Seis Nações 2018: O Bom e o Assim-Assim! – Coluna de Hélio Pires

Fair PlayFevereiro 17, 20187min0

Seis Nações 2018: O Bom e o Assim-Assim! – Coluna de Hélio Pires

Fair PlayFevereiro 17, 20187min0
O colunista do Visto de Fora fala das Seis Nações e tenta explicar o porquê de se emocionar mais com um jogo que outro... quais? Descobre e discute aqui!

Passadas apenas duas jornadas, há já muito de que falar nas Seis Nações deste ano, dos resultados inesperados aos lances polémicos, da lista de lesões aos impactos abaixo da cintura que obrigam a procedimentos médicos acima do pescoço, dos jogos que aumentam o ritmo cardíaco aos que o acalmam numa espécie de zen oval.

Sobre esses e outros momentos do torneio deste ano já muito se tem escrito e bem. Mas já que estamos no interregno que separa a segunda da terceira jornada, permitam-me que aproveite essa pausa para fazer um pequeno exercício comparativo.

Parado a meio

Comecemos pela partida que opôs a França à Irlanda. Expectativa não faltava: de um lado a selecção gaulesa com nova liderança e à procura de bons resultados, qual catarse dos novos começos; do outro, a equipa da ilha esmeralda, que leva ao peito o feito de ter tirado um grand slam à selecção inglesa em 2017 e carrega aos ombros favoritismo para este ano. No entanto, quem estava à espera de um grande jogo talvez se tenha sentido defraudado ou pelo menos dado por si a bocejar de vez em quando.

Dito de forma simples, até aos 70 minutos, não foi uma partida emocionante. Não quer dizer que tenha sido má, que não tenham havido boas jogadas, formações e placagens dignas de nota, mas contas feitas não foi nada por aí além. Sinal disso, ao intervalo, uma jornalista da BBC dizia não haver muito para mostrar nas repetições dos melhores momentos da primeira parte.

E talvez não por acaso, o mesmo canal não tardou a passar imagens do País de Gales-Escócia, essa sim uma partida emocionante, pelo menos na comparação. Foi desequilibrada, é certo, com os galeses a dominarem e os escoceses a estarem ausentes ou com o controlo de bola de uma barra de manteiga, mas foi um jogo que surpreendeu por isso mesmo. Teve impacto, teve choque e teve outra coisa em abundância que só se viu uma vez no França-Irlanda: ensaios!

Dir-se-ia que o râguebi também é placagens, passes, formações, estratégia, o que é verdade. Mas essas coisas são meios para um fim, de preferência o que é recompensado com o ponto de bónus ofensivo, precisamente por ser no avanço até à linha de ensaio que está muita da emoção do râguebi. E no França-Irlanda, raramente as equipas chegaram aos 5 metros adversários: conseguiram-no uma vez na primeira parte e em ambos os casos porque a bola foi lá parar, sem controlo atacante; e na segunda parte, se os irlandeses não puseram os pés nos 5 metros opostos, os franceses só chegaram lá duas vezes, uma delas durante a falsa partida de Machenaud ao final dos 75 minutos.

É muito esforço para poucos resultados ou, como diria uma ex-presidente da Assembleia da República, um inconseguimento.

Pode-se argumentar que o râguebi do hemisfério norte tem disto, que é mais cauteloso, e fechado que o do hemisfério sul, o que não me parece que deva ser motivo de grande satisfação.

E se é certo que um jogo também se ganha a penalidades ou que elas são interessantes no contexto certo, não é menos verdade que quando uma partida se fica pela segurança do chuto aos postes, sem nunca se arriscar um pontapé para os 5 metros, ela tem tanto de emocionante quanto uns tépidos três pontos para Gryffindor.

Justiça seja feita, não foi uma partida toda ela assim-assim. É certo que foi preciso esperar até aos 72 minutos, mas o primeiro e único ensaio do jogo lá veio por obra e graça de Teddy Thomas. E depois… ó deuses, depois foi ver a Irlanda com um ponto de desvantagem, o tempo a esgotar-se, quarenta e uma fases irlandesas que esticaram o jogo para lá dos 82 minutos, muito sangue frio e aquele drop certeiro de Johnny Sexton que caiu tipo lâmina de guilhotina no pescoço de Luís XVI.

Quem disse que coisas a temperatura ambiente não podem ter finais escaldantes?

E ao quarto dia…

Na outra ponta da escala de Richter desportiva esteve o duelo entre a França e a Escócia. Começou mal para os escoceses, que após sofrerem um ensaio, conversão e penalidade em menos de 10 minutos, devem ter-se sentido num deja vú, expressão apropriada dada a língua nativa dos seus adversários.

Mas antes do quarto de hora, eis que Sean Maitland e Greg Laidlaw reduzem a diferença para uns meros três pontos, deixando tudo em aberto depois de 15 minutos iniciais de fazer disparar a tensão arterial.

Pouco depois, assistiu-se a uma sucessão rápida de ataques e contra-ataques entre as linhas de 22 metros e a vantagem francesa voltou a ser de dez pontos após novo ensaio aos 26 minutos. Foi reduzida uma vez mais pouco depois, quando Huw Jones entrou na zona de validação francesa e Greg Laidlaw marcou a conversão, na conclusão de um ataque rápido que começou no meio campo escocês. Mas aos 41 minutos, a diferença entre as duas equipas cifrava-se no seis pontos após um chuto de Machenaud.

A segunda parte não teve ensaios, apenas penalidades – oito, para ser exacto – mas nem por isso pecou pela mesma falta de emoção que o França-Irlanda pré-70 minutos. O que talvez se explique pelo facto de, só na segunda metade do jogo, as equipas terem chegado aos 5 metros adversários tantas vezes quanto franceses e irlandeses em toda a partida do dia 3 de Fevereiro. E uma dessas ocasiões foi um momento de pressão escocesa que durou oito minutos, tendo acabado numa formação ordenada perto da linha de ensaio francesa.

Já na primeira parte notava-se um contraste semelhante: tal como o França-Irlanda, o Escócia-França foi jogado esmagadoramente no meio do campo, entre as linhas de 22 metros, que aos 30 minutos registavam 88% da acção de jogo. Mas apesar disso, as equipas chegaram aos 5 metros opostos ao todo seis vezes.

Ou seja, embora as áreas junto às linhas de ensaio tenham visto pouca acção quando comparadas com o resto do campo, quando a viram foi a valer, por vezes de forma intensa, e em maior número do que em toda a partida entre a França e a Irlanda.

Teria sido preferível que a Escócia usasse algumas das penalidades de que beneficiou para chegar a mais ensaios? Certamente! Até lhe teria sido útil, dada a recompensa de um bónus que ajudasse a recuperar os pontos perdidos em Cardiff. Mas mesmo assim, dadas as jogadas atacantes, as bem sucedidas e as que andaram perto da linha, o ritmo intenso que marcou várias partes do jogo, não apenas minutos finais, e com efeitos na pontuação, nunca permitindo que uma das equipas se distanciasse muito, e ainda a maneira como o jogo foi-se invertendo gota a gota, tudo isso, no seu conjunto, fez do Escócia-França uma partida bastante mais cativante do que o França-Irlanda.

Como disse atrás, as penalidades têm o seu interesse no contexto certo. Neste caso, o de um jogo intenso do princípio ao fim, onde o vencedor é incerto pelo acumular de ataques bem sucedidos, não pela escassez de pontuação, e onde ela não se resume à segurança de um chuto pausado.


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