Copa Intercontinental Dubai 2018 em revista

André CoroadoNovembro 12, 20188min0

Copa Intercontinental Dubai 2018 em revista

André CoroadoNovembro 12, 20188min0
Terminou no passado fim-de-semana a Copa Interncontinental e com ela a temporada internacional de futebol de praia de 2018. Em clima de balanços, o Fair Play debruça-se sobre os pontos-chave do evento mais aguardado do ano e sintetiza a prestação dos principais protagonistas, do fim da invencibilidade brasileira imposto pela Rússia à conquista do ceptro pelo Irão.

Irão campeão 5 anos depois

A selecção iraniana reforçou o estatuto de superpotência mundial ao conquistar pela segunda vez na História a Copa Intercontinental, repetindo a façanha de 2013. Os comandados de Marco Octávio realizaram um percurso irrepreensível na competição, vencendo todas as partidas disputadas em tempo regulamentar e demonstrando uma notável solidez defensiva: ninguém conseguiu marcar mais de 2 golos por jogo aos persas, um registo verdadeiramente notável, que não é alheio à atribuição do prémio de melhor guarda-redes a Bezhadpour – o número 12 que reparte funções com o icónico Peiman Hosseini, considerado melhor guarda-redes do mundo em 2017.

O equilíbrio do plantel iraniano não se faz sentir apenas na baliza, sendo a experiência de jogadores de topo como Ahmadzadeh, Mesigar e Akbari acompanhada por Masoumidzadeh ou Moradi, este último votado jogador revelação do ano 2018 no panorama internacional. Poderá argumentar-se que o estilo de jogo do Irão já foi mais vistoso no passado, tendo sido substituído por um 2:2 extremamente pragmático e por vezes algo lento, mas não é lícito questionar a eficácia do futebol de praia persa, que se sobrepôs excelsamente à qualidade de equipas como a sempre poderosa Rússia, por duas vezes (incluindo um triunfo seguríssimo por 4-2 na final), uma vitória consistente perante o vice-campeão mundial Taiti e ainda um êxito contundente por 3-1 diante de um Egipto em crescendo na meia final. Poderá o Irão repetir o título em 2019, desta vez num campeonato do mundo?

Rússia acaba por invencibilidade Canarinha

Antes de a competição começar, o Brasil era tido como o super favorito à conquista do troféu no Dubai. Campeões do mundo, bicampeões da Copa Intercontinental, os pupilos de Gilberto Costa não perdiam um jogo desde os quartos de final do mundial 2015 em Espinho, na altura ainda sob o comando de Júnior Negão, perante a Rússia. E foram precisamente os czares a colocar um ponto final na invencibilidade de 66 partidas, num grande jogo de futebol de praia decidido apenas nas grandes penalidades.

Independentemente do desfecho final, dois pontos teriam sempre de ser sublinhados. Um deles consiste na frieza com que a selecção russa soube preparar o jogo, dispondo em campo uma irrepreensível organização táctica qeu durante a quase totalidade dos encontros estancou o caudal ofensivo brasileiro e obstou à criação dos habituais desequilíbrios Canarinhos. Além disso, os russos foram extremamente pragmáticos no processo ofensivo, procurando a baliza adversária por via de um jogo directo, muito físico, pelo ar, fazendo uso dos talentos acrobáticos de figuras como Makarov e Nikonorov. Porém, a persistência brasileira durante o encontrou foi louvável, e só combinando uma crença inabalável e uma qualidade que lhes é reconhecida por todos foi possível empatar, no último minuto, uma partida na qual haviam estado em desvantagem por 4-1, tendo inclusivé enfrentado a expulsão de Bruno Xavier. Mérito óbvio para Rodrigo, autor de 2 golos, incluindo uma vertiginosa aceleração que culminou no golo do empate.

Tendo o prolongamento proporcionado mais dois golos, um para cada lado, vale a pena acima de tudo elogiar o bom espectáculo proporcionado pelas duas equipas e enaltecer a frieza russa na marcação das grandes penalidades, que acabaria por fazer a diferença. Não deixa de ser irónico que, numa das raras temporadas em que a selecção russa permanece praticamente em branco a nível de títulos, ficando mesmo fora do pódio na Liga Europeia e averbando um número anormalmente grande de derrotas numa temporada com tão poucos jogos, a mesma Rússia acabe por ser a responsável pelo fim do percurso invicto do Escrete. Prova inequívoca de qualidade da Rússia, uma selecção que deve sempre ser tida como candidato claro à vitória em qualquer competição, agora reforçada com novos talentos como Zemskov (melhor marcador da competição), mas que ao mesmo tempo se encontra ao alcance de um número cada vez maior de selecções.

[Foto: BSWW]

Por seu turno, o Brasil mantém-se como o maior colosso mundial e o principal alvo a abater, conforme o atestam as prestações de grande nível e vitórias folgadas em todos os outros encontros da Copa Intercontinental (e da época como um todo), tendo ainda dado a oportunidade a novos elementos como Igor Rangel e António (embora ambos acumulassem já uma vasta experiência internacional a nível de clubes). É certo que muitas equipas aparentam conseguir discutir os jogos com o Brasil, mas a serenidade transmitida pelo banco e a coesão colectiva da equipa permitem que a qualidade venha ao de cima e o avolumar do resultado geralmente se consume nos momentos decisivos. Cabe aos adversários seguir o exemplo da Rússia no Dubai para obstar à hegemonia brasileira em 2019.

Egipto aponta ao Mundial, Espanha e Taiti desiludem

Na sequência do que temos vindo a afirmar, o Egipto foi uma das equipas que mais impressionou na Copa Interncontinental. O 4º lugar dos faraós não pode ser considerado propriamente uma surpresa, antes ume repetição do sucesso de edições anteriores (2015), mas a maturidade demonstrada por uma selecção capaz de ombrear de igual para igual com potências da modalidade como Espanha, Irão, Emirados Árabes Unidos e quase até o próprio Brasil é louvável para uma selecção que nunca disputou um mundial FIFA. A situação poderá mudar já no próximo mês de Dezembro, quando os egípcios terão a oportunidade soberana de dipsutar em casa a qualificação africana para a grande competição do próximo ano. Atendendo aos indícios deixados por Mohammed (autor de golos portentosos no Dubai), Mustafa e demais colegas, a nação do nordeste africano deverá ser enxergada na qualidade de sério candidado ao apuramento.

Em sentido inverso, a Espanha realizou uma prestação abaixo das expectativas, ao classificar-se apenas na 6ª posição, após uma fase de grupos terrível com 3 derrotas consecutivas. Os espanhóis não puderam contar com Llorenç para os dois últimos jogos: o catalão sofreu uma contusão e não pode ajudar os companheiros a lutar pelo 5º lugar, mas acabaria por ver recompensada a sua temporada fantástica ao ser galardoado com o prémio de melhor jogadores do mundo na Gala Beach Soccer Stars.

Não obstante, o percurso dos vice-campeões europeus foi objectivamente desapontante, tendo a única vitória da equipa peninsular sido obtida frente a um destroçado Taiti, cujas fragilidades defensivas eram espelhadas no guarda-redes improvisado Naea Bennet (a ausência de Torohia foi sentida durante todo o torneio e a opção escolhida pelo técnico suíço Schirinzi para o substituir acabaria por recair sobre o veterano pivô polinésio, o que compreensivelmente acabou por não apresentar os resultados desejados). Efectivamente, o Taiti partia para a Copa Intercontinental desfalcado e acabou por pagar bem cara a falta de preparação para o torneio, apesar de uma vitória (7-6 na fase de grupos frente aos EUA) e alguns jogos bem disputados frente à Rússia e ao Irão. É legítimo interrogar-nos sobre até quando poderá o Taiti manter-se na elite do futebol de praia mundial, tal é o contraste entre a qualidade de jogo apresentada e a escassez de competição que afecta os jogadores polinésios durante o ano, apenas colmatada pela participação no efémero campeonato suíço.

EUA e EAU: percursos com altos e baixos

Como última nota, é importante destacar o bom trabalho realizado pelos EUA, que evoluíram muito ao longo da prova. As Stars and Stripes, comandadas pela sua maior figura de outrora, Francis Farberoff, souberam erguer a cabeça após duas humilhantes goleadas frente a Irão e Rússia, acabando por derrotar os Emirados Árabes Unidos e Espanha para alcançar o seu melhor registo de sempre na competição. Nick Perera desempenhou um papel decisivo, ficando na retina os seus fabulosos pontapés de bicicleta.

Por outro lado, os homens da casa protagonizaram um torneio agri-doce, em que a qualidade das exibições superou largamente os resultados obtidos: as vitórias categóricas frente a Espanha e Taiti não lhes permitiram ir além do 7º lugar, em virtude de derrotas em jogos (apenas teoricamente) mais acessíveis diante de uns inspirados Egipto e EUA. Todavia, tal não pode constituir surpresa, num panorama global onde o equilíbrio é, desde há muito, a nota dominante, e o crescimento contínuo de selecções que têm vindo a acumular experiência há mais de uma década vai começando a dar frutos mais palpáveis. Os Emirados Árabes contaram, mais uma vez, com a capacidade desequilibradora de nomes como Walid, Abbas e Ali Karim, gerando-se expectativa em torno de uma eventual presença no próximo mundial.

 


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