes fenómenos, a nível de clubes e estruturas federativas nacionais e regionais.

Por outro lado, o serviço público de televisão tem muito que se lhe aponte. Ainda hoje tenho conversas onde me lembram dos tempos do domingo desportivo e das tardes de sábado e domingo com desporto na RTP2, com os directos das várias modalidades. Esse serviço era essencial. Apesar de hoje ser mais fácil encontrar toda a informação, o ser humano é preguiçoso, é como deixar de se raciocinar para fazer um cálculo ou lembrar uma informação quando se tem uma ligação à internet disponível e dois cliques ou três dão a resposta – ou não. Ter o ‘cartaz’ dos jogos, dos horários, fazer abordagens com o devido distanciamento e sem a obsessão acima identificada, levava o adepto mais facilmente ao estádio, estava motivado por toda aquela informação que lhe entrava pelo televisor adentro.

A RTP subtraiu-se por completo do seu dever enquanto serviço público, no que ao desporto diz respeito, não só deixou de garantir os directos das várias modalidades (excepção aos grandes campeonatos de atletismo e à Volta a França, além de uma ou outra adenda mais) como também se abstraiu de passar quaisquer informações sobre o desporto português, optando pela estratégia de ‘seguidismo’, que nunca deveria guiar um serviço público de televisão. Sim, transmitiu os Jogos Olímpicos, sim, vai assegurando uma ou outra, como os mundiais de hóquei em patins, mas sem o devido enquadramento e acompanhamento que permita ao telespectador melhor compreender e querer se aprofundar, querer ir ver ao vivo, ganhar interesse. Ao invés, perde horas de discussões vazias sobre tácticas e tacticismos em torno de três equipas de futebol, traz comentadores às manhãs, tardes e noites informativas, bem pagos, para se debruçarem apenas sobre isso, continuamente.

Foto: RTP

Escolas

Uma das temáticas que mais me fascina dentro do universo futebol relaciona-se com as escolas de futebol. Como na música, na filosofia, na literatura, no cinema e noutras áreas, o futebol também tem escolas bem vincadas e cada uma delas com características muito próprias. É interessante notar como os italianos são os classicamente associados ao tacticismo, ainda que sejam mais cínicos do que tacticistas, não têm a obsessão absurda que lhes é conotada por tal, sabem é tirar o melhor partido das tácticas para o sucesso (ou sabiam), contudo os técnicos franceses são realmente absurdamente obcecados pelo tacticismo, uma das razões do seu insucesso europeu, o frenesim pela gestão do golo marcado impede-os de serem mais ambiciosos e chegarem mais longe. A inteligência de Leonardo Jardim percebeu isso, notando-se o sucesso da ousadia – que nunca se lhe tinha visto antes – no Mónaco 16/17.

As escolas de futebol são-no de treinadores, mas também de futebolistas, de formação de futebolistas, onde Portugal também necessita de melhorar. O exemplo alemão, de trabalhar os jovens nas várias posições dentro da sua zona de intervenção, de experimentarem as outras zonas de intervenção, no seu processo de aprendizagem, faz seniores capazes de desempenhar funções muito mais amplas no terreno, dão uma versatilidade obrigatória num desporto sempre em movimento e em evolução.

Seria fastidioso viajar pelas várias escolas, mas um dos casos mais contagiantes pela sua inesperada idiossincrasia é o servo-croata. Mesmo tendo-se desenvolvido para o futebol moderno dentro de um mesmo país, a Jugoslávia, dispondo de armas técnicas desportivas de topo, o que facilmente se comprova com quase todos os países resultantes do fim da Jugoslávia se terem tornado referências nas várias modalidades, no basquetebol, no andebol, no voleibol, no pólo aquático, nas vertentes masculina e feminina de todas, a verdade é que a Sérvia apresenta-se com jogadores tecnicamente dotados mas uma vertente de jogo muito anglófona, como que bebida do antigo modelo inglês de futebol, física, menos burilada colectivamente, enquanto a Croácia ganhou o epíteto de ‘Brasil da Europa’, o perfume dos seus futebolistas parece ser ainda maior dado o rendilhar futebolístico que boa parte das suas equipas apresenta, tantas vezes abdicando mesmo de um médio defensivo (quando o fazem é comum avançarem um central para posição), para terem unidades de criação no miolo.

É fascinante, como o é a forma tão única da Eslovénia jogar andebol, um ‘andebol total’ que pode não dar títulos mas chega a dar ‘ouras’ de ver, os seis em constante movimento. Escolas tão distintas que evoluírem até 1990 em comum, dentro de um mesmo país, mas que ainda assim criaram identidades nacionais (para quem não sabe, um país pode ser ou ter um conjunto de nações).

Foto: Record

Mundo do Futebol

Já vi jogos de todas as camadas jovens, desde os benjamins até aos veteranos, já mirei partidas de mais de 100 países, em mais de metade destes olhei para diversos escalões, sempre procurando enquadrar o meu próprio visionamento no contexto de cada faixa etária ou escalão. Claro que se pode comparar um encontro do quinto escalão sueco com a Allsvenskan, mas de forma vazia, em sentido lato apenas, um desafio de uma quinta divisão deve ser enquadrado dentro do contexto desse escalão e, mesmo ao estabelecer pontes comparativas com quintas ou quartas divisões de outros países, deve-se ter bastante cuidado, para compreender os estágios evolutivos, o nível de preparação, de treino, a escola.

É curioso como várias vezes leio, ouço comentários depreciativos sobre ligas, outras ligas, outros futebolistas, habitualmente por desconhecedores, que se limitam a ler ou ver algo sobre essa situação, que porventura nem uma partida viram, mas apresenta logo um juízo de valor, assente na sua própria realidade, curta, ou em visões distorcidas que são alimentadas, bebidas dessas estéreis horas de televisão dedicadas a partes mínimas do futebol e com as mesmas ideologias desconhecedoras das realidades.

Só assim se compreende a crítica da liga mexicana, a piada à liga japonesa, o desrespeito pelos feitos na liga polaca, o riso perante as ligas do Médio Oriente e a incompreensão (europeia) do porquê talentos daquelas regiões não rumarem à Europa, o achincalhamento da liga chinesa, como se alguém que rotula as escolhas de futebolistas pela CSL iria abdicar de se mudar para o mesmo local se lhe oferecessem três, quatro, dez vezes o salário que aufere, além de tudo o resto pago, habitação de luxo e restante enquadramento.

Foto: essentiallysports.com

Eu gosto de ir à Islândia virtualmente ver jogos, já adorava antes do Europeu 2016, de ver os pitorescos sintéticos das Ilhas Faroé, de me imaginar a atravessar uma vinha georgiana para chegar a três degraus cheios de erva e assistir a uma partida local, de ver o comboio a passar o estádio na Eslováquia, de ir até ao reino do Butão e ver a liga local ou sentir o frenesim vibrante das ligas nipónicas, sempre a acelerar, de atravessar o antigo relvado do Platanias e ver o Mediterrâneo atrás da baliza, de sair do Riazor e ir tomar um banho gélido nas águas do Atlântico, de sentir o Adriático a entrar pelo Kantrida de Rijeka ou de passear pela Riviera francesa e me perder nos vários campos e relvados locais, entre as vilas e os areais, tenho saudades de chegar a Turim e escandalizar os locais como adepto ‘Granata’ e ‘Bianconero’, gosto do Torino e da Juventus, é verdade, ou deixar em choque os escoceses por ser um católico de 12 ou 13 anos e preferir o Rangers ao Celtic, de passear pelas margens do Reno à espera de ver o Fortuna no Rheinstadion, de virtualmente ver as ligas secundárias australianas, do Território do Norte à Tasmânia, as ligas indonésia, filipina, de me fascinar com os estádios a rebentar pelas costuras na República Democrática do Congo, do ‘Todo Poderoso’ Mazembe, de ver os perigos que rodeiam os ‘derbies dos derbies’, do Al Ahly x Zamalek em Cairo, dos Boca x River e Nacional x Peñarol, separados por dois países mas apenas uma baía, de ver o sucesso ‘luso’ dos ‘Ferroviários da Transilvânia’, o Ce-Fe-Re de Cluj-Napoca, de imaginar-me a viajar interminavelmente de Kaliningrado até Vladivostok para observar os ‘Tigres’ do Luch receberam o Baltika, ou ir até à ilha de Sacalina ver o Sakhalin, em pleno Pacífico, a passear pelo Shopping de Belgrado antes de subir ao seu topo para observar o Vozdovac, gosto, adoro tudo isto e tanto mais, pois o mundo do futebol é enorme, sem fim.

O dérbi do Cairo. (Foto: footyfair.com)

Artigo da autoria de António Valente Cardoso – Observatório Ligas Europeias de Futebol e autor do livro “Globall – Do Foot-Ball ao Futebol”

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Tomé BritoFevereiro 5, 20178min0

Terminou no passado domingo mais uma edição do Mundial de Andebol que viu a França sagrar-se pela 6ª vez na sua história campeã mundial, tendo este feito ganho um sabor especial por ter sido conseguido em casa. Grande golos, grandes defesas, uma grande organização, um recorde de espectadores presentes no pavilhão, mas acima de tudo, grandes espectáculos de Andebol. O Fair Play faz aqui um pequeno balanço Mundial onde irá falar de 5 pontos cruciais deste Mundial.

Podemos começar por falar do facto de este mundial ter sido cheio de surpresas. Da Noruega conseguir um inédito 2° lugar, a Eslovénia ter chegado pela primeira vez às medalhas, o Chile ter conseguido a sua primeira vitória em mundiais no 1º jogo, ou a Espanha e a Dinamarca não terem sequer chegado às meias-finais. Individualmente novas estrelas surgiram como Sagosen ou Blaz Janc e outros foram os jokers das suas seleções como Vincent Gerard ou Bezjak. A verdade é que no andebol cada vez há mais selecções/equipas “fortes”, ou seja, há um maior equilíbrio de forças, onde todos podem ganhar a todos. Vamos seguir então para o primeiro ponto.

PELA 6ª VEZ NA HISTÓRIA, A FRANÇA É CAMPEÃ MUNDIAL

Não foi no futebol, mas sim no andebol que a França conquistou uma grande competição desportiva a jogar em casa, repetindo o feito de 2001. Esta vitória pode também marcar o regresso da dominância francesa no Andebol, visto que depois de um período de anos avassalador onde conquistaram tudo, estavam em branco desde Janeiro de 2015 (Mundial do Qatar). Em termos de andebol, o jogo Francês não se afastou muito do normal. A presença de Dinart no banco vem trazer uma mais valia ao processo defensivo, que só por si já era fortíssimo, e no ataque foi o típico jogo de atacar os 6 metros tendo níveis de eficácia bastante altos. Individualmente são dois os jogadores que queremos destacar, Vincent Gerard, para nós o MVP da seleção Gaulesa, que aproveitou um “pior” período de Omeyer para se destacar na baliza, e Valentin Porte, que provou mais uma vez que com um pouco mais de regularidade no seu jogo poderia chegar ao top-3 de melhores do mundo, tal é diferença que consegue fazer a lateral ou à ponta, de remate exterior ou no 1 contra 1. Sem deslumbrar mas bastante certos, assim se descreve esta seleção Gaulesa durante o Mundial.

Jogadores Franceses celebram a vitória na final (Foto: ChannelNewsAsia)

OVERRASKELSE (SURPRESA)!

Em 2016 foram a sensação do Europeu ao garantir o 4º lugar e na nossa previsão nem os tínhamos a passar a fase de grupos, mas a verdade é que os Noruegueses surpreenderam e convenceram todos ao conquistar o 2º lugar no Mundial. Aos 20 anos Sander Sagosen assumiu-se como o líder desta seleção e para muitos (Fair Play incluído) é considerado o MVP da competição. Com espaço, é um jogador extraordinário no 1 contra 1, muito rápido nos seus movimentos e caso ganho um pouco mais de poder físico pode vir a ser ainda melhor. Bergerud foi para muitos o melhor guarda-redes da competição. Com o seu estilo descontraído o guarda redes de 22 anos terminou o Mundial com um grande número de fantásticas defesas e com uma eficácia a rondar os 43%. Em termos de andebol destacaram-se pelo seu jogo muito rápido e com constantes cruzamentos para tentar abrir espaços na defesa. O contra-ataque (apoiado e direto) foi a grande arma durante a competição, sendo bastante eficazes e rápidos a conseguir uma boa situação de remate. O 6-0 defensivo era pouco coeso, com bastantes espaços no meio, mas isso era compensado com a agressividade com que atacavam o portador da bola tendo logo acabar com o ataque em falta. 2016 foi a ameaça, 2017 a confirmação dessa ameaça. Estamos perante uma nova potência.

Sander Sagosen, para nós o MVP do Mundial (Foto: Getty Images)

DESILUSÃO POLACA

Não houve maior desilusão neste Mundial que a Polónia. Se era verdade que não se esperava tanto como noutros anos devido às baixas de alguns dos seus melhores jogadores, também é verdade que a qualidade dos atletas presentes neste Mundial era mais que suficiente para, pelo menos, chegar aos quartos de final. Acontece que nem da fase de grupos passaram. Dujshebaev, selecionador, bem avisou que este Mundial seria para testar novos jogadores e novos processos e foi isso que aconteceu, com vários jogadores a sobressaírem, como Gebala (lateral poderosíssimo fisicamente e muito forte no remate exterior), ou o guarda-redes Malchar. Mas em termos de andebol, deixaram muito a desejar. No ataque eram muito estáticos, sem atacar a baliza e revelaram uma grande dependência do que Gebala conseguia fazer. Um aspecto positivo a tirar é que o andebol Polaco melhorava sempre que o central Gierak estava em campo, ele que impunha muita mais velocidade no jogo e embalava muito bem os atiradores. Na defesa utilizam o seu maior poderio físico para tentar fazer a diferença mas os erros que cometiam eram tantos que nem aí deixaram uma boa imagem, ficando na memória a dificuldade de defender os pontas adversários. Há muito para trabalhar nesta seleção caso Dujshebaev queira conseguir concretizar o objetivo de vencer os Jogos de 2020.

Nem Dujshebaev no banco salvou a Polónia do fracasso (Foto: Getty Images)

MESMO SEM AS ESTRELAS A ESLOVÉNIA CHEGOU ÀS MEDALHAS

Desta seleção bem avisámos que caso tudo corresse bem poderiam chegar a um grande resultado e o seu primeiro pódio (3º lugar) da história representa isso mesmo. Mesmo sem os três jogadores de maior renome da Eslovénia (Bombac, Zorman e Gajic) outros apareceram para brilhar e conseguir levar esta seleção a uma pequena glória. Em conjunto com a Noruega devem ter jogado o melhor andebol do Mundial, pelo menos aquele que mais gozo deu de ver e que só foi travado pela França numa espetacular meia-final. Um andebol muito rápido de ataque onde Bezjak brilhou. Pouca gente dava algo por este central, mas a verdade é que foi um dos melhores jogadores do Mundial. Muito discreto no seu jogo que privilegia o jogo de equipa, optando sempre por um passe para um colega em melhor posição do que um remate seu, foi notória a importância deste jogador no andebol da Eslovénia. A defesa por vezes deixou algo a desejar, mas o ataque compensava as falhas defensivas que eram regularmente causadas pelas dificuldades de vários jogadores no 1 contra 1 defensivo. Há muito potencial nesta equipa (Blaz Janc ou Henningman) para explorar e acreditamos que Veselin Vujovic e companhia não fiquem por aqui.

Os jogadores Eslovenos celebram a medalha de bronze (Foto: Getty Images)

OS SAMURAIS QUE DESLUMBRARAM OS ADEPTOS FRANCESES

Japão. Não iremos falar desta seleção pelos resultados que conseguiu (apenas uma vitória) mas pela surpresa que causaram com a qualidade do seu andebol. Eram desconhecidos, pouco se esperava deles, mas com Antonio Ortega no banco era sabido que algo de bom podia aí vir. E assim foi, com jogadores muito limitados tecnicamente mas sem medo de atacar a baliza e ir para cima do defensor, o Japão e o seu andebol “atabalhoado” foram causando dificuldades a quase todos os seus adversários na fase de grupos. Na memória ficam os grandes contra-ataques apoiados que faziam, com o destaque aqui a ir para o ponta esquerda Doi. Quem se sobressaiu bastante neste Mundial e pode ter ganho um contrato numa equipa Europeia é Hiroki Shida, central/lateral-esquerdo. Com certeza o jogador mais evoluído da seleção, apresenta um remate exterior muito forte e com um grande leque de opções (apoiado, em suspensão, na passada). A evolução tem sido constante e agora com o novo selecionador, Dagur Sigurdsson (venceu o Europeu 2016 com a Alemanha) só parecem existir condições para melhorar.

Shida, o desconhecido Samurai (Foto: Getty Images)

CLASSIFICAÇÃO FINAL (4 PRIMEIROS)

1º Lugar: França

2º Lugar: Noruega

3º Lugar: Eslovénia

4º Lugar: Croácia

DISTINÇÕES FAIR PLAY – 7 IDEAL E MVP

Guarda-Redes: Torbjorn Bergerud (Noruega)

Ponta-Esquerda: Jerry Tollbring (Suécia)

Lateral-Esquerdo: Sander Sagosen (Noruega)

Central: Daniel Narcisse (França)

Lateral-Direito: Valentin Porte (França)

Ponta-Direita: Kristian Bjornsen (Noruega)

Pivot: Bjarte Myrhol (Noruega)

MVP: Sander Sagosen (Noruega)

Melhor Marcador: Kiril Lazarov (Macedónia) com 50 golos


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


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