FC Porto e a não comparência em Ovar: um precipício para o desporto

Francisco IsaacOutubro 18, 20217min0

FC Porto e a não comparência em Ovar: um precipício para o desporto

Francisco IsaacOutubro 18, 20217min0
Um conflito que pode acabar na exclusão do FC Porto da liga de basquetebol, poderá ter custos maiores para o desporto português?

De uma final perdida e que levantou um monumento de acusações e dúvidas em relação à isenção e ética da arbitragem, a uma ameaça de abandono do recinto de jogo caso voltassem a jogar sob o comando dos mesmos árbitros, até à concretização da suposta ameaça que lançou o campeonato nacional de basquetebol para um nível frenético de potenciais cenários, mas que coloca o FC Porto como prevaricador e não como vítima, algo que a direção azul-e-branca ao mesmo tempo e paradoxalmente procurava e não procurava.

Na visita ao pavilhão do Ovarense, os vice-campeões nacionais tomaram a decisão de não ir a jogo por via de que um dos árbitros da tal final perdida para o Sporting (3-2 foi o agregado final) de Junho passado estava escalado para ajuizar o encontro, fazendo finca pé de não quererem estar debaixo do mesmo “telhado” que qualquer um dos membros de arbitragem identificados como quase inimigos da nação azul-e-branca, impondo aqui um início de problema delicado e complicado de gerir quer para a Liga de basquetebol, como da Federação Portuguesa de Basquetebol e, também, para o IPDJ e a secretaria do Desporto e Juventude, com todas estas entidades, sem falar claro das restantes equipas e adeptos, ante a espada e a parede, sendo que na realidade está o sabre encostado ao peito do FC Porto.

Vejamos desde já as possíveis consequências directas para um dos maiores emblemas do ecletismo nacional e europeu: perda de pontos e multa por falta injustificada a um encontro oficial, resultando daqui um a queda de um manto negativo perante a atitude injustificável e antidesportivíssimo total, num claro desrespeito para com os seus adversários; no caso de continuarem a manter esta decisão, o FC Porto pode mesmo ser desqualificado do campeonato nacional, vendo o seu investimento considerável na equipa de basquetebol a cair por terra, ficando possivelmente suspenso de participar em provas nacionais e internacionais por uma quantia considerável de tempo, comprometendo um projecto sólido a troco de uma posição que em nada serve ou é em prol da verdade desportiva, e sim é no sentido de acariciar o ego de quem não conseguiu enfrentar com uma derrota num encontro decisivo, e para manter uma hoste de adeptos em polvorosa e pronta a defender cegamente a liderança do clube – existiram erros de arbitragem, mas foram para ambos os lados e sem qualquer sentido de prejudicar deliberadamente nenhuma das equipas.

Face à possível queda do FC Porto, tem a Liga, Federação e o basquetebol nacional a perder caso não ceda às exigências? Teoricamente, perde a dimensão e a notabilidade que um clube como o FC Porto traz, sem falar da produção de atletas de qualidade alta para a formação e seleção nacional (que começa a aparecer a nível internacional) e do conseguir captar jogadores de uma craveira de bom-alto nível que fazem falta ao campeonato português. Contudo, a cedência à estupefacta exigência aos dragões pode comprometer a idoneidade e isenção do basquetebol nacional, da queda dos princípios do bom desportivismo e fairplay, para além de criar um possível problema profundo para com as lides da arbitragem que precisam mais apoio e atenção – até para se procurar um canal de melhoria e evolução técnica e mental – e não de uma autêntica caça às bruxas em pleno século XXI, que inevitavelmente vai manchar esta modalidade, pois invés de ter um contestatário terá outros 11, sem falar dos restantes em ligas secundárias e terciárias.

Uma possível saída do FC Porto e da Dragon Force do basquetebol português seria um retrocesso imenso a nível do número de captação de atletas, de crescimento da modalidade, da sua notabilização e publicidade, perdendo assim um dos melhores e maiores veículos disponíveis para este desporto de pavilhão… Porém, nenhum clube, liga, federação ou país pode estar refém de ameaças e atitudes antidesportivas que visam um escalar de conflito (mesmo que o não ir a jogo seja, supostamente, para evitar surgir um conflito com o presumível “agressor”), por mais que as percas sejam avultadas no imediato/médio/longo-prazo, e o caminho a fazer é o mais complicado, mas aquele que defende o desporto e o seu espírito em prol de todos.

Ninguém defendeu ou está a defender que jogadores ou árbitros escapem “ilesos” de erros constantes, pois há comissões técnicas propositadamente construídas nesse sentido de apurar a qualidade das decisões efectuadas, ajuizando no sentido de não “castigar” ad eternum, mas sim de procurar um caminho de melhora. O que não se pode pedir e aceitar é a edificação de “tribunais” populistas sem validade jurídica ou jurisprudente, com estes a possuírem uma só finalidade: criar uma crispação entre os adeptos, identificar um inimigo de uma “nação” e ir até às últimas consequências em prol da “sua justiça pessoal”, algo que vai contra todos os princípios da vida social democrática, onde se insere o desporto.

Num clube que tanto contribuiu para o desporto português, e que ajudou a elevá-lo em tantas e diversas modalidades, é preocupante assistir à insistência de viajar por um caminho de propaganda populista do “nós contra o Mundo”, de fazer guerra e reféns sem olhar para as consequências pesadas que terá para o bem comum quer da própria instituição como de todas as outras, manchando a historia de um dos principais emblemas da vida desportiva nacional. Caso o leitor critique o facto de só estar patenteado uma opinião, vejamos os factos:

– A 2 de Junho de 2021 o FC Porto emite comunicado a ameaçar que abandonará o basquetebol nacional, e que irá recorrer até às últimas instâncias para demonstrar que foi alvo de dolo pela equipa de arbitragem;
– A 21 de Junho o FC Porto emite comunicado a afirmar que a equipa de basquetebol sénior irá se manter, mas que não irá comparecer em jogos dirigidos ou auxiliados por qualquer um dos membros presentes no 5° jogo da final do campeonato passado;
– A 22 a Federação Portuguesa de Basquetebol emite comunicado a afirmar que nenhum clube será tratado de forma privilegiada;
– A 17 de Setembro o FC Porto não entra em jogo no Pavilhão Multiusos do Clube Desportivo Ovarense para o encontro da 3ª jornada da Liga de Basquetebol e mantém posição de não participar em jogos baixo a arbitragem dos tais membros;
– A 18 de Setembro a Federação Portuguesa de Basquetebol volta a deixar vincado que a decisão do FC Porto em não a ir a campo seguirá os trâmites normais e que o clube terá de enfrentar as sequências que daí serão derivadas;

Num momento de recuperação do desporto português, depois de um ano de pandemia e de fecho dos escalões de formação, esta decisão e tomada de posição só irá servir para o adensar do sentimento de conflito, de subida do espírito bélico entre os diversos lados e o erradicar do desportivismo, seja na vitória ou derrota.


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