Jogos esquecidos que traçaram o rumo da História – Parte I

André CoroadoOutubro 17, 20187min0

Jogos esquecidos que traçaram o rumo da História – Parte I

André CoroadoOutubro 17, 20187min0
O Fair Play propõe-se vasculhar a História do Futebol de Praia em busca dos jogos esquecidos do grande público que ajudaram a explicar o crescimento de novas potências na última década!

Neste interregno de competições oficiais, propomos um exercício de História: decidimos procurar aqueles jogos que, apesar de ignorados por parte de quase todas as pessoas, se revelaram absolutamente cruciais no crescimento e afirmação de futuras potências internacionais. Tratam-se, portanto, de partidas que desempenharam um papel decisivo na construção do panorama internacional do futebol de praia como o entendemos hoje em dia. Nesta peça a duas partes, recuperamos estes momentos e analisamos o seu impacto histórico.

Atenas, 29 de Junho de 2007

Qualificação para a Liga Europeia de Futebol de Praia 2007

Israel 6 – 6 Rússia (6 – 7 nas grandes penalidades)

Uma partida que muito poucos recordarão, mas permanecerá sempre como uma das mais decisivas no traçado da História do Futebol de Praia na última década. Corria o ano de 2007, quando duas equipas da periferia do continente europeu empreendiam os primeiros passos na modalidade. Por um lado, era notícia a criação em Israel de uma liga nacional e o primeiro jogo oficial da sua selecção (vitória simbólica perante a Inglaterra), num jogo de apresentação realizado em Netanya. Por outro, a Rússia começava a investir de uma forma mais séria no futebol de praia, levando alguns jogadores a um estágio no Brasil junto dos então campeões do mundo. Na época, os russos até já haviam alcançado um promissor 2º lugar numa Taça da Europa disputada em Moscovo em Dezembro de 2005, mas os bons resultados não tiveram seguimento, atendendo à prestação muito fraca na temporada europeia do ano seguinte.

Na época, a Liga Europeia disputava-se em moldes muito diferentes dos actuais, num sistema feudal que prestava vassalagem aos tradicionais Portugal, Espanha, Itália e França, concedendo-lhes entrada directa no lote de 8 equipas que disputavam a Divisão A. Cabia às outras selecções a oportunidade de lutar por uma das 4 vagas restantes. O evento de qualificação durou apenas 3 dias e teve lugar na capital grega: os vencedores dos 4 grupos de 3 equipas carimbavam o passaporte para a elite.

A Grécia, como anfitriã e selecção mais experiente (participara na Divisão A da Liga Europeia em 2006), foi sorteada no grupo B, juntamente com os novatos de Israel e a inexperiente Rússia. Coube aos homens da casa a honra de descansar no primeiro dia e assistir ao embate entre Moscovo e Telavive, de que teoricamente não se esperava muito além da definição do segundo lugar do grupo…

O jogo

Se os executantes de uma e outra selecção não passavam então de ilustres desconhecidos, o certo é que protagonizaram um verdadeiro espectáculo de futebol de praia, impondo desde cedo um ritmo alucinante na partida e mantendo a imprevisibilidade no resultado até ao fim. Os czares começaram em vantagem, por 2-0, mas 2 golos quase seguidos do capitão israelita Tzahi Ilos acabariam por repor a igualdade no marcador ainda no 1º período. Novo golo russo e pronta resposta de Ilos, alcançando o 3-3. O ímpeto israelita crescia na partida e, num 2º período de grande fulgor, o número 9 hebraico anotaria mais 3 golos, completando o hattrick duplo e deixando a Rússia numa situação muito delicada.

Dotado física e tecnicamente, Tzahi Ilos foi sempre a grande figura da selecção israelita

A qualificação para a Liga Europeia afigurava-se complicada para os pupilos de NIkolay Pisarev nesses instantes de grande aflição, precisando de inverter um marcador desfavorável de 6-3 no derradeiro período do encontro, faltando ainda o confronto diante da favorita Grécia. Se nesse momento um oráculo lhes contasse que conquistariam etapas da Liga Europeia e em 4 meses estariam no Rio de Janeiro a defrontar o Brasil, chegando perto de quebrar a invencibilidade de 2 anos da selecção Canarinha, o mais certo seria duvidarem da profecia.

Todavia, a frieza russa daria provas do seu poder pela primeira de muitas vezes nessa temporada e nos anos que se lhe seguiriam: a igualdade a 6 bolas seria atingida num 3º período frenético, feito ao qual não foram alheios os bis de Leonov e Shaykov, que principiavam a emergir como figuras-chave da selecção russa. Os comandados de Nikolay Pisarev acabariam por vencer a partida nas grandes penalidades – um duelo infindável no qual Israel acabaria por ser derrotado, depois de não ter conseguido segurar uma vantagem de 3 golos.

O que se seguiu

A nação do Mediterrâneo ainda sonhou com o apuramento quando derrotou a Grécia no segundo dia, por 2-1, ansiando então por um triunfo helénico diante dos russos na última jornada. Porém, a Rússia derrotaria a selecção da casa sem dó nem piedade por 5-1 e asseguraria mesmo a qualificação para a Liga Europeia com um pleno de vitórias. Seguir-se-ia um percurso irrepreensível dos czares na elite europeia, incluindo triunfos em duas etapas da fase regular (San Benedetto del Tronto e Tignes) e a surpreendente primeira posição do ranking, a que se seguiu um honroso 3º lugar na Superfinal e consequente qualificação para o Campeonato do Mundo FIFA no Rio de Janeiro. Era a estreia da geração-maravilha composta por nomes marcantes como o guardião Bukhlitskiy, Leonov, Shaykov, Gorchinskiy, Shkarin e Makarov, os últimos dois dos quais ainda se conservam em actividade.

Andrey Bukhlitskiy e Yuri Gorchinskiy em acção na vitória russa sobre a Suíça na meia final da etapa de Tignes da Liga Europeia de 2007.

Estavam lançadas as bases do sucesso de uma selecção que não mais abandonaria a elite europeia e mundial, precisando apenas de mais 2 anos para se sagrar campeã europeia (em Vila Real de Santo António, em Agosto de 2009) e outros dois até conquistar pela primeira vez o ceptro de campeã mundial (Ravenna, Setembro de 2011).

Caso a Rússia não tivesse vencido Israel nesse primeiro encontro, o crescimento russo teria encontrado um entrave severo, sendo as aspirações de Moscovo adiadas pelo menos um ano. Ainda que se possa argumentar que a Rússia poderia sempre ter vindo a alcançar a elite no ano seguinte, não existem quaisquer garantias de que tal acontecesse, atendendo à elevada competitividade que uma Rússia ainda inexperiente enfrentaria quer na qualificação para o mundial quer na qualificação para a Liga Europeia, numa eṕoca em que os formatos seriam alterados. Teria a Rússia continuado a investir ao ponto de um dia se tornar a superpotência que é hoje? É algo que nunca iremos saber.

Por seu turno, Israel não baixou os braços, continuando a investir no cresciento da modalidade dentro de portas e projectando a sua selecção a nível internacional, mantendo boas prestações nos torneios internacionais nos anos seguintes, apesar de uma participação intermitente na Liga Europeia. Entre 2010 e 2012, os índices de qualidade apresentados pelo conjunto hebraico quase o levaram à Divisão A europeia, mas falhou sempre a vitória na final promocional indispensável para a transição, esbarrando assim num formato muito penalizador para as equipas da Divisão B. Com a saída de Ilos em 2013, a selecção israelita acabaria por desaparecer. Mas o que teria acontecido se a vitória lhes tivesse sorrido na titânica batalha de 29 de Junho de 2007?


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