O que mudou em 10 anos de futebol de praia?

André CoroadoAbril 2, 202115min0

O que mudou em 10 anos de futebol de praia?

André CoroadoAbril 2, 202115min0
Em textos anteriores abordámos a evolução táctica dominante ao longo da última década, que culminou com a vulgarização do uso do guarda-redes como um quinto jogador de campo, tendo por finalidade o aproveitamento da vantagem numérica, com reflexos profundos nos sistemas ofensivos e defensivos implementados por parte das equipas dos quatro cantos do mundo. Hoje, porém, abraçamos um ponto de partida diferente no âmbito da nossa análise comparativa: decidimos rever uma partida de futebol de praia retirada do baú de recordações da Beach Soccer WorldWide, no caso o Portugal vs Brasil do Mundialito Portimão 2010, e analisámos as particularidades deste duelo de titãs à luz do paradgima actual da modalidade.

Quem acompanha de perto a modalidade está ciente das múltiplas alterações que o futebol de praia sofreu nos últimos anos, não apenas a nível dos quadros competitivos nos panoramas doméstico e internacional, mas também no que diz respeito às dinâmicas do próprio jogo.

Em textos anteriores abordámos a evolução táctica dominante ao longo da última década, que culminou com a vulgarização do uso do guarda-redes como um quinto jogador de campo, tendo por finalidade o aproveitamento da vantagem numérica, com reflexos profundos nos sistemas ofensivos e defensivos implementados por parte das equipas dos quatro cantos do mundo. Hoje, porém, abraçamos um ponto de partida diferente no âmbito da nossa análise comparativa: decidimos rever uma partida de futebol de praia retirada do baú de recordações da Beach Soccer WorldWide, no caso o Portugal vs Brasil do Mundialito Portimão 2010, e analisámos as particularidades deste duelo de titãs à luz do paradigma actual da modalidade.

Importa, antes de prosseguirmos, situarmos o jogo no contexto em que se inseriu: no primeiro ano em que não se disputou o mundial FIFA, em resultado da decisão do organismo máximo que rege o futebol à escala global de converter o mundial de futebol de praia numa competição bienal, o Mundialito de futebol de praia oferecia aos amantes da modalidade a única oportunidade de vibrar com as emoções do clássico mais emblemático da modalidade, enquanto Portugal e Brasil viam na prova uma oportunidade para lutar pela glória desportiva fora dos respectivos continentes. Os lusitanos, vencedores da prova em 2008 e 2009 na sequência de vitórias enfáticas sobre a selecção Canarinha, buscavam a revalidação do título, enquanto o tetracampeão Brasil tinha em vista a recuperação de um título de grande carga histórica que lhe fugia desde 2007.

Portugal vs Brasil, Mundialito 2010

De um lado, a armada lusa era capitaneada por Madjer e liderada por José Miguel Mateus, timoneiro da equipa das quinas entre 2004 e 2012, com uma frente de ataque composta pela dupla letal Alan e Madjer no auge, mas também os emergentes Bruno Novo e Jordan Santos, este último com apenas 18 anos, e o experiente Ricardo Loja! No sector mais defensivo, Coimbra, Marinho e Bilro (geralmente numa posição 3, à semelhança de Bruno Novo) ofereciam solidez às hostes lusitanas, que contavam com os monstros Paulo Graça e João Carlos na baliza, ambos num momento alto da carreira. Destaque para a ausência de Belchior por lesão, que forçou Zé Miguel a algumas alterações na estratégia de jogo e na gestão da equipa.

Por seu turno, o Brasil do tetracampeão mundial Alexandre Soares apresentou-se em Portimão sem a força física de Buru, mas com a tenacidade de Bueno na posição 2, contando com Anderson e Sidney nas alas e toda a criatividade de Benjamim no ataque, alternando depois com o experiente Daniel, o irreverente Dino Tambaú e os goleadores André Nascimento e Bruno Malias, na nossa opinião um dos melhores executantes a nível mundial nesse momento. A baliza estava segura nas mãos de Mão, numa altura em que Wagner ainda era o seu substituto, antes do acidente de viação que o afastaria dos areais.

Na sequência das vitórias contra Argentina e Estados Unidos da América nas duas primeiras jornadas, Portugal e Brasil decidiriam o triunfo na prova numa autêntica final, que se adivinhava um duelo épico. A partida não defraudou as expectativa, jogada a uma velocidade frenética e pautada por inúmeras oportunidade de golo de parte a parte, mas também um duelo assombroso de Paulo Graça e Mão defronte das respectivas balizas, evitando que fossem marcadaos golos até ao 3º período. Nos derradeiros 12 minutos prevaleceu a maior eficácia e frescura física da selecção Canarinha, aliando-se a algumas decisões controversas da equipa de arbitragem que geraram algum descontrolo emocional do lado português e culminaram no avolumar do resultado, que se fixou num enganador 4-0 favorável aos sul-americanos. Deixamos o vídeo do encontro em seguida.

 

O Brasil reconquistava assim o Mundialito, após 2 anos de jejum.
Nesta viagem ao passado, pretendemos sublinhar quatro aspectos da partida que evidenciam de forma cabal as mudanças sofridas pena dinâmica de jogo nos últimos 10 anos de futebol de praia. Tratando-se de um confronto entre as duas selecções mais fortes do mundo nesse momento, a par da Rússia, constitui um bom exemplo de como o futebol de praia era jogado ao mais alto nível nesse momento, pelo que representa um bom ponto de comparação relativamente aos padrões actuais. Passemos então à nossa análise detalhada, em que atentamos em cada ponto em particular.

O ritmo de jogo

Pode parecer contraditório, mas apesar de o nulo ter persistido no marcador durante mais de 24 minutos, a “final” do mundialito de 2010 foi disputada a um ritmo alucinante, com inúmeras ocasiões de perigo alternando-se junto de ambas as balizas. A partida desenrolava-se a grande velocidade e com bastante recurso ao jogo directo, sobretudo do lado português, com o sistema 3:1 a ser rapidamente sufocado pela pressão exercida pelos homens de Alexandre Soares, mas em contrapartida tirando proveito dos lançamentos longos de Paulo Graça e do primor técnico de Alan e Madjer na frente de ataque, que com a sua rapidez de execução sempre criavam muitos problemas à defensiva brasileira. Também Bruno Novo, com a sua visão de jogo privilegiada, e Jordan, no seu primeiro confronto internacional diante do Brasil, desequilibraram por diversas vezes a defensiva contrária em lances rápidos de contra-ataque.

Por outro lado, se o Brasil buscava a baliza de Paulo Graça de uma forma mais apoiada, organizando os ataques preferencialmente a partir dos jogadores mais recuados no terreno (e não tanto por Mão), também é verdade que os principais desequilíbrios surgiam em lances clássicos de futebol de praia, baseados em lances rápidos de colocação de bola no pivô e entrada do ala numa posição central de finalização. Particularmente, notamos que o jogo acelerava sempre que André e sobretudo Bruno entravam dentro de campo, abalando por vezes a estrutura defensiva de Portugal com as suas prontas investidas.

Nos dias de hoje, tempos de posse de posse de bola tão curtos seriam impensáveis num duelo entre o Portugal de Mário Narciso e o Brasil de Gilberto Costa. A evolução do futebol de praia ocorreu no sentido de tornar o jogo directo menos frequente e privilegiar as acções de organização do jogo gradualmente a partir de trás, preservando a posse de bola enquanto a equipa descansa e procura desgastar os adversários, até criar um desequilíbrio que possa ser aproveitado para procurar o golo. Independentemente de os ataques se basearem mais num sistema 1:2:2 (em que o guarda-redes se assume como um jogador de campo ao sair a jogar fora da sua área) ou numa abordagem mais clássica de 3:1 ou 1:2:1, esta alteração de ritmo resultante de uma abordagem diferente ao jogo é evidente no futebol de praia actual.

Mesmo em partidas com um resultado mais volumoso, como o último confronto entre Brasil e Portugal no Mundial de 2019 (triunfo Canarinho por 9-7), a aposta num estilo de jogo mais paciente e expectante contrasta com a abordagem mais directa a que assistíamos em 2010.

O papel do guarda-redes

Na sequẽncia do ponto anterior, há que realçar a evolução do papel desempenhado pelo guarda-redes na manobra da equipa. Por um lado, a análise da partida do Mundialito de 2010 leva-nos a concluir que Paulo Graça era mais interventivo do que Mão na organização dos ataques, nomeadamente através do seu lançamento letal, mas também por vezes saindo a jogar com os pés da sua área. Esta acção do guardião português dava ainda os primeiros passos no futebol de praia, centrando-se mais no remate do próprio Paulo Graça na tentativa de surpreender Mão, mas constituía o embrião de uma táctica que viria a alterar por completo a dinâmica do jogo. Relativamente à maior propensão para envolver o guarda-redes na organização dos ataques do lado lusitano, a tendência mantém-se nos dias de hoje, sendo Elinton Andrade um guarda-redes muito mais interventivo na organização dos ataques a partir de um sistema 1:2:2 do que os guarda-redes da selecção brasileira.

Paulo Graça defendeu a baliza da selecção nacional portuguesa entre 2008 e 2013 [Foto: DN]

Actualmente, Portugal e Brasil continuam a ser das poucas equipas que não dependem da superioridade numérica criada pelo guarda-redes ao sair a jogar fora da sua área. No entanto, apesar de uma versatilidade táctica que permite superar as limitações do sistema 1:2:2, tanto Portugal como o Brasil acompanharam a tendência global e estão neste momento preparados para recorrer à situação de 5×4 induzida pelos guardiões, que estão tecnicamente preparados para sair a jogar com os pés e desempenham um papel fulcral no desenrolar dos ataques. Veja-se os casos de Elinton Andrade e Rafa Padilha, que juntamente com o russo Chuzhkov e o suíço Eliott são as grandes referências a nível de técnica de pés. O próprio Mão foi desenvolvendo esta competência ao longo do tempo e está neste momento apto para coordenar o jogo da sua equipa saindo a jogar fora da sua área, embora ponha em prática uma abordagem mais diercta ao jogo, tendo inclusivamente uma vasta lista de golos apontados com a camisola Canarinha.

Em suma, se nos dias de hoje assistíssemos a momentos tão frenéticos do jogo como aqueles que se vislumbraram em vários momentos da partida do Mundialito de 2010, com sucessivos lances de perigo junto de ambas as balizas e tempos curtos de posse de bola para cada equipa, o mais provável seria que as equipas em algum momento optassem por colocar em prática a acalmia de jogo possibilitada pelo sistema 1:2:2, indutor de tempos mais longos de posse de bola e creador de desgaste na equipa adversária. Pode ainda ser usado como uma arma de recurso em situações nas quais o plano A de ataque não esteja a funcionar, como forma alternativa de criar desequilíbrios numéricos locais e perfurar a barreira defensiva adversária.

O transporte da bola

Sempre ouvimos dizer que o futebol de praia é sinónimo de espetáculo, acrobacias e primor técnico na troca de bola pelo ar. A ideia aceita-se com naturalidade, uma vez que a irregularidade intrínseca do terreno de jogo não permite que a bola siga uma trajectória previsível no areal, obrigando por isso à realização de passes pelo ar e obstando à condução de bola pelo solo, sempre mais imprevisível e cansativa para o jogador que opte por esta solução. Geralmente, apenas as equipas com a qualidade técnica necessária para manter a bola no ar e fazê-la transportar rapidamente através do terreno de jogo por via aérea conseguiam discutir a vitória nas competições. Ora, o Portugal vs Brasil de 2010 constitui um perfeito exemplo desta primazia técnica do jogador de futebol de praia de topo, capaz de manter e esférico no ar com vantagem sobre os atletas da maior parte das equipas.

É certo que a rapidez de execução do mágico Benjamim, por exemplo, ou as arrancadas tremendas de Madjer, do lado português, também constituíam armas temíveis por parte de ambas as selecções. Não obstante, era mais ou menos consensual de que a grande diferença entre estas equipas de topo e outras menos cotadas se baseava na técnica de controlo de bola pelo ar.

Na última década, no entanto, o desenvolvimento técnico dos atletas intensificou-se, potenciado também em parte pelo sistema 1:2:2, muito ligado à troca de bola rápida pelo ar, essencial para que as situações momentâneas de superioridade numérica possam traduzir-se am golos. Este factor, aliado a uma crescente preocupação com a preparação física, levou a que muitas selecções consideradas de segunda linha crescessem e se tornassem verdadeiras ameaças à escala global, sendo hoje em dia capazes de discutir o jogo diante de qualquer equipa. Todas elas estão munidas de atletas capazes de trocar a bola no ar com uma naturalidade que não estava generalizada em 2010 – veja-se os exemplos do Irão, do Taiti, da Ucrânia, do Paraguai, da Bielorrússia e dos Emirados Árabes Unidos,  para citar alguns casos de nítida evolução.

No entanto, tanto o Brasil como Portugal continuaram a evoluir numa outra perspectiva: apresentam hoje jogadores capaes de conciliar a técnica no jogo aéreo com a perícia na condução de bola pela areia, baseada na conjugação de índices físicos de excelência com uma técnica distinta daquela que observamos nos jogadores das maiorias das formações. Trata-se dos casos de jogadores como os brasleiros Datinha, Bokinha, Rodrigo e Filipe Silva para citar alguns exemplos flagrantes, mas também do triunvirato formado pelo actual melhor jogador do mundo de futebol de praia, Jordan Santos, com os gémeros luso-brasileiros Bernardo e Leonardo Martins, que formam na selecção portuguesa e no SC Braga um dos trios mais mortíferos do cenário internacional. Tanto a Canarinha como a equipa das quinas tiram proveito destas características técnicas dos seus jogadores, aliadas a um arsenal de combinações que desequilibram as defensivas contrárias e criam múltiplas oportunidades de golo.

Portugal e Brasil defrontaram-se na fase de grupos do Mundial FIFA Paraguai 2019, com vitória Canarinha por 9-7, num jogo épico. [Foto: FIFA]

O factor físico e a gestão do plantel

No embate entre Brasil e Portugal do Mundialito de 2010, observamos  uma gestão das substituições muito distinta da que esperaríamos ver hoje em dia. Por um lado, o técnico português assumiu a clara aposta em Madjer e Alan, fazendo-os alinhar entre 9 e 10 minutos em cada período, procurando tirar partido da maior experiência destas lendas da modalidade que se encontravam no auge da sua carreira e fazendo face à ausência de um nome forte como Belchior. Também Coimbra e sobretudo Bilro permaneciam em campo durante longos períodos do encontro, saindo para descansar depois de mais de 6 minutos em campo. Do lado brasileiro, a divisão dos tempos era mais equitativa, dado que Alexandre Soares conseguia formar duas equipas experientes e equilibradas, mas ainda assim os tempos de permanência de cada jogador dentro das quatro linhas eram bastante vastos, aproximando-se por vezes dos 6 minutos.

O cenário que acabamos de descrever viria a sere prontamente alterado no ano seguinte, quando a Rússia se sagrou campeã mundial ao esmagar categoricamente o Brasil em Ravena, na Itália, numa partida de grande superioridade física por parte dos czares, em que o sistema de rotação contínua do plantel fez a diferença. Com efeito, o exemplo que vinha do leste, baseado na rotação completa do quatro de campo de três em três ou até mesmo de dois em dois minutos, acabaria por definir uma nova prática no futebol de praia mundial, sendo que actualmente quase todas as selecções, incluindo Portugal e Brasil, optam por conceber dois quatros de campo de base, que rodam entre si a cada três ou quatro minutos. Existem, naturalmente, execepções, em situações que possam pedir expressamente a presença de determinados jogadores ou de quatros de campo com um determinado conjunto de características, em função dos momentos do jogo.

Ao mesmo tempo, relembramos que Portugal foi campeão do mundo em 2019 optando por manter dentro de campo Jordan, Bẽ e Léo Martins durante largos períodos da partida (mais de 70% do tempo), pelo menos nos três encontros da fase a eliminar diante de Senegal, Japão e Itália. Todavia, tal só se revelou possível graças aos índices físicos invejáveis de três jogadores que estão actualmente entre os melhores dos melhores, não sendo prática comum na era actual. Hoje em dia, para que uma equipa tenha sucesso ao mais alto nível nos areais, tem de ser capaz de manter os índices físicos no máximo durante os 36 minutos do jogo, pelo que uma rotação constante dos seus jogadores, mantendo sempre quatros de campo equilibrados, se revela absolutamente imprescindível. Concluímos assim que a gestão do plantel por parte dos seleccionadores português e brasileiro em 2010, sendo ajustada à época em que se desenrolou a partida, dificilmente teria lugar nos dias de hoje, fruto das alterações da dinâmica do próprio jogo e da crescente preocupação com a preparação física das equipas à escala global.

No entanto, há algo que não mudou, nem nunca irá mudar: o Portugal vs Brasil será sempre um clássico do futebol de praia, capaz de entusiasmar multidões e mostrar ao mundo a beleza do futebol de praia em todo o seu esplendor! Esperamos poder assistir à próxima edição deste duelo de titãs já em 2021!


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