Rui da Cruz (Parte I): O sonho que se concretizou.

Rafael RaimundoAbril 29, 201815min0

Rui da Cruz (Parte I): O sonho que se concretizou.

Rafael RaimundoAbril 29, 201815min0
De uma paixão de origem familiar à conquista do primeiro titulo europeu. Com muitos anos de casa, Rui da Cruz esteve à conversa com o Fair Play.
Rui, apresente-se aos nossos leitores.

RC: Rui Da Cruz

49 anos

Lisboa

Comentador de Futsal da TVI e da A Bola TV

Consultor na área de Produção Gráfica

Esta paixão teve um cúmplice, por razão familiar. Mas antes de ela acontecer (eu também) joguei futebol, futebol de salão, na altura só existiam torneios e maratonas… e tudo isso contribuiu para que existisse esta paixão, comecei a acompanhar o seu percurso, a paixão essa já existia, mas como já não jogava e não tinha como jogar, comecei não só acompanhar, como a assistir aos jogos, estar atento a todos os pormenores, ver quais os detalhes que podiam fazer a diferença, partilhar aquilo que via como adepto e fã da modalidade, eu queria descobrir qual a melhor forma de contribuir ou ajudar esta fantástica modalidade, a de ter mais visibilidade, e de tentar contagiar quem ainda não a conhecia, quase como que um profeta a passar o seus testemunhos, a minha vontade era muita, foi desenvolvendo iniciativas como a de administrar um Blog para difundir o futsal, um site pessoal de um jogador, para quem quisesse acompanhar, escrever crónicas para sites, artigos para uma revista, e as coisas iam tomando sempre uma maior e melhor proporção, certo que muito lenta, mas nunca desisti… até que em 2008/2009 a 15 de novembro surge o primeiro convite pela SIC para comentar os jogos do campeonato nacional.

O Futsal é mais que uma paixão, é imparável. A intensidade que o jogo tem, a dinâmica, a imprevisibilidade, emoção, espetacularidade, golos, reviravoltas na marcha do marcador que podem acontecer até ao último segundo.

Como nasceu o amor ao futsal?

RC: Já foram há alguns anos. Bastantes mesmo. Isto foi por uma razão sentimental. É um familiar que eu tenho que na altura ele tinha cerca de 10, 11 anos e surge essa minha abordagem mais a sério porque o comecei a acompanhar. Ele começou na formação do Sporting e eu já tinha jogado futebol 11 nos distritais. Apenas joguei futebol de salão, mas como disse, essa minha ligação nasceu desse tal acompanhamento a esse meu familiar que era, e ainda é, profissional.

Quem é?

RC: É o Pedro Costa. Ex-capitão do Benfica e que agora está a treinar o Nagoya. Quando ele começou no Del Negro não o acompanhei, mas depois quando o conheci e ao trajeto dele vi que ele tinha uma enorme capacidade e uma grande dedicação. Tinha muitas qualidades. Era um jogador muito técnico que depois aprendeu a ser muito tático, ou seja, em prol da tática perdeu a técnica. Tornou-se um jogador muito competitivo e muito inteligente. Creio que a seguir ao Ricardinho foi o jogador mais completo e inteligente que conheci. O Pedro quando começou no Sporting com o Zézito era um jogador que fazia muitos golos e muitas assistências.

O Pedro esteve seis anos no Sporting, três vezes campeão nacional. O meu sogro faleceu e aí ele modifica um pouco a vida dele para também ter alguma garantia financeira e tentar ter uma melhor qualidade de vida na ausência do pai. Viajou então até ao Freixieiro, onde foi muito bem-recebido pela família dos Brito (espetacular gente de muito bom trato), que investia muito na altura no futsal. Foi aí que o Pedro conseguiu passar a profissional e a viver apenas do futsal.

Na altura com o Joel Queirós (ainda jovem), Formiga, Catatau, Luís Miguel (capitão) que veio da Fundação Jorge Antunes, e com o Arnaldo Pereira, com quem partilhou a casa. Eram como uma família, uma equipa gira que naquele ano conseguiu sagrar-se campeão nacional deixando Sporting e Benfica para trás, coincidiu mesmo com o primeiro ano do Benfica na modalidade. Posto isto e face ao sucesso que tiveram o Benfica foi buscar o Pedro e o Arnaldo, que depois foi também muito feliz no Benfica. Com a saída do André Lima, passou a capitão do clube e pelo meio ainda teve a sua primeira experiência internacional, foi até à Liga Espanhola para jogar no Magna Grupea da região de Navarra, que na altura era conhecido por “Xota”. Voltou ao Benfica, onde foi campeão da Europa, e depois foi para o Nagoya Oceans do Japão onde terminou a carreira de jogador. Isto para te explicar e justificar como ficou esta enorme paixão que tenho.

Há algum jogador em quem encontre semelhanças?

RC: Como ele e com as características dele talvez o João Matos no Sporting que é um jogador muito completo e muito equilibrado. Não se pode dizer que é um jogador de técnica elevada, mas depois consegue o equilíbrio com outras mais valias.

Eu não jogo, não treino, não tenho formação, mas gosto muito de futsal. Comecei a acompanhar, a falar, a comentar e a trocar muita informação. Foi tudo muito espontâneo, muita carolice. Falei com muita gente. Muitos jogadores, muitos treinadores, alguns hoje em dia muito conceituados.

E algum o marcou especialmente?

RC: Sim, o Orlando Duarte porque foi um homem que acreditou sempre no futsal. Tinha o método de trabalho próprio que agora já não é o mesmo e por isso é que o considero inteligente. Agora na Letónia está a desenvolver um trabalho fantástico que eu acho que vai dar resultados e as pessoas precisam é de ser felizes. Se o Orlando decidiu ir para a Letónia para ser feliz acho muito bem.

Esta conquista teve também inicio na passagem do Orlando Duarte enquanto selecionador nacional?

RC: Sim, claro que sim. Isto é um percurso de todos. Se formos a ver não há equipas nem seleções que em tão curto espaço de tempo desde que começámos a trabalhar as seleções de há 20 anos para cá, e em que tivemos um primeiro mundial que até nos correu bem porque também não havia tantas seleções como há hoje, que consigam fazer o percurso de ser campeão europeus. Teve de haver alguém a dar início a esse percurso. Se quisermos ver, antes de Orlando Duarte houve apenas um selecionador, que era um coronel, mas efetivamente só teve dois: foram o Orlando Duarte e agora o Jorge Braz, a quem passou o legado. Apenas estes trabalharam com as estruturas da FPF que é altamente profissional, altamente responsável e que tem feito um trajeto muito positivo, porque já não há só os seniores. Há também os sub21, os sub19, os sub17 e os femininos onde também já começa a haver os escalões de formação. Portanto, todo esse percurso tem que dar frutos e vai certamente dar algo muito importante para a modalidade e para Portugal. Sermos campeões da Europa já foi um reflexo disso mesmo. Éramos o quase, agora já o somos, já o assumimos.

Onde é que estava na final?

RC: Estava na Eslovénia.

Eu faço questão de mandar uma mensagem a incentivar, levar coisas boas às pessoas com quem tenho amizade e às que são também minhas conhecidas. No entanto, mesmo com aqueles com quem não tenho qualquer relação tento sempre ter uma palavra de incentivo. Sempre que posso estou na hora de partida e na hora de chegada e este ano, tal como eles, achava que o sonho era possível.

No dia em que fui ao aeroporto, onde estava apenas eu e um repórter do canal Abolatv, tive o privilégio de ter a atenção de toda a comitiva portuguesa, de cumprimentar todos desejando-lhes boa sorte e dizendo que estaria na Eslovénia na meia-final e na final para fazer a festa.

Tenho na seleção muitos amigos, pois há muito tempo que andamos nestas andanças.

Como foi a ida lá?

RC: Na meia-final sofremos muitos, a belo sofrer mesmo. Fomos competentes e conseguimos o passaporte para a final que já era uma conquista muito boa porque repetíamos novamente uma final. Já tínhamos participado na final em Debrecen, na Hungria, onde acabámos por perder frente à Espanha.

O selecionador nacional dizia à partida que Portugal ia lutar por uma medalha…

RC: Sim, mas nós sabíamos qual a cor que queríamos: a de ouro. Reencontrámos novamente a Espanha e a imprensa espanhola dizia até, não em tom de crítica, que era a Espanha contra Ricardinho, o que não era verdade. Era a Espanha contra Portugal.

Íamos com um ídolo – o Ricardinho – e agora temos 14 ídolos que representam todos os outros do futsal português. Como disse, isto aconteceu agora, mas houve todo um percurso que teve de ser feito. Eles representam bem e com competência o universo do nosso Futsal nacional.

E na final?

RC: Na final lá estava a sofrer muito, mas a acreditar que iríamos sair vencedores. O jogo correu-nos de feição.

Foi mediático, foi até um pouco comparando com o futebol por causa da lesão de Ricardinho que acabou por fazer lembrar a que Ronaldo sofreu. Eu lembrei-me disso, mas acabou por ser resultado de muita competência. E aproveito para explicar uma situação que muita gente não se apercebeu.

Quando Ricardinho se lesiona vai para a bancada, com a permissão dos árbitros, e isso motivou algumas críticas menos justas. A questão é ficando no banco e caso Portugal fosse ao desempate por penálties e já todos os jogadores tivessem executado a decisão, Ricardinho era obrigado a ir marcar mesmo lesionado. Nas condições em que estava isso seria um grande risco. O Sérgio Lozano, da Espanha, já o havia feito nas meias-finais por se encontrar lesionado.

E assim que o Ricardinho vai para a bancada eu disse para os meus colegas que íamos mesmo ganhar e que este Europeu era nosso, já ninguém nos tirava. E foi o que aconteceu.

Como é que ficou?

RC: Fiquei muito emocionado. Já ando há muitos anos a acompanhar o futsal. Nunca tinha passado por uma conquista destas que já merecíamos. Já tínhamos de viver esta parte e saber vencer, ao invés de ficar sempre no quase.

Foi brilhante e espero que isto traga dividendos a médio e longo prazo.

O Tunha numa entrevista falou de uma claque portuguesa…

RC: Sim, os estudantes de Erasmus que estavam lá e alguns portugueses que vieram de outras cidades da Europa. Éramos poucos e bons.

Na noite anterior à final até nos juntámos todos num restaurante para conviver e ganhar alguma energia positiva.

Fotografia: Rui da Cruz
Qual foi a chave do sucesso português?

RC: Foi liderança, foi comunicação, foi qualidade dos jogadores, foi a formação de que falámos pois houve jogadores que já “bebiam” essa informação desde muito jovens. Como o Ricardinho disse chegaram com uma mente limpa. Ou seja, já encaravam todos os adversários olhos nos olhos. O Tunha, por exemplo, nunca perdeu contra a Rússia, Espanha em jogos oficiais e cada vez que jogar de novo contra eles vai ter uma capacidade de motivação brutal. Depois o Ricardo é um jogador de topo, o Bebé e o Pany Varela já tinham sido campeões europeus pelo Benfica e no caso deste último, um jogador com um potencial enorme, é extremamente humilde.

Acima de tudo houve muita união e há uma imagem que recordo do jogo da final em que, num remate do Lin, estão quatro jogadores portugueses a intercetar a bola. Por aí se percebe o ADN destes jogadores e desta formação, nomeadamente, do Nilson, do Fábio Cecílio, do André Coelho, do Tiago Brito, do Pany, do Bruno Coelho, do menos utilizado Márcio, do próprio André Sousa, o regressado Vitor Hugo e até o experiente Bebé.

A convocatória de Bebé foi a tentativa de Jorge Braz de aliar a experiência à juventude e à irreverência?

RC: Sim, acho que até no final do segundo jogo já todos tinham jogado. Depois é preciso ter jogadores que não desequilibrem a estrutura emocional da equipa.

O Márcio…

RC: Exatamente. Tem de haver um equilibro, todos aceitarem as regras e não fugirem àquilo a que se propuseram. É verdade que houve jogadores que faltaram. O Cardinal, por exemplo. Regressou há pouco tempo e está num momento fantástico. É um homem-golo. Fez uma boa carreira em Espanha e agora de novo em Portugal. Está um jogador muito equilibrado e muito competitivo. Um jogador de equipa.

Ricardinho ou Falcão?

RC: O Ricardinho sempre. Por tudo o que nos dá, por tudo o que nos vai dar, por tudo o que nos tem feito e acima de tudo por ser o nosso embaixador do futsal. Por ser um jogador que está há já alguns anos numa liga muito competitiva a vencer, o que não é fácil. Ele é mediático, uma pessoa humilde, um talento incrível. Que outros Ricardinho venham.

Falcão acabou por nunca sair do Brasil. O Manoel Tobias saiu e foi um monstro, o Lenísio saiu, o Marquinhos saiu, o Schumacher saiu. Isto jogadores de topo. É verdade que o Falcão conquistou muita coisa internacional pela seleção. Ele é a imagem do Brasil no futsal, mas perdeu o legado para o Ricardinho a meu ver e o nosso capitão acabou por receber muito bem esse legado e espero que o consiga nos próximos anos passar a outros jogadores portugueses.

Fotografia: Rui Da Cruz
Há já algum potencial candidato a ter o estatuto de novo Ricardinho?

RC: Sim, o Tiaguinho no Braga AAUM, o André Coelho no Benfica. O Bruno Coelho, e tenho aqui que individualizar. Apesar de já não ser um jogador novo foi para mim o melhor jogador do Europeu. Completo, concentrado, compenetrado, ele que é um jogador que facilmente se deixa levar pelo seu temperamento e criar desequilíbrios, neste caso acabou por criar esse tal desequilibro, mas de forma muito positiva para Portugal, merecia ter tido mais prémios como recompensa pois foi brilhante.

Depois há outros jogadores que estão na calha para fazerem boa carreira lá fora. O Márcio bem trabalhado é um jogador com muito potencial. O Afonso Jesus em que começo a ver já alguns pormenores interessantes. Tento ter informação sobre ele e todos me dizem que estamos perante um caso já real, sério.

Agora há também jogadores na formação que têm muito potencial, mas que ainda não têm tanta visibilidade. Daí o papel da comunicação social ser tão importante para que estes jogadores sejam conhecidos de forma a surgirem novos Ricardinhos. É preciso que haja novos Ricardinhos.

Esta é a seleção ideal ou há necessidade de a renovar nos próximos anos?

RC: Ideal nunca é. Há sempre lesões e jogadores que perdem a sua performance. Temos jogadores que têm ido à seleção, como é o caso do Coelho e do Mário Freitas, mas que têm sido o quase. Ainda não se afirmaram.

Por outro lado, temos o Nilson que quando chegou à seleção foi alvo de algumas críticas a dizer que não era jogador para a seleção e eu disse para terem atenção que o Nilson ia ser um jogador muito importante na manobra de Jorge Braz e o próprio confirmou isso mesmo. Nos primeiros jogos o Nilson não jogou muito, mas quando teve de jogar nos jogos decisivos até se calhar jogou mais minutos do que aqueles que tinha jogado até então.

E o facto de ter formação ajudou-o nisso?

RC: Sim, o conhecimento tático acrescentou-lhe valor. É um jogador muito rijo, que sabe utilizar bem o corpo. Talvez seja um jogador mais faltoso, mas é um jogador que arrisca. Noutros tempos jogadores com as mesmas características dele não arriscavam tanto, a isso chamo atitude e competência.

É possível acreditar em Portugal campeão no próximo Mundial?

RC: Sim, claro que sim. Já mostrámos do que somos feitos, não temos mais pés de “barro”, esse caminho começou lá muito atrás, como foco e o trabalho a ser feito nesse sentido. O Mundial é mais difícil de conquistar, mas é mais fácil de chegar à fase das decisões. Uma vez que na fase de grupos o desequilíbrio é maior – tendo as seleções ditas de menor valia vontade de chegar mais perto das melhores, notam-se rápidas melhorias mas com uma diferença ainda significativa as que estão no topo.


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