Rússia: O regresso dos czares das areias

André CoroadoSetembro 10, 20216min0

Rússia: O regresso dos czares das areias

André CoroadoSetembro 10, 20216min0
8 anos depois de se ter sagrado campeã domundo no Taiti, a selecção russa aproveitou da melhor maneira a organização do mundial em casa para voltar a lançar as mãos ao troféu mais almejado: o título mundial FIFA! Num percurso imaculado, sem derrotas, os czares são um vencedor justo da prova e estão de regresso aos dias de glória!

A selecção russa de futebol de praia, competindo sob a denominação “União de Futebol da Rússia”, sagrou-se campeã do mundo de futebol de praia no mês passado, para júbilo dos 5 mil adeptos presentes no estádio montado no complexo olímpico de Luzhniki, em plena Moscovo. Tratou-se do terceiro título mundial dos czares na História da modalidade, o primeiro depois de 3 competições consecutivas sem ganhar, após o bicampeonato alcançado em 2011 8Ravena, Itália) e 2013 (Papeete, Taiti).

Num torneio em que o Senegal se revelou um verdadeiro tomba-gigantes, ao derrotar os dois anteriores campeões do mundo, Portugal e Brasil, os russos foram a equipa mais regular do torneio, contando por vitórias as seis partidas disputadas em solos pátrios. O triunfo dos comandados de Mikhail Likhatchev é, por isso, imaculado e inquestionável, apesar de alguns calafrios sofridos ao longo do percurso.

Um início conturbado

Desde logo, a Rússia começou por não convencer na fase de grupos, ao vencer os EUA apenas no prolongamento, com um golo decisivo de Makarov, antes de desfeitear a congénere paraguaia nas grandes penalidades. Os 3 pontos alcançados no final da segunda jornada, insuficientes para garantir a classificação, deixavam algumas dúvidas no ar acerca do nível do conjunto russo, que apesar do bom futebol de praia praticado denotava algumas dificuldades pouco habituais na gestão dos momentos do jogo. Recorde-se a forma como os russos deixaram escapas uma vantagem de 2 golos diante dos norte-americanos nos 4 minutos finais, fruto dos golos de Perea e Canale, nascidos de alguma descontração da defensiva russa.

No entanto, a partida frente ao Japão, na derradeira jornada da fase de grupos revelou uma Rússia muito compenetrada desde o primeiro ao último minuto, traduzindo-se num domínio total das operações diante dos nipónicos. A entrada fulgurante dos homens da casa, com 3 golos sem resposta no primeiro período, ditou a melodia ao som da qual se dançou durante toda a partida na arena moscovita, resultando nuns contundentes 7-1 finais e uma prova de força evidente na conquista do 1º lugar do grupo A.

O modelo de jogo russo não tinha surpresas: o ataque baseia-se numa saída em 1:2:2 que explora a superioridade numérica criada pela acção do guarda-redes fora da sua área (seja Chuzkov, Kosharny ou Parkhomenko), assente na força física, primazia técnica e rigor táctico dos seus jogadores. Essa mesma precisão na execução das acções previamente delineadas torna os russos uma equipa muito difícil de anular, contra quem a menor desatenção pode revelar-se fatal – que o digam EUA e Paraguai. Defensivamente, apesar de algumas falhas cometidas nos primeiros dois jogos, os russos demonstraram-se consistentes, conforme o atesta a anulação de todas as armas japonesas na partida da fase de grupos.

O equilíbrio do plantel, resultado do trabalho continuado dos principais emblemas da liga Rússia, constitui uma condição essencial ao êxito dos czares, que contam com a experiência do capitão Shkarin, Makarov, Shishin e Krasheninikov (que viria a ser decisivo na final contra a mesma selecção nipónica), todos eles históricos do futebol de praia russo cuja estreia na selecção remonta ao período da ascensão russa entre 2007 e 2009. Por outro lado, a veia goleadora de novos valores como Nikinorov, uma ameaça letal às redes adversárias, e Zemskov, bota de bronze do mundial do Paraguai há 2 anos, confere contornos muito interessantes às dinâmicas ofensivas da Rússia, que conta ainda com vultos de peso como o já experiente Romanov ou o implacável gigante Paporotny, cujas exibições em Moscovo lhe valeram a Bola de Prata neste mundial. Outras novas entradas, como Fedorov, Novikov ou Kotenev, provaram ser jogadores de nível equivalente aos restantes, numa equipa eximiamente escalada pelo seleccionador Likhatchev.

Velhos conhecidos no caminho rumo ao topo

E foi com este contingente de luxo, regido por uma rigorosa disciplina táctica, que os comandados de Likhatchev atropelaram a Espanha nos quartos de final, numa partida em que chegaram a contar com uma vantagem de 3-0. A reacção castelhana ainda assustou, uma vez que os golos de Antonio e Eduard reduziram a desvantagem para um tangencial 3-2 e os russos chegaram mesmo a enfrentar uma expulsão de Zemskov; porém, nova demonstração de força seria exibida pelos anfitriões do mundial, uma vez que Paporotny apontaria o 4-2 final mesmo em inferioridade numérica.

Os dados estavam lançados e a Rússia assumia-se como o mais sério candidato à vitória final. Porém, na meia final iria defrontar a Suíça, que apesar de não se ter qualificado para o mundial tinha vindo a protagonizar exibições de gala. O 1:2:2 alucinante dos homens de Schirinzi, sob a batuta dos maestros Elliott Monoud e Noel Ott, contava com a viea goleadora de Stankovic, Hodel e Borer para desafiar o favoritismo russo, depois de uma goleada avassaladora (10-1) contra o Uruguai, numa caminhada que começara com um triunfo em grandes penalidades frente ao Brasil. Motivos de preocupação para Likhatchev, que não podia contar com os castigados Makarov e Zemskov…

De facto, após uma primeira fase de domínio russo, os helvéticos puxaram dos galões e fizeram valer a força das suas armas, passando de uma desvantagem de 3-1 para uma vantagem de 3-5. Globalmente, a prestação russa deixou muito a desejar, uma vez que o jogo estava a tornar-se demasiado directo, baseado nas acções do guardião Kosharny, sem ideias… mas a frieza russa, o autodomínio necessário para encontrar as soluções para os problemas mais difíceis nos momentos certos, nunca abandonou os homens da casa, que a 2 minutos do fim do encontro alcançaram o 5-4, numa acrobacia de Nikonorov. A crença russa e a eficácia de Shkarin fizeram a diferença, tendo o mítico capitão assinado o golo do empate a escassos 24 segundos do fim da partida… E mais tarde, a vitória nas grandes penalidades reflectiu uma vez mais a maior maturidade psicológica de uam equipa que soube sempre reencontrar-se, diante de todas as dificuldades.

Na final, e já com os regressos de Makarov e Zemskov, frente aos mesmos nipónicos que haviam sido goleados na partida da fase de grupos, a Rússia controlou a partida e, sem precisar de deslumbrar, venceu por esclarecedores 5-2. Trata-se de uma conquista justíssima da equipa mais consistente do mundo, que, mesmo sem jogar sempre bem, tem vindo a superiorizar-se a todos os adversários e ainda não conheceu o sabor da derrota nesta temporada.

Terminamos, assim, sublinhando a justiça do triunfo russo, e lançamos a questão: até quando durará a invencibilidade dos novos campeões mundiais? Conseguirão juntar o título europeu, que se joga este fim-de-semana na Figueira da Foz, ao ceptro mundial?


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