El Salvador: um pequeno gigante adormecido

André CoroadoMarço 14, 20205min0

El Salvador: um pequeno gigante adormecido

André CoroadoMarço 14, 20205min0
Nenhuma história de ascensão e queda é mais marcante no futebol de praia da última década como a de El Salvador, o grupo de pescadores que se tornaram heróis nacional na busca de um sonho, enquanto colocavam o seu país nas bocas do mundo desportivo. Nesta peça, o Fair Play recorda a saga dos Cuscatlecos e analisa um pouco o seu insucesso recente

No saudoso mês de Setembro de 2011, a selecção salvadorenha de futebol de praia alcançava um feito sem precedentes: depois de vencer a histórica Argentina no embate decisivo da fase de grupos e carimbar a passagem aos quartos de final, os Cuscatlecos venciam a anfitriã Itália, em Ravena, numa partida épica dos quartos de final, e alçavam o nome do seu país à elite das quatro maiores potências da modalidade. A vitória por 6-5 após prolongamento frente à Itália de Palmacci e companhia, numa exibição de gala dos timoneiros Agustín Ruiz e Frank Velásquez (autor de 4 golos no encontro), ficaria gravada como o momento mais alto do futebol de praia e, provavelmente, do desporto nacional em anos recentes, em nada maculada pelas derrotas que se seguiriam (7-3 diante da Rússia e 3-2 diante de Portugal), que relegariam os comandados de Rudis Gallo para a quarta posição do mundial.

Além dos resultados dentro de campo, que foram sem dúvida impressionantes para uma equipa que havia iniciado o seu trajecto internacional 4 anos antes no Qualifier da CONCACAF, El Salvador foi claramente o campeão nas bancadas e na forma como o país viveu a competição lá longe, nessa pequena faixa de terra da Aémrica Central plantada à beira do Pacífico. No estádio, os salvadorenhos que viajaram do seu bolso a partir do seu país para apoiar la selecta de playa eram a força dominante, fazendo-se ouvir ruidosamente e justificando plenamente a mensagem redigida num dos cartazes envergados pela turba azul e branca.

Nesse célebre testemunho da paixão salvadorenha pela modalidade e da gratidão dos cidadãos do país aos seus guerreiros da praia, um grupo de adeptos previam o desfecho do mundial, atribuindo o 1º lugar para o Brasil, o 2º para a Rússia (neste ponto enganaram-se, visto que os czares acabariam por vencer a Canarinha na final por 12-8), o 3º a Portugal e, por fim, o estatuto de CAMPEÓN a El Salvador. E, a julgar pelo tripúdio na bancada principal dos estádio, que galvanizavam os seus heróicos soldados dentro de campo de uma forma contundente, tinham mesmo razão.

Em El Salvador, a comunidade uniu-se em torno da sua selecção, com grandes ajuntamentos de pessoas por toda a parte para acompanhar colectivamente os encontros da selecção de futebol de praia, que se converteu numa espécie de herói nacional num momento em que a selecção de futebol de 11 tinha estado envolvida num escândalo de viciação de resultados. A onda calorosa de apoio aos guerreiros das areias estendeu-se ao momento da recepção dos ídolos na chegada ao aeroporto, com imagens verdadeiramente arrepiantes.

Pessoalmente, tive a oportunidade de contactar com salvadorenhos num outro contexto 2 semanas mais tarde e perguntei-lhes, como adepto da modalidade, se tinham acompanhado a caminhada da sua selecção no Mundial FIFA de Ravena. Naturalmente, questionava se teriam acompanhado o jogo pela televisão, não se se tinham deslocado a Itália para ver os jogos da selecta. No entanto, como para eles era óbvio que toda a população tinha acompanhado os jogos pela televisão, pensaram que lhes perguntava se tinham realmente visto o mundial ao vivo e responderam-me que “Não, nós não fomos a Itália. Só vimos os jogos pela televisão…”. Uma resposta surpreendente da qual não me esquecerei.

O presente e o futuro da Selecta

Actualmente, porém, a situação é bem distinta naquele país. Depois de um mundial do Taiti relativamente bem sucedido, em que os Cuscatlecos caíram nos quartos de final aos pés da todo poderosa Espanha (2-1), mercê de um meritório pontapé de bicicleta de Antonio, a verdade é que El Salvador não mais logrou qualificar-se para um campeonato do mundo. Assim, e apesar de continuarem a ser uma das forças dominantes na América Central, Velásquez e demais colegas falharam o apuramento para os Mundiais de Espinho, Bahamas e Assunção, caindo sempre nas meias finais de uma qualificação que apura apenas os finalistas.

Ora, a empresa dos Cuscatlecos com o México como principal potência continental (ainda que nem sempre campeão), os EUA a colherem finalmente o fruto do reforço na aposta do futebol de praia (apesar de tarde) e algumas outras selecções de países mais próximos da dimensão salvadorenha, mas condições socioeconómicas mais favoráveis, como a Costa Rica ou o Panamá.

Como resultado, a selecção que nasceu originalmente a partir de um grupo de humildes pescadores de La Pirraya, que cresceu para se tornar um gigante mundial e constituir o orgulho de uma nação inteira, luta agora para, de dois em dois anos, tentar regressar aos grandes palcos do futebol de praia mundial. E o crescimento da modalidade a nível interno continua a acontecer, com a aposta em ligas domésticas e o aparecimento de novos valores, como Abraham Henríquez. Além disso, os bons resultados nas competições internacionais (excepto a qualificação da CONCACAF) continuam a demonstrar o valor dos Cuscatlecos, que acolhem anualmente em sua casa a El Salvador Beach Soccer Cup.

Este ano, devido à propagação veloz do COVID-19 em todo o mundo (e em particular na Europa), a competição foi adiada para o início de Agosto, quando o Estádio Nacional da Costa del Sol em San Luis La Herradura, na província de La Paz, voltará a mostrar ao mundo a força dos salvadorenhos. E no próximo ano, haverá um novo mundial para tentar o apuramento! Como diriam as centenas de adeptos naquelas animadas tardes de futebol de praia em Ravena no saudoso mẽs de Setembro de 2011: Sí, se puede!


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